“DA SENZALA AOS PALCOS: CANÇÕES ESCRAVAS E RACISMO NAS AMÉRICAS 1870-1930”, ENTREVISTA COM MARTHA ABREU (UFF)

Capa de Partitura. E. T. Paulla warmin’ up in dixie, 1899. Historic American Sheet Music, Duke University. Disponível em http://library.duke.edu/digitalcollections/media/jpg/hasm/med/b0158-1.jpg Acesso em 25/07/2016

O blog da BVPS retoma a série sobre “Interpretações do Brasil e musicalidades” com entrevista inédita com a Profa. Dra. Martha Abreu, do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). No final de 2017, Martha Abreu publicou, na inovadora coleção “Históri@ Illustrada” da Editora Unicamp, o livro Da senzala ao palco: canções escravas e racismo nas Américas 1870-1930. O trabalho é fruto de anos de pesquisa sobre artistas negros no contexto do pós-Abolição. Recheado com farto material audiovisual, o ebook explora o universo das apresentações musicais, gravações e edições de partituras que registravam estilos musicais, ritmos e danças associados à diáspora africana nos Estados Unidos e no Brasil. Na conversa com Pedro Cazes (Colégio Pedro II/IESP-UERJ) que segue abaixo, percorremos alguns pontos importantes do livro e da pesquisa realizada pela autora, como a perspectiva transnacional, as formas ambivalentes de reprodução dos estigmas raciais na indústria cultural da virada do século XIX para o XX, e o protagonismo de artistas negros nesse ambiente.

“Da senzala aos palcos: canções escravas e racismo nas Américas 1870-1930” trata da incorporação de danças, gêneros musicais e festejos criados pelas populações afrodescendentes nos EUA e no Brasil pela nascente indústria cultural do final do século XIX e início do século XX. Você busca designar por “canções escravas” um gênero que foi produzido nesse deslocamento das senzalas aos palcos. Poderia nos explicar o que significa essa categoria e qual a sua importância para pensar o momento de transição de uma sociedade escravista para o momento pós-abolição?

Eu precisava encontrar uma expressão/categoria para nomear o que estava querendo dizer sobre batuques, lundus, jongos e maxixes, no caso do Brasil, e coon songs, cakewalks, rags, spirituals, no caso dos Estados Unidos. Ou seja, gêneros musicais ou danças muito variadas, mas que se relacionavam com o passado da escravidão e com memórias do cativeiro e, desta forma, ganhavam expressão nos títulos das canções, nos versos, nas formas de representar e dançar, na caracterização dos músicos ou nas ilustrações das capas das partituras. Achei que “canções escravas”, melhor que música negra ou herança musical da escravidão, expressava bem a ideia de que, mesmo depois da abolição, havia um passado que continuava a ser representado e lembrado no campo musical dos espetáculos teatrais, das partituras para piano e das gravações da indústria fonográfica – e que incrivelmente dava suporte, no mundo cultural, às ideias e práticas racistas que circulavam por todo o Atlântico, entre os Estados Unidos e o Brasil depois da abolição.

Você coloca o interesse pelas canções escravas dentro de um panorama mais amplo do que ficou conhecido como “negrofilia”, ou seja, o interesse de camadas médias e altas das sociedades europeias e americanas pela cultura da diáspora africana na virada do século XIX para o século XX. De que forma foi possível, em sua pesquisa, captar a produção e reprodução de práticas e visões racistas em meio a essa aparente “celebração” da cultura negra? Em sua avaliação, o espaço aberto para os artistas negros (cantores, atores, maestros, compositores, etc.) na nascente indústria cultural do período foi um terreno de disputas e ressignificações relevante?

Eduardo das Neves. Disponível em: http://teatrobr.blogspot.com.br/2010/12/eduardo-das-neves.html  Acesso em 26/07/2016

Esta afirmação parece mesmo paradoxal. Ao lado do interesse e da “celebração”, especialmente em relação às novidades que a música negra trazia, percebe-se o reforço de visões racistas que estigmatizavam a população negra e naturalizavam suas habilidades no campo musical. Mas esse paradoxo pode ser resolvido da seguinte forma: as canções escravas poderiam circular em diferentes ambientes, mas não a população negra e seus músicos.

Uma frase de Mariza Lira, aluna dileta de Mario de Andrade, no livro Brasil Sonoro, de 1938, ajuda a entender como, até pouco tempo, a escrita sobre a música negra não explicitava esse paradoxo e silenciava sobre o racismo. Para a autora, “O lundu não se deixou ficar nas senzalas, os moços brancos seduzidos pela letra desabusada e pela música desenvolta… trouxeram-no para a alegria das serenatas”. Ora, o lundu, que jamais andou sozinho, teria chegado às serenatas apenas a partir do interesse e do papel dos “moços brancos”, atraídos pela letra “desabusada” e posteriormente pelas danças tidas como sensuais e modernas?

Em geral, e aí chegamos ao cerne do meu trabalho, os músicos e artistas negros não são reconhecidos, nem lembrados, para além do samba ou dos ritmos e performances racialmente associados com a população negra (e mesmo nesses casos dividem espaços de poder e visibilidade com artistas brancos). Seu protagonismo na transformação e criação de diversos gêneros musicais e artísticos, e da própria modernidade musical atlântica, não é reconhecido. Quem já ouviu falar de Henrique Alves Mesquita, Patápio Silva, Anacleto de Medeiros, Vasques, Eduardo das Neves , João Cândido Ferreira, entre outros? Tento mostrar ao longo do livro que, com seus talentos e ação política, esses artistas souberam renovar o mundo cultural e desafiar os lugares e estereótipos que eram atribuídos à população negra. Suas performances e presença nos palcos ressignificavam o papel das canções escravas e do próprio artista negro na indústria cultural nascente, mesmo que tivessem que negociar com as representações racistas, que insistiam em atribuir à população negra comportamentos risonhos, infantis, animalizados e sexualizados.

O seu recorte de pesquisa recua mais no tempo do que as investigações canônicas sobre as origens do samba, remontando a meados do século XIX. De que modo essa perspectiva histórica mais ampla nos ajuda a repensar o sentido daquilo que ficou conhecido no trabalho de Hermano Vianna como o “mistério do samba”, particularmente no que toca as relações raciais aí envolvidas?

Acho que sempre procurei fugir da história do samba, exatamente porque da forma como foi escrita até recentemente ela se confunde com a construção de uma determinada brasilidade, um lugar onde, em tese, todos nós nos encontraríamos e nos tornaríamos brasileiros. Além de estudar o século XIX e a virada do XX desde o mestrado, havia também o interesse em fazer uma história social da música, ou seja,em buscar a trajetória dos músicos negros antes dos marcos oficiais da historia do samba. O samba não foi o marco zero do protagonismo dos músicos negros no Brasil.

Não tenho dúvidas também, como mostra Vianna, que as sociedades americanas construíram muitos lugares de encontro no campo cultural. Mas certamente não só isso. O campo musical, incluindo o samba, sempre foi um local de disputas e conflitos sociais e raciais, especialmente marcados pela reprodução e subversão do racismo. Vianna caminha em uma só direção.

O seu livro se destaca por buscar as semelhanças entre os processos ocorridos nos Estados Unidos e no Brasil, investindo em uma perspectiva comparada e transnacional. Quais são as maiores dificuldades para traçar essa relação e quais foram os principais ganhos dessa perspectiva de investigação? Se puder, nos fale também sobre as principais diferenças entre os dois contextos.

Preciso confessar que, de início, não era meu objetivo fazer um trabalho transnacional. Tudo começou quando comecei a estudar o músico negro Eduardo das Neves (1874-1919), há mais de 15 anos, e descobri que ele havia sido contratado pela Casa Edison, representante da Odeon, para gravar discos, em 1902. Todo o negócio da indústria fonográfica se relacionava com o mercado musical dos Estados Unidos e o empresário da Casa Edison, por mais que fosse tcheco, viveu muito tempo por lá e estava antenado com as novidades daquele país. Não demorei muito a perceber que precisaria entender melhor os interesses de uma empresa de discos em gravar lundus e contratar um músico negro para cantar também “gargalhadas”, um gênero que fazia sucesso nos Estados Unidos. E tudo deu certo, pois logo encontrei várias aproximações entre o mercado musical de lá e de cá, não só na contratação de músicos negros para determinados gêneros engraçados, como também na divulgação de cakewalks, rags, e na gravação de lundus e maxixes. Só mais tarde vieram os sambas e o jazz.

Bert Williams. Disponível em: http://www.historyinanhour.com/2012/10/30/bert-williams-funny-man/ Acesso em 26/07/2016

Por outro lado, os estudos sobre escravidão e pós-abolição, base fundamental de minha formação, já há algum tempo têm mostrado que não é mais possível aprofundar essas temáticas sem a perspectiva diaspórica, operação por excelência transnacional. Os estudos sobre família escrava, quilombos, abolição, lutas pela cidadania têm mostrado os inúmeros diálogos entre o que acontecia com a população negra nos Estados Unidos e Brasil. Mas o campo cultural e musical não acompanhava muito essa perspectiva em função de nossa histórica tendência de escrever uma “música brasileira”, uma música mestiçamente brasileira.

Além de minha formação, preciso confessar uma dívida indubitável ao livro “O Atlântico Negro” de Paul Giroy. Sua perspectiva dos trânsitos culturais musicais no Atlântico, fundamentalmente no Atlântico norte, acompanhando a diáspora e a produção do racismo no mundo moderno, animou-me a buscar a experiência dos músicos e artistas negros no Brasil que, como nos Estados Unidos, também valorizavam as “joias trazidas da servidão” (título de um dos capítulos do livro de Gilroy).

Mas não é fácil fazer um trabalho que incorpore a perspectiva transnacional. Você precisa fazer muitas leituras e encontrar fontes que possam ser aproximadas. Na verdade não fiz um trabalho comparativo sistemático, mas consegui levantar questões e problemas comuns para os dois países. Entre eles, talvez o que ganhou maior dimensão, buscou refletir sobre os desafios enfrentados pelos músicos negros em países que passaram pela escravidão e viveram as lutas pela cidadania no pós-abolição. Mesmo que em locais muito diferentes, línguas e religiões diferentes, e mesmo com a institucionalização do segregacionismo nos Estados Unidos, os músicos negros enfrentaram problemas muito parecidos: tiveram que lidar com o legado da escravidão e com o patrimônio cultural construído por seus antepassados em meio ao acirramento do racismo científico. Um bom exemplo é o capítulo em que aproximei as representações musicais de Uncle Tom, nos Estados Unidos, e Pai João, no Brasil. Outro bom exemplo é o diálogo que estabeleci entre Bert Williams (1874-1922) e Eduardo das Neves (1874-1919). Ambos os músicos trouxeram para o grande público as canções escravas, criaram o Atlântico musical negro e tornaram-se uma espécie de guia para toda a reflexão proposta no livro.

Entre os maiores ganhos, penso que a aproximação com os Estados Unidos nos faz aprofundar a certeza de que nunca fomos o país da democracia racial, muito menos no campo musical. Outro ganho foi também mostrar que não é mais suficiente escrever a história da música no Brasil sem o diálogo com o mundo Atlântico e transnacional.

Em seu livro a música ganha um tratamento sobretudo corporificado, seja através das danças e espetáculos, seja nas ilustrações que acompanhavam partituras e anunciavam apresentações nos jornais. Por que você escolheu dar esse tratamento à música e à nascente indústria cultural do final do século XIX? Em qual problemática a questão do corpo se insere naquele contexto?

Capa de partitura. Henrique Alves Mesquita. “Batuque”. Catálogo de Partituras. DIMAS. Biblioteca Nacional. Localização: M786.209 M-I-3 

Vocês tem toda a razão. A música foi corporificada especialmente a partir das ilustrações das partituras, dos manuais de dança, dos anúncios de jornal e vídeos. Na verdade, eu não sou da área de música, trabalho mesmo com a história social da cultura, no caso específico com a historia social dos músicos e suas obras. Não discuti as partituras, e sim suas capas, ou seja, as representações das canções escravas e não seus sons e notações musicais. Tenho melhorado no conhecimento musical, mas prefiro deixar para músicos de formação um trabalho de maior fôlego com essas fontes.

O livro “Da senzala ao palco” é parte de uma coleção da Editora Unicamp intitulada Históri@ Ilustrada, com publicações em formato digital (ebook) recheados de imagens, áudios, vídeos e outros elementos interativos. No caso de seu livro, isso permite que os materiais de pesquisa venham para o primeiro plano, articulados diretamente com o próprio texto, o que permite que se mostre um processo de investigação e leitura de imagens, sons, e ilustrações. Além disso, abre novos canais de comunicação do argumento com o leitor, ativando a imaginação histórica. Pode nos contar como foi produzir o livro nesse formato específico? Em que medida o formato influenciou o próprio “conteúdo” do livro?

Deu muito trabalho. Mas valeu muito a pena. Quando recebi a proposta de fazer esse tipo de livro, eu estava começando a escrevê-lo. E foi estimulante saber que eu não teria limites de imagens e que poderia buscar áudios e vídeos! Acabei voltando para a pesquisa na busca de mais imagens e o resultado foi sensacional. Não imaginava encontrar tantas capas de partitura com representações racistas no Brasil (as imagens das capas nos Estados Unidos estão todas disponíveis on line). A possibilidade de usar os áudios também foi desafiadora, pois, até mais do que a imagem, precisei fazer minha escrita dialogar com o que o leitor estaria ouvindo. E o esforçou valeu, pois o argumento ficou bem mais denso. Eu brinco que é um livro para ler, ouvir e dançar. Depois do livro, fizemos também um filme de 10 minutos que ajuda na divulgação, mas também tem vida própria, pois me permitiu uma linguagem bem livre para narrativa. É um pequeno filme para dialogar com o público mais jovem nas escolas e estabelecer diálogos diretos com o tempo presente. Até Michael Jackson aparece no filme que pode ser visto abaixo:

 


 Um abraço,

Equipe BVPS

LANÇAMENTO DO LIVRO “ENLACES. ESTUDOS DE FOLCLORE E CULTURAS POPULARES”, POR MARIA LAURA CAVALCANTI E JOANA CORRÊA (ORGS.)

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O Blog da BVPS convida para o lançamento do livro Enlaces. Estudos de Folclore e Culturas Populares, organizado por Maria Laura Cavalcanti (UFRJ) e Joana Corrêa (UFRJ). Os eventos ocorrerão no Rio de Janeiro dia 7 de dezembro às 18:30 hrs no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (Rua do Catete, 179 – Catete) e em Brasília dia 9 de dezembro às 20 hrs na 31ª Reunião Brasileira de Antropologia (Foyer da Associação dos Docentes da UNB).

Enlaces traz o diálogo criativo de pesquisas históricas e antropológicas contemporâneas com o legado dos estudos de folclore em renovados encontros intelectuais e mediações no campo das culturas populares. O livro homenageia a obra do antropólogo Luis Rodolfo Vilhena (1963-1997) e celebra também os 60 anos de criação do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular e 50 anos do Museu de Folclore Edison Carneiro.

Um abraço,

Equipe BVPS

DEBATE “A FORÇA DA CULTURA EVANGÉLICA NA SOCIEDADE BRASILEIRA HOJE: RELIGIÃO, POLÍTICA E CONSTRUÇÃO DA INDIVIDUALIDADE” (PROGRAMA AVANÇADO DE ESTUDOS CONTEMPORÂNEOS/PACC/UFRJ)


O Blog da BVPS convida para o debate “A força da cultura evangélica na sociedade brasileira hoje: religião, política e construção da individualidade”. O evento ocorrerá dia 6 de dezembro, quinta-feira, de 9:30 hrs às 13 hrs na Sala do PACC (Programa Avançado de estudos Contemporâneos – Faculdade de Letras. Rua Horácio Macedo 2151, Cidade Universitária/Fundão. A entrada é franca.

Participações:

Monica Francisco (Pastora e deputada estadual pelo Rio de Janeiro)

Maria das Dores Campos Machado (ESS/UFRJ)

Marcia Contins (PPCIS/UERJ)

Edlaine Campos Gomes (Ciências Sociais/UNIRIO)

Um abraço,

Equipe BVPS

PALESTRA “O ESCRAVO VAI À ÓPERA:TEATRO LÍRICO E REGIME ESCRAVISTANO RIO DE JANEIRO E NA HAVANA OITOCENTISTAS”, POR MARCELO DIEGO (PRINCETON)

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“Theatro Imperial”, litografia do álbum Saudades do Rio de Janeiro. Desenho de Carl Wilhelm von Theremin, gravado por Loeillot e impresso por Druck Von L. Sachse & Co. M., em Berlim, 1835. Dimensões: 31,5 x 43,8 cm. Coleção Brasiliana Itaú. Disponível em: <https://www.brasilianaiconografica.art.br/obras/18147/theatro-imperial-theatre>. Acesso em 25.10.2018.

O Blog da BVPS convida para a palestra “O escravo vai à ópera: teatro lírico e regime escravista no Rio de Janeiro e na Havana oitocentistas” por Marcelo Diego (Princeton) a ser proferida no dia 6 de dezembro de 2018, quinta-feira, às 17 horas, no IFCS/UFRJ (Largo de São Francisco, 1, Centro, Rio de Janeiro). O evento é organizado pelo Núcleo de Estudos Comparados e Pensamento Social (NEPS/UFRJ/UFF).

O resumo da palestra segue abaixo:

Em minha tese de doutorado, intitulada Ópera flutuante: teatro lírico, literatura e sociedade no Rio de Janeiro do Segundo Reinado, observei a recepção das companhias e dos repertórios europeus de ópera por parte do meio literário da corte fluminense, ao longo de grande parte do século XIX. A fim de situar essa dinâmica no contexto mais amplo dos circuitos transatlânticos, examinei também, embora menos detidamente, como ela se deu em Havana e em Buenos Aires, dentro desse mesmo recorte temporal. À medida em que comecei a analisar as fontes, fui me dando conta da importância do papel desempenhado por uma personagem que eu supunha estar inteiramente relegada aos bastidores, na elitista cultura da ópera: o escravo. Notei que, nos casos brasileiro e cubano, alguns textos literários (e outros não literários, mas produzidos por escritores, de caráter biográfico e crítico) forneciam importantes testemunhos a respeito da relação entre o regime escravista e o universo do teatro lírico. Esses testemunhos parecem revelar, em primeiro lugar, que foi a base escravocrata da economia e da organização social do Brasil e de Cuba que permitiu o florescimento da cena musical no Rio de Janeiro e em Havana; em segundo, que a mão de obra negra, majoritariamente escrava, foi rapidamente instrumentalizada e mobilizada para o trabalho no meio teatral, nessas duas cidades; e finalmente, em terceiro lugar, que a população negra urbana, tanto escrava quanto livre, foi igualmente hábil em sua apropriação das artes e ofícios do espetáculo, convertendo-os em um instrumento de profissionalização fundamental, na transição do regime de trabalho servil para o assalariado. A partir da peça O demônio familiar (1857), de José de Alencar; da polêmica travada nas páginas do Correio Mercantil, d’A Marmota e do Diário do Rio de Janeiro entre Francisco Otaviano, Paula Brito e o próprio Alencar, a propósito da peça deste; da Autobiografía de un esclavo (1835-1839), de Juan Francisco Manzano; do romance Cecília Valdés (1839-1882), de Cirilo Villaverde; e do diário Viaje a La Habana (1840-1844), da condessa de Merlín – esta apresentação pretende explorar os vasos comunicantes entre os universos do teatro lírico e do regime escravista, no Rio de Janeiro e na Havana oitocentistas.

Um abraço,

Equipe BVPS

CERIMÔNIA DE ENTREGA DO “PRÊMIO LITERÁRIO NACIONAL 2018” PARA LILIA MORITZ SCHWARCZ (USP E UNIV. DE PRINCETON)

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A Biblioteca Virtual do Pensamento Social convida para a cerimônia de entrega do “Prêmio Literário Nacional 2018”, ocasião que nossa colega Lilia Moritz Schwarcz (USP e Universidade de Princeton) receberá o prêmio de Primeiro Lugar na categoria Ensaios pelo livro Lima Barreto: Triste Visionário. Livro que vem se destacando desde a publicação ano passado, tendo recebido também recentemente o Prêmio de Melhor Obra Científica da Anpocs de 2018.

Um abraço,

Equipe BVPS

COMENTÁRIO AO LIVRO EXPLOSÃO FEMINISTA: ARTE, CULTURA, POLÍTICA E UNIVERSIDADE DE HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA (ORG.), POR APARECIDA F. MORAES (DEPT. SOCIOLOGIA/UFRJ)

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No segundo post dedicado ao lançamento do livro Explosão feminista: Arte, Cultura, Política e Universidade (Edit. Companhia das Lestras, 2018) de Heloísa Buarque de Hollanda (UFRJ), o Blog da BVPS tem a alegria de publicar o comentário inédito da professora Aparecida F. Moraes (Profa. Associada do Departamento de Sociologia da UFRJ). O lançamenteo ocorrerá no dia 29 de novembro, às 19 horas, na Livraria da Travessa (Rua Visconde de Pirajá, 572/Rio de Janeiro).

 

Comentário ao livro EXPLOSÃO FEMINISTA: Arte, cultura, política e universidade de Heloisa Buarque de Hollanda (Org.) (Editora Companhia das Letras, 2018)

Por Aparecida F. Moraes (Profa. Associada do Departamento de Sociologia da UFRJ)

 

    Explosão Feminista, título que tem força metafórica, nos transpõe de muitas maneiras ao panorama explosivo do feminismo brasileiro contemporâneo. O feminismo que está nas ruas, na cultura, na política, em diferentes formas de expressão artística, universitária e nas redes sociais, tem mostrado o seu poder de expansão e difusão. Nas marchas de protesto das ruas e nas redes, criativas palavras de ordem, ideias e imagens propagam-se e geram convicções, emoções e disposição para agir, o que tem resultado em tipos diversos de ativismos que se retroalimentam entre espaços on-line e off-line.

    A leitura do livro também nos provoca pequenas explosões internas. Esta gera pensamentos inquietantes, principalmente quando miramos o atual horizonte político brasileiro e quando permitimos que a diversidade de conteúdos expostos em mais de quinhentas páginas evoquem, imaginativamente, perguntas ainda a serem respondidas, ou mesmo melhor formuladas, nos estudos de gênero. Este é um livro que sugere questões, que convida à problematização, e que mostra movimentos e fluxos múltiplos de transformação em diferentes lugares de celebração e renovação das ideias feministas. Sublinha, desta forma, a circulação de visões emancipatórias e de conflitos que estão atingindo subjetividades de mulheres e pessoas LGBTQI feministas, percebam-se elas, ou não, com o rótulo de ativistas. Ao mesmo tempo em que mudam, são subjetividades que estão também em constante construção e tornar-se, que prefiguram possibilidades de um devir feminista.

    O propósito de oferecer “um panorama da quarta onda feminista, examinando o contexto dos novos ativismos nas ruas e na rede, dos vários feminismos das diferenças, do feminismo na poesia, nas artes, na música, no cinema, no teatro e na academia”, não expõe a obra ao risco da superficialização ou homogeneização. A visão panorâmica é articulada com conteúdos temáticos que percorrem o livro e que recebem tratamento delicado e cuidadoso. Os temas escritos em coautoria são expostos de forma clara, elucidativa e, ao mesmo tempo, são abordados com verniz criativo e inspirador. Ainda há um pequeno espaço no início do livro onde Heloisa Buarque de Hollanda apresenta como a “onda teórica” feminista a alcançou na trajetória acadêmica. Ali somos presenteados com um esmerado roteiro de questões trazidas por autoras célebres que trataram de temas como diferenças, identidades e desigualdades de gênero. Gayle Rubin, Gloria Anzaldúa e Cherríe Moraga, Gayatri Spivak, Donna Haraway, Teresa de Lauretis e Judith Butler são lembradas pela apresentadora da obra por suas grandes contribuições para o desenvolvimento deste campo de estudos.

    Compartilhar pesquisa e escrita, verbo usado pela organizadora, foi o formato escolhido para a produção do livro. A dedicação ao processo resultou em capítulos que foram costurados via uma desafiadora produção autoral compartilhada. O produto exitoso junta a reconhecida e aclamada trajetória de Heloisa Buarque de Hollanda com a de outras prestigiadas feministas e autoras. Heloisa escreve “com” jovens ativistas e intelectuais feministas que se mostram já muito experientes naquilo que fazem e pensam.

    O livro pode fornecer também algumas chaves para compreendermos processos de médio ou longo alcance, no que diz respeito ao feminismo brasileiro. A organizadora da obra procura preencher lacunas dando a palavra a mulheres que tiveram papel importante no momento identificado como “terceira onda” do feminismo. Apensados ao livro como “quase anexo”, conforme sugere a organizadora, os capítulos dessas reconhecidas “veteranas” oferecem aos leitores as suas memórias. Claro que não vamos encontrar neste empreendimento uma explicação sobre as relações entre “feminismo do presente” e “do passado”. Não se trata de fortalecer divisões periódicas, tampouco a ideia de que o feminismo se move em uma direção definida nestas prováveis conexões. O que a leitura nos permite identificar são os contornos de diferentes percursos militantes e ativistas, com as suas curvas salientes, torneados côncavos ou convexos, mas também com intervalos mais retos e contínuos. Neste sentido, a oportunidade de ler as “veteranas” é mais uma acertada escolha do projeto do livro. Isso pode nos ajudar a entender melhor os cenários da atual explosão, além de alertar, como reconhece a organizadora, para a urgência de trabalhos mais aprofundados sobre as trajetórias do feminismo brasileiro.

    Por fim, destaco que a participação de diferentes autoras e colaboradoras no Explosão Feminista representa também o reavivado “feminismo da diferença” sobre o qual a própria obra se propõe a refletir. Neste mosaico autoral, estão presentes textos e depoimentos de pessoas que se identificam como feministas cisgênero, protestante, radical, transfeminista, lesbofeminista. Elas tem condição etária, geracional, étnica, racial muito diferentes, além de experiências e formações distintas na política, na vida profissional ou acadêmica. O que se observa é um transbordamento de encontros multilocalizados que enriqueceram a produção desta obra criativa e de fôlego. Este é mais um mérito deste livro que, certamente, cumprirá papel de destaque no desenvolvimento de estudos situados na área de gênero e feminismos.

LANÇAMENTO DO LIVRO “RUMOS DO SUL. PERIFERIA E PENSAMENTO SOCIAL”, POR MARIANA CHAGURI E MÁRIO MEDEIROS (ORGS.)


O Blog da BVPS tem o prazer de apresentar o livro “Rumos do Sul. Periferia e Pensamento Social”, organizado por Mariana Chaguri (UNICAMP) e Mário Medeiros (UNICAMP). O livro conta com artigos de Elide Rugai Bastos, André Botelho, João Marcelo Maia, Josué Pereira da Silva, Marcelo Rosa, Cláudio Costa Pinheiro, José Luís Cabaço, Rita Chaves, Maria Paula Meneses, Alexandro Paixão, Antonio Brasil Jr., Bernardo Ricupero, Deivison Faustino, Alfredo Cesar Melo, Simone Meucci, Alexsandro Pereira, Marcelo Ridenti e Pedro Meira Monteiro. Para acessar o Sumário completo clique aqui.

Abaixo o resumo do livro.

Neste livro estão os debates sobre os alcances e os limites teóricos, analíticos e metodológicos da periferia. Vista no plural e debatida a partir de uma variedade de temas e problemas, a periferia é tomada aqui como ponto de partida para ler modernidades e colonialismos uns contra os outros. Vistos em conjunto, os capítulos sugerem que a periferia é um espaço geográfico e também uma ideia; é uma condição histórica, política e econômica delimitada, que pode ser aceita, questionada ou ter seus sentidos alargados, dependendo do contexto. Tornada realidade concreta, mas também imaginação social histórica e sociologicamente formulada, e, portanto, disputável, a pluralidade de análises de processos sociais e sujeitos, obras e autores analisados apontam para o potencial das ideias como forças sociais, isto é, para o modo como diferentes ideias, repertórios e linguagens concorrem ativa e reflexivamente para a modulação do mundo social, operadas pelos sujeitos que as formulam ou que as absorvem, cultural e politicamente, de maneira sincrônica ou diacrônica, conferindo ou disputando sentidos com o contexto social envolvente. A periferia torna-se realidade concreta, mas também imaginação social histórica e sociologicamente formulada, disputável.

Mariana Chaguri & Mário Medeiros (orgs.)

Mariana Miggiolaro Chaguri é professora do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Campinas e diretora do Centro de Estudos Rurais (Ceres IFCH/Unicamp). Recebeu o Prêmio do Concurso Brasileiro Anpocs de Obras Científicas e Teses Universitárias em Ciências Sociais, em 2008. Autora de O Romancista e o Engenho: José Lins do Rego e o regionalismo nordestino dos anos 1920 e 1930, São Paulo: Anpocs /Hucitec, 2009.

Mário Augusto Medeiros da Silva é professor do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas. Recebeu o Prêmio para Jovens Cientistas Sociais de Língua Portuguesa, do Centro de Estudos Sociais, da Universidade Coimbra, em 2013. Autor de A Descoberta do Insólito: literatura negra e literatura periférica no Brasil (1960-2000), Rio de Janeiro: Aeroplano, 2013.

Um abraço a todas e a todos,

Equipe BVPS

LANÇAMENTO DO LIVRO “EXPLOSÃO FEMINISTA”, POR HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA (UFRJ)

O Blog da BVPS convida para o lançamento do livro “Explosão Feminista. Arte, Cultura, Política e Universidade”, que ocorrerá no dia 29 de novembro, às 19 horas, na Livraria da Travessa (Rua Visconde de Pirajá, 572/Rio de Janeiro). O convite do evento e apresentação do livro seguem abaixo.


Um panorama múltiplo da quarta onda feminista no Brasil de 2013 até hoje.

Este livro é um livro-ocupação. A professora Heloisa Buarque de Hollanda, uma das vozes mais respeitadas e ativas do país quando o assunto é feminismo, convida mulheres de diferentes origens e campos de atuação para tratar deste tema que, de 2013 para cá, vem ganhando um alcance sem precedentes.

Como, nesta quarta e surpreendente onda, o movimento tem se organizado nas ruas, nas redes e na política? De que maneira as mulheres estão se posicionando nas artes, na poesia, no cinema, no teatro, na música e na academia? Quando dizemos “feminismos”, no plural, de quem exatamente estamos falando, e qual é a importância de marcar as diferenças? E, por fim, quem são, no Brasil, as veteranas que vêm fazendo história, tanto na área cultural quanto na política?

Em Explosão feminista, Heloisa busca mapear como a militância das mulheres, em diversas frentes, se estabeleceu como tema imprescindível e urgente no debate atual.

Nascida em Ribeirão Preto (SP) em 1939, HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA é escritora e professora de teoria crítica da cultura da UFRJ. Coordena o Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC/UFRJ) e o projeto Universidade das Quebradas. É autora de muitos livros — entre eles, Impressões de Viagem; O feminismo como crítica da Cultura; Asdrúbal trouxe o trombone e Rachel de Queiroz — e organizadora da antologia 26 poetas hoje (1976).

Um abraço a todas e a todos,

Equipe BVPS

LANÇAMENTO DO LIVRO “A SOCIOLOGIA ENRAIZADA DE JOSÉ DE SOUZA MARTINS”, POR FRAYA FREHSE (ORG.)


O Blog da BVPS convida para o lançamento do livro “A Sociologia Enraizada de José de Souza Martins” (Ed. Com-Arte), organizado pela Profa. Fraya Frehse (USP). O evento ocorrerá no dia 24 de novembro das 11 às 14 hrs na Livraria da Vila (Rua Alameda Lorena, 1731, Jardim Paulista – SP). O livro conta com diversos especialistas como Maria Arminda do Nascimento Arruda, Leonilde Servolo de Medeiros, Zander Navarro, Chiara Vangelista, Elide Rugai Bastos, William Héctor Gómez Soto, Sérgio Adorno, José Machado Pais, Antonio Motta, Etienne Samain, José Jeremias , Marilia Pontes Sposito, Margarida Maria Moura, Carlos Rodrigues Brandão, Alfredo Bosi, Paulo Bomfim, Ivan Vilela e Fraya Frehse. Confira abaixo o release do lançamento e clique aqui para acessar o sumário do livro.

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