LANÇAMENTO DO LIVRO “AS LÓGICAS SOCIAIS DO GOSTO”, POR CAROLINA PULICI E DMITRI FERNANDES (ORGS.)

O Blog da BVPS convida para o lançamento do livro “As Lógicas Sociais do Gosto”, organizado por Carolina Pulici e Dmitri Fernandes. O livro conta com as contribuições de Camila Rosatti, Ricardo Teperman, Louis Pinto, Fábio Ricardo Ribeiro, Heloisa Pontes, Rafael Nascimento César, Edison Bertoncelo e Julien Duval, além do prefácio assinado por Monique de Saint-Martin.

O lançamento ocorrerá segunda-feira, 22 de abril, às 19 hrs, no Futuro Refeitório (Rua Cônego Eugênio Leite, n.808, Pinheiros – São Paulo/SP).

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Confira abaixo o resumo e sumário do livro.

AS LÓGICAS SOCIAIS DO GOSTO
Carolina Pulici e Dmitri Fernandes (orgs)

Entre a estética filosófica ocupada com a problemática universalista do belo, os estudos de comunicação centrados no impacto ideológico da indústria cultural, as pesquisas de marketing à caça de consumidores e os levantamentos estatísticos destinados a orientar as políticas públicas empenhadas na democratização do acesso à cultura, o gosto foi, tradicionalmente, um objeto de estudo pouco dignificado na hierarquia temática vigente nas ciências sociais brasileiras. Diante desse que se acredita ser um campo emergente de pesquisa, as contribuiç ões reunidas em As Lógicas Sociais do Gosto investigam a gênese social das preferências em diferentes domínios artísticos, apreendendo as predileções e competências culturais na ótica dos processos de valorização e depreciação social que estruturam a vida em sociedade.

Préfácio
Monique de Saint-Martin

Por uma sociologia do gosto no Brasil
Carolina Pulici e Dmitri Fernandes

A alimentação solene e parcimoniosa: práticas gastronômicas como fonte de distinção das elites paulistanas
Carolina Pulici

Moderno sob medida: produtores e clientelas do mobiliário paulistano nos anos 1950
Camila Gui Rosatti

Pode aplaudir que a orquestra é sua: o recrutamento social do quadro de assinantes da Osesp como estratégia de consolidação
Ricardo Teperman

O discurso cultivado sobre a arte: o “museu egoísta” do Nouvel Observateur
Louis Pinto

Uma janela para o mundo: a apreciação socialmente diferenciada de telejornais policiais brasileiros
Dmitri Fernandes
Fábio Ricardo dos Anjos Ribeiro

Cidades, palcos e públicos: Rio de Janeiro e São Paulo em dois atos
Heloisa Pontes
Rafael do Nascimento César

Consumo cultural e manutenção das distâncias sociais no Brasil
Edison Bertoncelo

Sobre a transformação do sistema dos gostos na França
Julien Duval

LANÇAMENTO DO LIVRO “VANGUARDA DO ATRASO OU ATRASO DA VANGUARDA?” DE BRUNA DELLA TORRE DE CARVALHO (USP)

O Blog da BVPS convida para o lançamento do livro “Vanguarda do Atraso ou Atraso da Vanguarda? Oswald de Andrade e os Teimosos Destinos do Brasil” de Bruna Della Torre de Carvalho (USP), no dia 12/04, às 18:30 hrs, na Livraria da Alameda (Rua Treze de Maio, 353, Bela Vista, São Paulo/SP).

Abaixo o convite do evento e o resumo do livro.

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Vanguarda do atraso ou atraso da vanguarda? debruça-se sobre as matrizes do conceito de “antropofagia” do modernista Oswald de Andrade, tal como ele foi formulado no “Manifesto Antropófago” de 1928 e em obras posteriores, tais quais a peça O Rei da Vela (1933) e a tese de filosofia A Crise da Filosofia Messiânica (1950), a partir de uma reflexão que busca dar conta dos processos alterativos de constituição de identidades em países periféricos. Oswald de Andrade foi autor de muitas das mais audaciosas experiências de vanguarda na América Latina e seus escritos seguem iluminando a história do Brasil desde então.

 

LANÇAMENTO DO LIVRO “CULTURA E PODER ENTRE O IMPÉRIO E A REPÚBLICA – ESTUDOS SOBRE OS IMAGINÁRIOS BRASILEIROS (1822-1930)”, POR ANA BEATRIZ DEMARCHI BAREL E WILMA PERES COSTA (ORGS.)

O Blog da BVPS convida para o lançamento do livro “Cultura e Poder entre o Império e a República – estudos sobre os imaginários brasileiros (1822-1930)” (SP, Ed. Alameda, 2018), organizado por Ana Beatriz Demarchi Barel (UEG) e Wilma Peres Costa (UNIFESP).

Abaixo disponibilizamos o folder do evento, bem como a apresentação e o sumário do livro.

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INSCRIÇÕES ABERTAS PARA O SEMINÁRIO TEMÁTICO “PENSAMENTO SOCIAL NO BRASIL: LIMITES E POSSIBILIDADES DO CONSERVADORISMO” DA ANPOCS 2019

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Estão abertas as inscrições para comunicações no Seminário Temático 27 “Pensamento social no Brasil: limites e possibilidades do conservadorismo”  do 43o  Encontro da ANPOCS que ocorrerá entre os dias 21 a 25 de outubro de 2019 na cidade de Caxambu/MG.

O prazo máximo para envio dos resumos é até dia 29 de abril.

A ementa: Temas clássicos do pensamento social brasileiro, o conservadorismo da sociedade brasileira e o pensamento conservador voltam com força dramática à esfera pública contemporânea após décadas de expansões democráticas. As sessões deste Seminário Temático serão dedicadas ao tema, mas buscando problematizá-lo e oferecer uma visão renovada, à altura dos desafios intelectuais do presente. Nessa perspectiva, interessa ao Seminário Temático refletir, a um só tempo, sobre condições, traços e matizes do conservadorismo no Brasil e suas ambiguidades, dificuldades e confrontos. Os trabalhos poderão ter como alvo de análise tanto a fortuna intelectual do ensaísmo brasileiro “clássico”, como os movimentos políticos e artísticos e as interpretações científicas históricas ou mais recentes, bem como suas conexões com uma dinâmica internacional de circulação de ideias. Assumimos que a área de pensamento social já tem interfaces e acúmulo de pesquisas que admitem essa agenda decisiva para avaliar consequentemente (tanto do ponto de vista heurístico quanto social) as conexões entre pensamento e processo histórico.”

As regras da submissão você encontrará na p. 5 do Edital cujo link disponibilizamos aqui.

Atenciosamente,

Bernardo Ricupero e Simone Meucci (coordenadores)

 

LANÇAMENTO DA EDIÇÃO AMPLIADA E COMEMORATIVA DE 40 ANOS DE “UMA LITERATURA NOS TRÓPICOS” DE SILVIANO SANTIAGO

O Blog da BVPS convida para o lançamento da edição ampliada e comemorativa de 40 anos de Uma literatura nos trópicos (CEPE) de Silviano Santiago. Além de cinco ensaios deixados de fora da edição original, a nova edição conta com textos críticos que discutem a atualidade desse “clássico” contemporâneo no Brasil hoje. Um trecho de um desses ensaios, “Brasil, um país verossímil”, de André Botelho (UFRJ), pode ser lido aqui. Convidamos também o leitor a revisitar a entrevista sobre o contexto de publicação e recepção do livro que Silviano Santiago concedeu a Andre Bittencourt e Maurício Hoelz no ano passado e que publicamos em primeira mão no Blog.

O lançamento ocorrerá no dia 28 de março, às 19h, na Travessa de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572 – Ipanema – Rio de Janeiro, RJ).

Disponibilizamos abaixo o convite do evento junto com o curta, dirigido e editado por Fabio Seixo, produzido pelo Selo Suplemento Pernambuco da Cepe Editora.

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V SEMINÁRIO BVPS: PENSAMENTO SOCIAL E O DESAFIO DAS METODOLOGIAS INFORMACIONAIS

Convidamos todas (os) para participarem do V Seminário da Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS), a ser realizado nos dias 26 e 27 de março. Desde sua criação, em 2012, a BVPS vem buscando aperfeiçoar e ampliar mecanismos e métodos de armazenamento e catalogação de documentos (teses e dissertações, papers, artigos, vídeos, entre outros) relacionados à área de pensamento social brasileiro e latino-americano e a seus principais intérpretes. Nosso esforço tem sido o de criar estratégias para atender à atualização permanente de nossa base e sobre ela produzir reflexões de pesquisa. Com um objeto tão dinâmico, o estudo da produção e circulação de conhecimento nos exige discutir as potencialidades e também os limites do uso de ferramentas informacionais na área de ciências humanas. O Seminário da BVPS deste ano de 2019 pretende ser um desses fóruns.

O primeiro dia do evento, 26/03, será na Sala Multimídia do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnologia em Saúde (ICICT) na FIOCRUZ (Av. Brasil, 4.365/Manguinhos – RJ) e o segundo dia, 27/03, será na Sala 109 do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ) (Largo São Francisco de Paula, 1 – Centro – RJ).

Abaixo a programação completa do Seminário. Contamos com a presença de todas (os).

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“BLACK FEMINISMS: A TRIBUTE TO POLITICAL ACTIVIST MARIELLE FRANCO” (BRAZIL LAB/UNIVERSIDADE DE PRINCETON)

No próximo dia 14 de março, o assassinato de Marielle Franco, ainda sem respostas, completará um ano. Em sua homenagem, o Brazil LAB da Universidade de Princeton realizará nos dias 14 e 15 de março evento especial intitulado “Black Feminisms: A Tribute to Political Activist Marielle Franco”. O evento contará com participações de diversas (os) acadêmicas (os) e ativistas, como Mônica Benício, Debora Diniz, Giovana Xavier, Tianna Paschel, Imani Perry, Carolyn Rouse, Aisha Beliso-De Jesús, Keeanga-Yamahtta Taylor, Fernanda Chaves, Marília Librandi, Jamille Pinheiro Dias, Mário Medeiros e Pedro Meira Monteiro. A palestra principal será ministrada pela Profa. Angela Davis.

A programação completa do evento segue abaixo.

Conheça mais do Brazil LAB na breve apresentação que disponibilizamos em seguida e também acessando o endereço brazillab.princeton.edu

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Brazil LAB Black Feminisms Mar 14-15

O Brazil LAB é uma iniciativa original da Princeton University que congrega pesquisadores, professores e estudantes trabalhando sobre o Brasil ou interessados em temas para os quais o Brasil pode ser relevante.

Co-dirigido por João Biehl e Pedro Meira Monteiro, o Brazil LAB (Luso-Afro-Brazilian Studies) funciona como um “hub” interdisciplinar de pesquisa e ensino, sediado pelo PIIRS (Princeton Institute for International and Regional Studies), em sinergia com diferentes departamentos, programas e outras iniciativas em Princeton, com o objetivo de explorar a história, a política, a cultura e a ciência do mundo lusófono, especialmente do Brasil, pensando em sua significação regional e em suas conexões internacionais.

No LAB, o Brasil é tomado como um nexo dinâmico para refletir sobre temas prementes — dos desafios ambientais à insegurança democrática, das desigualdades socioeconômicas e de acesso à saúde a formas emergentes de mobilização política e expressão cultural — que afetam as pessoas no Brasil e globalmente, e que são importantes tanto para a pesquisa já estabelecida quanto para reflexões críticas ainda incipientes.

O Brazil LAB promove diversas iniciativas pedagógicas, oficinas, colóquios e debates, incluindo um seminário de Princeton oferecido no Rio de Janeiro, sediado no Instituto Moreira Salles. O alvo do LAB é promover um estudo compreensivo e amplo do Brasil, além de promover e facilitar redes de colaboração em vários campos, na crença de que responder a temáticas emergentes nos leva a elaborar novas questões, promovendo experiências internacionais de ensino, apoiando a reflexão social profunda e criando alternativas colaborativas de pesquisa. O objetivo último do Brazil LAB é ajudar a formar uma geração cosmopolita de estudiosas e estudiosos do Brasil, capazes de produzir um conhecimento que abra fronteiras, e que seja socialmente significativo.

 

LANÇAMENTO DO LIVRO “OS DILEMAS DO PATRIMONIALISMO BRASILEIRO” DE LEONARDO BELINELLI DE BRITO (USP E CEDEC)

O Blog da BVPS convida para o lançamento do livro “Os Dilemas do Patrimonialismo Brasileiro: as interpretações de Raymundo Faoro e Simon Schwartzman” (Alameda Casa Editorial) de Leonardo Octavio Belinelli de Brito (CEDEC e USP).  O livro é resultado da pesquisa de mestrado defendida em 2015 sob orientação do Prof. Bernardo Ricupero (USP). O lançamento ocorrerá no dia 15 de março, às 18:30 hrs, na Livaria da Alameda (Rua 13 de Maio, 353 – Bela Vista – São Paulo (SP)).

Disponibilizamos abaixo o convite do evento e neste link o Prefácio do Prof. Bernardo Ricupero ao livro.

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Um abraço,

Equipe BVPS

“DE COMO O COMPOSITOR BRASILEIRO ENFRENTOU A DITADURA MILITAR”, POR HELOISA MURGEL STARLING (UFMG)

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Fonte da imagem: Fundo Correio da Manhã/Arquivo Nacional, Data: Jun/1968.

   Entre 1964 e 1985 – os anos da ditadura militar brasileira –, um punhado de canções se empenhou em devassar o mundo do segredo, do censurado, do impublicável para contestar a versão oficial colocada em curso pelos militares. De maneira furtiva e de forma mais ou menos cifrada – necessária, inclusive, para driblar a censura – a canção popular perturbava e comprometia a coerência e a veracidade da narrativa oficial e permitia ao compositor agir com um sabotador de versões, alguém capaz de extrair da realidade política do país um conjunto de informações e através delas proceder a uma ostentação de fatos que contestavam a versão dos acontecimentos apresentada pelas autoridades. Afinal, talvez pensasse o compositor, uma história pública, ao público pertence.

    Em “Tocaia”, por exemplo, composta em 1973, Sérgio Ricardo narrou o assassinato de um importante dirigente da luta armada, o capitão Carlos Lamarca, no sertão baiano, após implacável perseguição dos órgãos de segurança.[i] Já no ano seguinte, quando o MPB-4 releu “Tá certo, doutor”, de autoria de Gonzaguinha, o alvo era outro: o governo do general Geisel havia proibido qualquer notícia na imprensa sobre a epidemia de meningite que começou na periferia de São Paulo, chegou até o Rio de Janeiro e matou, no seu auge, cerca de 2.800 pessoas, crianças na quase totalidade dos atingidos. Foi essa notícia que o MPB-4 tratou de fazer circular amplamente pelo país, em uma interpretação antológica da composição de Gonzaguinha, gravada no disco “Palhaços e reis”, e que começa exatamente com o aviso: “cuidado aí, gente, olha o menino com meningite aí, gente!” [ii].

   Como um parafuso retirado de uma engrenagem, um pouco de areia despejado no motor de uma viatura policial, uma lubrificação malfeita ou um vazamento de combustível, as canções também podiam caracterizar uma forma de sabotagem política e provocar prejuízos irreparáveis ao processo de construção de legitimidade perseguido pela ditadura. Mas nem sempre deu certo. Em 1969, Jorge Ben gravou “Charles anjo 45”, um samba rhythm&blues, com arranjo forte e pesado, sobretudo na cuíca, que colocava em cena o caráter polissêmico do conceito de marginal. Na análise da canção que predomina até hoje, o marginal Charles é associado a uma representação romântica do mito do bandido famoso – Cara de Cavalo, Lúcio Flávio, Mineirinho, Ildo Meneghetti –, que começou a ser divulgado pela imprensa brasileira a partir dos anos 1960.

   Graças à construção desse mito, o universo do bandido marginal urbano se tornou inseparável de uma interpretação não conformista da realidade brasileira e serviu para um grupo de artistas como Hélio Oiticica, Caetano Veloso, Torquato Neto ou Rogério Sganzerla colocar em funcionamento uma nova proposta de leitura do país. O resultado provocou uma virada estética nos padrões culturais vigentes em pelo menos três dimensões: na ruptura com a elegia pela terra como ponto mais agudo da formação de uma consciência nacional crítica e revolucionária; no abandono da construção de figuras exemplares convocadas do interior do país – boiadeiros, pescadores, violeiros, rezadeiras, lavradores – ou da periferia do Rio de Janeiro – o sambista de morro e o malandro da favela – como modelos para compreensão da realidade brasileira; na aceitação da disseminação de práticas violentas como alternativa de revolta em sociedades urbanas periféricas. [iii]

   Charles, o personagem da canção de Jorge Ben flertava com a representação romântica do bandido: um “Robin Hood dos morros, rei da malandragem”.[iv] No álbum Jorge Ben, o personagem foi apresentado ao público em duas canções que citavam uma à outra e, na oportunidade da citação, deixavam ainda mais evidente a figura do bandido compassivo: “Take it easy, my brother Charles” [v] e “Charles anjo 45”. O que pouquíssima gente sabia, porém, é que as duas canções trazem dobradas no seu interior uma segunda narrativa: elas foram compostas em homenagem ao marinheiro Avelino Capitani – protagonista de uma das trajetórias mais espetaculares da história da luta armada no Brasil.

   A militância política de Capitani começou durante a Revolta dos Marinheiros – o motim que fragilizou o governo João Goulart durante a Semana Santa de 1964, pôs em risco a disciplina militar e forneceu às lideranças que conspiravam contra Jango o pretexto de que necessitavam para o golpe. Dois anos depois, Capitani engajou-se na primeira tentativa de resistência armada à ditadura: a Guerrilha do Caparaó. Ainda em 1967, participou da criação do Movimento de Ação Revolucionária (MAR), o agrupamento de esquerda armada que nasceu dentro da penitenciária Lemos Brito, no Rio de Janeiro, viabilizou a fuga cinematográfica de seus militantes em maio de 1969, e estabeleceu na região de Angra dos Reis uma base de treinamento e preparação de um futuro foco de guerrilha. Quando sobreveio a repressão e conseqüente dissolução do MAR, Capitani integrou-se em outra organização armada – o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Ferido durante uma tentativa malsucedida de assalto a uma agencia bancária, em Brás de Pina, na periferia carioca, ele rompeu à bala o cerco policial e embrenhou-se nos morros do Rio de Janeiro onde ficou escondido por meses nas favelas da zona norte até conseguir planejar uma rota de fuga do país e reaparecer, após inúmeras peripécias, em Havana, Cuba. A partir da fuga da penitenciária, Capitani passou a portar uma inseparável pistola 9 mm, fácil de ser confundida com a de calibre 45. Românticas e seduzidas pelo charme do guerrilheiro, as estagiárias de Direito e as assistentes sociais da Lemos Brito apelidaram-no Anjo louro; desde os tempos do Caparaó, seu codinome, na guerrilha, era Charles [vi].

   A história do marinheiro Capitani ficou escondida na trajetória do personagem Charles anjo 45 – o “protetor dos pobres e dos oprimidos”[vii]. Ainda assim, a energia política da canção era tão evidente que a gravadora Polygram sustou o lançamento de um compacto com a interpretação de Caetano Veloso para “Charles anjo 45”, que incluía ao fundo o violão e os vocais do próprio Jorge Ben. A gravação de Caetano era oposta à de Jorge: apresentada em tom de lamento, a melodia vinha impregnada de uma tristeza meio premonitória já que ele gravou a canção um pouco antes de sua prisão e da partida, com Gilberto Gil, para o exílio, em Londres [viii]. Os executivos da Polygram temiam que a interpretação de Caetano soasse aos ouvidos militares como provocação. Ainda que não revelasse a homenagem ao guerrilheiro Capitani, “Charles anjo 45” tentava combinar na figura do marginal, tanto o universo do banditismo social quanto o contexto da luta armada e da clandestinidade das organizações guerrilheiras que transformava seus membros em marginais em potencial.

   Os anos 1970 deixaram claro que o engajamento do compositor na sabotagem das versões sobre determinados acontecimentos ou políticas publicas divulgadas pela ditadura não fazia distinção de gênero e incluía todas as modalidades do cancioneiro nacional. Entre 1968 e 1978, uma vertente da canção romântica – a canção brega ou cafona – alcançou altíssimas vendagens no mercado de discos, bateu recordes de execução nas rádios e escancarou publicamente os temas da segregação social vivenciados pela população pobre brasileira no seu cotidiano. A canção brega denunciou o racismo, mobilizou-se a favor da adoção da lei do divórcio no Brasil e fez circular entre a população de baixa renda informações e temas de interesse público com forte conteúdo político que perturbavam o poder e comprometiam a coerência e a veracidade da narrativa oficial construída pelos militares [ix].

   Foi então que a canção “Uma vida só (Pare de tomar a pílula)”, sucesso fulminante de Odair José, em 1973,[x] bateu de frente com a campanha de controle da natalidade patrocinada pela ditadura. Coordenada pela Sociedade Civil de Bem-Estar Familiar no Brasil (BEMFAM), a campanha recebia verbas internacionais e do governo militar, mobilizava farta distribuição de pílulas e dispositivos intra-uterinos (DIU) entre mulheres de baixa renda das regiões Norte e Nordeste do país e utilizava o slogan “tome a pílula com muito amor”. Não deu outra: a canção mais tocada nas rádios brasileiras durante o ano de 1973 teve sua execução pública proibida em todos os meios de comunicação, serviços de alto-falantes e casas de espetáculo do país, o disco foi retirado abruptamente de circulação e o compositor, orientado pelos executivos da gravadora Phonogram, partiu para uma temporada forçada – que durou um ano – na Inglaterra.

   Essas são, sem dúvida, canções de circunstância, como definiu certa vez Chico Buarque.  Mas, ao contrário do que ele imagina, seu traço singular não decorre apenas da literalidade dos seus versos. Essas são canções que ficaram a meio caminho entre uma forma de poesia cantada e um método próprio de luta política – ao mesmo tempo uma ação de protesto e uma tentativa de informar os fatos à opinião pública. Essa foi sua marca. A correlação de forças era adversa, o inimigo estava muito forte e o uso da violência contra os adversários da ditadura era a regra – mas as canções seguiam sendo um dos modos decisivos de informação e politização da cena pública nacional. O que o compositor realmente pensou quando compôs sua canção, nós não sabemos; mas ele não tinha a menor intenção de ficar apenas observando a conjuntura – deu um jeito de virar historiador. Foi um modo de resistir e um gesto de esperança, explicam os versos de Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges escritos para “Clube da esquina”. Numa noite qualquer do país, numa época de morte e desertificação de sua vida pública, um punhado de canções fez do luto o momento de passagem do mutismo à palavra, da memória à história:

“Noite chegou outra vez

De novo na esquina os homens estão…

Um grande país eu espero

Espero do fundo da noite chegar…

Venha até a esquina

Você não conhece o futuro que tenho nas mãos”[xi]

[i] RICARDO, Sérgio. “Tocaia”. Sérgio Ricardo. São Paulo, Continental, 1973. 1 disco sonoro (lado 1, faixa 1)

[ii] GONZAGA JR. Luiz. “Tá certo, doutor”. In: Palhaços e reis MPB 4. Guanabara: Philips, 1974. 1 disco sonoro. (lado 1, faixa 2).

[iii] Para essa nova proposta de leitura do país, ver especialmente: COELHO, Frederico. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

[iv] BEN, Jorge. “Charles, anjo 45”. In:_. Jorge Ben.  Rio de Janeiro: Philips, 1969. 1 disco sonoro. (lado 2, faixa 6).

[v] BEN, Jorge. “Take it easy, my brother Charles”. In:_. Jorge Ben.  Op. cit. (lado 2, faixa 1). Para o registro dessa citação, ver: SANCHES, Pedro Alexandre. Tropicália: decadência bonita do samba. São Paulo: Boitempo Editorial, 2000.

[vi] Para a trajetória política de Capitani e a homenagem de Jorge Ben, ver: CAPITANI, Avelino B. A rebelião dos marinheiros. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2005; COSTA, José Caldas da. Caparaó: a primeira guerrilha contra a ditadura. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007; TAVARES, Flávio. Memórias do esquecimento: os segredos dos porões da ditadura. Rio de Janeiro: Record, 2005.

[vii] BEN, Jorge. “Charles, anjo 45”. Op. cit.

[viii] Para a gravação de Caetano e o veto da Polygram, ver: VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 417 et seq.

[ix] Para a importância da “canção brega” durante o período da ditadura militar, ver: ARAÚJO, Paulo César de. Eu não sou cachorro, não: música popular cafona e ditadura militar. Rio de Janeiro: Record, 2002.

[x] ODAIR, José. “Uma vida só (Pare de tomar a pílula). In:_. Odair José. São Paulo: Polydor, 1973. 1 disco sonoro. (lado 1, faixa 1)

[xi] NASCIMENTO, Milton; BORGES, Lô; BORGES, Márcio. “Clube da esquina”. Milton. Rio de Janeiro, EMI Odeon, 1970. 1 disco sonoro. (lado 1, faixa 2)

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