Notas sobre Pensamento Social Brasileiro nos currículos: pressupostos, inquietações e questões de uma pesquisa em elaboração, por Simone Meucci (UFPR) e Lucas Carvalho (UFF)


O objetivo da pesquisa promovida pela Biblioteca Virtual de Pensamento Social será realizar um mapeamento do Pensamento Social Brasileiro nos currículos dos cursos de graduação e pós-graduação em Ciências Sociais, Sociologia, Ciência Política e Antropologia no Brasil. Neste post, faremos algumas considerações sobre o material coletado até agora e que foi apresentado no último Seminário da BVPS, realizado nos dias 7 e 8 de novembro de 2017 no IFCS/UFRJ.

Iniciamos com o levantamento das instituições do Sul e do Sudeste do Brasil, mas nossos apontamentos, ainda para essas regiões, são bastante provisórios pelo seu caráter exploratório. Por isso, discutiremos agora menos os resultados parciais do que as inquietações que nos mobilizam para essa tarefa.

Inspirados numa sociologia do conhecimento (em particular a sociologia do currículo), partimos do pressuposto de que o currículo p0de ser expressão de embates, tensões e acomodações, ao mesmo tempo em que é também seu artífice. Não apenas orienta, mas se desfaz ou refaz na elaboração das ementas e na seleção das bibliografias, nas dinâmicas das aulas, nas reuniões departamentais, nos pequenos e grandes debates científicos. Logo, não deve ser visto como um documento, mas como uma prática que se relaciona a uma numerosa cadeia de ações.

Isso impõe aos estudos do currículo uma tarefa duplamente desafiadora: por um lado, ultrapassar o formalismo do documento que oculta a prática, e, por outro, dar conta da prática que pode não apenas instituir, mas também, por vezes, confrontar e negar o documento que é também prática. Metodologicamente, a exigência dessa perspectiva é a de reconstituir a ambiência (o nexo de ações) no qual o documento foi produzido e as condições nas quais ele é instituído (ou não). Ou seja, não basta a busca por matrizes curriculares nos sites das coordenações, mas é imprescindível os planos de ensino reelaborados a cada ano pelas/os professoras/es, as bibliografias e ementas efetivamente aplicadas, o calendário de eventos sobre temas correlatos, além de entrevistas com professoras/es e estudantes.

Isso porque entendemos que indagar sobre expressões curriculares de um campo de conhecimento é efetivamente perscrutar ações sociais, seus fundamentos e efeitos; ou, dito de outro modo, é compreender dinâmicas sociais que assumem
formas específicas e expressivas (nem sempre evidentemente notáveis) no meio intelectual.

No caso do Pensamento Social Brasileiro, trata-se de perguntar como uma área de conhecimento tão polissêmica é significada, realizada e quais os limites e alternativas para sua prática. O exame das suas formas de repercussão curricular, além de nos fazer reconhecer os sentidos e expectativas atribuídos à área, permitirá ainda a formulação de hipóteses acerca das modalidades, possibilidades e até bloqueios na rotinização de interpretações do país no ensino superior brasileiro, em particular nos cursos de formação de cientistas sociais. Em Simpósio organizado por Lilia Schwarcz e André Botelho (2011), alguns dos principais pesquisadores da área apontaram para diferentes estratégias cognitivas e didáticas que o repertório formado pelos intérpretes e questões do Pensamento Social Brasileiro permite realizar no ensino na graduação e pós-graduação. Temas eleitos pelos pesquisadores como região e nação, diversidade e desigualdade, sociologia da cultura e dos intelectuais, e outras postas em diálogo com a teoria social demonstram que o ensino de Pensamento Social Brasileiro tem sido intelectualmente profícuo na promoção do diálogo entre diversas áreas de conhecimento e na compreensão da formação da sociedade brasileira.

Nesse aspecto é preciso ressaltar que atualmente, no Brasil, o escrutínio das possibilidades e alcances do ensino de Pensamento Social Brasileiro se torna particularmente relevante. Observemos que os rumos mais recentes da dinâmica política nacional fundamentam-se no imperativo de que não há particularidades nacionais, uma máxima atuante que orienta reformas urgentes na legislação dedicadas ao combate de especificidades que obstruem a expansão do mercado. Ocorre, pois, que a constituição de uma oposição estrita entre sociedade e mercado coloca em questão o próprio estatuto das Ciências Sociais, como também, em especial, o objeto do Pensamento Social Brasileiro, qual seja, as interpretações do Brasil.

No entanto, por outro lado, esses mesmos rumos políticos, sua radicalidade e sua dinâmica surpreendente, acabam demandando reflexões sobre a natureza dos processos sociopolíticos no Brasil e como se integram a uma dinâmica mais abrangente dos influxos mundiais. Ironicamente, pode-se afirmar que nunca foi também tão valorizada a fortuna intelectual sobre a qual se debruça o Pensamento Social, formada em grande medida pelas interpretações do Brasil e as diferentes dimensões da formação societária que suas perspectivas integram. Identificá-las, suas linhagens e suas consequências sócio-históricas passa a ser uma tarefa importante para compreender fundamentos e movimentos da história recente.

Por fim, não se pode desprezar o fato de que, em muitos sentidos, a crise atual denota disrupturas e disputas na própria consciência que a sociedade tem de si, em seus vários aspectos: desde as relações raciais até as representações da prática política e institucional, sem esquecer os dilemas do individualismo e do igualitarismo na experiência periférica. Nesse caso, a área de Pensamento Social Brasileiro, suas análises têm a potencialidade de figurar como fundamentais à qualificação do debate social.

Nesse particular, no que se refere à circunstância relevante para a investigação das possibilidades de ensino e repercussão do Pensamento Social Brasileiro, as disputas em torno dos valores identidade/universalidade, mercado/nação e os embates sobre formulações de nossas especificidades bem como de sua potencial capacidade de interpelação teórica, fazem esse trabalho de pesquisa assumir uma conotação mais atenta com as possíveis capilaridades e bloqueios que o ensino enseja entre a área de conhecimento e o debate social. As conexões entre Pensamento Social Brasileiro, as Ciências Sociais e a Sociedade serão com efeito indagadas.

Partindo desses pressupostos, destas questões e expectativas gerais, a primeira pergunta que orienta esse esforço de pesquisa, diz respeito aos agentes que atuam na difusão do Pensamento Social Brasileiro – professores e instituições, em particular. Isso permitirá perscrutar futuramente quem são os produtores do campo numa perspectiva mais abrangente, identificando-os em suas ações institucionais miúdas, em geral desprezadas, mas que efetivamente são realizadoras de conhecimento: o plano de aula, a aula, o evento de extensão.

A segunda pergunta que nos conduz é mais difícil: o que é, afinal, Pensamento Social Brasileiro nos currículos de Ciências Sociais das universidades brasileiras? É, pois uma pergunta tão geral que se desdobra num conjunto de questões relativas a dois aspectos: 1) ao conteúdo selecionado e 2) ao seu estatuto nos currículos. Vamos ao primeiro bloco de questões: Quais as expectativas são elaboradas em seu nome? E quais conteúdos com os quais se pretende acolher essas expectativas? Quais são os temas e os termos que mais se repetem em suas ementas? E, por fim, o segundo bloco de questões que se refere aos processos de classificação, hierarquização e especialização no e do Pensamento Social Brasileiro: Como está relacionado e se distingue de outros “subcampos” de conhecimento (a Sociologia Brasileira por exemplo)? Apresenta o mesmo conteúdo nas diferentes áreas que compõem as Ciências Sociais? Quais as modalidades de curso em que mais aparece (licenciatura ou bacharelado)? Como se integra aos propósitos dos cursos?

Reforçamos que a pesquisa se encontra em estágio inicial e algumas de suas etapas ainda precisam ser revistas e/ou ampliadas. O primeiro passo foi o levantamento das ementas e bibliografias obrigatórias e eletivas/optativas que denominamos de “estáticas” – ou seja, aquelas contidas no plano pedagógico dos cursos – nas regiões Sul e Sudeste (perfil que imaginamos distinto das ementas “dinâmicas”, aquelas elaboradas por cada professor semestral ou anualmente). Com a ajuda de softwares, analisamos as palavras-chave das ementas e autores e obras mais citados nas bibliografias. O segundo passo foi o de, a partir das ementas encontradas, buscarmos na Plataforma Lattes os professores de cada instituição que ministraram mais de uma vez essas disciplinas. Os resultados sugerem algumas hipóteses:

. Diferente, por exemplo, do IESP/UERJ e do PPGAS/MN/UFRJ no Rio de Janeiro, cujos profissionais da área ingressam, sobretudo, em instituições do próprio Sudeste, a UNICAMP apresenta grande capilaridade entre as regiões, com forte centralidade no Sul do Brasil. Na figura abaixo as setas saem das instituições formadoras e chegam nas instituições em que atuam atualmente os professores das disciplinas na área de Pensamento Social Brasileiro.

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. Os dados acima permitem ainda visualizar com maior nitidez a taxa de “endogenia” e as regiões Sudeste e Sul apresentam. Profissionais que se formam nessas regiões, sobretudo Sudeste, têm maiores chances de se inserirem em instituições dessas mesmas regiões, o que significa dizer, por outro lado, que as possibilidades de inserção são reduzidas para os profissionais oriundos de outras regiões. Para melhor visualização plotamos no mapa do Brasil abaixo as cidades onde se localizam as instituições em que se formaram (mestrado e doutorado) os professores que ministram as disciplinas de Pensamento Social e as cidades onde se localizam as instituições onde atuam. Como se percebe, a concentração regional é bastante forte.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

. A área de Pensamento social brasileiro tem papel importante em “instituições regionais” – localizadas sobretudo no interior – e nas licenciaturas: essas instituições – provavelmente com corpo docente mais limitado e mais generalista – dedicam-se especialmente à história do pensamento social. Uma hipótese a ser perseguida é se a pouca profissionalização dá origem a uma perspectiva um tanto quanto escolástica que o Pensamento Social Brasileiro pode vir a reforçar. Quanto à licenciatura, como se estabelece a relação entre o ensino de Pensamento Social Brasileiro com a posterior atuação de profissionais na Educação Básica? Seria um lugar da reprodução dos cânones? No que toca especificamente a este ponto, a pesquisa pode contribuir para chamar a atenção dos especialistas da área para a importância da formação de professores.

. Dados relativos à ementa e à bibliografia demonstram que há uma “classificação” consistente das áreas de Sociologia, Ciência Política e Antropologia. Cada uma se apropria de modo diverso da fortuna intelectual produzida no Brasil e tem modos próprios de canonização dos autores e temas. Sociologia se dedica especialmente aos ensaios dos anos de 1930, ao passo que a Antropologia e a Ciência Política, sem se descurarem desses ensaios, dedicam-se a referências mais recentes. Em antropologia, Roberto DaMatta é o autor mais referido com 11 citações, seguido de Manuela Carneiro da Cunha com 10 citações. Florestan Fernandes, Gilberto Freyre, Lilia Schwartz e Renato Ortiz aparecem com 9 citações cada um. Na ciência política, se destacam os seguintes autores: Francisco Weffort e Boris Fausto cada um com 6 citações, Florestan Fernandes e Gilberto Freyre cada um com 5 citações, Sergio Buarque de Holanda e Wanderley Guilherme dos Santos cada um com 4 citações. Em todas

Nas ementas, notamos que a Ciência Política e a Sociologia se voltam para questões de formação nacional, ao passo que a Antropologia se debruça sobre temas como cultura e identidade nacional. O tema da desigualdade é tratado na Sociologia com 5 recorrências e na Antropologia com 3 e não aparece na Ciência Política.

Os apontamentos sobre os temas tratados por áreas podem causar a impressão de que os resultados são por demais óbvios. Mas não se deve esquecer que se trata de temas caros a cada área ou a todas que são estudadas à luz do estoque contido no Pensamento Social Brasileiro, o que pode sugerir o vigor e mesmo a pertinência da área para pensá-los. Esse é também um de nossos objetivos.

ENCAMINHAMENTOS FUTUROS

. Nessa etapa de pesquisa, os dados ainda se mostram muito brutos. A partir de agora é preciso avançar mais nos instrumentos de análise e menos na extensão do universo empírico. O levantamento incluindo outras regiões depende da consolidação dos filtros de pesquisa.

. A análise ganhará em densidade quando incorporamos as ementas e bibliografias “dinâmicas”. Estas, ao lado de outros materiais, como eventos, poderão nos auxiliar a compor um quadro mais atual do ensino e dos temas e autores que circulam pela área de Pensamento Social Brasileiro. Entrevistas com professores da área são, por conseguinte, instrumentos importantes para a compreensão dos sentidos investidos nesses materiais.

Referência Bibliográfica:

SCHWARCZ, Lilia & BOTELHO, André
(2011). “Simpósio: cinco questões sobre o pensamento social brasileiro”. In: Lua Nova. Revista de cultura e política. São Paulo: CEDEC, n. 82, p.139-159. 


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