Tradução-Exu (I): Uma A Outra Fúria

Abrindo os trabalhos (e caminhos) da coluna Interpretações do Brasil e poéticas este ano, começamos hoje a publicação da série Tradução-Exu, uma parceria da coluna com a pesquisadora Alice Faria (UFRJ). Durante toda a semana, publicaremos textos que dialogam com a proposição teórico-tradutória de André Capilé (UERJ) e Guilherme Gontijo Flores (UFPR) em Uma A Outra Tempestade e Tradução-Exu: ensaio de tempestades a caminho, ambos publicados pela editora Relicário em 2022.

O primeiro post da série, que lemos hoje, é uma crítica do espetáculo Fúria, apresentado pela Cia. de dança Lia Rodrigues no Centro de Artes da Maré, no Rio de Janeiro, no fim do ano passado. Nela, Alice reflete sobre sua experiência de espectadora traçando relações entre o espetáculo, A tempestade (1610), de Shakespeare, Une têmpete (1969), de Aimé Césaire, e a Tradução-Exu Uma A Outra Tempestade (2022), de Capilé & Flores.

O segundo post, que publicaremos na próxima quarta-feira, dia 25, é uma entrevista dos autores, conduzida por Alice, feita segundo o mesmo procedimento de autoria coletiva usado em Uma A Outra Tempestade e Tradução-Exu: ensaio de tempestades a caminho (2022). Armadas num editor de texto online, as respostas performam a tensão entre unidade, ambiguidade e diferença legível na figura do Exu e nos textos sobre os quais os autores respondem.

Fechando a série, na sexta-feira desta semana, publicamos ainda um trecho de Tradução-Exu: ensaio de tempestades a caminho (2022), em que se lê a elaboração do núcleo teórico da proposição tradutória ao mesmo tempo em que se traça o contraponto desta em relação a outras posturas do repertório especializado diante do problema da tradução.

Boa leitura!

– Lucas van Hombeeck

(Curador da coluna Interpretações do Brasil e poéticas /

Editor-executivo do Blog da BVPS)

Filho de faísca é fogo/ se entra no jogo é pra incendiar (Império Serrano, 2022)

e eu vou é continuar a minha fúria (Caliban, já X, p.188)

Encontrei Lucas no lançamento carioca da dupla de livros Uma A Outra Tempestade [tradução-exu] e Tradução-Exu [ensaio de tempestades a caminho], os dois de André Capilé e de Guilherme Gontijo Flores, publicados pela editora Relicário nesse segundo semestre de vinte vintedois. Os livros formam par:

um ensaio teórico sobre tradução, que brotou de um curso de pós-graduação (integralmente disponível no Youtube) ministrado durante o isolamento da pandemia de Covid-19 pelos dois autores na UFPR,

e uma tradução da peça A tempestade (1610), de Shakespeare, e da experiência Une têmpete (1969), de Aimé Césaire, isso tudo a partir da proposta de tradução-exu apresentada no ensaio teórico.

Mesmo antes da publicação, os livros se tornaram meus objetos de estudo e o lançamento veio para ler na voz alta de outras pessoas as páginas já anotadas. Os personagens de Capilé, Flores, Césaire e Shakespeare, nessas muitas tempestades, já me habitavam há um tempo e este Caliban, sem dúvida, roubou a -minha- cena.

No lançamento dos livros soltei uma frase para Lucas que me rendeu o convite para escrever. Não fazia nem uma semana que a gente tinha se visto no Centro de Artes da Maré, na fila para ver Fúria, da Lia Rodrigues Companhia de Dança. Eu lancei:

que Caliban, o Caliban de Capilé e Flores, de Césaire e, em certa medida, de Shakespeare, também tinha aparecido para falar no monólogo da última cena do espetáculo de dança.

FÚRIA

No sábado, a Lia Rodrigues Companhia de Dança performava pela 100ª vez Fúria e eu já tinha tido a oportunidade de ver o espetáculo uma a outra vez. O Centro de Artes no Complexo da Maré serve de casa para a companhia de dança contemporânea desde 2009 e é lá que são criados e exibidos gratuitamente os espetáculos. No galpão também funcionam a Escola Livre de Dança da Maré e o Núcleo 2, curso de formação prática e teórica em dança. Como a companhia tem agenda internacional cheia e acaba tendo poucos dias de temporada carioca, o galpão estava lotado, com público apinhado até quase o palco de dança.

O arrebatamento foi ninado pela trilha sonora de batidas em looping das Canções Kanak, da Nova Caledônia, gravadas entre 1984 e 1987 – o som sempre repetido parecia tirar o tempo da equação. Em meio a plástico, galhos e tecidos, material todo coletado do complexo de favelas da Maré, os dançarinos se demoravam em movimentos pesados e em cortejos quase sempre cíclicos pelo palco. A velocidade retida dos movimentos gerava sempre quadros novos de violência e dessa fúria motor, mas não só:

“Com esses materiais, você pode criar o que quiser – um rei, uma rainha, um barco, uma procissão”, diz Lia.

Quando a música constante e em looping é cortada, o silêncio até breca.

Enquanto outra cena se desenrolava no primeiro plano do palco sem coxias, o dançarino Leo Óndres enrolava um longo tecido vermelho em várias voltas em torno da sua cara e de seu pescoço. A trilha é interrompida no susto do silêncio e ele toma a palavra. O tecido que o mascara, também mascara a voz pouco compreensível. São palavras em português, francês, inglês, iorubá e espanhol. Leo me disse que faz um mix e em cada país deixa alguma das línguas sobressair. Quando ouvimos no sábado, o trecho mais compreensível do monólogo eram nomes de países africanos que ele listava a cada volta de tecido que desenrolava de seu pescoço. Numa das voltas desfeitas, é Brasil que soa alto.

A falta de compreensão, nitidamente intencional, fez transparecer o tom soberbo, regino do monólogo. Os movimentos eram reais e altivos, a cabeça se mantinha erguida e a mão empunhava ameaçadoramente uma vara de feiticeiro.

É assim que imagino Caliban.

TRADUÇÃO

A tradução que Capilé e Flores se propuseram fazer da peça de Shakespeare opera com o contraste da homenagem e da rasura. Não há objetivo de fazer desaparecer a figura dos tradutores, criando uma ilusão de que se lê o mesmo texto de 1610, mas de fazer ressoar coisas que o texto fonte faz transparecer ou mesmo cala. A tradução-exu, explicam, não é um sonho de recriação paralela, em outra língua. Ela traz o texto fonte e simultaneamente apresenta uma resposta (crítica?) a ele, rasurando até a ideia do original. Flores, em uma das lives publicadas no Youtube, propõe que a tradução-exu seria uma aposta num princípio de ação – seria, então, algo diferente da transcriação de Haroldo de Campos, mas um recantamento. E Exu, divindade de tantas religiões de matrizes africanas, é o movimento. Além de ser o princípio ativo em todas as coisas, Exu é mensageiro e carrega em si a contradição. A tradução-exu seria um dispositivo, portanto, que coloca o paradoxo no centro da cena, reverenciando e destruindo simultaneamente o texto de partida.

Flores e Capilé recantam o Shakespeare (ou Xispirito, como renomeam ou traduzem no monólogo de Miranda ao final da peça) d’A tempestade, considerada a última peça que o autor escreveu. O cenário, tão diferente das outras comédias e dramas do autor, traz um admirável mundo novo, uma terra para além-mar e para além Europa, para a qual são enviados em exílio Próspero e sua filha Miranda. Caliban é personagem escravizado por Próspero e é descrito como meio fera meio homem. É tanta coisa que faz ponte com o que aconteceu aqui nas Américas que não é à toa que a comédia sirva como chave de leitura para várias áreas de pensamento pós-colonial.

Mas o que Flores e Capilé recantam aqui não é só o texto de Xispirito: há também o de Césaire. Aimé Césaire (1913-2008), poeta martinicano e pensador-chave do movimento da negritude, pega a peça canônica e propõe uma “adaptation pour un théâtre nègre”. Essa classificação aparece como subtítulo do livro publicado em 1969 e sinaliza que o texto não se propôs a ser uma tradução, por mais que haja seções inteiras idênticas à tradução consagrada francesa, feita por François, filho de Victor Hugo, publicada em 1859. A semente da tradução-exu já está por lá: Césaire inclui cenas e diálogos, faz uma descrição racial de Caliban e Ariel, personagens que implicitamente são racializados por Xispirito, e põe os dois para conversar sobre liberdade. Césaire (ou Cesário, na boca de Miranda) também faz uma adição marcante: no rol de divindades gregas que aparecem para celebrar o matrimônio dos dois mocinhos xispirianos Miranda e Ferdinando, é Exu quem ri da cara de Próspero.

A tradução-exu esta(rá?) ali na inserção de Exu como personagem xispiriano por Cesário? Flores e Capilé passam por cima da classificação de adaptação e experimentam ler Une têmpete como tradução.

Vale uma ressalva: o texto de Cesário reencena pouco dos jogos de linguagem, de métrica e de variação de registro que faz Shakespeare no século XVII. A peça traduzida por Cesário traz o francês parisiense quando coloca Ariel e Caliban para contracenarem. Não é o francês da Martinica que brilha e brinca em Une têmpete, mas a língua europeia.

Capilé e Flores, em contraposição, criam um jogo linguístico muito complexo: cada personagem falando em formas métricas diferentes, com uma riqueza de línguas, linguagens, registros e anacronismos que dão gosto (a tradução conta com um prefácio de Paulo Henriques Britto, que aponta a pluralidade métrica e poética do texto de Flores e Capilé).

Dão tanto gosto os jogos linguísticos encenados n’Uma A Outra que é difícil ficar parado. Na Balada do livro inteiro [1], organizada e sediada por Heyk Pimenta em sua casa no centro do Rio de Janeiro – evento que propõe a leitura completa de livros recém-publicados seguida por uma sabatina do autor –, umas 30 pessoas puderam ouvir e participar da leitura dramática a 16 vozes da peça recém-publicada. O texto provocou muito riso solto e, ao final, gritaria.

CALIBAN

Lia Rodrigues diz que é possível criar o que quiser – rei, rainha, barco, procissão – com os materiais coletados. Pois de náufragos e exilados são criados um doge de Milão, uma princesa, um barco e um banquete, em Uma A Outra Tempestade. E de um tecido vermelho, de um monólogo meicompreensível e de um dedo em riste, é criado Caliban, em Fúria.

O Caliban de Lia Rodrigues e Leo Óndres e

o Caliban de Flores, Capilé, Cesário e Xispirito

têm muitas línguas em suas falas.

Próspero chama aos suspiros …

Caliban! Caliban!

Vem, terra, fala! Mas que jabuti

Caliban entra em cena

Uhuru!

Próspero

Quê que cê disse?

Caliban

Òmìnira. Fúnlèfólorum. Iko Tema. (Uma A Outra Tempestade [tradução-exu], GGF & AC, 2022, p. 50)

Como diz Helena Martins no posfácio da tradução, “os ignorantes precisam conviver com o misterioso fio sonoro” (Tradução-Exu: ensaio de tempestades a caminho, GGF & AC, 2022, p.218) das várias línguas de Caliban. Também no monólogo do espetáculo de dança, o fio sonoro de variadas línguas e entonações guarda seu mistério sempre novo nas cem reiterações.

Em Fúria, Caliban se banha em sangue, sem recuar ou se abster da violência. Caliban pinta um corpo deitado ao chão com tinta negra e secreta uma espuma branca pela boca coberta de vermelho enquanto grita.

Caliban em tempestade (que exige e passa a ser chamado de X) também não recua da violência, ao contrário, parece buscá-la:

Se acaso me faltar a pedra de Xangô,

e vir que nessa estreita via eu tô perdido,

deixa eu roubar alguns barris de pó do inferno,

e boto pelos ares esta ilha;

é meu trabalho, dela sou dono. E suncê

lá no tampo de azul no firmamento,

onde por gosto paira, vai só ver.

No meio dos escombros eu e Próspero.

Que o show de fogos de artifício ocê aprove:

será um X de chispa no céu do meu nome. (Uma A Outra Tempestade [tradução-exu], GGF & AC, 2022, p.73-74)

Como diria o dito popular: foguete não dá ré. E nem breca o embate.

Caliban, em uma e noutra peça, entra no jogo é para incendiar.

Este texto foi escrito na ansiedade do entre turnos das eleições de vinte vintedois. Nesse momento, fúria é motor que move – mobiliza corpos para conseguir seguir em frente. Mais uma tempestade é gestada no horizonte.


[1] Nas palavras de Heyk Pimenta: “A balada do livro inteiro é um encontro para escuta de poesia. Uma vez por mês um livro é lido na íntegra por quem o escreveu na minha casa, na praça Tiradentes, centro do Rio de janeiro. A finalidade do evento é reunir autor e leitores, ouvintes no caso, para trocarem leitura e escuta. Uma vez que ouçam o livro, as pessoas convidadas podem contribuir criticamente com o obra, posicionando-se, comentando, fazendo perguntas, que podem ser respondidas pelo autor.
A proposta é que o público se familiarize com a convivência longa, o que chamamos de escuta em longa metragem, de um livro de poemas. A atenção e a imersão são ferramentas importantes para que aconteça a resposta ao autor. Esse que raramente sabe o que pensam sobre o que escreve.
A cerveja, as comidas, as pessoas todas jogadas na sala de um apartamento modesto criam ambiência para esse mergulho, ao vivo, na crítica e na poesia.
Já aconteceram 12 edições do evento. Ele acontece desde 2019, mas foi suspenso durante os momentos mais críticos da pandemia da Covid19.
Pretendemos continuar em 2023.
É importante frisar que tanto o júri como os livros são escolhidos por chamada aberta e que isto é feito em anonimato, quem julga a obra não sabe o título, a editora ou o autor do material que está avaliando.
Acreditamos que assim esquivamos dos nomes badalados e das editoras imponentes, sobram os poemas. Eles têm que se valer.
A balada do livro inteiro é política pública, ou privada, já que acontece dentro de um apartamento, mas se pretende um método de recepção, popular, festeiro e atento.”

 

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