
Publicamos hoje resenha de Andréa Borges Leão (UFC) sobre a coletânea Modos de narrar a Sociologia brasileira, organizada por André Botelho (UFRJ), Maurício Hoelz (UFRRJ) e Lucas Carvalho (UFF), e publicada em 2025 pela Editora Hucitec em parceria com a Sociedade Brasileira de Sociologia.
Originada de uma série homônima realizada pela BVPS em 2024, o livro reúne 26 relatos de notáveis sociólogas e sociólogos brasileiros, extraídos de seus memoriais acadêmicos, que formam um patrimônio intergeracional e um dispositivo de auto-observação do campo. Pretende assim contribuir para uma história mais plural e contingente da sociologia brasileira, não narrada de fora para dentro – a partir de marcos institucionais, paradigmas teóricos ou condicionantes sócio-históricos –, mas a partir da perspectiva dos próprios atores que fazem e refazem a disciplina em suas práticas cotidianas.
Na resenha, Andréa Borges Leão sugere que a coletânea tem o mérito de conferir reconhecimento a um gênero textual pouco valorizado na disciplina. Discutindo a natureza da autoria sociológica nos memoriais, aponta que narrar a própria trajetória é também um ato de imaginação, pois envolve a construção reflexiva de uma figura de sociólogo/a que, ao preparar sua própria recepção, transmite um aprendizado sobre o ofício intelectual. Além disso, o memorial, exigência formal de promoção na carreira docente, narra mundos entrelaçados, em que criatividade, engajamento público e projetos intelectuais de maior abrangência podem coincidir numa mesma voz. Assim, observa a autora, se constitui um gênero propriamente sociológico, que não se reduz ao memorialismo, à autobiografia nem ao relato documental, mas que se forma nas práticas coletivas da escrita e da leitura – unindo confissão íntima e análise de estruturas de dominação, trajetória individual e história das gerações –, e cujo efeito mais potente é o de dar “corpo e alma” à sociologia brasileira, tornando sensível ao leitor o peso das reformas universitárias, da ditadura, da redemocratização e dos impasses contemporâneos como experiências vividas.
Boa leitura!
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