A BVPS apresenta sua nova série Autorais, que tem a honra de publicar uma seleção de textos de Luiz Eduardo Soares, uma das maiores referências do debate sobre a segurança pública no país.
Formado em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, Luiz Eduardo Soares construiu uma trajetória acadêmica singular que não se deixa domesticar pelas fronteiras da especialização disciplinar. Fez mestrado em Antropologia Social no Museu Nacional da UFRJ, sob orientação de Otávio Velho, e doutorado em Ciência Política no IUPERJ, orientado por Wanderley Guilherme dos Santos. Completou sua formação com um pós-doutorado em Filosofia Política na University of Virginia, sob a supervisão de Richard Rorty – um percurso que ilumina sua rara capacidade de se mover com desenvoltura entre o rigor teórico das ciências sociais e a sensibilidade da escrita literária.
Ao longo de mais de quatro décadas, Luiz Eduardo Soares vem se dedicando ao estudo da violência e da segurança pública no Brasil, transitando com igual “rigor indisciplinado” entre a universidade e o campo da gestão estatal. Foi professor na UNICAMP, no IUPERJ e na UERJ, pesquisador do ISER, onde foi um dos fundadores da área de pesquisas sobre violência, e visiting scholar em Harvard, Columbia, University of Virginia, University of Pittsburgh e no Vera Institute of Justice, de New York. Desde novembro de 2024, atua como Pesquisador Visitante Emérito da FAPERJ e ocupa a Cátedra Patrícia Acioli no Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ.
No campo institucional, atuou como Coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do Estado do Rio de Janeiro no governo Anthony Garotinho (1999-2000), como Secretário Nacional de Segurança Pública no primeiro mandato do presidente Lula (2003), e como consultor de segurança pública nas prefeituras de Porto Alegre e Nova Iguaçu. Sua passagem pelo governo fluminense ficou marcada pela coragem de denunciar a “banda podre” da polícia, o que lhe custou o exílio nos Estados Unidos para escapar de ameaças de morte.
Luiz Eduardo Soares pensou por dentro os problemas da segurança pública para o Estado democrático de direito. Sua análise contundente do que chama de “enclaves institucionais” – isto é, as forças de segurança que, mesmo após a Constituição de 1988, permaneceram refratárias à autoridade civil republicana – formula um diagnóstico preciso: a transição democrática não alcançou as instituições policiais, e o Estado abdicou do controle do sistema penitenciário, fortalecendo as facções criminosas. Para ele, enfrentar esse nó exige não apenas coragem política, mas uma revisão profunda da arquitetura institucional da segurança, da política de drogas e do encarceramento em massa.
Com mais de 27 livros publicados (e contando…), Luiz Eduardo Soares vem produzindo uma obra plural que articula pesquisa acadêmica, relato biográfico, ensaio político e ficção literária, convidando à reflexão sobre os impasses e reviravoltas da democracia na sociedade brasileira. É autor de peças de teatro, argumentos para cinema, quatro romances e cerca de 80 artigos em revistas especializadas nacionais e internacionais. Dois de seus livros – Elite da Tropa e Elite da Tropa 2, escritos com André Batista e Rodrigo Pimentel – foram adaptados para o cinema, gerando o famigerado Capitão Nascimento e mostrando ao grande público a anatomia da violência policial no Rio de Janeiro.
Uma grande curiosidade intelectual indomável aliada a um senso de justiça pública e participativa talvez seja o fio que percorra tantas contas diferentes nessa trajetória desafiante, múltipla, colorida, única. Um fio vivo (e vermelho, já que usamos as cores como metáfora da diversidade) que religa temporalidades diferentes – dos anos de formação numa tradição católica de engajamento, do militante comunista contra a ditadura militar, do formulador e gestor de políticas públicas e do aliado dos movimentos sociais e culturais urbanos – numa espécie de eterna juventude, alimentada por aquilo que ele mesmo nomeia como um “sentimento de missão”. Luiz Eduardo Soares nunca separou o trabalho intelectual do compromisso ético com a realização dos direitos humanos. E isso faz dele um intelectual público no sentido mais pleno da expressão.
Agradecemos a Luiz Eduardo Soares por nos permitir compartilhar com as leitoras e os leitores da BVPS uma amostra de seu pensamento crítico e provocador.
A seleção de textos da série reúne diferentes momentos decisivos desse percurso, de ensaios já clássicos a escritos ainda inéditos, e percorre estudos sobre religião popular, teoria política clássica, hermenêutica, antropologia da cultura, crítica das esquerdas, justiça e violência. Mais do que um conjunto heterogêneo de temas – o que já chama a atenção para a envergadura de uma obra que busca compreender o social de modo multidimensional –, a sequência de textos revela uma capacidade consistente de interrogar, sob diferentes perspectivas, os fundamentos morais, simbólicos e políticos da vida coletiva. Mudam os objetos, mas permanece a preocupação com os modos pelos quais a sociedade e seus outros produzem sentido, legitimam ordens e enfrentam a precariedade constitutiva da experiência humana.
Neste primeiro post, a leitora e o leitor terão acesso ao texto “Notas sobre a ideologia kardecista”, escrito em 1977, mas publicado hoje pela primeira vez. Nele, a partir dos livros Nosso Lar (1943) e Os Mensageiros (1944), psicografados por Chico Xavier, o autor analisa a cosmologia kardecista, examinando a relação entre indivíduo e hierarquia que estrutura o mundo espiritual e refletindo sobre como essa organização social se vincula ao horizonte ideológico-político integralista, em disputa pela hegemonia dos campos intelectual e político exatamente no contexto em que os livros foram escritos e publicados.
Acompanhe, semanalmente, sempre às segundas-feiras, esta nova edição da série Autorais.
E, não deixe de assistir ao espetáculo “Assim na Terra como no Céu”, em cartaz no Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa (Rua Prudente de Morais, 824) até dia 26 de maio. Com texto de Luiz Eduardo Soares e direção de Marcus Faustini, a peça aborda a relação entre saúde mental e o esporte, assim como os desafios do crescimento do mercado de inteligência artificial. As sessões são gratuitas, sempre às quintas e sextas, às 20h, sábados, às 17h e 20h e domingos, às 19h.
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