
Wanderley Guilherme dos Santos é um dos principais protagonistas das ciências sociais brasileiras. É um dos nossos clássicos na melhor acepção da palavra, aquele tipo de autor que, como diz Ítalo Calvino, ainda não terminou de dizer tudo o que tem a nos dizer. Outubro é um mês forte: Wanderley nasceu no dia 13 e faleceu no dia 25, de 1935 e 2019, respectivamente. A BVPS tem a honra de homenageá-lo com uma série Autorais, a primeira que dedicamos a um cientista político.
Com curadoria de Fabiano Santos e Johnny Nogueira, essa série propõe uma visão apenas ilustrativa, mas representativa, dos diferentes temas tratados na vasta, incontornável e potente obra do homenageado. Na primeira parte da série, que reunirá ainda mais dois outros textos, além do que hoje publicamos, o tema é crucial no pensamento de WGS: a questão da imaginação política brasileira. Que, para dizer o mínimo, contribuiu para originar uma área de pesquisa nas ciências sociais brasileiras. Questões que forjam a experiência de gerações intelectuais serão aqui relembradas. As novas gerações terão mais uma oportunidade de entrar em contato com ensaios ímpares de grande força narrativa, onde teoria, modos de abordagem e a realidade política se entrecruzam e ganham sentido juntos. Sem dúvida, uma inspiração para a tarefa permanente de renovação das ciências sociais.
Acompanhe a BVPS Autorais Wanderley Guilherme dos Santos a cada quinze dias, sempre nas manhãs de terça-feira. Confira abaixo a pequena nota dos curadores e o artigo de WGS “A imaginação político-social brasileira”, publicado originalmente em 1967 na revista Dados.
Boa leitura!
Nota explicativa
Por Fabiano Santos (IESP-UERJ) &
Johnny Daniel Nogueira (PPGPol/UFSCar)
Este é o primeiro artigo do primeiro bloco de artigos de Wanderley Guilherme dos Santos. Serão três artigos por bloco, compondo diferentes objetos de investigação do autor, de cujo desdobramento, ao longo do tempo, a presente composição tenta se aproximar. O tema do primeiro bloco trata da chamada imaginação sociopolítica brasileira, em que WGS investiga as origens do modo de se pensar a ordem, típica no nascimento da nação, e que sofre inflexões e descontinuidades com o advento das ciências sociais, emolduradas em departamentos de universidades, além de dotadas de ontologia e epistemologia envoltas em cânones.
A partir deste clássico publicado agora, teremos mais dois artigos em que teoria, realidade política e métodos de investigação fazem parte de um mesmo framework de reflexão, com a complexidade e genialidade características do autor.
A imaginação político-social brasileira[1]
Por Wanderley Guilherme dos Santos
I
É reduzido o número de trabalhos brasileiros recentes dedicados ao exame da história do pensamento político-social no Brasil. Salvo erro, os mais significativos são os seguintes[2]:
1943: Fernando de Azevedo – A Cultura Brasileira: Introdução ao Estudo da Cultura no Brasil;
1950: Djacir Menezes – La science politique au Brésil au cours des trente dernières années;
1955: Luiz de Aguiar Costa Pinto & Edson Carneiro – As Ciências Sociais no Brasil;
1955a: Alberto Guerreiro Ramos – Esforços de Teorização da Realidade Nacional Politicamente Orientados, de 1870 a Nossos Dias;
1955b: Alberto Guerreiro Ramos – A Ideologia da Jeunesse Dorée;
1956: Alberto Guerreiro Ramos – O Inconsciente Sociológico: Estudo sobre a Crise Política no Brasil na Década de 30[3];
1956: Djacir Menezes – La Sociologia en Brasil;
1956: Fernando de Azevedo (coordenador) – As Ciências no Brasil[4];
1956: Florestan Fernandes – Ciências e Sociedade na Evolução Social do Brasil[5];
1957: Florestan Fernandes – Desenvolvimento Histórico-Social da Sociologia no Brasil[6];
1958: Fernandes, Florestan – O Padrão de Trabalho Científico dos Sociólogos Brasileiros[7];
1961: Alberto Guerreiro Ramos – A Ideologia da Ordem.
Dos 12 trabalhos mencionados, seis destinam-se substantivamente a ordenar a história do pensamento político-social no Brasil, a saber: Fernando de Azevedo (1943; 1956), Guerreiro Ramos (1955a), Djacir Menezes (1956; 1950) e Florestan Fernandes (1957)[8]. Os demais abordam o tema de modo incidental, muito embora ofereçam elementos para a análise. A discussão a seguir, todavia, contemplará o total dos doze trabalhos.
II
Segundo as fontes mencionadas no parágrafo 1, a história do pensamento político-social brasileiro é composta por uma galeria de 100 nomes, como será possível observar no anexo 1. Excluindo-se do total de 100 os autores que começaram a produzir na década de 1940, assim como os críticos e panfletários listados por Fernando de Azevedo[9], restam 45 nomes (anexo 2), dos quais 21 são citados por mais de um dos nossos quatro autores-fonte, sendo os demais 24 citados apenas por um de nossos autores-fonte. Expõe-se, a seguir, a lista dos nomes que obtêm consenso entre nossos quatro autores-fonte – onde o número entre parênteses que segue cada nome indica quantos dos quatro autores-fonte o citaram – e a lista dos que só foram mencionados por um autor-fonte.
Nomes consagrados: Pontes de Miranda (4), Oliveira Viana (4), Gilberto Freyre (4), Alberto Torres (3), Nestor Duarte (3), Sílvio Romero (3), Euclides da Cunha (3), Caio Prado Jr. (3), Florentino Menezes (2), Delgado de Carvalho (2), Jackson de Figueiredo (2), Tristão de Athayde (2), Gilberto Amado (2), V. Licínio Cardoso (2), Aníbal Falcão (2), Fernando de Azevedo (2), Sérgio Buarque de Holanda (2), Afonso Arinos de Melo Franco (2), Tavares Bastos (2), Paulo Egídio (2), Tito Lívio de Castro (2).
Nomes disputados: Fausto Barreto, Miranda Reis, Alberto Sales, Fernando Pires, Castro Rebelo, Perdigão Malheiros, Joaquim Nabuco, Paulo Prado, Francisco José Brandão, Teixeira Mendes, Alvaro Bomilcar, Nicolau José Debané, João Ribeiro, Jonatas Serrano, José Maria dos Santos, Fernando Carneiro, Hamilton Nogueira, Azevedo Amaral, Virgínio Santa Rosa, Octávio de Faria, Martins de Almeida, Tobias Barreto, Eduardo Prado, Soriano de Albuquerque.
Segundo os nossos autores-fontes, tais foram os quarenta e dois nomes, consagrados uns, duvidosos outros, que produziram a história do pensamento político-social no Brasil. Eis, agora, duas questões: a) sobre que registro histórico dispõem os nossos autores-fonte os nomes listados?; e, b) qual o princípio que, simultaneamente, permite descobrir os nomes que compõem a série histórica e, simultaneamente, localizá-los nessa série? Exemplificando: dos 26 nomes fornecidos por Guerreiro Ramos para a nossa população de 45, apenas 13 foram também alinhados por algum outro de nossos autores-fonte, enquanto os demais constituem mais de 50% do número de nomes disputados. A partir de quais premissas Guerreiro Ramos pode vê-los como partícipes da população histórica da ciência social no Brasil? Por que os demais autores-fonte não os viram nessa mesma qualidade? A discussão a seguir tentará expor as razões.
III
O texto de Costa Pinto e Carneiro, sendo o resultado de uma pesquisa promovida pela CAPES, a fim de dar conta “dos objetivos práticos e das perspectivas concretas, culturais e profissionais, com que defrontam os cientistas sociais brasileiros” (Costa Pinto & Carneiro, 1955: 68) ordena a evolução das ciências sociais brasileiras em função de suas características institucionais. Entende-se, assim, que 1930 seja tomado como marco inicial da periodização e que esta contemple apenas marcos legais e/ou institucionais[10]. Em consequência, o texto não oferece uma história das ciências sociais no Brasil, mas, antes, uma cronologia das etapas da institucionalização educacional da atividade dos cientistas sociais brasileiros. A citação de autores, portanto, é meramente incidental.
O critério de periodizar a história do pensamento político-social brasileiro segundo as etapas de institucionalização da atividade científico-social constitui, entretanto, a matriz historiográfica dos textos de Djacir Menezes[11], Fernando de Azevedo (1956: 380-81) e Florestan Fernandes (1957: 201). É basicamente à institucionalização das atividades científico-sociais que se atribui o caráter de divisor de águas entre o período pré-científico e o período científico da produção intelectual brasileira. Tal periodização, embora rudimentar, tornou-se, por assim dizer, clássica.
As consequências da aplicação de tal esquema são evidentes. Dado que o período científico das ciências sociais no Brasil se inicia com a criação de cursos superiores, importação de professores estrangeiros e a introdução das técnicas de investigação de campo; e dado que tais acontecimentos só se verificaram no segundo quartel deste século, segue-se que a exposição da história do pensamento político-social brasileiro é extremamente simples: até o segundo quartel deste século produziram-se ensaios sobre temas sociais, a partir de então produziu-se ciência. Considerando-se, ademais, que qualquer que tenha sido a quantidade ou qualidade da produção do primeiro período ela é irrelevante para o progresso da ciência, torna-se desnecessário, senão ocioso, qualquer investigação sobre quantos autores constituem o passado cultural brasileiro, ou sobre o modo pelo qual pensaram o social. O interesse histórico se resumiria a catalogar a produção do primeiro período (pré-científico) pela temática e a explicar de que modo as variações na estrutura da sociedade introduziram modificações na temática pré-científica (Fernandes, 1957).
A simplicidade da perspectiva permite que a crítica se exima de ser complexa. Com efeito, a historiografia que ordena o passado em função do presente, e assumindo o presente como o “moderno”, está desarmada para entender as exatas articulações do desenvolvimento intelectual da humanidade. A rigor, está desarmada até para entender o presente, pois, “on est toujours ‘moderne’ à toute époque, lorsque l’on pense à peu prés comme ses contemporaines et un peu autrement que ses maitres” (Koyré, 1966: 6).
E se tal perspectiva é insuficiente para a ordenação do pensamento científico-natural, essa insuficiência se acentua quando a matéria é o pensamento social, pois, como admite Florestan Fernandes, em outro texto, “os cânones científicos da investigação sociológica ainda não se encontram estabelecidos de maneira firme e universal” (Fernandes, 1958: 218). No entanto, critério tão pouco firme e universal é suficiente para classificar Tavares Bastos e Joaquim Nabuco, por exemplo, como autores pré-científicos, enquanto Delgado de Carvalho e A. Carneiro Leão são classificados como autores científicos. Pouca sorte de Nabuco e Tavares Bastos de terem nascido antes fundação das Escolas de Sociologia[12]. Uma comparação final: apenas utilizando tal critério não consigo ver de modo algum por que razão Gilberto Freyre é cientista e Azevedo Amaral não o é[13].
O texto de Djacir Menezes (1956), semelhantemente ao de Fernando de Azevedo (1943), utiliza uma multiplicidade de critérios para o ordenamento dos autores, padecendo ambos do mesmo vício metodológico: classificam os autores segundo as características manifestas dos textos que produziram. Apresenta-se abaixo o quadro da evolução do pensamento social no Brasil, elaborado por Djacir Menezes (1956). É suficiente.

Os textos de Guerreiro Ramos (1955a, 1955b, 1956 e 1961) escapam à visão anteriormente exposta. Nas diversas vezes em que abordou o tema utilizou sempre o critério de ordenar a produção intelectual brasileira do passado segundo o método (indutivo ou dedutivo) utilizado pelos diversos autores para a produção de suas categorias e, em consequência disso, da maior ou menor adequação do pensamento à dinâmica social. Para Guerreiro Ramos, é uma evidência histórica que o pensamento que elabora suas categorias mediante o recurso à indução está mais conforme a seu objeto do que aquela que as produz mediante a dedução de princípios formais. Essa premissa está na base de todos os trabalhos de Guerreiro Ramos mencionados no parágrafo I deste artigo e praticamente os demais textos de Introdução Crítica à Sociologia Brasileira (1957)[14].
É bastante discutível a noção que tem Guerreiro Ramos do que seja um processo indutivo ou dedutivo na elaboração das categorias teóricas, e mesmo se nos autores citados se verifica a utilização de tais processos, mas o que importa principalmente considerar é que sua visão do problema é muito mais elaborada do que anterior e, de saída, liberta o ordenamento da produção intelectual brasileira dos acidentes da cronologia temporal. Enfatizando uma peculiaridade teórica do pensamento social – ter suas categorias produzidas por indução ou dedução –, é possível reinterpretar os produtos culturais brasileiros e aproximar, por exemplo, Tristão de Athayde de Teixeira Mendes, ou Azevedo Amaral de Hélio Jaguaribe. O acidente de ter nascido alguém no século passado não o condenaria ipso facto a ser um fracassado postulante ao ingresso na comunidade científica. Por isto é possível que Guerreiro Ramos “veja” como pertencentes ao patrimônio cultural brasileiro autores e obras absolutamente ignorados pelos demais autores-fonte que estamos utilizando. Entretanto, a senda aberta por Guerreiro Ramos obrigaria a um levantamento o mais exaustivo quanto possível de autores e obras do passado – o que ele não se propôs a realizar –, e a um rigor de análise a que os textos de 1955, 1956 e 1961 não obedecem. A polêmica e fácil caracterização da ideologia da “jeunesse dorée” e da ideologia da ordem, assim como os elogios pouco fundados contidos em 1955a e 1956, comprometeram uma orientação de análise incomparavelmente mais fecunda que a de todos os demais textos citados no parágrafo 1.
O livro Introdução e Critica à Sociologia Brasileira (1957) traz, ainda, outro estudo que inaugura nova etapa no estilo de investigação utilizado por Guerreiro Ramos. Em “Notas para um Estudo Crítico da Sociologia no Brasil”, Guerreiro Ramos assume uma posição que, ao mesmo tempo, representa um atraso e um avanço em relação a seus outros textos. Com efeito, ordenando os produtos culturais ao longo da história empírico-social – característico de Fernando Azevedo, Costa Pinto e Edson Carneiro, Djacir Menezes e, sobretudo, Florestan Fernandes – ele estabelece a igualdade-dinâmica colonial = pensar colonial (Guerreiro Ramos, 1957: 18-19) –, sendo conduzido a uma periodização linear – 1) sociologia colonial; 2) sociologia nacional –, que é apenas uma verbalização diferente do esquema pré-científico x científico, explorado por Florestan Fernandes, e sujeito às mesmas objeções. Dessa perspectiva, sistematicamente propagada posteriormente pelo ISEB, decorria completa negação do valor e significado da produção intelectual brasileira do passado, que se exprimiu no simplismo que se tornou corrente – tudo é colonial na colônia –, entendendo-se por colonial o estatuto político-econômico do Brasil até meados do presente século. Irrelevante, portanto, seria pesquisar o patrimônio cultural brasileiro, repositório exclusivo de servidões intelectuais.
O texto de Guerreiro Ramos, todavia, apresenta uma novidade. Embora caracterizando como colonial o pensamento brasileiro do passado, dispõe-se a estabelecer um conjunto de categorias que exponham a razão da produção das teorias coloniais. Assim é que a sucessão de escolas aqui – comtistas, spenceriamos, tardistas, etc. – se explicaria pela simetria que obriga a que o pensamento colonial reproduza na mesma ordem as etapas da evolução cultural da metrópole. Igualmente, o dogmatismo explicaria que a legitimação das distintas teorias se fizesse não por sua adequação ao objeto – por definição elas não eram adequadas, pois que coloniais – mas por sua concordância com autores estrangeiros, única instância legítima de comprobabilidade na sociologia colonial. E, assim, as demais categorias – dedutivismo, alienação e inautenticidade – dão a razão da sociologia colonial.
Obviamente, a elaboração de Guerreiro Ramos é uma especulação ex-post facto, cuja presumida procedência consiste numa arrumação ad hoc de alguns autores, isolando-se, ademais, alguns aspectos imediatos da produção intelectual brasileira. Significativo, porém, é que, tendo suposto conhecida a população intelectual brasileira, e supostamente isolado sua característica comum – produção colonial – Guerreiro Ramos considera necessário estabelecer a lógica, por assim dizer, dessa produção. Quer isto dizer que, qualquer que tenha sido o valor da produção intelectual brasileira do passado – pré-científica ou alienada, não importa o nome –, a sua articulação não é irracional ou aleatória. Há uma razão que explica a produção teórica brasileira e a sua articulação na história, e esta razão não é apenas uma referência ex post ao contexto econômico-social – esta razão enganadora é a sociedade colonial de Guerreiro Ramos e a ordem patrimonial-escravocrata de Florestan Fernandes – mas inclui sua determinação teórica necessária. E, com isto, o texto de Guerreiro Ramos desvenda parte do objeto próprio da história do pensamento, inteiramente insuspeitado nos demais textos citados no parágrafo 1.
A tentativa de Guerreiro Ramos para ter sucesso, todavia, exigia preliminarmente que fosse delimitada a população intelectual brasileira. Ocorre, entretanto, que a classificação definitória de toda a produção brasileira como colonial excluía a necessidade de pesquisar os nomes que compõem o patrimônio cultural brasileiro, visto que todos estariam submetidos à mesma fatalidade de serem alienados. Inútil esperar qualquer novidade em qualquer autor, assim como é inútil, na perspectiva de Florestan Fernandes, esperar qualquer contribuição científica de quem produziu em período pré-científico. Os escassos nomes conhecidos são suficientes para uma descrição dos modos do pensamento pré-científico, em Florestan, ou para o exame da patologia do pensamento social, como em Guerreiro Ramos. Assim sendo, nenhum esforço maior foi realizado para o levantamento rigoroso do passado cultural brasileiro, e a tentativa de Guerreiro Ramos, só por isso, já estaria comprometida.
IV
Ao pensamento político-social brasileiro se aplica com inteira justiça o diagnóstico de A. Menzel: “O pensamento sociológico latino-americano, começando com o movimento da independência, foi muito fecundo; e, sem embargo, continua quase desconhecido, pois grande parte de seu conteúdo não foi ainda explorado e ordenado” (Menezes, 1956: 133). Os raros textos brasileiros dedicados ao tema não constituem inegavelmente trabalhos à altura da tarefa. Nem mesmo os de Guerreiro Ramos, cujas posições são as que, de longe, oferecem melhor abertura para o tema, contêm uma abordagem que ultrapasse as racionalizações post facto.
Há um valor extraordinário, todavia, em todos os textos citados. Constituem eles parte daquilo que Franklin de Oliveira chamou com precisão de memória nacional. Por isso que o trabalho científico-social no Brasil não se caracteriza, ainda, por contribuições sucessivas a um patrimônio comum, e na ausência de reedições de autores e obras antigas, nem mesmo os escassos nomes lembrados permaneceriam não fosse a existência desses textos. Acrescente-se a isto o interregno do Estado Novo, banindo do panorama cultural brasileiro toda uma tradição, e ocasionando que a geração formada sob sua vigência amadurecesse na mais completa ignorância desse patrimônio e fosse presa fácil da tese metodologicamente insensata de que todo o passado cultural brasileiro foi alienado. Àqueles textos está resumida a memória nacional quanto à história do pensamento político-social. É oportuno, portanto, um esforço de levantamento bibliográfico[15] e, até que seja possível exame mais acurado, que se exponha o pensamento daqueles autores cujas obras, se não tiverem outro mérito, contribuíram para formar o solo ideológico de que, consciente ou inconscientemente, partimos todos.
Anexo 1: Nome citados pelos autores-fonte (População Científico-Social Brasileira)
FERNANDO AZEVEDO: Pontes de Miranda, Delgado de Carvalho, Miranda Reis, Fernando Pires, Oliveira Viana, Gilberto Freyre, Jackson de Figueiredo, Tristão de Athayde, Ronald de Carvalho, Araripe Jr., Carlos Laet, Alberto Torres, Antônio Torres, Agripino Grieco, Humberto de Campos, Gilberto Amado, V. Licinio Cardoso, Sérgio Milliet, Fernando Azevedo, Antonio Candido, Lourival Gomes Machado, Gilda Melo e Souza, Gioconda Mussolini, Mário Wagner Vieira da Cunha, Lucila Hermann, Oracy Nogueira, Otávio da Costa Eduardo, A. Rubbo Müller, Vicente Unzer Almeida, Nestor Duarte, Sérgio Buarque de Holanda, Djacir Menezes, Mário Lins, A. Carneiro Leão, A. Guerreiro Ramos, L. A. Costa Pinto, Tales de Azevedo, Victor Nunes Leal, Manoel Diegues Jr., L. Pinto Ferreira, Gláucio Veiga, Tavares Bastos, Euclides da Cunha, Fausto Barreto, Tito Lívio de Castro, Sílvio Romero, Florentino Menezes, Paulo Egidio, Alberto Sales.
COSTA PINTO & EDSON CARNEIRO: Oliveira Viana, Castro Rebelo, Caio Prado Júnior, Gilberto Freyre, Pontes de Miranda, Victor Nunes Leal, Nestor Duarte, Djacir Menezes, Orlando Gomes Carvalho, Hermes Lima.
FLORESTAN FERNANDES: Tavares Bastos, Perdigão Malheiros, Joaquim Nabuco, Sílvio Romero, Aníbal Falcão, Paulo Egídio, Florentino Menezes, Euclides da Cunha, Alberto Torres, Oliveira Viana, Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Fernando Azevedo, Sérgio Buarque de Holanda, Nelson Werneck Sodré, Mário Lins, Gioconda Mussolini, Delgado de Carvalho, A. Carneiro Leão, Pontes de Miranda, Paulo Prado, Afonso Arinos de Mello Franco, Astrogildo Pereira, Gustavo Corção, Limeira Tejo.
ALBERTO GUERREIRO RAMOS: Francisco José Brandão, Aníbal Falcão, Teixeira Mendes, Sílvio Romero, Alberto Torres, Álvaro Bomilcar, Jackson de Figueiredo, Nicolau José Debané, A. Carneiro Leão, Gilberto Amado, Jônatas Serrano, José Antônio Nogueira, Nuno Pinheiro, Oliveira Viana, Pontes de Miranda, Ronald de Carvalho, Tasso da Silveira, Tristão de Athayde, V. Licínio Cardoso, Fernando Carneiro, Hamilton Nogueira, Afonso Arinos de Mello Franco, Octávio de Faria, José Maria dos Santos, Azevedo Amaral, Virgínio Santa Rosa, Martins de Almeida.
DJACIR MENEZES: Tavares Bastos, Tito Lívio de Castro, Tobias Barreto, Sílvio Romero, Eduardo Prado, Alberto Torres, Soriano de Albuquerque, Oliveira Viana, Pontes de Miranda, Mário Lins, Pinto Ferreira, Djacir Menezes, Joaquim Pimenta, Hermes Lima, Miguel Reale, Tristão de Athayde, Gustavo Corção, A. Carneiro Leão, Josué de Castro, Gilberto Freyre, Carlos Campos, Fernando Azevedo, Oracy Nogueira, Gioconda Mussolini, A. Rubbo Müller, Florestan Fernandes, L.A. Costa Pinto, Victor Nunes Leal, Abelardo Montenegro, Lourival Vilanova, Nelson de Souza Sampaio, Vivaldi Moreira, Sigefredo Marques Soares, Mecenas Dourado, Adonias Lima, Jader de Carvalho, Matos Ibiapina, Euclides de Mesquita, A. B. Buys de Barros, Fernanda Barcelos, Evaristo de Morais Filho, Tales de Azevedo, Cotrim Neto, Augusto Lins e Silva, Delgado de Carvalho, Guerreiro Ramos, Amaral Fontoura.
Anexo 2 – População Científico-Social Brasileira (excluídos os críticos literários e os autores que começaram a produzir em 1940)
Pontes de Miranda, Delgado de Carvalho, Miranda Reis, Fernando Pires, Florentino Menezes, Oliveira Viana, Gilberto Freyre, Jackson de Figueiredo, Tristão de Athayde, Alberto Torres, Gilberto Amado, V. Licínio Cardoso, Nestor Duarte, Sílvio Romero, Aníbal Falcão, Euclides da Cunha, Fernando Azevedo, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Afonso Arinos de Mello Franco, Tavares Bastos, Paulo Egídio, Tobias Barreto, Eduardo Prado, Soriano de Albuquerque, Joaquim Pimenta, Miguel Reale, Alberto Sales, Castro Rebelo, Perdigão Malheiros, Joaquim Nabuco, Paulo Prado, Francisco José Brandão, Teixeira Mendes, Álvaro Bomilcar, Nicolau José Dobané, João Ribeiro, Jônatas Serrano, José Maria dos Santos, Fernando Carneiro, Hamilton Nogueira, Azevedo Amaral, Virginio Santa Rosa, Octávio de Faria, Martins de Almeida.
Anexo 3
O trabalho de Almir de Andrade – Formação da Sociologia Brasileira – vol. I – Os Primeiros Estudos Sociais no Brasil, séculos XVI, XVII e XVIII (1941); – não foi considerado neste artigo precisamente por se ater apenas aos três primeiros séculos da história nacional e não oferecer, por isto, ponto comum de comparação com os demais. Deve ser mencionado, entretanto, que, apesar de admitir a mesma periodização – etapa pré-científica; etapa científica (ver prefácio da obra) – incluindo-se os três primeiros séculos na primeira etapa, o modo pelo qual é feita a análise dos autores é bem mais interessante do que a maioria dos nossos autores-fonte. O ordenamento dos autores é feito, por Almir de Andrade, conforme a seguinte classificação: (1ª e 2ª partes da obra: páginas 17 a 119):
1) Tipos de observador; 2) Método utilizado; 3) Estado de ciência à qual se prende o método na época do observador; 4) Temática dos autores.
Teríamos, assim, o seguinte quadro, extraído de Almir de Andrade, para ordenar a produção cultural brasileira:

Após a construção desse quadro, poderíamos ampliá-lo e obter (3ª parte da obra: páginas 119 a 273) o seguinte ordenamento: Tipo de Observador- Seriação cronológica (ano, século). Tipo de Obra (cartas, memórias, livros etc.) Tipo de Observação (etnográfica; histórica etc.).
A introdução dos tópicos – estado da ciência e temática – constitui, sem dúvida, uma aproximação bem mais adequada. Pena é que o trabalho não se tivesse completado, com a mesma orientação, pois, nesse caso, grande parte do trabalho de elaboração da matéria-prima da história do pensamento político-social brasileiro já teria sido feita.
Notas
[1] Preferi o termo “imaginação” antes que o “ciência” para designar a produção teórico-social brasileira, atendendo a dois objetivos:
- não precipitar uma discussão sobre o significado da expressão “ciência social” e de sua adequação aos produtos culturais brasileiros do passado – o que só desejo fazer ao fim da série de artigos sobre o tema, que ora inicio; e
- indicar que, se seria demasiado considerar rigorosamente científico tais produtos culturais, seria igualmente equivocado descartá-los mediante a vaga, imprecisa e, pois, a-científica designação de “ideológicos” ou “pré-científicos”.
Fundamentalmente, pretendo demonstrar que as classificações correntes do pensamento político-social partem de uma premissa historiográfica insustentável – evolução linear do pensamento de etapa pré-científica para a etapa científica – a qual tem induzido a uma visão estereotipada do passado cultural brasileiro. Tal matriz historiográfica exprime uma interpretação positivista da história da ciência e é epistemologicamente equivocada: equivocada quanto à história, equivocada quanto à epistemologia. Artigos posteriores intentarão estipular novas condições para o ordenamento do pensamento político-social brasileiro, fundadas em outra epistemologia e em outra teoria da história. Nessa oportunidade, se discutirá com mais propriedade o uso do termo “imaginação”.
[2] Excluímos do campo de nossa investigação os trabalhos em antropologia e psicologia social, bem como trabalhos monográficos sobre autores isolados. Dos trabalhos frequentemente citados como textos autorizados sobre o desenvolvimento do pensamento político-social brasileiro, não foi manipulado apenas o de Antonio Candido, Informação sobre a Sociologia em São Paulo (1994). O de Almir de Andrade foi consultado (ver Anexo 3).
[3] Consultar nota anterior.
[4] Embora seja esta uma obra coletiva, o capítulo dedicado às ciências sociais foi escrito pelo próprio Fernando de Azevedo, e encontra-se no volume II, a cujas páginas remetem as citações.
[5] Os trabalhos de Florestan Fernandes mencionados em 1956, 1957 e 1958 foram republicados posteriormente em A Etnologia e a Sociologia no Brasil (1958), a cujas páginas remetem as citações, de modo análogo ao refendo na nota.
[6] Consultar nota anterior.
[7] Consultar nota 7.
[8] Em (1957: 195, nota 7), Florestan Fernandes indica que o seu trabalho não pretende realizar levantamento exaustivo de autores e obras, sugerindo, para o que se refere a este levantamento, algumas outras fontes. Todavia, tratando o texto de Florestan de caracterizar os vários períodos pelos quais teria passado a Sociologia no Brasil, cabe mencioná-lo como um trabalho que se ocupa substantivamente com o ordenamento da história do pensamento social brasileiro.
[9] Fernando de Azevedo em 1943 anota sob a rubrica geral de “críticos, ensaístas e panfletários”, nomes como os de Carlos de Laet, Araripe Jr. etc., ao lado de Gilberto Amado, Oliveira Viana, Gilberto Freyre etc. Por esta razão incluímos todos os nomes por ele listados e, posteriormente, excluímos os críticos literários.
[10] A evolução das ciências sociais, na perspectiva do trabalho citado, foi marcada por 3 etapas principais:
- 1930/35 — período da reforma Campos e das atividades governamentais e privadas, tendentes a desenvolver as ciências sociais;
- 1937/45 — período da Lei Orgânica do Ensino Secundário que constituiria um retrocesso “na ideologia educacional das camadas dirigentes”, com a supressão do ensino de Sociologia nas escolas secundárias e o desestímulo à formação de profissionais capazes;
- 1945/55 — nascimento da consciência da necessidade de “quadros devidamente qualificados”, face aos problemas sociais surgidos no segundo após-guerra, originando-se daí novo impulso para o desenvolvimento das ciências sociais.
[11] Cito aqui o texto de Djacir Menezes, que expõe com absoluta clareza a matriz historiográfica de que se valem também Fernando de Azevedo e Florestan Fernandes, e que se encontra no artigo de Djacir Menezes, “La science politique au Brésil au cours des trente dernières années” (1950).
[12] Em termos europeus, tal critério equivaleria a incluir no período pré-científico precisamente alguns dos primeiros nomes da ciência social: Marx, Comte, Spencer, Saint-Simon, Proudhon etc.
[13] Com isto, como é óbvio, não sugiro que a inclusão de Gilberto Freyre é improcedente. Quero apenas afirmar que não existe qualquer diferença entre os textos de Gilberto Freyre, da década de 1930, e, por exemplo, os de Azevedo Amaral, no mesmo período, se os examinamos segundo o critério da “modernidade”. Falta, a ambas, o rigor da análise moderna. Manifestadamente, as duas únicas diferenças entre os dois autores são: a) Gilberto Freyre utiliza muito mais do que Azevedo Amaral, e porque está melhor preparado para isso evidentemente, o recurso de apoiar suas afirmações em autoridades estrangeiras; e b) Gilberto Freyre obteve mais sucesso do que Azevedo Amaral. Não é improvável que b) se deva, em grande parte, a a), mas o que importa é que, na realidade, a inclusão de Gilberto Freyre entre os autores científicos se pretende largamente, tanto em Fernandes, como em Azevedo e Menezes, ao sucesso e prestígio do autor. Não estou discutindo, repito, a validade da inclusão de Freyre, mas a indefensável exclusão de Azevedo Amaral, se partimos da matriz historiográfica aqui tomada como clássica e se analisamos as proposições manifestas dos textos de Freyre e Amaral. Tanto mais que, se abandonamos o índice prestígio na classificação dos autores, verificaremos que, da produção de 1930, a de Azevedo Amaral ressalta particularmente pela sistemática exploração que fez da conexão entre autoritarismo, sociedade de massas e efeito-demonstração. Para uma exposição das teorias de Azevedo Amaral, ver o artigo de Aspásia Brasileiro Alcântara que lhe é dedicado.
[14] Ver, por exemplo, no livro citado, os artigos: “Crítica e Autocrítica”, “Nacionalismo e Xenofobia” e “A Dinâmica da Sociedade Política no Brasil”.
[15] Com o objetivo de iniciar este levantamento é que estou ultimando uma bibliografia do pensamento político-social brasileiro, no período de 1870/1965, e que reunirá toda a produção brasileira consignada nas fontes que a Bibliografia enumerará. Quanto ao exame dessa produção, algo já está sendo realizado, especialmente no que se refere à década de 1930. É desse esforço que surgiram os trabalhos sobre Azevedo Amaral e outros que serão publicados regularmente.
Referências
AZEVEDO, Fernando de. (1943). A Cultura Brasileira: Introdução ao Estudo da Cultura no Brasil. v. I da Série Nacional do Recenseamento Geral do Brasil, 19 de setembro de 1940. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico de IBGE.
AZEVEDO, Fernando de. (coordenador). (1956). As Ciências no Brasil. 2 volumes. São Paulo: Ed. Melhoramentos.
COSTA PINTO, Luis Aguiar & CARNEIRO, Edson. (1955). As Ciências Sociais no Brasil. CAPES, Série Estudos e Ensaios, n. 6.
FERNANDES, Florestan. (1956). Ciências e Sociedade na Evolução Social do Brasil. Revista Brasileira, n. 6.
FERNANDES, Florestan. (1957). Desenvolvimento Histórico-Social da Sociologia no Brasil. Anhembi, v. VII, n. 75/76.
FERNANDES, Florestan. (1958). O Padrão de Trabalho Científico dos Sociólogos Brasileiros. Estudos Sociais e Políticos, 3. Belo Horizonte: Universidade de Minas Gerais.
GUERREIRO RAMOS, Alberto. (1955a). Esforços de Teorização da Realidade Nacional Politicamente Orientados, de 1870 a Nossos Dias. Conferência no I Congresso Brasileiro de Sociologia, São Paulo.
GUERREIRO RAMOS, Alberto. (1955b). A Ideologia da Jeunesse Dorée. Cadernos do Nosso Tempo, n. 4.
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