Homenagem | O novo movimento teórico: fracasso de uma geração? Dois fragmentos, por André Botelho

No “Alexander Day” que a BVPS promove neste dia 16 de outubro de 2024, se juntando às comemorações a Jeffrey C. Alexander por ocasião da sua aposentadoria na Universidade de Yale, trazemos mais um texto para adensar a reflexão sobre a sua contribuição. Certamente, um dos sociólogos mais criativos e consistentes da sua geração, Alexander tem tido recepção importante no Brasil, sobretudo, após a virada cultural que promoveu na teoria sociológica.

Publicamos agora dois fragmentos do material inédito do exame de titularidade de André Botelho, a ocorrer no próximo dia 29 de outubro no Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Neles, Botelho reflete sobre “O novo movimento teórico”, de Alexander, considerando-o, primeiro, como um verdadeiro manifesto proposto à sua geração intelectual; segundo, questionando se o desafio de buscar novas sínteses entre ação e estrutura, ou indivíduo e sociedade, não teria fracassado. A teoria sociológica contemporânea se caracteriza, para ele, por desenvolvimentos disjuntivos do problema. O mal-estar que Botelho assume com esse fracasso não diz respeito somente ao relativo vácuo que ele deixou na teoria hoje. Mas, lembrando Margareth Archer, sugere que a relação entre agência e estrutura precisa ser enfrentada permanentemente, pois ela codifica a própria condição humana do ponto de vista diferencialmente sociológico.

Boa leitura e não deixe de acompanhar nosso Instagram!


O novo movimento teórico: fracasso de uma geração? Dois fragmentos

Por André Botelho (UFRJ)

Juntando-me às homenagens a Jeffrey C. Alexander, por ocasião de sua aposentaria na Universidade de Yale, compartilho dois fragmentos do material inédito do meu exame de titularidade no Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a realizar-se no próximo dia 29. O primeiro fragmento consta do memorial “Emaranhado André Botelho” (com publicação prevista pela Editora Hucitec). O segundo deles será desenvolvido na conferência que ocorrerá na tarde do dia 29 na sala Evaristo de Moraes Filho, intitulada “Indivíduo possível, sociedade improvável. Sociologia e memorialismo”.  

* * *

Fragmento um. Dizia antes que a relação entre indivíduo e sociedade está no centro dos meus interesses de pesquisa e que isso se deve ao encontro, de um lado, de curiosidades pessoais primárias, com, de outro, o movimento teórico mais amplo dos anos da minha formação profissional.

Aliás, “O Novo Movimento Teórico” é justamente o título de um texto marcante de Jeffrey C. Alexander, publicado em 1987 pela Revista Brasileira de Ciências Sociais. Recentemente, mais precisamente no ano passado (2023), tive a oportunidade de rever este debate teórico na disciplina de Teoria Sociológica II, ministrada no PPGSA, cuja ementa reproduzo:

“As inovações na teoria sociológica nunca se fazem desacompanhadas das pesquisas empíricas e das próprias transformações sociais que visam explicar. Mas também não da própria tradição que vem se forjando desde os autores clássicos, mesmo quando novas teorizações levam a sociologia para além deste marco inicial.

Tradição que, ademais, sempre foi objeto de controvérsia e problematização constantes e que mais recentemente vem sendo aberta também em termos de gênero, de raça, de geopolítica, de historicidades. Esta dinâmica própria da teoria sociológica ajudou, igualmente, a transformar nossa percepção da vida social, de seus paradoxos, impasses e possibilidades no século XX, permitindo trabalhar a complexidade crescente da vida social no século XXI em curso.

Do ponto de vista diferencialmente teórico, esse campo problemático pode ser reconstruído a partir de uma questão teórica central: a tensão entre estrutura e ação nas condições de possibilidade e de mudança da vida social, na modelagem dos processos, relações e nas ações sociais e mesmo nas subjetividades individuais.

É este o plano da disciplina que, talvez, de modo um pouco provocativo, discutirá o possível fracasso daquilo que nos anos de 1980 ficou conhecido como o “novo movimento teórico”, tal como o denominou Jeffrey C. Alexander, que prometia novas sínteses entre estrutura e ação que, no entanto, não lograram êxito suficiente para superar formulações muitas vezes dicotômicas. Também nesse caso, porém, o reconhecimento do fracasso não implica em enfatizar limites, mas, antes, de compreendê-los e, com base no aprendizado social que permite, sugerir novas hipóteses e uma agenda teórica consequente.

Teorizações contemporâneas têm levado à reformulação de problemáticas persistentes e de conceitos básicos do repertório teórico da sociologia em direções menos convergentes à pauta do “novo movimento teórico” e tem permitido inovações teóricas consistentes.

A disciplina está dividida em três módulos. O primeiro, de caráter introdutório, visa a estabelecer a gramática básica das discussões propostas. Problemas gerais como a lógica  da teoria sociológica, os significados de “teoria contemporânea” e mesmo de “contemporâneo”, os desafios do desconhecido etc. serão discutidos. O segundo módulo reconstrói a agenda de debates teóricos sobre estrutura e ação tomando como marco inicial o legado de A estrutura da ação social (1937), de Talcott Parsons, e o impacto do funcionalismo em autores como Anthony Giddens, Pierre Bourdieu, Jürgen Habermas e Margareth Archer.

Cada um a seu modo, eles exploram a tensão interna entre ação e estrutura que Parsons havia tentado reconciliar (sobretudo a partir das obras de Émile Durkheim e Max Weber, pois exclui Karl Marx do cânone sociológico) e traçam teorias alternativas.

O terceiro módulo discute como as teorizações mais recentes parecem, porém, contrariar a busca de novas sínteses para o problema da ação e estrutura, como prometia o novo movimento teórico, perfazendo caminhos alternativos que, acabam por abandonar o problema, acentuar um termo da relação ou mesmo repor dualidades. Niklas Luhmann, Sidney Tarrow, Patricia Hill Collins, Jeffrey Alexander e Danilo Martucelli serão discutidos neste módulo”.

Grifo a hipótese geral da disciplina: as teorizações mais recentes parecem, porém, contrariar a busca de novas sínteses para o problema da ação e estrutura, como prometia o novo movimento teórico, perfazendo caminhos alternativos que, acabam por abandonar o problema, acentuar um termo da relação ou mesmo repor dualidades. Não penso, porém, que o fracasso da geração de sociólogos que me formou tenha sido em vão. Ao contrário, e, grifo novamente, embora boa parte de teorias tenham desistido pelo caminho, esse fracasso em encontrar novas proposições sintéticas sobre as relações entre ação e estrutura, indivíduo e sociedade, acabou por nos mostrar que não é outro mesmo o desafio da sociologia, este é seu trabalho de Sísifo.

* * *

Fragmento dois. Quanto a Jeffrey Alexander, autor do manifesto de uma geração, pode-se observar um progressivo neofuncionalismo no desenvolvimento dos seus trabalhos. Seu “programa forte” para a teoria sociológica contemporânea prescreve uma teoria cultural erguida sobre a sociologia da religião de Émile Durkheim, ainda que procure guardar a autonomia relativa da cultura às condições próprias de uma modernidade complexa e contingente. Como, por exemplo, em seu Performance and Power (2011).

Como o próprio Alexander, outras teorizações contemporâneas têm levado à reformulação de problemáticas persistentes e de conceitos básicos do repertório teórico da sociologia em direções menos convergentes à pauta do “novo movimento teórico”. 

Atualmente, vemos surgir um campo fraturado e sem comunicações. De um lado, a, talvez, mais consistente teorização contemporânea, a chamada teoria dos sistemas de Niklas Luhmann, um autor ainda fronteira a ser cruzada no cotidiano da sociologia em geral. Impressionam-me, particularmente, suas análises dos meios de comunicação simbólica generalizada, nas quais destaca o papel da semântica na estruturação contingente da vida social vista como um processo intersubjetivo de constituição de sentido e de construção do mundo.

Assim, uma teoria da sociedade faz parte do tecido da sociedade que ela descreve, ou, o que dá no mesmo, uma teoria da comunicação é ela própria comunicação. Desse modo, o sujeito do conhecimento ou da observação (a teoria da sociedade) e o objeto conhecido ou observado (a sociedade) constituem “momentos” de uma espiral contingente de retroalimentação paradoxal.  

Mas, nessa construção, não há espaço para o indivíduo, que foi realocado no sistema psíquico. Ele não faz parte, senão indiretamente, por comunicações sistêmicas, da sociedade, que também forma outro sistema próprio.

De outro lado, vemos emergir todo um campo identificado como “sociologias do indivíduo” por Danilo Martuccelli e François Singly (2012), Las sociologías del individuo, ou Bernard Lahire (2002, 2004), O homem plural e Retratos sociológicos: disposições e variações individuais, por exemplo. 

Martuccelli e Kathya Araujo têm uma particularidade importante: trabalham extensivamente com o individualismo latino-americano. Na interpretação de Martuccelli, o “individualismo agêntico” é uma “variante do individualismo” a que se chega por uma crítica de pressupostos da teoria clássica, com destaque para Durkheim, segundo o qual “o individualismo é um fenômeno que não começa em lugar algum, mas que se desenvolve, sem parar, ao longo de toda a história” (Durkheim apud Martuccelli).

Seja como for, o interesse pelo indivíduo na disciplina tem se mostrado potente o suficiente para atingir a própria teorização sociológica como um todo. Quando a individualização e a organização do eu como projeto reflexivo se impõem de maneira sem precedentes, torna-se necessário rediscutir a própria modernidade. Foi o que fizeram, entre outros, Ulrich Beck (2011) em Sociedade de risco, Ulrich Beck e Elisabeth Beck-Gernsheim (2002) em Individualization: institutionalized individualism and its social and political consequences (2002). O processo de individualização característico do que esses autores consideram a “segunda modernidade” ou “modernidade reflexiva” (historicamente, a partir do pós-Segunda Guerra Mundial) diz respeito, fundamentalmente, ao aumento das condições de possibilidade de uma espécie de imperativo moral a favor da autodeterminação pela escolha, segundo o qual o indivíduo deve sempre pesar suas opções e fazer uma escolha, arcando com seus riscos.

Aqui, o paradoxo social da individualização se recoloca: ao mesmo tempo em que o indivíduo é impulsionado a determinar e desenhar sua própria vida, encontra-se à mercê de uma série de constrições novas para o desenvolvimento de sua individualidade, a começar pelo próprio princípio de incerteza que a todos atinge. É para esse novo tipo de sociedade submetida a fortes e novos riscos ligados aos processos de individualização em curso que essa sociologia se volta: mudanças organizacionais do trabalho, dos estilos e modos de vida, das estruturas de poder e das formas de dominação política e de participação, da concepção de tempo, particularmente a compreensão sobre o futuro, alteram os laços sociais e parecem decretar o fim das biografias estáveis.

* * *

Concordo com a socióloga britânica Margareth Archer quando ela afirma que não é casual que o binômio “agência” e “estrutura” tenha se tornado o ponto fulcral da teoria social moderna. Esta é uma questão não apenas teórica, mas da ordem da experiência dos próprios atores sociais, afinal, faz parte do cotidiano “sentir-se livre e acorrentado, capaz de moldar nosso próprio futuro e, ainda assim, confrontado por restrições imponentes e aparentemente impessoais”, como diz Archer. Por isso, indivíduo e sociedade ou ação e estrutura cifram o “problema social mais premente da condição humana”.

Justamente por essa razão, não podemos nos furtar a enfrentá-lo a cada geração. Não importa se conseguiremos resolvê-lo. Mas para cumprir nosso destino de sociólogos, temos que reformulá-lo nos termos da nossa geração. Para que as próximas se beneficiem e cumpram também o seu papel, como nós nos beneficiamos da ousadia de grandes teóricos, como o homenageado nesta pequena série, Jeffrey C. Alexander.