“GÊNIOS DA PELOTA” (PARTE I), POR RICARDO BENZAQUEN

      O Blog da BVPS tem o prazer de publicar, de forma inédita, parte da dissertação de mestrado de Ricardo Benzaquen de Araújo, defendida em 1980 no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional (UFRJ) com banca composta por Gilberto Velho, orientador, Rubem Cesar Fernandes e José Sergio Leite Lopes. O momento, aliás, não poderia ser mais apropriado. Quando a Copa do Mundo de futebol chega a suas fases decisivas, a pioneira pesquisa “Os Gênios da Pelota: um estudo do futebol como profissão” comprova sua atualidade, nos oferecendo um olhar complexo e sofisticado sobre o jogo e suas estrelas, os jogadores. Paparicados, firulentos, cai-cai são, ao mesmo tempo, responsáveis por cenas de beleza e genialidade do futebol.

    Em “Os Gênios da Pelota” Ricardo Benzaquen segue as pistas das representações em torno do futebol sustentadas pelos discursos dos próprios jogadores, colhidas principalmente por meio de entrevistas realizadas pelo autor. Através delas discute temas que não saem de pauta – para usar um jargão dos jornalistas, parte fundamental desse “mundo” –, revelando a complexidade das situações vividas. Como, ademais, viria ser a marca de sua obra, neste trabalho as polarizações não seguem a lógica dualista, mas ora se tensionam ora se complementam. Basta observar os títulos– sempre marcantes, aliás, – dos capítulos um e dois: “Cálculo e Prazer” e “Arte e Ofício”. No primeiro, Benzaquen observa as razões que levaram os jogadores entrevistados a optar pelo futebol como profissão, destacando, principalmente, a chance de enriquecimento e de auto-realização que ele parece trazer. No segundo capítulo, que publicamos agora no Blog, foram levantadas as categorias básicas para se ter sucesso na profissão de futebolista, especificamente o talento, e uma certa personalidade, baseada na ideia de autocontrole. O jogador com talento, observa Benzaquen, não é dono simplesmente de um dom natural, mas é fruto de um equilíbrio frágil, embora poderoso, entre a diferenciação de funções exercidas por todos os jogadores em um time e o desempenho específico que o torna único. Já o terceiro e último capítulo, “O lado escuro”, analisa principalmente as relações conturbadas dos jogadores com os dirigentes de seus clubes, baseadas em fórmulas paternalistas que só poderiam ser eliminadas, segundo os entrevistados, pela atividade sindical.

          Gostaríamos de agradecer a Alice Miceli e Carolina Miceli por autorizarem a publicação deste texto.

          Dividimos a publicação do capítulo “Arte e Ofício” em duas partes. Na sexta-feira, dia 6 de julho, publicaremos a segunda.

           Uma ótima leitura a todos e a todas!


* Créditos da Imagem: “Pelé” (1997) de Rubens Gerchman

“Arte e Ofício”

Minha maior preocupação, no capítulo anterior, foi a de tentar definir e isolar, no discurso dos jogadores, o que procurei caracterizar como sendo um projeto individualista. Este projeto, que parece incluir tanto a vertente “quantitativa” quanto a “qualitativa” do individualismo, vai dar conta das razões que levaram meus entrevistados a escolher o futebol como profissão.

Ele faz, inclusive, com que estes se diferenciem dos outros jogadores, que são acusados de terem entrado “cegamente” no futebol, sem qualquer cálculo das vantagens que a carreira poderia trazer, sem qualquer projeto. Discutidas as razões que levaram os entrevistados à sua opção profissional, meu interesse básico, neste segundo capítulo, consistirá em tentar descobrir quais as “qualidades” que um jogador deverá possuir para que tenha condições de alcançar o “sucesso” na sua carreira.

Ao perguntar sobre essas “qualidades”, recebi uma série enorme e muito variada de respostas. Parece-me, contudo que elas podem ser inicialmente resumidas na categórica afirmação de um dos entrevistados, que garantia que o futebol

“é 50% talento e 50% personalidade”.

Note-se que ele não estava se referindo apenas a si próprio, exprimindo uma “receita” pessoal de sucesso. Ao contrário, esta fórmula parece apontar para um quadro de representações que atinge a todos os jogadores, definindo características indispensáveis para o êxito na profissão. É, de certa maneira, do aprofundamento e da especificação destas categorias de que trata este capítulo.

Vamos ver primeiro o talento. Ele se refere, numa aproximação inicial, a uma habilidade específica, um talento especial, o de ser jogador de futebol. Esta habilidade, como foi visto no primeiro capítulo, vai estabelecer uma primeira diferenciação entre aqueles que sabem jogar futebol a nível profissional e os que não sabem. Assim, todo jogador de futebol tem algum talento, ou não estaria atuando profissionalmente. Entretanto, num segundo momento, o talento vai introduzir uma diferenciação entre estes mesmos jogadores, pois, se todos possuem um mínimo de criatividade, existem aqueles que parecem dispor de um talento especial para o futebol, os grandes craques, as “estrelas”. Estas estrelas, segundo meus entrevistados, devem ser absolutamente distinguidas dos outros jogadores, que, por oposição, são classificados como “coadjuvantes”:

“sempre que eu falo em jogador de futebol, falo, raciocinando em termos de jogador de time médio, a média dos jogadores, qualquer assunto de futebol, se eu falar pensando no Zico não vou falar a realidade, não vou fazer nada real, porque Zico é fora de série, Zico, Rivelino, Marinho etc”.

Eles ganham muito mais dinheiro que os outros jogadores, tornam-se famosos, extremamente conhecidos, até reverenciados, são tratados com muito mais consideração pela torcida, pela imprensa, pelos dirigentes (1), chegando até a estabelecer relações com personalidades altamente situadas fora do mundo do futebol (“até o presidente da República…”). Levam, enfim, uma vida inteiramente diferente da “média” dos jogadores, dos “coadjuvantes pouco conhecidos e mal pagos, que enfrentam a dura “realidade” da vida do futebol, seus perigos e seus sacrifícios, recebendo muito pouco em troca.

Dessa forma, o talento funciona como uma espécie de “classificador social” de primeira grandeza no mundo do futebol, dividindo os jogadores em grupos distintos e quase opostos, orientados por categorias muito diferentes. É preciso, portanto, que alcancemos uma compreensão mais complexa e matizada do talento, levantando, através dos depoimentos dos jogadores, algumas das suas “propriedades” mais importantes. Ao tentar descobrir essas propriedades, nas entrevistas que realizava, a primeira resposta que invariavelmente recebia era a de que o talento é um dom, um dom natural, cuja causa, na verdade, ninguém pode precisar muito bem. Quatro dos entrevistados afirmaram inclusive que ele era um dom divino,

“Deus deu o dom a eles de ser fora de série, pelo talento que eles têm dentro de campo…”,

o que confere, evidentemente, um tom místico à categoria, mas não elabora muito a explicação das suas origens. Na verdade, o que se pode afirmar com certeza é que o talento é um dom inato, que nasce com o jogador, “ou se tem ou não se tem”, podendo, portanto, ser aperfeiçoado, mas nunca ensinado.

Como disse um dos entrevistados:

“o grande jogador já nasce com aquele negócio, porque se não nascesse, eu te dou um exemplo e pronto, mata a charada, se não fosse isso, esse dom natural, todo mundo ia querer ser jogador de futebol, há tanta gente aí tentando e não consegue, porque, o que que eu tenho de diferente que eles não possam ir lá dentro do campo e fazer o que eu faço. Então, o cara já nasceu com aquele negócio, e vai aprimorando a parte física…”

Esta citação, um pouco extensa, tem a vantagem de deixar bastante claro o caráter congênito, inato, e extremamente raro de que o talento parece se revestir. Nascendo com o craque, ele já pode ser percebido quando este ainda é uma criança:

“os meus garotos, por exemplo, eu vejo que não vai dar, são menorzinho, os dois primeiros, pra chutar uma bola se escoram pra não cair, o último chuta com os dois pés com a maior naturalidade, o menino está com um ano e meio, chuta melhor que os dois juntos, já nasceu com aquilo”.

Um dom raro, inato, e constante, o talento não pode ser ensinado, como também não pode ser recebido ou transmitido, isto é,

“não precisa ser filho de peixe pra jogar bem futebol, é independente, não é hereditário de forma nenhuma”.

Em consequência disso, é totalmente impossível a formação de uma nobreza no mundo do futebol, o que fatalmente aconteceria se o talento pudesse ser transmitido, inalterado, de uma geração de craques para outra (cf. Simmel, 1971, cap. 14). Existem, naturalmente, exceções a essa regra, como por exemplo a “dinastia” dos Da Guia, mas elas parecem apenas confirmá-la, sendo explicadas pelo acaso, e nunca pela necessidade.

Uma outra característica importante do talento é a sua extrema singularidade. Assim, se todas as estrelas diferenciam-se em bloco dos coadjuvantes, cada uma delas vai possuir um talento específico, uma habilidade singular, inteiramente distinta da dos outros. Essa incomparabilidade dos craques, constantemente enfatizada nas entrevistas que dão à imprensa, foi relacionada pelos meus entrevistados, com o próprio salário que é pago no futebol, pois este é igualmente singularizado. “É uma escadinha”, cada um recebe um ordenado diferente, variando de acordo com o seu talento (2).

Note-se que não é apenas o salário que vai exprimir o caráter fragmentado e particular do talento. O próprio nome do jogador de futebol também está articulado com essas características. Em geral, cada jogador tem o que poderíamos chamar de nome “artístico”, que tanto pode ser seu prenome ou sobrenome, quanto um apelido qualquer. Em todos esses casos, o nome artístico será sempre específico, exclusivo, diferenciando seus portadores dos outros jogadores. Se dois deles tiverem o mesmo nome no mesmo time, um deles será imediatamente modificado, trocado por um diminutivo, por um aumentativo, recebendo o acréscimo de um número, de outro nome ou apelido, para manter a sua particularidade. Dois jogadores com nomes iguais em times diferentes têm sua distinção sublinhada, por sua vez, pelo nome dos clubes a que pertencem, que passa a seguir seu nome artístico como se fosse um sobrenome.

O talento, portanto, é um dom singular com o qual poucos jogadores nascem, indo mantê-lo até o fim das suas vidas. É uma “qualidade” particular de cada craque, diferenciando-o inteiramente de qualquer outro jogador. Isso faz com que me pareça possível afirmar que reencontramos, ao discutir as estrelas e sua habilidade, o mesmo individualismo qualitativo que constituía uma das dimensões constitutivas do projeto dos jogadores.

Efetivamente, o universo das estrelas parece estar baseado nas mesmas ideias de singularidade e diferenciação que constituem o fundamento desse individualismo. A própria definição do talento como um dom natural, raro e inato, impossível de ser transferido, pelo ensino ou por herança, a qualquer outra pessoa, combina-se muito bem com a ênfase numa personalidade extremamente original e particular que esse individualismo parece promover (cf, Simmel, 1950, parte 1, cap. 4).

O talento, assim, seria a “qualidade” exclusiva e singular de cada craque, e sua livre “realização” teria como único resultado o aprofundamento das diferenças entre eles. A liberdade aqui leva à diferenciação e à desigualdade, nunca ao igualitarismo.

Não é à toa, portanto, que seja exatamente nesse contexto, discutindo as estrelas e sua habilidade, que possamos encontrar, utilizada corriqueiramente por todos, a categoria individualismo.

Ela vai sublinhar, aqui, o caráter original e exclusivo do talento de cada craque, revestindo-se, consequentemente de um sentido altamente positivo. Ao invés de ser identificada com “vaidade” e a “falta de princípios” (ou de “escrúpulos”), como usualmente acontece em outras esferas da nossa sociedade (cf. Matta, 1979, p. 179), o individualismo será articulado com a habilidade “fora-de-série” dos nossos maiores estilistas, verdadeiros artistas, “gênios criadores” que estão destinados à fama e à fortuna.

O talento dessas estrelas, contudo, não é o mesmo em todas as partes do campo, não se exprime indiferentemente na defesa, no meio do campo, ou no ataque, pois

“o craque é um especialista, se tu colocares um Zico na lateral direita, ele vai saber jogar, mas nunca tão bom quanto o cara especialista naquela função, nem vai fazer as grandes jogadas que ele faz lá na frente…”.

Dessa forma, a definição do talento como uma qualidade singular, diferenciada e diferenciadora, vai fazer com que meus entrevistados representem o time de futebol como uma unidade essencialmente “orgânica”, onde “todo jogador tem que ter uma função específica para desempenhar”, funções basicamente diferentes, embora complementares. Cada jogador vai, então, se especializar no desempenho de certas funções, específicas da posição, da faixa de terreno em que atua, único lugar em que sua criatividade poderá se “realizar” de forma absoluta. Se for deslocado para outra posição, obrigado ao desempenho de funções fora da sua especialidade, ele corre o risco de ver seu talento minguar, reduzindo-o a posição de um mero coadjuvante, um jogador comum, incapaz de fazer grandes jogadas, de exibir algum talento invulgar.

Um time implica, portanto, na combinação de talentos muito variados, cada um especializado no desempenho de funções específicas. Consequentemente, o “conjunto do time”, a associação das suas diversas individualidades, dos seus vários especialistas, nunca se dá de forma automática. Exige tempo e muito treinamento para que os jogadores se conheçam, “harmonizem” suas singularidades, e possam jogar “por música”. Mesmo assim, nessa visão que estou analisando, por maior que seja a solidariedade do time, ela nunca pretenderá “sufocar” o talento original de cada jogador. Acontece que esta solidariedade está baseada na divisão do trabalho, na complementariedade de diferentes funções, tendo portanto, como fundamento e limite, a própria ideia da especialização do talento. Como dizia, sinteticamente, um dos entrevistados:

“cada um na sua, forma o conjunto”.

Parece-me que é possível encerrar, com estas últimas considerações, o estudo das propriedades constitutivas do talento. A sua análise nos revelou que ele está basicamente referido a um grupo específico de jogadores, as estrelas, que são seus possuidores. Este grupo vai se distinguir nitidamente dos outros jogadores, os coadjuvantes, que não possuem nenhuma habilidade especial, e, ao mesmo tempo, vai revelar uma profunda diferenciação interna, já que cada craque concretiza seu talento de forma única e particular, como se fosse um artista. As estrelas podem ser classificadas, então, sob o signo da liberdade e da diferenciação, do individualismo qualitativo, cuja importância para os jogadores já foi revelada quando da discussão do seu projeto, no primeiro capítulo.

Note-se apenas, para finalizar esta discussão, que o individualismo qualitativo era incluído no projeto dos jogadores através da sua dimensão mais “emocional”, enfatizando a “auto-realização” e o “prazer” que o jogo de futebol podia proporcionar. Inversamente, sua utilização para dar conta do talento dos craques vai lançar mão dos aspectos mais “cognitivos” desse individualismo, acentuando a singularidade, a diferenciação e até mesmo a divisão do trabalho. É como se, para usar explicitamente as categorias de Geertz (1978, cap. 5), a dimensão emocional, o “ethos” do individualismo qualitativo, predominante no projeto, fosse complementada por uma ênfase na sua “visão de mundo”, mais desenvolvida, pelos meus entrevistados, na explicação do talento.

Se o talento é discutido a partir da diferença, a personalidade, a outra qualidade necessária para o sucesso do jogador, vai privilegiar exatamente o contrário, a similaridade e o igualitarismo. Assim, pelo menos em tese, todos os jogadores deverão se encaixar nas características que compõem a personalidade. Tanto Pelé, quanto o mais humilde dos jogadores de um time pequeno qualquer, deverão obedecer aos preceitos formadores da personalidade, sob pena de verem seu desempenho prejudicado, e sua carreira, consequentemente, em perigo.

Mas, como poderemos isolar e definir as características que constituem a personalidade “ideal” do jogador? Ao contrário da discussão do talento, quando meus entrevistados respondiam de forma categórica e extremamente precisa, as questões que procuravam detalhar a personalidade recebiam respostas muito vagas. Embora tenha discutido bastante com meus entrevistados sobre a personalidade, durante bastante tempo, a única coisa de que tive certeza foi que nossas conversas diziam respeito, em primeiro lugar, a um certo número de sentimentos, emoções como o medo, a coragem e a humildade, que todo jogador deveria, ou não, possuir. Algumas eram consideradas absolutamente indispensáveis para uma carreira bem-sucedida enquanto a mera presença de outras podia acarretar o fracasso.

Decidi, então, isolar um desses sentimentos, o “abatimento”, sobre o qual havia recebido grande número de informações, e estudar a forma pela qual era empregado, suas causas e consequências, tentando descobrir com que outras emoções ele estava ligado. É exatamente isso o que faremos a seguir. O abatimento é uma das sensações mais perigosas que um jogador pode experimentar. Ele limita e aprisiona o talento, pois um jogador sem ânimo, nem disposição, nunca terá condições de exprimir toda a sua criatividade. Assim,

“tem muita gente que joga pra caramba, chega dentro de campo, fica aquele medo de fazer, de arriscar a grande jogada, medo de levar uma vaia, se preocupa se a imprensa vai falar mal, então joga uma bola federal mas se abate, não tem aquele deslanche, aquele lampejo”.

O abatimento, como se pode ver, está ligado à natureza essencialmente pública do futebol profissional, que faz com que o jogador atue sempre levando em conta as esperanças e expectativas de uma plateia sempre exigente, e, às vezes, extremamente hostil. Note-se que essa exigência torna-se muito maior quando se trata de jogar num clube grande, que entra nas disputas “pra ganhar”.    Relativamente acostumada com a vitória, o que aumenta em muito a “pressão” sobre o jogador. Ele sabe que qualquer falha, mesmo pequena, será observada com ansiedade por milhares de pessoas. Nesse clima, uma sequência de más atuações, ou uma derrota importante, pode significar sua “crucificação” pela torcida. Ao contrário, nos times pequenos e médios, este perigo parece menor, pois a torcida, em princípio, parece estar mais acostumada com os resultados adversos, enfrenta a derrota com mais resignação. Ela tem “a esperança, mas não a expectativa da vitória”, como diz Gluckman (1959), o que permite mais tranquilidade e menos possibilidade de crítica e abatimento para o jogador. Este torcedor pode, é verdade, reagir a uma derrota com certo sarcasmo, utilizando o cinismo e a ironia para expressar sua insatisfação, mas raramente chegando ao limite da perseguição pessoal e da violência, como fazem as torcidas dos grandes times.

É provavelmente por isso que

“às vezes, pinça um jogador do São Cristóvão, pequeno clube, traz pro Flamengo, o cara sabe que pode se tornar um craque lá, mas só pelo simples fato de botar a camisa do Flamengo, enfrentar a torcida diariamente, a imprensa, e coisa e tal, o cara se apaga, não é o mesmo jogador, é o que eu lhe disse, falta de personalidade”.

Gostaria de salientar que pude observar, durante a realização da pesquisa, a grande tensão emocional que marca a relação da torcida com os jogadores. Assisti, na época, a vários treinos do Flamengo, muitos deles antes de jogos decisivos, quando o time disputava o bicampeonato estadual (segundo semestre de 1978). Havia um certo clima de festa durante os treinamentos, muitas brincadeiras, dirigentes do clube apareciam vestidos de “macacão”, fingindo que iam entrar em campo com os jogadores e um número enorme de crianças gritava e corria pedindo autógrafos.

Entretanto, ao lado disso, era possível se perceber uma impressionante ansiedade. Numa ocasião, durante um coletivo, alguns jogadores marcados pela torcida, eram vaiados sempre que faziam qualquer jogada errada, e um deles era apupado assim que encostava o pé na bola. Dois dos preparadores físicos do clube, quando isso acontecia, dirigiam-se à torcida pedindo calma, “cooperação”, mas sem muito sucesso. Depois de mais ou menos meia hora de treino, esse jogador especialmente marcado pela torcida deixou o campo, e veio conversar com um dos preparadores físicos e com o médico, perto do alambrado. Nesse momento, um senhor e dois garotos desceram da arquibancada, encostaram-se no alambrado, e começaram a gritar:

“tira esse crioulo”, “tira esse viado”, “não joga nada”, “tá bichado”, “vai nos enterrar”.

O preparador e o médico imediatamente afastaram o jogador dali, ao mesmo tempo que respondiam aos torcedores, gritando que estavam trabalhando, que o que faziam era coisa séria, etc. O jogador, por sua vez, retirou-se lentamente de volta ao campo, sem esboçar a menor reação aos ataques recebidos. Apenas olhou, duas ou três vezes, na direção dos torcedores, e foi embora, sem dizer nada e de cabeça baixa (símbolo do abatimento). Por outro lado, assisti também aos treinamentos do América onde pude observar emoções muito diferentes. O América, único time carioca a ser classificado como “médio” pelos meus entrevistados, não ganha um título de importância desde 1960, e sua torcida, pelo menos na época em que estive lá, parecia estar relativamente acostumada com essa situação. Num dos treinos que observei, sentei-me ao lado de um grupo de torcedores do clube, que conversavam sobre o time ao mesmo tempo em que assistiam aos exercícios técnicos e táticos que os jogadores realizavam no campo. Suas reações eram o exemplo perfeito daquela mistura de resignação, por um lado, e cinismo e ironia, por outro, que, segundo Gluckman (1959), vai caracterizar os mais desesperançados torcedores. Cada vez que um jogador dava um belo chute, ou evidenciava bom controle de bola, alguns dos torcedores comentavam:

“Esse aí, logo logo, vai sair do América, jogador bem, nunca fica muito tempo, lembra do Ivo? Agora tá abafando no Palmeiras”,

ou então,

“olha só como é bom aquele garoto, vai pra seleção juvenil, é muito melhor que aquela besta do…, mas aqui não vai ser escalado nunca, vai acabar vendido… é, isso aqui não tem mais jeito não”,

observações que eram acompanhadas por comentários sarcásticos e risadas meio desanimadas. Como se vê, nesse ambiente, o abatimento parece deixar de assombrar os jogadores, transferindo-se inteiramente para a torcida.

Mas não é simplesmente em função da sua relação com a torcida que o jogador poderá abater-se, entregar-se ao desânimo, e prejudicar seu futebol. A interação com a imprensa também é extremamente complexa e delicada, constituindo-se em fonte de intimidação e abatimento para o jogador. O primeiro problema reside no fato de que

“o futebol, infelizmente, ele depende muito promocionalmente, depende do que determinados jornalistas que, muitas vezes, não conhecem futebol, falam. Por exemplo: um jogador acaba o jogo, joga pra caramba, e um comentarista diz que ele não jogou nada, então, o sucesso está muito ligado com pessoas extracampo”.

A imprensa, dessa forma aparece como uma figura profundamente ambígua e perigosa, já que, de certa forma, ela desafia e até mesmo apaga algumas das fronteiras do mundo do futebol. Situada nos seus limites, ao mesmo tempo dentro e fora dele, a imprensa tem a capacidade de “reinventar” o jogo ou um desempenho individual, destruindo uma performance brilhante, ou produzindo um craque do nada, maculando, assim, a “pureza” do mundo do futebol e de suas regras (cf. Douglas, 1976). Ela se constitui, portanto, numa entidade extremamente poderosa, pois essa sua capacidade de “recriação” possui uma força praticamente incontrolável, já que sua origem está situada “extracampo”, fora do futebol.

    Não é à toa, então, que vários dos entrevistados afirmaram que tentavam manter boas relações com a imprensa:

“Afinal, tem muito bom jogador que teve sua carreira prejudicada porque, às vezes, não se entendia direito com os repórteres, eu não, eu não me importo muito com eles não, mas trato bem”.

    Ora, o problema é que muitos se importam. Lidando com uma figura tão poderosa quanto a imprensa, que media sua relação com o público com uma força raramente controlável, fica muito difícil, para o jogador, não se interessar, nem se abater com críticas que recebe da imprensa. Assim,

“o jogador leva essas críticas para dentro de campo, se não tiver uma personalidade marcante, começa a ficar ‘encucado’, vai ter uma enorme dificuldade, vai passar a semana inteira ‘cabrero’, vai sofrer uma série de coisas”.

    Dois dos meus entrevistados, inclusive, salientaram o caso de um jogador da seleção brasileira, que mantém um álbum com recortes de todas as críticas negativas que recebe. Extremante sensível, toda vez que recebe um ataque mais forte fica profundamente abatido, e chega a anunciar, às vezes, que vai abandonar o futebol.

    O abatimento, portanto, constitui-se numa emoção extremamente destrutiva e poderosa. Como, então, deve ser enfrentado? Segundo os depoimentos que recolhi, a única maneira dele ser controlado é através de uma categoria bastante específica, a autocrítica. Dessa forma, o jogador deve “estar preparado” para receber as críticas através da sua

“autocrítica, uma autoanalise, pra ele mesmo se julgar saber se jogou mal ou bem, não se deixando influenciar pelo o que os outros dizem, e sim por aquilo que acha que pode e deve produzir dentro de campo”.

    A autocrítica, uma categoria que se refere à análise consciente e racional das próprias possibilidades é, portanto, a única forma de se controlar o abatimento e os males que ele pode trazer. Tanto as pressões da torcida, quanto as críticas da imprensa, podem ser superadas, desde que o jogador confie basicamente no seu próprio juízo. Este juízo vai estabelecer uma espécie de “barreira” entre as entidades extracampo e os jogadores, impedindo o desenvolvimento de sentimentos perigosos, como o abatimento.

    Entretanto, é preciso notar que este privilégio da razão, no discurso dos meus entrevistados, não vai se opor, de forma absoluta, às emoções. Se, por um lado, a autocrítica, a análise equilibrada e consciente do próprio desempenho deve ser usada para combater e afastar o abatimento, por outro, existem sentimentos opostos, como a confiança, altamente valorizado por todos com quem eu conversei. A autoconfiança é o contrário do abatimento, faz com que se tenha coragem de arriscar, de tentar fazer uma jogada mais ousada, permite “aquele deslanche”, necessário para o “desabrochar” do talento. Ao invés de limitar, ele abre caminho para a livre realização da criatividade, tornando-se uma emoção altamente positiva e praticamente indispensável ao jogador.

    Até aqui, nesta tentativa de ordenar as informações sobre a personalidade do jogador, pudemos levantar dois sentimentos conflitantes, o abatimento e a confiança, e uma categoria, a autocrítica, capaz de controlar o primeiro e possibilitar o segundo.

    Esta tentativa, contudo, precisa ser mais estendida, pois a confiança, embora ocupando um lugar praticamente insubstituível na personalidade ideal dos jogadores, pode se tornar uma emoção extremamente perigosa. Isso acontece porque o excesso de autoconfiança, a crença exagerada nas próprias possibilidades vai, fatalmente, levar o jogador a se mascarar. A máscara, portanto, vai esconder, no seu interior, emoções cujo ponto de partida está situado na autoconfiança, emoções tão destrutivas e perigosas quanto o abatimento.

    O jogador mascarado é

“um convencido, um esnobe, que gosta de se gabar daquilo que ele tem no memento, posição, manchete nos jornais, acha que é o tal, que superou em tudo os outros”.

    Este jogador, no qual a autocrítica e o autocontrole desapareceram, e a confiança degenerou em “convencimento”, terá sua carreira seriamente ameaçada pelas atitudes que termina por adotar, sendo prejudicado por sua máscara em contextos e situações bastante diferentes.

    Em primeiro lugar, sua relação com os seus próprios companheiros de time, será, logicamente, muito abalada. Querendo “ser o tal”, achando que “superou em tudo os outros”, o mascarado afasta-se decisivamente dos outros jogadores ao procurar enfatizar a sua pretensa superioridade. É evidente, pelo que foi dito durante a discussão do talento, que existe pelo menos uma grande diferença plenamente assumida e aceita pelos jogadores, a que separa as estrelas dos coadjuvantes. Entretanto, parece ser uma “regra de ouro” do mundo do futebol o fato de que esta diferenciação não pode, de maneira nenhuma, ser explicitada ou concretizada entre os próprios jogadores. Assim, nos momentos em que estão reunidos, nos treinamentos, na concentração, e durante o jogo, nenhuma estrela tem direito a qualquer regalia, a um qualquer tratamento especial em relação a seus companheiros.

    É isso, provavelmente, que explica o ambiente de descontração e alegria que parece predominar na interação jogadores. Durante toda a pesquisa ouvi dizer, e algumas vezes pude observar, que o relacionamento entre os jogadores era marcado pela “brincadeira”, pela “sacanagem”, todos brincando igualmente com todos durante a maior parte do tempo que passam junto. Como no carnaval, utiliza-se a brincadeira, o “joking”, para diminuir as distâncias e reunir o que está separado, promovendo-se a aproximação e a “camaradagem” entre jogadores que podem estar situados em posições muito diferentes (cf. Matta, 1979, p. 63). Esta “regra de ouro” é a primeira que o mascarado vai quebrar.

    Na verdade, em função do seu convencimento e da sua presunção, o mascarado vai desafiar esta igualdade contextual situações e lugares muito diferentes, entre os quais, no próprio preparo físico. Assim, ele normalmente vai “relaxar” na sua preparação, acreditando ingenuamente, segundo meus entrevistados, que seu talento é tão grande que ele pode se preocupar menos em cuidar do corpo. Ledo engano, pois ele rapidamente perderá sua forma e seu futebol irá render muito menos.

     O seu procedimento durante o jogo será praticamente o mesmo, mas, aqui, os “equívocos” de um jogador dominado pela máscara terão uma repercussão muito maior, pois poderão prejudicar o time como um todo. Dentro de campo, o mascarado pretende “jogar sozinho”, fazer jogadas de efeito, que deixem absolutamente claro aos olhos de todos, especialmente aos da plateia, a sua absoluta singularidade e superioridade em relação aos outros jogadores (cf. Vogel, 1977, e Soares, 1979).

    “Exibindo-se”, enfatizando sua relação com a torcida, o mascarado vai incorrer num duplo esquecimento: deixa de lado seus companheiros de time e, o que pode ser mais grave, seus próprios adversários.

    Esquecendo-se de seus companheiros, o mascarado vai “abusar do individualismo”, insistindo em realizar, sozinho, jogadas que normalmente exigem a colaboração dos outros jogadores, e chegando até mesmo a “invadir” posições que não são suas, “embolando” o time, e prejudicando sensivelmente o seu rendimento. Sua “avidez“, portanto, desconhece os limites que a especialização e a divisão do trabalho impõem aos jogadores dentro de campo, subvertendo inteiramente o princípio da complementaridade das funções, tão caro aos meus entrevistados. “Jogando sozinho”, ele se torna uma “peça nula”, pois não consegue realizar as tarefas que lhe são especificamente exigidas, e acaba tornando mais difícil a concretização das funções dos outros jogadores.

    Os problemas que o mascarado provoca, entretanto, podem ser ainda maiores, pois ele chega a deixar de lado, a desconsiderar, a existência efetiva dos seus próprios adversários. Fazendo isso, ele desrespeita um princípio básico do futebol, profissional ou não, que é o fato dele, por ser mesmo um jogo, implicar fundamentalmente na ideia de competição, de “concurso entre iguais”, como diz Matta (1979, p. 115), pelo menos entre iguais em potencial. Note-se que esta competição é ainda acentuada pelo fato do futebol enfatizar o confronto direto entre os oponentes.

    Como toda a competição, o futebol baseia-se na “performance“, no “desempenho” dos atletas, uma entidade raramente controlável, e praticamente imprevisível. Por causa disso, a realização do talento de todo jogador, mesmo dos maiores craques, deve vir sempre acompanhada de uma certa contenção, de um certo controle. A criatividade individual não deve nunca esquecer que o objetivo principal é a vitória na competição e, para isso, é essencial que não se perca de vista a imprevisibilidade do desempenho do adversário, pois nunca se pode ter certeza do que ele tem condições de fazer. Dessa forma o talento deve ser usado com o máximo de controle, de disciplina, não se deve nunca tentar dar um drible a mais, um “toque” desnecessário, ou arriscar uma jogada mais difícil quando se pode conseguir o mesmo resultado com uma mais fácil. O futebol então, deve sempre ser jogado de maneira simples e rápida (cf. Gluckman, 1959, p. 3), já que não se deve “facilitar” nunca com o adversário. Este precisa ser tratado sempre como um igual, pois, no futebol, tentar demonstrar superioridade pode ser uma forma ingênua de oferecer vantagem ao oponente.

    É exatamente esta vantagem que o mascarado oferece. “Floreando” as jogadas, procurando sempre resolver os lances da forma mais requintada e difícil, ele procura demonstrar e enfatizar sua superioridade sobre o adversário exatamente através das vantagens que oferece. É como se ele pudesse controlar, de forma absoluta, o seu desempenho e o do seu adversário, e, sabendo que a sua “categoria” irá sempre se impor, pudesse, então, tranquilamente exibir o seu talento, a sua posição de estrela, de “cobra”, enfim, de um verdadeiro “medalhão” do futebol, alguém que já “transcendeu as regras que constrangem as pessoas comuns dessa esfera social” (cf. Matta, 1979, p. 159), e que provoca sempre respeito e temor nos seus adversários.

    É interessante notar que, em outras esferas da nossa sociedade, a máscara é usada precisamente para condenar o procedimento das pessoas que, sem terem poder ou condições para tanto, resolvem se comportar como se fossem ‘”medalhões” (cf. Matta , 1979, p. 147). São aqueles que perdem o sentido da sua origem, e da sua posição social e, ocupando o lugar de “pessoas de prestígio”, chegam até a utilizar o ritual do “você sabe com quem está falando?”, mas, de forma vazia e potencialmente arriscada, pois não tem como confirmá-lo. Ora, no futebol, ninguém tem condições de utilizar o “você sabe com quem está falando?”, pois, dentro do campo, é o desempenho, e não a posição social dos jogadores, que vai determinar o resultado do seu confronto. Não é por acaso, portanto, que o jogador que adota este tipo de atitude, exagerando irrefletidamente a sua autoconfiança, será classificado como esnobe, pernóstico, em uma palavra, mascarado.

De que forma, então, é possível impedir esta degeneração da confiança?

Notas

[1] Um dos meus entrevistados foi comprado por grande clube do Rio na mesma época em que uma das maiores estrelas do nosso futebol também se transferia para lá, e mostrou-se extremamente impressionado pelo fato de ter sido tratado com a mesma consideração que foi dispensada ao craque

[2] O “bicho”, então, e uma modalidade de pagamento complementar a do rio, pois funciona como uma remuneração coletiva.

Referências Bibliográficas

DOUGLAS, Mary. (1976). Pureza e perigo. São Paulo, Perspectiva.

GLUCKMAN, Max. (1958). ‘Football Players and the Crowd’. The Listener, 19 February, pp. 331–332.

MATTA, Roberto da. (1979). Carnavais, Malandros e Heróis. Rio de Janeiro, Zahar.

SIMMEL, Georg. (2001). On individuality and social forms. Chicago, The University of Chicago Press.

SOARES, Luis Eduardo. (1979). “Futebol e Teatro: notas para uma análise de estratégias simbólicas”. Boletim do Museu Nacional, n9, 33.

VOGEL, Arno. (1977). O Momento Feliz: Futebol e Ethos Nacional. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social – UFRJ.

WEBER, Max. (1967). – A Ética Protestante e o Espírito do capitalismo. São Paulo, Pioneira.


Um comentário em ““GÊNIOS DA PELOTA” (PARTE I), POR RICARDO BENZAQUEN

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