Cientistas sociais de todo Brasil e de algumas instituições estrangeiras fazem carta afirmando que apenas a candidatura de Luis Inácio Lula da Silva representa garantia da democracia. A carta foi assinada por mais de 1.100 profissionais e pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS) hoje, dia 23 de outubro, em menos de 6 horas.
Encerrada a Ocupação BVPS Acervo: escolher a democracia, a equipe da BVPS reafirma seu compromisso com a comunicação pública da ciência e com a democracia como o único ambiente propício ao florescimento de conhecimento relevante e de diálogos plurais e inclusivos para e com a sociedade brasileira.
Leia nossos agradecimentos às autoras e aos autores que participaram da nossa ação, que não foi a primeira desse tipo.
Republicamos texto de Paulo Cassimiro (IESP-UERJ) que explora as variadas disputas do conceito polissêmico de “Democracia”. O ensaio foi publicado originalmente em 2024, na série Mitomanias/Mitologias, e agora compõe à ocupação BVPS Acervo: escolher a democracia.
Em um momento em que a democracia se encontra sob pressão e seus sentidos são mobilizados por diferentes projetos políticos, a reflexão de Cassimiro ganha especial atualidade. Ao mostrar como a democracia se tornou uma palavra de consenso, mas permanece aberta a significados em disputa, o autor nos ajuda a compreender como interesses distintos reivindicam para si o caráter democrático de suas ações. Pensar essas disputas é também refletir sobre os sentidos da democracia que queremos defender.
Republicamos hoje, simultaneamente em português e espanhol, ensaio de Gustavo Lins Ribeiro, professor da Universidad Autónoma Metropolitana do México, sobre uma ameaça que se constrói de maneira silenciosa e tem as ciências sociais e humanas como alvo prioritário.
Apoiando-se no intelectual ucraniano Anton Shejovtsov, o autor identifica no projeto desta extrema direita, que chama de “tecno-oligarquia” contemporânea, um esforço sistemático de perseguir todos obstáculos para quem ambiciona um mundo autoritário: cortes de financiamento, campanhas de desprestígio e manipulação algorítmica. Se Shejovtsov está certo ao afirmar que o humanismo é “a base mais evidente e coerente de toda resistência” a esse projeto, então defender as ciências sociais se torna uma necessidade política. Afinal, a quem interessa o fim do pensamento crítico?
Chegamos à última postagem da série Sociológicas com Maria Moraes (UFSCar). Exímia especialista do mundo rural e da sociologia, Moraes mostrou, quinzenalmente, diferentes paisagens invisibilizadas dos labirintos das plantações paulistas. Arguta e generosa com leitores e leitoras, concebeu a série como episódios de uma história em curso.
Hoje, ela nos leva à outros lugares e apresenta o cotidiano e a resistência das quebradeiras de coco babaçu na periferia de Timbiras (MA), cujo trabalho, argumenta, sustenta a reprodução da vida e a sociabilidade comunitária diante da degradação ambiental do latifúndio, do avanço do agronegócio e das pressões da migração.
Sociológicas é um espaço de reflexão da BVPS Edições, voltado para discutir problemas do presente e os processos sociais que este ainda oculta, a partir de uma perspectiva sociológica. Muito obrigado Maria Moraes por enriquecer e afiar o nosso repertório.
Republicamos texto de Alcida Rita Ramos (UnB) sobre as transformações nas atitudes e nas estratégias da luta indígena por reconhecimento e respeito. O ensaio foi publicado originalmente em 2024, na coluna Desassossegos, e agora se junta à ocupação BVPS Acervo: escolher a democracia.
Se, no passado, as bordunas e os arcos eram os instrumentos de resistência, hoje essa luta se amplia com câmeras e pincéis, que ressignificam a presença indígena nos campos cultural e político. Apesar das ambiguidades e contradições do que se convencionou chamar de “era digital”, é fato que os povos indígenas também ampliaram suas possibilidades de resistência e afirmação identitária, com artistas protagonizando uma nova fase de “demarcação das telas”. Dessa forma, Alcida nos relembra três aspectos importantes: que o Brasil é vasto, que as violências e as resistências são múltiplas e que, sobretudo, ainda vale a pena acreditar e lutar pela democracia, como tão aguerridamente fazem os povos indígenas.
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Pode haver autonomia e dignidade humanas reais onde a sobrevivência depende de uma “vida sem salário”? Dando continuidade à ocupação BVPS Acervo: escolher a democracia, publicamos em conjunto e de maneira inédita texto escrito para a série Primeiros Escritos, onde Letícia Bolckau (PPGSP/UENF) analisa o empreendedorismo popular a partir da experiência de camelôs em Campos dos Goytacazes/RJ. Ao investigar como a perda de garantias e a flexibilização compõem uma “meritocracia de risco”, o texto revela que a busca por respeito e autogestão convive com jornadas exaustivas e com a ausência de amparo social.
Quando o desamparo institucional força o trabalhador a gerir individualmente a própria miséria sob o verniz de “empreendedorismo”, o próprio pacto democrático é violentado em suas bases. Escolher a democracia significa romper com a naturalização da precariedade e garantir que as condições materiais da existência humana voltem a ser o centro de uma disputa política por justiça social e igualdade substantiva.
Há 180 anos, em meio à crueldade do regime escravista e aos interesses de uma oligarquia sedenta pela manutenção do status quo, o pernambucano Antonio Pedro de Figueiredo, chamado por seus críticos de “mulato”, erguia-se em desobediência para defender a implementação de uma reforma agrária que colocaria o Brasil no caminho da democracia. Nunca é tarde para lembrarmos daqueles que, com muito sacrifício, lutaram pela conquista de nossa tão frágil liberdade. A poucos dias de mais um momento decisivo de nossa história, a ocupação BVPS Acervo: escolher a democracia republica texto de Elide Rugai Bastos (Unicamp), escrito originalmente em 1997 e publicado no ano passado na Série Nordestes, que resgata as ideias e o papel social desse aguerrido brasileiro, crítico contumaz da maneira como o Brasil se organizava. Figueiredo foi, entre outras coisas, responsável pela publicação da revista O Progresso, e seu debate sobre a reforma agrária permanece surpreendentemente atual.
Num estágio de desenvolvimento científico-acadêmico em que a hiperespecialização redobra o seu sentido original moderno, com mais fragmentação e comunicação interna cada vez mais improvável, a área de pesquisa do pensamento social vai se constituindo, na contramão desse processo, num espaço reflexivo crítico da sociedade e autocrítico da sociologia. Sim, embora tradicionalmente multidisciplinar, será que todas as disciplinas seguem hoje igualmente dispostas a distinguir método de objeto e a reconhecer que a experiência dos atores sociais não basta, por si só, para explicar nem suas situações particulares nem a sociedade em seu conjunto complexo, emaranhado e simultaneamente estruturado e contingente? Ou, ainda, que as instituições, por si sós, não bastam para explicar a política? Pois é essa necessária radicalização sociológica que Elide Rugai Bastos realiza no balanço que escreveu sobre a área para a recém-lançada Enciclopédia Brasileira de Ciências Sociais, da ANPOCS, que ora divulgamos.
O verbete nos convida, afinal, a perguntar: por que continuar estudando as interpretações do Brasil quando o próprio país não para de se transformar? Ou será que as mudanças do último século não transformaram a sociedade em suas estruturas de desigualdade e autoritarismo? Estar em movimento é o mesmo que mudar? Pensamento social, explica Elide, exige atenção para duas categorias e sua conjugação: processo social e reflexividade. Não é possível pensar o presente sem a dimensão de processo que ele esconde. Não é possível pensar as interpretações do Brasil como meras descrições externas da sociedade. Não por acaso, a reflexão de Elide encontra na questão do aprendizado social uma possibilidade de renovação das perguntas da área: reconhecer que as sociedades aprendem também nos desafia a compreender por que o mundo é tão difícil de mudar.
Pensamento social brasileiro é um convite à radicalização da sociologia. Ainda hoje, na parte da tarde, republicaremos outro texto de Elide na ocupação BVPS Acervo: escolher a democracia.
Quem decide o que se faz com a poupança de quem trabalha? Dando início à última semana da ocupação BVPS Acervo: escolher a democracia, republicamos texto escrito para série Economia & Sociedade, onde Mateus Santana (UFRRJ) mostra como a maximização do valor ao acionista subordinou empresas e trabalhadores a metas financeiras, e como os fundos de pensão, formados pela previdência dos próprios trabalhadores, acabaram reforçando a precarização e a desigualdade. Quando as decisões econômicas que moldam a vida coletiva escapam a qualquer controle democrático, a democracia se esvazia. Escolher a democracia é também disputar a quem as finanças devem servir.
Neste segundo post da Autorais Antonio Sérgio Guimarães, trazemos o texto “Brasil, 1996-2012: anotações para uma sociologia política da adoção de cotas no ensino superior público”, originalmente uma comunicação apresentada em dois congressos internacionais, em Washington e Paris, em 2013.
Como as lutas da agenda negra ajudaram a ampliar o acesso à universidade no Brasil? Neste texto, Antonio Sérgio examina as disputas em torno da adoção de cotas e o protagonismo do movimento negro na construção de alianças que fizeram do combate às desigualdades raciais uma causa de amplo alcance social. O PROUNI, ao viabilizar o acesso de estudantes de baixa renda a vagas no setor privado, e o REUNI, ao expandir as vagas nas universidades federais, ocupam um lugar importante nesse processo. O autor mostra como esses programas se articularam às reivindicações por inclusão racial e às políticas voltadas às classes populares, dando à agenda negra um papel central na reforma do ensino superior. A leitura nos convida assim a compreender as lutas, as alianças e as resistências que tornaram possíveis essas conquistas e redefiniram o lugar da questão racial nas políticas públicas brasileiras.
Boa leitura! Para saber mais sobre essa nova Autorais da BVPS, clique aqui. Outros posts da série podem ser conferidos aqui.
Alcida Rita Ramos parece andar revisitando os estóicos, mas a emoção transborda ao lembrar do colega e amigo Omar Ribeiro Thomaz, falecido no último dia 12 de outubro. Na homenagem que fazemos juntos, em edição especial de domingo, Omar reaparece como um Diógenes: despojado, ascético mesmo, uma persona que contrasta com sua crítica radical às convenções sociais. Cidadãos do mundo, Diógenes e Omar permanecerão lendários por meio de anedotas e ensinamentos.
Entre o púlpito e o palanque, as redes sociais abriram um atalho. O que muda na política democrática quando o debate entre direita e esquerda é traduzido na linguagem do bem contra o mal? No post de hoje, originalmente publicado na série Mitomanias/Mitologias, Stella Garrido examina como pastores como Silas Malafaia, Marco Feliciano e André Valadão usam sua autoridade religiosa, tida como inquestionável por seus fiéis, para demonizar a esquerda e reforçar um alinhamento à extrema direita. O texto mostra como a cosmovisão evangélica, antes restrita à igreja, passou a circular no espaço público digital, a ponto de a disputa política ser tratada como batalha espiritual.
Escolher a democracia exige reconhecer que divergir não é pecar.
Por que os feminicídios continuam a crescer, mesmo diante do avanço das leis e das políticas públicas de enfrentamento? Republicamos hoje o texto “O Brasil é perigoso para mulheres e meninas | Feminicídios crescem e nos interrogam”, escrito por Lia Zanotta Machado (UnB) neste ano, no Dossiê Feminicídio, organizado por Clara Araújo (UERJ).
Ao analisar os códigos patriarcais de honra e as disputas em torno da liberdade e da autonomia das mulheres, Machado nos ajuda a compreender como valores autoritários persistem nas relações sociais, mesmo diante do reconhecimento dos direitos iguais. Em um momento de ameaças à democracia e de tentativas de restringir direitos, recuperar esse debate é também reafirmar que a democracia depende da efetivação da igualdade e da capacidade de enfrentar as diferentes formas de violência que ainda limitam a liberdade das mulheres.
Ensaios para a democracia foi o título que havíamos escolhido para o livro de Maria Victoria Benevides num momento anterior ao tão delicado que vivemos. Ele ganha mais sentido agora? Acreditamos que sim. Pela conjuntura dramática que atravessamos com o resultado do primeiro turno das eleições, que, como tem sido repetido por especialistas, não consiste numa mera escolha entre candidatos. A própria democracia precisa ser escolhida.
Também, não resta dúvida, a qualidade dos ensaios reunidos no livro que hoje entregamos, numa parceria com o editor Sergio Cohn, a quem agradecemos, ajuda a compreender o processo que engendrou nosso presente – e, portanto, ele mesmo e algumas tendências de futuro da sociedade brasileira. Isso não é mágica, é ciência política da melhor qualidade que não se deixou enredar por modismos nem por visões minimalistas da política, como se o Estado e suas instituições existissem em algum lugar hipotético autônomo em relação à sociedade, ao mercado e à história.
Temos certeza de que os leitores da série Autorais Maria Victoria Benevides terão nova surpresa ao relerem os ensaios agora em conjunto. Um posfácio precioso é assinado por Jorge Chaloub, que décadas depois seguiu os passos pioneiros de Benevides no estudo da UDN e a crise da democracia. A própria autora nos brinda com um prefácio, no qual sua argúcia e generosidade brilham juntos, mais uma vez. Continuamos ensaiando a democracia para que seja aperfeiçoada e plena entre nós. E com o livro em tela, há mais do que muitas contribuições para isso; ele é todo para ela, para a democracia. Ela precisa de nós.
A pandemia de covid-19 mostrou as consequências devastadoras do negacionismo científico como política de Estado para as pessoas, as famílias e a saúde pública.
Hoje, trazemos texto de Nísia Trindade Lima, socióloga, sanitarista e primeira mulher a ocupar o cargo de presidente da Fiocruz e ministra da Saúde no Brasil. Ela analisa a atuação do governo Jair Bolsonaro durante a pandemia e o papel da CPI da Covid na elucidação das estratégias de promoção do chamado “tratamento precoce”, apesar das evidências científicas de sua ineficácia.
O livro de Nísia Trindade, recém eleita Deputada Federal, Ainda há tempo: A pandemia de covid-19 e a transformação do futuro (2026), de onde o texto publicado foi retirado, é uma reconstituição incontornável para entender os caminhos que levaram à triste e criminosa marca de mais de 700 mil mortes por covid-19 no Brasil.
Quando o futuro deixa de acenar e passa a ameaçar, a esperança é chamada a acordar. Como manter a ação coletiva sem recorrer ao otimismo exagerado nem ceder à paralisia causada pelo medo? Nesta publicação inédita, Frédéric Vandenberghe (UFRJ) defende, a partir de sua pesquisa com viúvas de agricultores na Índia e de sua experiência no movimento convivialista, que a esperança é “uma disposição coletiva que espera ser ativada e liberada”: uma aposta compartilhada, que devemos, afinal, uns aos outros. Neste período crucial para a democracia brasileira, é preciso convocar a esperança a lutar.
Republicamos a entrevista realizada em julho de 2019 por Pedro Cazes, professor de sociologia do Colégio Pedro II, com o professor Acauam Oliveira (UPE) a respeito dos então 20 anos do álbum Sobrevivendo no inferno, dos Racionais MC’s, e do lançamento, naquele mesmo ano, do livro homônimo, cuja introdução é por ele assinada.
Passados mais de sete anos desde a entrevista, e diante de novo e grave risco à democracia, as discussões levantadas naquele contexto ganham urgente atualidade: a importância de se ouvir o que a periferia e a população mais pobre têm a dizer; e a potente crítica do rap ao projeto político de país, fundado na violência e no racismo, que defende, de forma eleitoralmente oportunista, que “bandido bom é bandido morto”. Há muito em comum entre os temores de 2019 — primeiro ano do governo Jair Bolsonaro — e 2026. Mas há também novas e ainda piores ameaças ao futuro que exigem nossa mobilização agora. Apesar de tudo, como lembra Oliveira ao citar Roberto Schwarz: “A contemplação da perda de uma força civilizatória não deixa de ser civilizatória a seu modo”.
Publicamos hoje texto originalmente veiculado no mês passado, no jornal Folha de S.Paulo, escrito por Edu Teruki Otsuka (USP). Crítico fino e profundo conhecedor da obra de Roberto Schwarz, o professor Edu Otsuka nos brinda com uma visão de conjunto e dinâmica da obra de um dos nossos maiores intelectuais.
Sempre potente, o pensamento crítico de Schwarz é urgente neste momento tão delicado da vida brasileira, em que a combinação entre arcaico e moderno ganha novos e dramáticos desdobramentos.
É por isso que é uma grande alegria para a BVPS anunciar a série Autorais Roberto Schwarz numa edição especial e duplamente comemorativa no ano que vem. Em 2027, celebraremos 10 anos de atividades do Blog da BVPS e também se comemora o cinquentenário de Ao vencedor as batatas, de Schwarz, livro brasileiro que melhor tece os fios da dialética entre forma literária e processo social. Com seleção dos textos feita pelo próprio crítico, a série abrirá os trabalhos da BVPS em fevereiro próximo. Adiante traremos mais informações sobre essa edição tão especial.
Escolher a democracia passa pela votação do fim da escala 6×1. Nesta quarta-feira (14), o Senado Federal decide uma pauta que pode mudar a vida de milhões de trabalhadores e que está no centro da disputa pela democracia.
Em texto inédito escrito para compor a série BVPS Acervo: escolher a democracia, Josué Medeiros (UFRJ) mostra como a atual mobilização popular ajuda a manter a disputa aberta e como a votação por uma nova escala de trabalho pode ser um fator novo capaz de mudar o cenário das eleições, porque a grande política e a pequena política se encontram amanhã.