Resenha | Imprensa, história e literatura, v. 2: Ser ou não ser jornalista: o fim da era romântica

Ao longo desta semana, o Blog da BVPS publica uma série de resenhas dos três volumes de Imprensa, história e literatura: o jornalista escritor, de Isabel Lustosa e Rita Olivieri-Godet (orgs). No post de hoje, sobre o segundo volume da publicação – Ser ou não ser jornalista: o fim da era romântica – trazemos a leitura de Márcia Abreu (Unicamp). Na sexta-feira, encerraremos a série com uma resenha do terceiro e último volume dos livros por Antonio Herculano (Casa de Rui Barbosa).

Para ler o primeiro post da série, por Tania Bessone (UERJ/IHGB), clique aqui.

Boa leitura!

O influxo recíproco entre imprensa periódica e literatura

por Márcia Abreu

Professora Titular do Departamento de Teoria Literária da Unicamp

Os três volumes que compõem a série Imprensa, história e literatura: o jornalista escritor são uma contribuição de peso para a compreensão de parte relevante da vida cultural brasileira e europeia. Fruto de um ousado projeto, coordenado por Isabel Lustosa e Tania de Luca, a obra reúne trabalhos de dezenas de pesquisadores que se debruçaram sobre a imprensa periódica do Brasil, França e Portugal, entre o início do século XIX e meados do século XX. Os resultados, compilados na publicação organizada por Isabel Lustosa e Rita Olivieri-Godet, mapeiam e analisam a imprensa periódica com especial atenção à figura do jornalista escritor, ou seja, do profissional das letras que escrevia tanto para jornais quanto produzia obras literárias publicadas em livro.

Um dos encantos da obra vem da nostalgia que sentimos ao olhar para o retrato do início de uma era que hoje pode estar chegando ao fim. Especialmente no volume intitulado Ser ou não ser jornalista: o fim da era romântica, que passo a comentar, acompanhamos o processo de consolidação das empresas jornalísticas e de estabelecimento da profissão de jornalista, que teve início no século XIX, se firmou no XX e que enfrenta forte abalo no início do XXI. Nos Oitocentos, alguns avanços tecnológicos, como o desenvolvimento de equipamentos gráficos capazes de imprimir maior quantidade de páginas em menor tempo, permitiram o barateamento e a popularização do jornal. Hoje outros avanços tecnológicos, nomeadamente o surgimento da internet e a disseminação de aparelhos celulares, estão colocando em xeque o modelo de periodismo constituído a duras penas no período examinado nesse volume.

Naquele momento, homens e mulheres de letras lutaram pela remuneração do trabalho de jornalista e pela valorização social dessa atividade, criaram novas formas de estruturação do espaço nas folhas periódicas, separando mais claramente os temas ao distinguir arte e cultura das questões políticas e econômicas, e fizeram esforços para estabelecer os limites entre o que era ou não notícia de jornal.

Hoje assistimos não apenas a uma progressiva perda de importância dos jornais impressos, mas também ao esfumaçamento das fronteiras entre os temas. Atônitos, observamos a proliferação de publicações em redes sociais, produzidas por não profissionais, que escrevem sem remuneração e sem qualquer compromisso com a checagem da veracidade. A ficção mistura-se com a realidade de nova forma, por meio de fake news, às quais cabe bem uma avaliação da imprensa corrente no século XIX francês, segundo a qual ela era “o agente democrático da besteira universal”.     

A leitura desse volume nos coloca, portanto, diante de uma produção cultural que nos é, ao mesmo tempo, tão familiar e tão distante. Para os pesquisadores das áreas de Letras e de História, para quem o século XIX é, muitas vezes, mais compreensível do que os dias atuais, os trabalhos reunidos nesse livro trazem valiosa contribuição, seja pelo desvendamento das condições de produção da literatura e de textos jornalísticos, seja pela abordagem multidisciplinar e pela abrangência transnacional.

Os trabalhos aqui reunidos deixam claro que ser escritor não era atividade desinteressada, produzida no alto da torre de marfim, e sim prática cotidiana, pela qual se esperava remuneração e que era realizada sob a pressão de prazos e de espaço a ocupar na folha impressa. O caso de Olavo Bilac, por exemplo, é exemplar. Enquanto as histórias literárias tradicionais destacam o antológico soneto XII de Via Láctea, pelo qual o autor recebeu a alcunha de “poeta das estrelas”, o estudo de Antonio Dimas evidencia a militância do escritor em prol da legitimação da profissão de jornalista e sua luta pelo reconhecimento de direitos previdenciários para os profissionais da imprensa – um direito conquistado a custo e que vem sendo solapado no século XXI com a “pejotição” dos trabalhadores da imprensa, para voltar à questão do contraste entre o que foi construído no período examinado nesse volume e o nosso tempo.

Também contrariando o que usualmente se encontra em histórias literárias convencionais, o estudo de Carlos Reis apresenta um Eça de Queiros preocupado com estratégias publicitárias e com negociações financeiras relacionadas à publicação de seus escritos, bem como atento aos prejuízos ocasionados pelas edições piratas que abundavam à época. Da mesma forma, no Brasil, Aluísio Azevedo preocupava-se com a profissionalização dos homens de letras, com a remuneração dos trabalhos da pena, e cerrava fileiras com Bilac na busca de uma legislação que garantisse direitos aos escritores. Como mostra o estudo de Jean-Yves Mérian, nessa luta se somaram Pardal Mallet e Artur Azevedo, que receberam apoio de letrados de peso como Machado de Assis e José do Patrocínio. Ainda que, no final do século XIX, eles tivessem conseguido algum êxito com a atuação da Sociedade dos Homens de Letras no Brasil, a luta pela profissionalização e por uma justa remuneração permaneceria na ordem do dia, chegando ao início do século XIX, quando Monteiro Lobato se batia para conquistar um espaço remunerado nas páginas da imprensa paulistana, como mostra o estudo de Tânia de Luca.

Outro elemento de destaque nesse volume é a diversidade de autores analisados nos capítulos, que vão de um atualmente desconhecido Georges Grisson a escritores canônicos como Émile Zola e Gui de Maupassant; de Aluísio Azevedo e Lima Barreto a Figueiredo Pimentel e Álvaro Moreyra. Se hoje eles ocupam lugares muito distintos no panteão literário (chegando, em alguns casos, a sequer terem qualquer espaço), em sua época atuavam igualmente em periódicos, buscavam nas notícias elementos para composição de personagens e situações, bem como enfrentavam dificuldades semelhantes para publicar e receber por suas composições.

A aproximação entre dinheiro e literatura, tema tabu em boa parte dos estudos literários, tem, como se vê, importante presença nesse volume, em que se analisam casos de sucessos como os escritos de Jorge Amado, que, com o perdão do trocadilho, pagou caro pelo êxito financeiro obtido com a venda de seus romances no Brasil e no exterior, já que, entre a ironia e o desprezo, a crítica coetânea julgava incompatíveis a qualidade literária e o sucesso de público. Jorge Amado, que alcançou cifras antes inimagináveis, trilhou caminho pavimentado por escritores como Artur Azevedo, que tinha forte preocupação com a lucratividade do que escrevia, ou como Figueiredo de Pimentel, cujos livros atingiram tiragens que, mesmo hoje, fariam a alegria de muitos editores.

Dinheiro não é o único tema tabu nos estudos históricos de literatura; a sexualidade também é tratada com reservas. Recusando essa visada moralista, o trabalho de Leonardo Mendes se debruça sobre romances de estrondoso sucesso no final do XIX como O aborto, Terror dos maridos, Canalha e Suicídio, todos de Figueiredo Pimentel. Autor pouco lembrado nos compêndios de literatura brasileira, tem alguma presença quando o tema é a literatura infantil, à qual também se dedicou com afinco, tornando-se escritor de sucesso em ramos tão distintos quanto a pornografia e a ficção para crianças. Tão desprezado quanto esses gêneros é o romance policial, engendrado no período e desenvolvido juntamente com os faits divers e com a reportagem policial. A chamada literatura de crime ganha espaço importante em estudos de Dominique Kalifa e de Elena Shizuno, que analisam narrativas ambientadas em Paris e no Rio de Janeiro, trazendo para a página impressa o mundo dos que viviam à margem da sociedade bem posta.

Assim como escritores de diferente plana e distinto grau de canonização convivem nos capítulos desse volume, autores de distintas nacionalidades coabitam suas páginas. Escapando da armadilha da limitação nacional na definição do corpus considerado, o volume discute a atuação de autores franceses, portugueses e brasileiros, entendendo o influxo recíproco que os jornais de diferentes localidades exerciam entre si.

À ampliação dos territórios considerados, no entanto, não correspondeu o alargamento das localidades. Na Europa, o foco dos trabalhos reunidos nesse volume concentrou-se sobre Paris e Lisboa, locais muito convocados nos estudos sobre o Oitocentos como referências para a produção brasileira. O exame da imprensa periódica de lugares menos visados, como a Nova Zelândia ou o Havaí, por exemplo, talvez revelasse a existência de outras dinâmicas na relação entre literatura e jornalismo ou mostrasse insuspeitas conexões com os dilemas que se enfrentavam no Brasil. Ainda que, no caso brasileiro, tenham sido consideradas as cidades de São Paulo e de Salvador, além do onipresente Rio de Janeiro, não houve espaço para o estudo dos periódicos das províncias, que também fervilhavam e que mantinham intensa relação com os jornais da capital do Império e da Europa. Nesse ponto, o volume faz eco às histórias literárias convencionais ao considerar que a literatura brasileira do século XIX e início do XX era aquela produzida no Rio de Janeiro. Outra infeliz semelhança com as histórias da literatura é a pequena presença de mulheres entre os escritores considerados, representadas apenas por Rachel de Queirós, o que deixa na sombra a pujante imprensa feminina e sua atuação em busca da igualdade social. Mais do que uma crítica, a anotação dessas ausências é esperança de que os trabalhos do grupo prossigam com força, ampliando a cobertura geográfica e incluindo os escritos produzidos por minorias. Quem sabe estaria aí o tema do próximo volume da série Imprensa, história e literatura; o jornalista escritor.

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