Simpósio | Ocupação Olhares, Axé: outros intérpretes do Brasil (I)

Neste primeiro post do Simpósio da Ocupação Olhares, Axé: outros intérpretes do Brasil, publicamos uma rodada de respostas dos artistas e agentes culturais a perguntas feitas pela curadoria.

Participam desta primeira rodada André Sampaio, Evna Moura, Gustavo Melo Cerqueira e Leá Cunha. Para a abertura dos trabalhos, um vídeo de apresentação de Pai Adailton Moreira D’Ogun.

1. Faça, por favor, uma breve apresentação sua e do trabalho criativo que realiza.

André Sampaio: Me chamo André Lima Sampaio, conhecido artisticamente como André Sampaio. Sou músico, produtor cultural, candomblecista, educador social, professor de boxe e treinel de capoeira angola, nascido e criado no bairro de Vila Isabel, Zona Norte do Rio de Janeiro. Concentro minha criação e pesquisa na fusão de ritmos e tradições musicais africanas e afro-brasileiras, tendo realizado viagens à África (Mali, Burkina Faso e Moçambique), Europa e México, aonde minhas pesquisas se aprofundaram através de intercâmbios culturais e produções artísticas. 

Somadas a essa bagagem estão minhas vivências na cultura afro-brasileira enquanto Ogan Alagbe (guardião da música sagrada) do Ile Omiojuaro (RJ) da grande Iyalorixá Mãe Beata de Iyemanjá (em memória) e como Treinel (professor) do grupo Aluande Capoeira Angola de Mestre Célio Gomes. Fui fundador e membro da banda Ponto de Equilíbrio – conjunto fundamental do reggae nacional – durante 15 anos, nos quais gravei quatro álbuns, um DVD ao vivo e fiz muitas turnês nacionais e internacionais. Sou também bacharel em Ciências Sociais – Produção e Política Cultural pela UCAM/IUPERJ.

Meu trabalho criativo surge do encontro, das vivências nos campos de que faço parte ou em que a música e cultura de matriz africana me inseriram. Minha produção musical e composição propõem a fusão de diferentes linguages musicais que têm como eixos de articulação o ritmo e os olhares sobre o sagrado, a ancestralidade e as possibilidades de uma reconstrução de mundo mais justo, aonde possamos viver em maior harmonia com os outros seres e o meio ambiente. Acredito que as artes, e sobretudo a música, têm esse papel de construir pontes entre culturas. E, por ter vivenciado isso de forma profunda em meus intercâmbios e trabalhos sociais, me debruço sobre essa potência do fazer criativo como ferramenta de transformação.

Evna Moura: Sou artista visual, pesquisadora e arte educadora natural de Belém/PA. Priorizo em minhas criações as narrativas e diálogos entre personagens, lugares e experimentações artesanais da fotografia, especialmente sobre temas ligados à região amazônica. Também sou Mestra em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP-SP. Participei de diversas exposições, entre elas as individuais: “Rito Resistência” na Galeria Theodoro Braga/Belém-PA (2019); “Paisagens Inventadas” na galeria Kamarakó – Belém/PA (2022) e “Olhares Ilhados” na Galeria Theodoro Braga – contemplada pelo Edital Branco de Melo 2022. E de diversas coletivas, como: Artista convidada do Salão Arte Pará 2019 – “As Amazonas do Pará”; COLLECTIF FOTOATIVA: Une expérience photosensible. Jardin botanique, Cayenne. Guiana Francesa, 2021. “Sobre sueños, abismos y otras fronteras” no Centro de Fotografia de Montevideo, 2018; “Alfabeto de Ficções”, associação Fotoativa (Belém/PA-2016); Artistas de Terreiro I e II (Belém/PA-2015 e 2016); II e III Salão Xumucuís de Arte Digital da Amazônia – Banco da Amazônia e Casa das 11 Janelas (Belém/Pa- 2013 e 2014), entre outras. Como artista convidada, participei do Laboratório de Reflexión: “¿En qué estoy? / ¿En qué estamos?” no Centro de Fotografia de Montevideo – CDF, em 2017 e da mostra “Amazônia Mapping”, anos 2019 e 2020. Em 2010 iniciei minha experiência como arte educadora e ministro oficinas de técnicas fotográficas desde então.

Gustavo Melo Cerqueira: Sou Gustavo Melo Cerqueira. Sou babalorixá, ator, performer e, de vez em quando, me arrisco na dramaturgia e na direção de espetáculos. Minha formação nas artes ocorreu na prática. Logo após me graduar em Direito pela Universidade Federal da Bahia, em 1998, comecei a trabalhar com teatro, em diversas funções, no Teatro Vila Velha, na cidade de Salvador, capital da Bahia. Fui para o Rio de Janeiro em 2000, quando comecei a trabalhar em TV, cinema, mas tendo o teatro como minha principal ocupação, especialmente na Cia dos Comuns, que veio a se tornar um dos principais grupos de teatro negro na primeira década do século XXI, tanto pelas propostas estéticas que levava à cena quanto pelo aguerrido empenho para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas às artes negras no Brasil. Apenas em 2011, quando me mudo para a cidade de Austin, no Texas, Estados Unidos, começo a me aventurar no campo da performance art, enquanto cursava mestrado e doutorado no departamento de Estudos Africanos e da Diáspora Africana da Universidade do Texas em Austin. O meu trabalho criativo, acadêmico e ativista tem o corpo negro como aspecto central. Meu interesse recai nas estratégias desenvolvidas pelo corpo negro para se fazer existir ou, em alguns casos, para fazer perceber a sua existência. Busco trabalhar com estratégias de presença e provocação de sentidos, frustração de expectativas e não-linearidade, utilizando recursos de áudio, vídeo, iluminação e distensão do tempo. O embaralhamento dos sentidos pode abrir portas para novas percepções que, acredito, podem trazer provocações para mudanças profundas na realidade, sobretudo nas relações sociais e, quiçá, políticas. Contudo, livre que sou (ou busco ser, ou me proclamo), por vezes faço exatamente o contrário de tudo isso.

Leá Cunha: Sou Leá Cunha, 41 anos, mulher trans, negra, artista visual, atriz, favelada e candomblecista. Estou diretora artística do Laboratório de Composição de Imagem-Ritual, um espaço-tempo de estudo de composição de imagens, cuja dinâmica de funcionamento está imersa numa ética e numa estética diaspórica negro-africana. 

O laboratório de composição de imagem-ritual está comprometido na produção de referências visuais (performance, fotografia, audiovisual) de pessoas negras ligadas a sua ancestralidade, realeza e dignidade, referências essas que se contrapõem à imagem midiática sempre ligada à criminalização, animalização e à delinquência de negros e negras.

2. Quais as referências que você busca para realizar seu trabalho? Como se dá o processo de criação?

André Sampaio: Minhas referências são desde artistas que se debruçam sobre as culturas tradicionais de matriz africana e propõem fusões, como Chico Science, Gilberto Gil, Jorge Ben entre outros de nossa MPB, como também de artistas africanos modernos, como, do Mali: Ali Farka Toure, Rokia Traore, Fatoumata Diawara, Oumou Sangare, Bassekou Kouyate, Boubacar Traore, Toumani Diabate, da Nigéria: Fela Kuti, Burna Boy, do Gana: Ebo Taylor e muitos outros. Também busco referências no reggae, blues e rock dos anos 60 e 70, principalmente, procurando sempre fazer uma ponte com sonoridades atuais.

Em minhas vivências com mestres e mestras de culturas afrobrasileiras, africanas e da diáspora, desenvolvo um aprofundamento dessas linguagens musicais e busco inseri-las nesse composto híbrido que forma minha obra, respeitando suas principais características e sentidos, mas procurando os pontos de encontro entre manifestações tão distintas, mas familiares entre si.

Além das referências musicais, também costumo buscar inspiração na literatura e nas outras artes, com artistas que perseguem esse limiar entre sagrado e mundano, encontros de culturas e olhares diversos de ancestralidade e modernidade.

Todo esse caldeirão me serve de ingredientes musicais muito potentes e cheios de significados históricos e espirituais. Ao beber dessa fonte diversa, ancestral e contemporânea, deixo que as melodias, ritmos e palavras se formem no encontro da bagagem que carrego com as situações que vou vivendo ou meus olhares sobre as coisas e o mundo. 

A polirritmia (ritmos diferentes que quando combinados geram novos ritmos) é uma ferramenta poderosa para se trabalhar essa polifonia de discursos, olhares, culturas e realidades. O ritmo, a pulsação, surge como elemento de liga entre culturas e linguagens tão diversas. Em meu trabalho, ritmo é a chave que abre as portas dessa construção de pontes musicais.

Evna Moura: Meu trabalho se dá principalmente através das referências culturais encontradas na região amazônica e seus ensinamentos espirituais repassados, como tentativa de uma reflexão simbólica e política desse lugar. E o processo criativo nasce e renasce a partir de experiências desse cotidiano, de memórias e minhas relações com os métodos de investigações da imagem na contemporaneidade.

Gustavo Melo Cerqueira: Boa parte de minhas referências vêm da minha trajetória no teatro. As poéticas de artistas como Marcio Meirelles, Amir Haddad, Tadashi Endo e Hilton Cobra contaminam o que faço, muito embora eu as aplique numa direção muito própria. Gosto da utilização de recursos multimídia, além da sobreposição e simultaneidade de informações na poética de Meirelles. Sou afetado de modo indelével pela poética de atuação, do “ator sem papel” que preconiza Haddad. Acredito que a experiência vivida do corpo negro está para além da compreensão e, por isso, demande uma expressão tão própria e inovadora quanto o butoh-ma de Endo. E vivo a busca de uma poética negra em que o cruzamento do estético e do político, a partir de Cobra, é absolutamente inevitável. Ainda, tenho o modo extra-cotidiano de como o corpo se comporta no cotidiano do candomblé como inspiração fundamental, pois que temos um vasto repertório gestual negro-brasileiro (expressão que espero que entendam como negros no Brasil, e não como negros brasileiros, por razões que podemos desenvolver em outra oportunidade), que vai além dos movimentos espetacularizados em nossas manifestações culturais mais conhecidas como, por exemplo, a capoeira e a dança-afro. Nesse sentido, tenho valorizado os gestos que estão contidos nas danças e nos movimentos dos orixás, nas desarticulações e rearticulações corporais a partir da observação dos momentos de instauração do transe, na valorização da beleza e sedução intrínsecas em gestos aparentemente simples. O emprego deste repertório, através de recombinação e improvisação, promove uma ritualidade própria onde, muitas vezes, as matrizes rituais passam despercebidas, muito embora elas lá estejam. É no meu próprio corpo, no mais das vezes, que processo as diversas sensações produzidas por essas recombinações. Tenho o público como testemunha de um processo de imersão. Durante esse processo, enquanto ele acontece, vou descobrindo como transformar a relação imersão-testemunho em comunicação.

Leá Cunha: A pesquisa em composição de imagens no Laboratório pauta suas referências em princípios afro-indígenas, tais como:

  • A intrínseca comunhão entre o corpo humano e a natureza;
  • A visualidade negra (ao contrário das visualidades ocidentais) não está limitada ao sentido da visão. No Laboratório, a composição de visualidades passa pelo cheiro, pelo toque, pela escuta, pelo paladar, pelo afeto. Estamos certas de que a tradição visual colonial-ocidental empobrece as visualidades negras;
  • Partimos do invisível como uma chave de elaboração do visível;
  • Entendemos o ritual como o lugar de coexistência entre o aiye e o orun, ou seja, entre o mundo visível e o mundo invisível;
  • A ética do cuidado e do aquilombamento dos corpos e subjetividades negras na criação das imagens;
  • A arte preta sempre como uma arte comunitária.

Dentre as referências teóricas trabalhamos com as intelectualidades negras, tais como a Drª. Leda Maria Martins, Dr. Muniz Sodré, a Ìyálorixá Mãe Beata de Iemanjá, a escritora Sobonfu Somé, a filósofa Denise Ferreira da Silva, dentre outres.

3. Como você vê seu trabalho dentro da cena cultural/artística brasileira contemporânea? Qual contribuição pretende dar com ele?

André Sampaio: Eu vejo várias cenas culturais e artísticas, sendo o Brasil um país diverso e continental como é. Meu trabalho musical dialoga com algumas dessas cenas, principalmente a da música independente de origem periférica. Desde os tempos que tocava reggae, vindo de Vila Isabel, Zona Norte carioca, conhecendo e fazendo shows em periferias de todo o Brasil, e também no que chamamos de cena da música urbana brasileira, que na verdade poderia ser chamada de música negra brasileira, já que quase toda ela possui origens e elementos de origem africana.

Dentro de novas cenas que buscam romper com padrões estéticos e culturais eurocentrados, meu trabalho tem circulado e tenho conseguido excelentes diálogos e trocas com artistas, mestres e mestras africanos e da diáspora como Vieux Farka Toure e Basskou Kouyate (Mali), Tony Allen e Keziah Jones (Nigéria), Cacique 97 (Moçambique/Portugal), Hampate Gaye e Zal Sissokho (Senegal), Sekou Diarra (Burkina Faso), Vox Sambou e Rebel Layonn (Haiti), Don Carlos e The Congos (Jamaica), Bnegão, Bongar (PE), Marcelo D2, Jorge Du Peixe, entre outros. O produto dessas trocas fez com que minha música tenha alcançado ótima repercussão dentro e fora do país, em um nicho muito novo, e em construção, que é o da World Music contemporânea.

Com isso, busco contribuir justamente propondo diálogos e pontes através do fazer musical. Nossa forma mais ancestral de comunicação, a música se reinventa ao longo de nossa História, com as transformações sociais e tecnológicas sendo força motriz dessa constante evolução. No atual mundo globalizado, ainda conhecemos tão pouco dessas culturas que nos formaram que são as de matriz africana e acredito que a arte sonora pode cumprir esse papel de nos re-aproximar para que possamos nos re-conhecer e construir novas possibilidades em conjunto.

Evna Moura: Entendo que meu trabalho origina-se e pode ser atribuído à observação crítica do lugar e das experimentações artísticas dessas relações que surgem da natureza, do corpo/político (meu e dos outros) e de referências históricas. Experimento linguagens artísticas e contemporâneas nisto, também considerando que o método artístico já não está mais apenas na prática pré-estabelecida de início, mas na experiência pessoal vivida na região. Busco contribuir de alguma forma com reflexões atuais de estudos do imaginário amazônico, compreendendo nestas questões a sua importância.

Gustavo Melo Cerqueira: Nunca me dediquei a pensar muito sobre isso. Confesso que tenho uma tremenda ignorância sobre a cena artística brasileira. Tenho, talvez, um pouco mais de conhecimento sobre a cena negra no Brasil, mas também não me julgo um profundo conhecedor, ainda que dela eu seja estudioso e pesquisador. Acho que opero numa chave que surge das cinzas dos esgotamentos. Ou melhor, do que para mim são esgotamentos. Primeiro, importante lembrar de que me situo no cruzamento do estético e do político. A partir daí, sinto que estou num lugar em que a palavra, ao menos a palavra que tenta fazer sentido, já se mostrou falha. Também sinto que meu trabalho não se quer respeitável, não se quer belo, não se importa em produzir representações identificáveis ou inspiradoras. Ainda que o contrário do que busco esteja em voga, e ainda que eu reconheça a sua importância, não é por onde me importo em operar. Por ter o corpo como foco, procuro trabalhar num grau de “sensorialidade” que tende ao aleatório e caótico e a um esvaziamento de expectativas quanto à lógica e coerência. Deve ter um monte de gente que trabalha nesta direção. No Brasil e em muitos outros lugares. Mas confesso que nunca busquei me situar quanto a isso. Mas isso vem mesmo de minha ignorância, de quem já se esgotou da avidez pelo consumo de arte. De quem está, mesmo, desatualizado. E não sente a menor dor por isso. Mas acho que na arte negra que se dá no Brasil, penso que posso vir a contribuir para um caminho cada vez mais livre em se tratando de expressão político-estética. Acho que é por aí: acho que meu trabalho contribui para ampliar o que se pensa sobre política na arte.

Leá Cunha: O trabalho de composição de imagem-ritual acontece num momento atual de efervescência de produções negras que assumem nas suas vivências e culturas negras um princípio de elaboração estética. Se houver alguma pretensão em contribuir com algo neste cenário tão rico, de artistas tão incrivelmente capazes de tornar sua cultura o ponto de partida para realizações visuais, o Laboratório se junta a esse bonde e propõe uma busca de nossas raízes como premissa de uma produção artística. 

4. Esse ano completamos 200 anos de Independência do Brasil e 100 anos da Semana de Arte Moderna. Como vê a busca por uma reconstrução da ideia de identidade brasileira e como seu trabalho dialoga com isso?

André Sampaio: Acredito que assim como nossa constituição étnica, as identidades brasileiras são muitas e diversas. O modernismo da semana de 22 foi um ponto importante de mudança de olhar sobre essa ideia de identidade brasileira, buscando sair dos cânones eurocêntricos e debruçando sua atenção nas outras matrizes – de origem indígena, africana e mestiça – que nos compõem. A principal crítica que tem sido cada vez mais levantada a esse movimento é que ele ainda parte majoritariamente de artistas e intelectuais brancos e/ou da elite, portanto ainda persiste a questão dos objetos dessas pesquisas e olhares – o que chamamos de “povo brasileiro” – ficarem longe da produção artística sobre si mesmos.

A grande mudança que vem ocorrendo nos últimos anos diz respeito propriamente a isso: os que anteriormente eram objeto de estudo e fazer artístico têm cada vez mais se tornado sujeitos e porta-vozes de suas próprias estórias. Acredito que, no meu caso, a contribuição que busco dar desde sempre é trazer os mestres, mestras, atores culturais para o centro de minhas obras, estabelecendo polifonias com discursos diversos em torno de temas comuns. Esses mestres e personagens têm nome, sobrenome, estória e voz próprias, e acredito que um dos grandes diferenciais do meu trabalho é justamente trazer toda essa riqueza diversa em forma de composições e canções.

Realmente acredito na música como ferramenta de transformação e construtora de pontes.

Evna Moura: Eu acredito que pensar no futuro, sob qualquer ponto de vista de reflexão atual (seja ele ecológico, científico, político ou artístico) é pensar na ancestralidade. Para mim o futuro é ancestral. Aílton Krenak cita este pensamento como a nossa única chance para adiar o fim do mundo. Portanto, pensar em identidade ou na concepção de uma reconstrução é olhar para trás e tentar entender e identificar com o que deixamos de nos conectar em relação a nossa história. Tanto em termos teóricos, quanto em termos práticos ou simbólicos. Estamos hoje não apenas vivendo, mas resistindo (o que não deveria ser o ideal) e tentando reproduzir as diversas formas de vidas ancestrais, lançando assim esses questionamentos sobre identidade. A arte tem, em sua potência, a capacidade direta em promover esses debates, o que já provocava há 100 anos na tentativa de repensar as influências europeias e buscar entender bem mais a identidade dos nossos povos tradicionais. Eu espero que meu trabalho consiga atuar através desses diálogos e suas ambivalências existentes na atualidade.

Gustavo Melo Cerqueira: Que dizer? Sou baiano, da cidade de Salvador, a antiga Cidade da Bahia, com raízes muito profundas noutras partes do Recôncavo Baiano onde, aliás, está situada a Ilê Axé Omi Ogun siwajú, da qual sou babalorixá, mas que foi fundada nas primeiras décadas do século XX por meu bisavô Mamédio Silva, o Mamédio de Ogun. Muitas lutas foram travadas nessa região. A Bahia, de certo modo, impôs grandes desafios para a construção de uma unidade nacional. E fez isso por se rebelar, através dos mais diversos agentes, e por motivos também muito diversos, conflitantes e nem sempre louváveis. As autoridades portuguesas sempre encontraram na Bahia uma enorme resistência em aceitar sua autoridade. Aqui era fogo no canavial! Aqui tinha envenenamento, fuga e construção de outros modos de viver! Aqui era articulação para sabotagem de políticas impostas pela Coroa. Aqui era traição de companheiros de revolta para atender a vontade da Coroa quando essa vontade correspondia à vontade de quem ocupava postos estratégicos. Aqui tinha movimento de separação da Coroa que não necessariamente significava se unir às outras capitanias. Nosso projeto de uma tal identidade brasileira infelizmente se compraz com os silenciamentos do caos que forjou nossos corpos. Eu não tenho a menor apreciação ou desejo por uma identidade brasileira. Podem inventá-la, podem até conseguir torná-la factível. Mas que meu trabalho não sirva a isso! Estou no Brasil, chamado de brasileiro por aqui ter nascido, mas não vislumbro a menor viabilidade de uma identidade brasileira, no sentido de algo que nos identifique como povo. Mesmo a distribuição de sofrimento, é tão desigual, que não será suficiente para forjar uma tal identidade brasileira. Identidade brasileira? Minha visão não alcança isso, não. Meu trabalho não se presta a isso, não. Pode até vir a ser utilizado para tal. Mas isso está bem longe do que proponho com ele.

Leá Cunha: Sabemos que a independência do Brasil, aquela representada nos livros de história pelo grito másculo, branco, real e escravagista na figura de D. Pedro I às margens do Rio Ipiranga, datada em 1822, é marcada pelo pacto entre a realeza, os donos de grandes latifúndios e “senhores” de milhares de pessoas africanas escravizadas.

Interessa-nos muito mais os movimentos que a história oficial apagou, de lutas e levantes de grandes mulheres negras como a Maria Felipa, uma líder na batalha pela independência do país na ilha de Itaparica, e Luiza Mahin, que liderou pessoas escravizadas na revolta dos Malês em Salvador. Interessa-nos as tantas outras revoltas com protagonismo negro, que contribuíram imensamente para a independência, como a conjuração baiana e a revolução pernambucana, a Balaiada no Maranhão, etc…

Sabemos também que a semana de arte moderna de 22 foi uma invenção da elite branca do sudeste brasileiro, há inúmeros movimentos modernos concomitantes à semana da arte moderna de São Paulo e inúmeros artistas negros que foram rechaçados da semana se 22, e sobre a qual a história oficial não fala. Tais como Lima Barreto, Pixinguinha, Lindo Guedes, os irmãos João e Artur Timóteo, entre outres.

Como disse o Januário Garcia “Há uma história do negro sem o Brasil, mas não existe uma história do brasil sem os negros.” Seguimos trabalhando na nossa arte, existindo e resistindo.

Ilustração: Joana Lavôr

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