
Trazemos nesta tarde o primeiro verbete do Glossário Silviano Santiago, novo projeto da BVPS Edições.
“Semente”, de autoria de Hugo Herrera Pardo, professor de literatura na Pontifícia Universidade Católica de Valparaíso, propõe uma análise crítica do percurso da metáfora da semente na obra de Silviano Santiago, articulando textos centrais de sua produção ensaística entre os anos 1960 e 1980. Recortando textos do crítico que discutem a Carta de Pero Vaz de Caminha, o Sermão da Sexagésima, Iracema e Triste Fim de Policarpo Quaresma, o autor mostra como Silviano interpreta essa metáfora como fundamento simbólico do discurso nacional brasileiro, sendo, ao mesmo tempo, um momento formativo de seu próprio pensamento crítico.
Com 22 verbetes, o Glossário Silviano Santiago, organizado por Mario Cámara, é um projeto coletivo que reflete sobre a amplitude e a potência da obra do crítico e escritor mineiro, reafirmando sua centralidade no debate intelectual contemporâneo brasileiro e latino-americano.
Acompanhe, sempre às quintas-feiras pela manhã, a publicação de novos verbetes, que serão lançados em versão bilíngue, em português e espanhol.
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Semente
Por Hugo Herrera Pardo
“A semente deve, pois, submeter-se ao logos”
Jacques Derrida
No intervalo de quase duas décadas, entre meados dos anos 1960 e início dos anos 1980, Silviano Santiago realizou – de modo não linear – uma investigação que pesquisou a prática significante da metáfora da semente em alguns dos textos socioculturais e literários mais relevantes da história brasileira, desde a colonização até a organização republicana: a Carta de Pero Vaz de Caminha, a gramática de José de Anchieta, o Sermão da Sexagésima do padre Antônio Vieira, Iracema, de José de Alencar, e Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. Essa genealogia textual começou a ser analisada em alguns dos primeiros cursos que o crítico, poeta e escritor brasileiro ministrou durante sua passagem por universidades norte-americanas e no primeiro curso de pós-graduação que realizou após retornar ao Brasil (“A semente, ou a impossibilidade de se escrever a origem”)[1]. Tais reflexões ficaram registradas em três ensaios em que suas análises iniciais encontraram uma visão de conjunto. São eles: “A palavra de Deus” (1969), “Liderança e hierarquia em Alencar” (1977) – que retoma e expande algumas ideias já esboçadas em “Alegoria e palavra em Iracema” (1965) – e “Uma ferroada no peito do pé. Dupla leitura de Policarpo Quaresma” (1981).[2]
Nestes escritos, Silviano Santiago lê, perseguindo o desdobramento da metáfora da semente, a articulação que funda o processo idealizante da “cadeia discursiva nacional-ufanista” brasileira (“Uma ferroada no peito do pé”). Especialmente os dois primeiros trabalhos mencionados são concomitantes a um projeto de livro que nunca se concretizou, e do qual tomamos conhecimento por meio da publicação, em 2012, pela Editora UFMG, do volume Jano, Janeiro. Esse projeto inicial e inconcluso, na trajetória do escritor e professor nascido em Formiga (Minas Gerais), levava o título provisório de Retórica e ruptura: ensaio sobre o romance brasileiro do século XIX, que incluiria uma série de textos escritos e publicados por Silviano durante a década de 1960 – entre eles dois que acabaram aparecendo na edição organizada postumamente pela UFMG: “Jano, Janeiro” (1966/1967), cujo título deu nome ao volume, e “Retórica da verossimilhança” (1969).[3] Outro trabalho sobre o tema, também não incluído naquele projeto inacabado, mas publicado na mesma década inicial da trajetória de Santiago, é “O Ateneu: Contradições e Perquirições” (1967).
Se, de acordo com palavras do próprio Silviano, o projeto Retórica e ruptura: ensaio sobre o romance brasileiro do século XIX propunha tomar como ponto de partida obras de grandes autores consideradas imaturas dentro de seus respectivos repertórios, a fim de perseguir o desenvolvimento de um singular “modo de compor analítica e criticamente o lento e progressivo amadurecimento de um romancista excepcional”, podemos propor que o ciclo de textos sobre a metáfora da semente pode ser lido como seminal em sentido duplo ou, dito de outro modo, como um momento atravessado por uma ideia de início sobredeterminada.
Por um lado, no plano do enunciado, essa sequência analisa a constituição do momento fundacional do discurso nacional brasileiro; por outro, no plano da enunciação, nela se desenha um momento formativo da produção ensaística de Silviano Santiago, um “modo de compor analítica e criticamente o lento e progressivo amadurecimento de um romancista [acrescenta-se: e ensaísta] excepcional”. Um momento, inclusive, levemente anterior ao seu encontro significativo com a desconstrução derridiana no fim dos anos 1960. Ou seja, nesse último plano, a leitura da metáfora da semente pode ser entendida como uma pré-história conceitual de algumas das categorias que mais tarde marcariam o trabalho do crítico brasileiro, como a de entre-lugar ou o uso que ele desenvolverá da “ficção teórica” – em diálogo com Aby Warburg. Também se deixam entrever, numa leitura retrospectiva, alguns dos deslocamentos que viriam a se consolidar no campo dos estudos literários e culturais, como a passagem do estritamente literário para o discursivo e a consequente ampliação do campo dos estudos coloniais. Nesse enquadramento, o exame da elaboração da metáfora da semente na história cultural brasileira crítica e amplia o campo de problemas instaurado pelo conceito de formação, de Antonio Candido, na historiografia literária do país, conceito que partia de uma noção esteticamente disciplinar da literatura e artisticamente periodizada da história.
A genealogia textual da semente, que se reproduz num movimento sedimentado de repetição e diferença, atravessa vários séculos, momentos históricos e tipos discursivos. Nas palavras de Jacques Derrida, trata-se de um “movimento anamnésico da verdade”, por meio de uma série de hypomnemata. Essa travessia discursiva tem início com a Carta de Pero Vaz de Caminha, no século XVI, texto que confere a condição de possibilidade à cadeia histórica, ao estabelecer uma mediação entre a descrição da terra e o texto bíblico. Desse modo, a carta instaura um sistema de explicação fundado em modelos etnocêntricos, ao incorporar aos indígenas as noções teológicas de culpa e pecado, tornando-os, portanto, tanquam tabula rasa, e, assim, subtraindo sua diferença. O que realiza Caminha em seu texto, em última instância, é injetar o phármakon, instaurando “o movimento, o lugar e o jogo da (produção da) diferença”, ao fixar e hierarquizar a polissemia da palavra cultura. Como já indicaram diversos autores (Joseph Höffner e Alfredo Bosi, entre outros), cultura vem do latim colere (infinitivo), cadeia articuladora associada a significados como habitar, cultivar, proteger e honrar com veneração. Posteriormente, a cadeia se fragmentou, embora permaneçam alguns casos de justaposição em certos substantivos derivados. Segundo Raymond Williams, “‘habitar’ evoluiu a partir do latim colonus até chegar à colônia; ‘honrar com veneração’ se desenvolveu a partir de cultus até culto. Já cultura adotou o significado de cultivo e atenção”.[4]
O trabalho metafórico do texto de Caminha, então, hierarquiza venerar sobre arar e adorar sobre plantar, estratificando assim a polissemia que o termo cultura arrastava do latim vulgar às línguas vernáculas, da Idade Média ao sistema-mundo moderno. A essa operação de organização estratificada dos significados subjaz uma teoria da linguagem, cujo propósito é explicar esse “além da linguagem” – expressão de uma suspeita de que o que se manifesta por meio das palavras não é exato, suspeita essa que, na cultura ocidental, esteve presente pelo menos desde os gregos, no que chamavam de allegoria e hypónoia. Louis-Jean Calvet aponta, em Linguística e colonialismo, que esse “além da linguagem” nos postulados de Platão era de natureza metafísica, enquanto “no século XVI será teológica”. É essa pulsão que atravessa o texto de Caminha.
Para além desse alcance, no ensaio “A palavra de Deus”, Silviano tenta mostrar de que maneira se estabelece, na história e na cultura brasileiras, a cena fundacional do processo de colonização: o encontro entre o código linguístico e o código religioso. A partir dessa interseção, geram-se uma série de exclusões (um Deus, uma língua) que propiciam uma redistribuição hierárquica do poder, das subjetividades, dos espaços e das temporalidades – aquilo que Achille Mbembe denomina “lógica do cercado”. Para o pensador camaronês, estar “protegido” exige uma redistribuição do sensível e dos afetos, da percepção e da palavra; para Silviano Santiago, em “A palavra de Deus”, essa redistribuição se configura a partir da aliança retórica e estratégica entre a palavra e a religião.[5]
Jacques Derrida aponta, em A farmácia de Platão, que “no movimento anamnésico da verdade, o que é repetido deve se apresentar como tal, como o que é, na repetição. O verdadeiro é repetido; é o repetido da repetição, o representado presente na representação. Não é o repetidor da repetição, o significante da significação. O verdadeiro é a presença do eidos significado”. Dessa maneira, a cadeia histórica segue sua sedimentação no século XVII com o padre Antônio Vieira e o Sermão da Sexagésima. O sermão realiza uma reflexão retórica sobre os principais problemas enfrentados pelos “semeadores”/oradores em terras brasileiras, e invoca como possível causa do fracasso da semente metafórica – ou seja, do insucesso da catequese – as intrigas tramadas pelos padres dominicanos contra os jesuítas. A metáfora da semente de Caminha é, então, sedimentada no romance Iracema (1865), do romântico José de Alencar. Aqui, a metáfora bíblica adquire conotação amorosa e serve para traduzir o processo desigual, embora celebratório, da posse da mulher indígena pelo homem português. O licor de jurema, oferecido a Martim, funciona na diegese como motivação para a mistura racial sem violência sexual. O sêmen de Martim fecunda o corpo virgem de Iracema, e dela nasce o mestiço Moacir, cujo nome, cunhado em tupi-guarani, significa “filho do sofrimento”. Também é significativa, nesse romance, a cerimônia de troca de valores entre os amigos Martim e Poti, na qual ambos aceitam, “por batismo”, a cultura um do outro. Martim se deixa pintar – ou seja, mascarar – e Poti aceita o rito católico. Contudo, como observa Silviano naquele trecho do ensaio, “se um se articula no nível da epiderme, da pintura, o outro se articula no nível da alma, da rejeição dos valores divinos e da aceitação dos novos”. Assim, enquanto o batismo de Martim se situa num plano sentimental ou patriótico, o batismo de Poti opera no plano religioso – e mais ainda, dentro do que Silviano caracteriza como uma “religião exclusivista”, na qual há lugar apenas para um único Deus e um único nome para o fiel. Por isso, Poti perde seu nome indígena e é rebatizado como Antônio Filipe Camarão.
A sedimentação da cadeia articulatória da semente, na análise de Silviano Santiago, estende-se até Triste fim de Policarpo Quaresma (1915), de Lima Barreto, autor que, a seu ver, é o primeiro a desconstruir a metáfora da semente. Jacques Derrida, em A farmácia de Platão, afirma:
A filosofia opõe, pois, ao seu outro, essa transmutação da droga em remédio, do veneno em contraveneno. Uma tal operação não seria possível se o phármako-lógos não abrigasse nele mesmo essa cumplicidade dos valores contrários, e se o phármakon em geral não fosse, antes de toda discriminação, o que, dando-se como remédio, pode se corromper em veneno, ou o que se dando como veneno pode se verificar remédio, pode aparecer depois de administrado em sua verdade de remédio. A “essência” do phármakon é que, não tendo essência estável, nem caráter “próprio”, não é, em nenhum sentido dessa palavra (metafísico, físico, químico, alquímico), uma substância.
(….). Essa não-substância farmacêutica não pode ser manejada com total segurança, nem em seu ser – já que não o tem –, nem em seus efeitos, que podem incessantemente mudar de sentido.
Nesse caso, não é a filosofia, mas o discurso literário que transmuta o remédio em droga, o veneno em contraveneno, ao desconstruir, no interior da cadeia articulatória da semente, uma de suas condições fundantes de possibilidade: a primazia do discurso espiritual sobre o material. Esse momento é analisado pelo crítico na segunda parte do romance de Lima Barreto, em que fracassa o desejo de Policarpo de cultivar a semente (desta vez agrícola) em território brasileiro. O personagem central da novela desperta subitamente à noite porque, da despensa contígua a seu quarto, vinha um ruído estranho que interrompia sua leitura noturna – nada menos do que um “velho elogio às riquezas e opulências do Brasil”. Quaresma decide levantar-se para investigar e, ao fazê-lo, leva uma ferroada no peito do pé por uma saúva – cena que, para Silviano Santiago, desmetaforiza a palavra semente, sedimentada desde o processo de colonização. Essa cena termina da seguinte maneira:
(Policarpo) Quis afugentá-las. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas eram milhares e cada vez mais o exército aumentava. Veio uma, mordeu-o, depois outra, e o foram mordendo pelas pernas, pelos pés, subindo pelo seu corpo. Não pôde aguentar, gritou, sapateou e deixou a vela cair.
Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e correu daquele ínfimo inimigo que, talvez, nem mesmo à luz radiante do sol o visse distintamente…
Essa cena é lida por Silviano como uma virada material irônica em relação à ordem de natureza espiritual instaurada pelos textos anteriores da cadeia. O contato entre os corpos – celebrado nas instâncias anteriores de colonização, evangelização e nacionalização – é aqui confrontado por uma experiência de dor, infligida por um “ínfimo inimigo” que nem mesmo “à luz radiante do sol” se poderia ver com clareza. Trata-se de uma cifra da obliteração material que constitui os discursos anteriores.
Cabe mencionar que, pouco tempo depois na história, Mário de Andrade retomaria essa intuição de Lima Barreto em Macunaíma, onde escreve: “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são”. Vale mencionar de passagem também que, em pleno Modernismo, a Carta de Pero Vaz de Caminha e outros textos coloniais seriam parodiados por escritores como Oswald de Andrade. Segundo Silviano Santiago, pesquisar o percurso textual acima descrito o levou a concluir que a cultura brasileira se inicia com um alto índice de metaforização da linguagem, o que se traduz, então, num alto grau de espiritualização – fator que se tornaria dominante na destruição sistemática dos valores indígenas. Assim, essa metaforização colonialista inaugural determina um modelo de sentido que terá papel de primeira ordem na construção cultural posterior do Brasil, pois “o próprio será sempre o metafórico”.
Neste ponto, proponho problematizar e aprofundar essas conclusões iniciais de Silviano. O que significa esse alto índice de metaforização da linguagem? E, por sua vez, o que significa a desmetaforização que Lima Barreto realizaria em Triste fim de Policarpo Quaresma? O que significa dizer que “o próprio será sempre o metafórico”? Aqui, desejo trazer alguns elementos analíticos desenvolvidos por Ernesto Laclau em sua proposta de uma virada retórica para a análise política, especialmente algumas precisões formuladas no ensaio “Articulação e os limites da metáfora”. O objetivo de Laclau nesse e em outros textos – reunidos postumamente em Fundamentos retóricos da sociedade (2014) – é sustentar que a retórica é constitutiva, e não um abuso, da significação; que sem um deslocamento de caráter tropológico, a significação não poderia se fundar. Apoiado no célebre artigo de Gérard Genette, “Metáfora e metonímia em Proust”, para mostrar que a unidade do texto, sua coerência e coesão – em outras palavras, sua narrativa – se constroem a partir do entrelaçamento entre metáfora e metonímia, e também com base em Roman Jakobson (e seu conhecido trabalho “Dois aspectos da linguagem e dois tipos de distúrbios afásicos”), Laclau mostra que os movimentos retóricos ocorrem não apenas no plano do significado, mas também no plano do significante. Com isso, Laclau procura demonstrar que as categorias retóricas mencionadas – na medida em que expressam a interdependência entre combinação (metonímia) e substituição (metáfora) – fazem parte da própria estrutura da significação. Ele afirma:
A principal conclusão é que as noções de “analogia” e “contiguidade” – que são, respectivamente, as bases definidoras dos dois tropos –, longe de serem completamente distintas em natureza, tendem, ao contrário, a se sobrepor. Por quê? Porque ambas são transgressões de um mesmo princípio: a lógica diferencial associada ao eixo sintagmático do sistema de significação. A única distinção possível entre ambas é que, no caso da metonímia, a transgressão das localizações estruturais que definem a relação de combinação é inteiramente visível, enquanto, na metáfora, a analogia ignora completamente essas diferenciações estruturais – as associações, como mostrou Saussure, podem mover-se nas direções mais variadas. Em certo sentido, pode-se dizer que a metáfora é o telos da metonímia: o momento em que a transgressão das regras de combinação atinge seu ponto de não retorno – uma nova entidade nasce e nos faz esquecer as práticas transgressoras que a fundaram. Mas sem essas práticas – que são essencialmente metonímicas – a nova entidade metafórica não poderia ter emergido.
Desse modo, se a retórica constitui uma dimensão inerente da significação, ela pode ser estendida a toda prática significante, uma vez que se torna equivalente à articulação social do sentido. Giorgio Agamben chega a uma conclusão similar ao discutir o duplo significado do verbo grego arkhé, já mencionado anteriormente. Agamben afirma: “Penso que o duplo movimento da disseminação semântica e da unificação semântica é substancial aos nossos idiomas”. Mas Laclau vai além dessa constatação e interpreta como uma das possibilidades dessa extensão o fato de que a interdependência entre metáfora e metonímia, entre analogia e combinação, é própria da “operação política central que chamamos de hegemonia”: o movimento da metonímia à metáfora, da articulação contingente à pertença essencial. O filósofo argentino afirma:
O nome – de um movimento social, de uma ideologia, de uma instituição política – é sempre a cristalização metafórica de conteúdos cujos vínculos analógicos são resultado do apagamento da contingência metonímica de suas origens. Inversamente, a dissolução de uma formação hegemônica envolve a reativação dessa contingência: o retorno de uma fixação metafórica “sublime” a uma humilde associação metonímica.
A metáfora, portanto, oculta em sua realização os vestígios de suas origens metonímicas. É aí que reside o aspecto aparente do significado e o caráter fragmentário e latente da significação. A partir disso, podemos entender que a atividade crítica desenvolvida por Silviano Santiago em torno da metáfora da semente constitui uma estratégia de desarticulação hegemônica, na qual uma pertença essencial (a metáfora em questão) é revelada como uma articulação contingente. Trata-se, então, de reinscrever uma pluralidade metonímica – uma pluralidade de espaços de enunciação – com o objetivo de evitar a reagregação metafórica. E é nesse movimento – da fixação metafórica sublime e/ou naturalizada à “humilde associação metonímica” – que Silviano Santiago encontra os fundamentos históricos e teóricos para estabelecer o discurso latino-americano (o espaço do “entre”) por meio da noção de excedente, em um constante movimento estratégico de desarticulação e rearticulação.
Esse excedente – o entre-lugar –, como afirma Karlo Posso, “tem uma consistência lógica e um status ontológico próprios: o discurso ‘latino-americano’ nunca é posicionado, é uma relação com um status ontológico separado dos termos da relação”. Portanto, a categoria de entre-lugar não realiza configurações já implícitas como possibilidades sob a forma de termos preexistentes, porque esses termos preexistentes são afetados pelo suplemento (“A importância de devir minoritário: Silviano Santiago e a resistência à identidade”). Desse modo, a metáfora conceitual de entre-lugar “não projeta retrospectivamente um estêncil do já constituído para explicar sua própria constituição, instaurando um ciclo hermenêutico vicioso – em vez disso, mostra que o já constituído nunca foi o que pensamos que fosse em primeiro lugar”. Ou, nas palavras do próprio Silviano Santiago, em seu livro As raízes e o labirinto da América Latina (2006), a proposição do entre-lugar se apresenta como “o lugar da desconstrução da identidade de conceito e do conceito de identidade”. Os movimentos táticos dessa série de operações têm, como laboratório, a análise da metáfora da semente.
Notas
[1] Entre o início da década de 1960 e os primeiros anos da década seguinte, Silviano Santiago ocupou o cargo de professor visitante e/ou pesquisador em diversas instituições norte-americanas, tais como a University of New Mexico, em Albuquerque, Rutgers University, University of New York at Buffalo, Stanford University, University of Texas, em Austin, Indiana University, Yale University, Princeton University e University of Toronto. Além dos artigos que serão mencionados posteriormente, outra publicação relacionada a esse percurso e ao projeto da metáfora da semente é Brasil, prosa e poesia: antologia (Nova York, 1969).
[2] Indica-se entre parênteses a data de sua escrita, mas tanto esse ensaio sobre o romance de Lima Barreto quanto “Liderança e hierarquia em Alencar” foram reunidos em Vale quanto pesa (ensaios sobre questões político-culturais), publicado em 1982. Por sua vez, “A palavra de Deus” foi publicado no número 3 da revista Barroco, no ano de 1970, sendo posteriormente excluído, pelos editores, da seleção final da primeira coletânea de ensaios de Silviano, o já clássico Uma literatura nos trópicos. No entanto, foi incluído posteriormente como apêndice na edição comemorativa do mesmo livro, publicada em 2019, quase quarenta anos após a primeira edição.
[3] Na nota introdutória de Jano, Janeiro, John Gledson, principal responsável e editor da publicação, relata os acontecimentos que o levaram a planejar a publicação e indica como, na troca de correspondências que deu origem ao livro, Silviano lhe conta que o projeto Retórica e ruptura: ensaio sobre o romance brasileiro do século XIX chegou a ter um contrato de publicação com o Conselho Estadual de Cultura do Estado de São Paulo, mas que acabou não se concretizando por razões ligadas a mudanças de governo. Cabe destacar que “Retórica da verossimilhança” foi publicado em Uma literatura nos trópicos.
[4] Cabe lembrar que, no ponto quatro da bula Romanus Pontifex, do Papa Nicolau V, datada de 8 de janeiro de 1454 – a qual define a conquista colonial portuguesa como um instrumento de expansão do cristianismo –, lê-se: “Por isso, nós, considerando tudo com devida ponderação, por outras cartas nossas concedemos ao referido rei Afonso plena e livre faculdade, entre outras, de invadir, conquistar, subjugar quaisquer sarracenos e pagãos, inimigos de Cristo, suas terras e bens, reduzir todos à servidão e aplicar tudo em proveito próprio e de seus descendentes”.
[5] No que diz respeito à relação entre a palavra e Deus, Giorgio Agamben, em seu ensaio sobre Bartleby, o escrivão, aponta – ainda que no interior da Cabala – algumas considerações que não podemos descartar para compreender a potência dessa relação: “Em Messina, entre 1280 e 1290, Abraham Abulafia compôs certos tratados cabalísticos que, tendo permanecido manuscritos durante séculos nas bibliotecas europeias, tiveram que esperar o nosso tempo para chamar novamente a atenção dos não especialistas, graças a Gershom Scholem e Moshe Idel. Neles, a criação divina é concebida como um ato de escrita, no qual as letras representam, por assim dizer, o veículo material por meio do qual o verbo criador de Deus – assimilado a um escrivão que move a mão – se encarna nas coisas criadas. ‘O segredo que está na origem de todas as criaturas é a letra do alfabeto, e toda letra é um signo que se refere à criação. Assim como o escrivão sustenta em sua mão a pena, levando nela algumas gotas da matéria da tinta, prefigurando em sua mente a forma que deseja dar à matéria – com todos esses gestos nos quais a mão do escriba é a esfera vivente que move a pena inanimada que lhe serve de instrumento para que a tinta corra sobre o pergaminho, que representa o corpo, suporte da matéria e da forma –, assim se cumprem atos semelhantes nas esferas superiores e inferiores da criação, como compreenderá por si só todo aquele que for dotado de inteligência, pois acerca disso é proibido estender-se’”.
Sobre o autor
Hugo Herrera Pardo é professor do Instituto de Literatura e Ciências da Linguagem da Pontifícia Universidade Católica de Valparaíso, no Chile.
Simiente
“La simiente debe, pues, someterse al logos”
Jacques Derrida
En el marco de un tramo temporal que cubrió casi dos décadas, desde mediados de los sesenta hasta inicios de los ochenta, Silviano Santiago llevó a cabo – desacompasadamente – una investigación que pesquisó la práctica significante de la metáfora da semente en algunos de los textos socio-culturales y literarios más relevantes de la historia brasileña, desde la colonización hasta la organización republicana: la “Carta de Pero Vaz de Caminha”, la Gramática de José de Anchieta, el Sermão da Sexagésima del Padre Antônio Vieira, Iracema de José de Alencar y Triste fin de Policarpo Quaresma de Lima Barreto. Dicha genealogía textual comenzó a ser analizada en algunos de los primeros cursos que el crítico, poeta y narrador brasileño dictó en su travesía por universidades norteamericanas y en el primer curso de postgrado que realizó en su retorno a Brasil (“A semente, ou a impossibilidade de escrever a origem”)[1], quedando plasmadas tales reflexiones en tres ensayos en donde sus tempranos análisis encontraron una visión de conjunto. Estos ensayos son “A palavra de Deus” (1969), “Liderança e hierarquia em Alencar” (1977), el cual retoma y expande algunas ideas ya planteadas en “Alegoria e palavra em Iracema” de 1965, y “Uma ferroada no peito do pé. Dupla leitura de Policarpo Quaresma” (1981)[2].
A lo largo de estos escritos, Silviano Santiago lee, persiguiendo el despliegue de la metáfora de la simiente, la articulación que funda el proceso idealizante de la “cadeia discursiva nacional-ufanista” de la brasiliana (“Uma ferroada no peito do pé”). Sobre todo los dos primeros trabajos mencionados en las líneas anteriores son concomitantes a un proyecto de libro que nunca llegó a materializarse, y del cual tenemos noticias a partir de la publicación, en 2012 y por Editora UFMG, del volumen Jano, Janeiro. Este proyecto inicial e inconcluso en la trayectoria del escritor y profesor nacido en Formiga (Minas Gerais) llevaba el título tentativo de Retórica e ruptura: ensaio sobre o romance brasileiro do século XIX, el cual debía incluir una serie de textos escritos y publicados por Silviano durante la década de 1960, entre ellos dos que terminaron apareciendo en la edición preparada de manera postrera por Editora UFMG, “Jano, Janeiro” (1966/1967), de cuyo título se sirvió el volumen en cuestión y “Retórica da verossimilhança” (1969).[3] Otro trabajo sobre el tópico anunciado en ese proyecto no concretado y aparecido en aquella década inicial en la travesía de Silviano Santiago es “O Ateneu: Contradições e Perquirições” (1967).
Si de acuerdo a palabras del propio Silviano, el proyecto Retórica e ruptura: ensaio sobre o romance brasileiro do século XIX planteaba tomar como punto de partida las obras de grandes autores consideradas como inmaduras al interior de sus respectivos repertorios, para poder perseguir, así, el desarrollo de un singular “modo de compor analítica e criticamente o lento e progressivo amadurecimento de un romancista excepcional”, podemos proponer que el ciclo de textos sobre la metáfora da semente puede leerse como seminal por partida doble o, expresado de otro modo, como un momento al cual le subyace una sobredeterminada idea de comienzo.
Por una parte, a nivel de enunciado dicha secuencia analiza la constitución del momento fundante del discurso nacional brasileño, pero, por otra, y esta vez a nivel de enunciación, se despliega en tal secuencia un momento formativo en la producción ensayística de Silviano Santiago, un “modo de compor analítica e criticamente o lento e progressivo amadurecimento de un romancista [agregado: y ensayista] excepcional”. Momento incluso levemente anterior a su significativo encuentro con la deconstrucción derrideana hacia finales de los sesenta. Es decir que, a este último nivel, la lectura de la metáfora de la simiente puede entenderse como una prehistoria conceptual de algunas de las categorías que marcarán posteriormente el trabajo del crítico brasileño como la de “entrelugar” o el uso que desarrollará de “Ficción teórica” – la cual dialoga con Aby Warburg –, pero también se pueden apreciar en el examen retrospectivo de este trabajo algunos de los giros que más adelante se cristalizarían en el campo de los estudios literarios y culturales, como el desplazamiento desde lo específicamente literario hacia lo discursivo y la consiguiente ampliación del ámbito de los estudios coloniales. En este enmarque, el examen a la elaboración de la metáfora de la simiente en la historia cultural brasileña crítica y expande el campo de problemas que el concepto de Formación de Antonio Candido había instaurado en la historiografía literaria de aquella cultura, a partir de una noción estéticamente disciplinar de la literatura y artísticamente periodizada de la historia.
La genealogía textual de la simiente que se replica en un movimiento sedimentado de repetición y diferencia cruza varios siglos, momentos históricos y tipos discursivos. En palabras de Jacques Derrida, se trataría de un “movimiento anamnésico de la verdad”, mediante una serie de hypomnemata. Esta travesía discursiva se inicia con la “Carta de Pero Vaz de Caminha”, en el siglo XVI, texto que le otorga la condición de posibilidad a la cadena histórica, al establecer una mediación entre la descripción de la tierra y el texto bíblico. De este modo, la carta instaura un sistema de explicación dentro de modelos etnocéntricos, incorporándole a los indígenas las nociones teológicas de culpa y pecado, tornándolos por tanto tanquam tabula rasa, sustrayéndoles así su diferencia. Lo que realiza Caminha en su texto, en definitiva, es inyectar el fármacon, instaurando “el movimiento, el lugar y el juego de (la producción de) la diferencia”, al fijar y jerarquizar la polisemia de la palabra cultura. Como ya han indicado varios autores (Joseph Höffner y Alfredo Bosi entre otros), Cultura viene del latín Colere (infinitivo), cadena articulatoria asociada a significados como habitar, cultivar, proteger, honrar con veneración. Posteriormente, la cadena se fragmentó, aunque no sin ciertos casos de yuxtaposiciones en algunos sustantivos derivados. Según Raymond Williams, “ ‘habitar’ se desarrolló a través del latín colonus hasta llegar a colonia, ‘Honrar con veneración’ evolucionó a través del latín cultus hasta culto. Cultura, a su vez, adoptó el significado de cultivo y atención”.[4]
El trabajo metafórico del texto de Caminha entonces jerarquiza venerar ante arar y adorar frente a plantar, estratificando así la polisemia que el término cultura arrastró desde el latín vulgar hasta las lenguas vernáculas, desde el medioevo hasta el sistema mundo moderno. A esta operación de organizar estratificadamente los significados subyace una teoría de la lengua, cuyo propósito es dar una explicación de ese “más allá del lenguaje”, expresión de una sospecha de que lo que se manifiesta por medio de las palabras no es exacto, sospecha que en la cultura occidental estuvo presente al menos desde los griegos en lo que ellos llamaban allegoria e hiponoia. Louis-Jean Calvet señala en Lingüística y colonialismo que ese más allá del lenguaje en los postulados de Platón era metafísico, mientras que “en el siglo XVI será teológico”. Es esta pulsión la que recorre el texto de Caminha.
Más allá de este alcance, en el ensayo “A palavra de Deus”, Silviano intenta mostrar de qué modo se establece en la historia y cultura brasileña la escena fundacional del proceso de colonización, el encuentro entre el código lingüístico y el código religioso, y a partir de ellos se generan una serie de exclusiones (un dios, una lengua) que propician una redistribución jerárquica del poder, las subjetividades, los espacios y las temporalidades. Lo que Achille Mbembe denomina como “lógica del cercado”. Para el pensador camerunés, estar “protegido requiere de una redistribución de lo sensible y de los afectos, de la percepción y de la palabra”; para Silviano Santiago, en “A palavra de Deus”, esta redistribución se configura a partir de la alianza retórica y estratégica entre la palabra y la religión.[5]
Jacques Derrida señala en La farmacia de Platón que “en el movimiento anamnésico de la verdad, lo que es repetido debe presentarse como tal, como lo que es, en la repetición. Lo verdadero es repetido, es lo repetido de la repetición, lo representado presente en la representación. No es el repetidor de la repetición, el significante de la significación. Lo verdadero es la presencia del eidos significado”. De este modo, la cadena histórica continúa su sedimentación en el siglo XVII con el padre Antonio Vieira y el “Sermón de la sexagésima”. El sermón lleva a cabo una disquisición retórica sobre los principales problemas encontrados por los “sembradores”/oradores en tierra brasileña e invoca como posible causa del fracaso de la semilla metafórica, o sea, del desacierto en la catequesis, las intrigas tramadas por los padres dominicanos contra los jesuitas. La metáfora de la simiente de Caminha luego se sedimenta en la novela Iracema (1865) del romántico José de Alencar. Aquí la metáfora bíblica adquiere connotación amorosa y sirve para traducir el proceso desigual, aunque celebratorio, de la posesión de la hembra indígena por el macho portugués. El licor de Jurema, ofrecido a Martim, sirve al interior de la diégesis como motivación de la mezcla racial sin violencia sexual. El semen de Martim fertiliza el cuerpo virgen de Iracema y de ella nace el mestizo Moacir, cuyo nombre acuñado en tupí-guaraní significa “hijo del sufrimiento”. Significativo es también en esta novela la ceremonia de intercambio de valores entre los amigos Martim y Poti, en donde ambos aceptan “bautismalmente” la cultura del otro, Martin se deja, enmascarar, es decir pintar su cuerpo mientras que Poti acepta el rito católico. Sin embargo, como señala Silviano en aquel pasaje del ensayo, “Si uno se articula en el nivel de la epiderme, la pintura, el otro se articula en el nivel del alma, del rechazo de los valores divinos y aceptación de los nuevos”. Así, mientras el bautismo de Martim se sitúa a nivel sentimental o patriótico, el bautismo de Poti se posiciona a nivel religioso, y más, dentro de lo que Silviano señala como una “religión exclusivista”, en la cual existe lugar para un único Dios y un único nombre para el fiel, por lo que Poti pierde su nombre indígena y es re-nombrado como Antonio Filipe Camarao.
La sedimentación de la cadena articulatoria de la simiente en el análisis de Silviano Santiago se extiende luego hasta Lima Barreto y la novela Triste fim de Policarpo Quaresma (1915), quien a su juicio es el primero en deconstruir la metáfora de la semilla. Jacques Derrida en La farmacia de Platón señala que:
La filosofía opone, pues, a su otro esa transmutación de la droga en remedio, del veneno en contra-veneno. Semejante operación no resultaría posible si el fármaco-logos no cobijase en sí mismo esa complicidad de valores contrarios, y si el fármacon en general no fuese, antes de toda discriminación, lo que, dándose como remedio, puede corromper (se) en veneno, o lo que dándose como veneno puede resultar ser remedio. La «esencia» del fármacon es que, no teniendo esencia estable, ni carácter «propio», no es, en ningún sentido de esa palabra (metafísico, físico, químico, alquímico) una sustancia…
Esta no-sustancia farmacéutica no se deja manejar con toda seguridad, ni en su ser, puesto que no lo tiene, ni en sus efectos, que pueden incesantemente cambiar de sentido.
En este caso no es la filosofía, sino el discurso literario el que transmuta el remedio en droga, el veneno en contra-veneno, al deconstruir, al interior de la cadena articulatoria de la simiente, una de sus condiciones fundantes de posibilidad: la primacía del discurso espiritual sobre el material. Este momento es analizado por el crítico en la segunda parte de la novela de Lima Barreto, en donde se frustra el deseo de Policarpo en cultivar la semilla (esta vez agrícola) en territorio brasileño. El personaje central de la novela se despierta súbitamente a la noche porque de la despensa que se ubicaba de modo contiguo a su dormitorio provenía un ruido extraño, el cual interrumpía su lectura nocturna, nada menos que un “viejo elogio sobre las riquezas y opulencias del Brasil”. Quaresma decide levantarse a investigar, iniciativa por la cual termina recibiendo un aguijonazo en la zona del empeine por parte de una saúva, escena que para Silviano Santiago des-metaforiza la palabra simiente sedimentada desde el proceso de colonización. Dicha escena finaliza de la manera siguiente:
(Policarpo) Quiso ahuyentarlas. Mató a una, diez, veinte, cien; pero eran millares y el ejército aumentaba cada vez. Vino una, lo mordió; después otra, y lo fueron mordiendo en las piernas, los pies, subiendo por su cuerpo. No pudo aguantar más, gritó, zapateó y dejó caer la vela. Estaba en la oscuridad. Se debatía para encontrar la puerta; echó a correr huyendo de aquel ínfimo enemigo al que, tal vez, ni siquiera a la luz radiante del sol pudiera ver distintamente…
Dicha escena es leída por Silviano como un irónico vuelco material al orden de índole espiritual instituido por los textos anteriores de la cadena. El contacto a nivel de los cuerpos, celebratorio en las instancias anteriores de colonización, evangelización y nacionalización es confrontado acá por una experiencia de dolor, endilgada por un “ínfimo enemigo” al que ni siquiera “a la luz radiante del sol pudiera ver distintamente”, cifra de la obliteración material constituyente de los discursos anteriores. Cabe mencionar que un poco más adelante en la historia, Mário de Andrade replicaría esta intuición de Lima Barreto en Macunaíma, donde expresa: “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são!” [Poca salud, mucha saúva, los males del Brasil son]. Vale mencionar de pasada también que, en pleno Modernismo, la “Carta de Pero Vaz de Caminha” y otros textos coloniales son parodiados por otros escritores, entre ellos Oswald de Andrade.
En palabras de Silviano Santiago, pesquisar el recorrido textual anteriormente señalado lo llevó a establecer que la cultura brasileña comienza con un alto índice de metaforización del lenguaje, lo que se traduce entonces en un alto dominio de la espiritualización, hecho que en definitiva se torna dominante en la destrucción sistemática de los valores indígenas. Por tanto, esta metaforización colonialista inaugural determina un modelo de sentido que tendrá una relevancia de primer orden en la construcción cultural posterior del Brasil, debido a que “lo propio será siempre lo metafórico”.
A este respecto, me propongo problematizar y profundizar estas conclusiones tempranas de Silviano. ¿Qué significa aquel alto índice de metaforización del lenguaje, y a su vez, qué significa la des-metaforización que llevaría a cabo Lima Barreto en Triste fin de Policarpo Quaresma? ¿Qué significa que lo propio siempre sea lo metafórico? En este punto, quiero traer a mención algunos elementos de análisis desarrollados por Ernesto Laclau en su propuesta de un giro retórico para el análisis político, sobre todo algunas precisiones expresadas en su ensayo “Articulación y los límites de la metáfora”. El objetivo de Laclau en este ensayo y en otros recopilados póstumamente en Los fundamentos retóricos de la sociedad (2014) es sostener que la retoricidad es constitutiva, y no así un abuso, de la significación, que sin un desplazamiento de carácter tropológico la significación no podría llegar a fundarse. Basándose en el célebre artículo de Gerard Genette “Metáfora y metonimia en Proust” para mostrar que la unidad del texto, su coherencia y cohesión, en otras palabras su narrativa, se constituyen a partir del entrecruzamiento entre metáfora y metonimia, y de modo similar basándose en Roman Jakobson (y su conocido trabajo “Dos aspectos del lenguaje y dos tipos de trastornos afásicos”) y evidenciar, así, que los movimientos retóricos no solo ocurren al nivel del significado, sino que también del significante, Laclau intenta señalar que las mencionadas categorías retóricas, en tanto sostenida interdependencia de combinación (metonimia) y sustitución (metáfora), son parte inherente de la dimensión estructural de la significación. Sostiene Laclau:
La conclusión principal es que las nociones de “analogía” y “contigüidad” que son, respectivamente las bases definitorias de los dos tropos, lejos de ser completamente diferentes en naturaleza, tienden al contrario, a solaparse una a otra. ¿Por qué? Porque ambas son transgresiones del mismo principio; a saber, la lógica diferencial asociada al eje sintagmático del sistema de significación. La única distinción que es posible establecer entre ambas figuras es que, en el caso de la metonimia, la transgresión de las localizaciones estructurales que definen la relación de combinación es enteramente visible, mientras que en la metáfora, la analogía ignora completamente esas diferenciaciones estructurales -las asociaciones, como muestra Saussure, pueden moverse en las más variadas direcciones. En cierto sentido, se puede decir que la metáfora es el telos de la metonimia, el momento en que la transgresión de las reglas de combinación ha alcanzado su punto de no retorno: una nueva entidad que ha nacido nos hace olvidar las prácticas transgresivas en que se basa. Pero sin esas prácticas transgresivas, que son esencialmente metonímicas, la nueva entidad metafórica no podría haber emergido.
De este modo, si la retoricidad constituye una dimensión inherente de la significación, se puede hacer extensible entonces a toda práctica significante, puesto que se torna equivalente a la articulación social del sentido. Giorgio Agamben llega a una conclusión similar, al referirse al doble significado del verbo griego “arqué”, ya comentado más arriba. Agamben señala que “pienso que el doble movimiento de la diseminación semántica y la unificación semántica es sustancial a nuestros lenguajes”. Pero Laclau va más allá de esta constatación, e interpreta como una de las posibilidades de esta extensión que la interdependencia entre metáfora y metonimia, entre analogía y combinación, es propio de la “operación política central que llamamos “hegemonía”: el movimiento de la metonimia hacia la metáfora, de la articulación contingente a la pertenencia esencial” (80). Precisa el filósofo argentino:
El nombre -de un movimiento social, de una ideología, de una institución política- siempre es la cristalización metafórica de contenidos cuyos vínculos analógicos son el resultado de ocultar la contigüidad contingente de sus orígenes metonímicos. A la inversa, la disolución de una formación hegemónica involucra la reactivación de esa contingencia: el retorno desde una fijación metafórica “sublime” a una humilde asociación metonímica.
La metáfora, por tanto, oculta en su realización los rastros de sus orígenes metonímicos. Allí, debemos pensar, reside lo aparente del significado y lo fragmentario y latente de la significación. A partir de lo anterior podemos pensar que la actividad crítica realizada por Silviano Santiago en torno a la metáfora de la simiente constituye una estrategia de desarticulación hegemónica en la que una pertenencia esencial (la metáfora en cuestión) es mostrada como una articulación hegemónica contingente. Se trata entonces de reubicar una pluralidad metonímica, una pluralidad de espacios de enunciación, con el fin de evitar la reagregación metafórica. Y es en ese viaje desde la fijación metafórica sublime y/o naturalizada a una “humilde asociación metonímica” en que Silviano Santiago encuentra los fundamentos históricos y teóricos para establecer al discurso latinoamericano (el espacio del “entre”) mediante la noción de excedente, en un constante movimiento estratégico desarticulador y articulador. Este excedente “entre-lugar”, tal como asevera Karlo Posso, “tem uma consistência lógica e um status ontológico próprio: o discurso ‘latino-americano’ nunca é posicionado, é uma relação com um status ontológico separado dos termos da relação”. Por tanto, la categoría de “entre-lugar” não é a realização de configurações já implíticas como possibilidades na forma de termos preexistentes, porque aqueles termos preexistentes são defeitos pelo suplemento” (“A importância de devir-minoritário: Silviano Santiago e a resistência a identidade”). De este modo, la metáfora conceptual del “entre-lugar” “não projeta retrospectivamente um estêncil do já constituído para explicar sua própria constituição, estabelecendo um ciclo hermenêutico vicioso- em vez disso, mostra que o já constituído nunca foi o que pensamos que ele fosse em primeiro lugar” (193). O como lo expresa el propio Silviano Santiago en su libro Las raíces y el laberinto de América Latina (2006), la proposición del “entre-lugar” se presenta como “el lugar de deconstrucción de la identidad de concepto y del concepto de identidad”. Los movimientos tácticos de esta serie de operaciones tienen como laboratorio el análisis de la metáfora de la simiente.
Notas
[1] Entre inicios de la década de 1960 y los primeros años de la década siguiente a esa, Silviano Santiago ocupó el cargo de profesor visitante y/o investigador en diversas instituciones norteamericanas, tales como University of New Mexico in Albuquerque, Rutgers University, University of New York at Buffalo, Stanford University, University of Texas, Austin, Indiana University, Yale University, Princeton University y University of Toronto. Aparte de los artículos que luego serán referidos, otra publicación emparentada con este recorrido y con el proyecto de la metáfora da semente es Brasil, prosa e poesia: antologia (New York, 1969).
[2] Se consigna entre paréntesis la fecha de su escritura, pero tanto este ensayo sobre la novela de Lima Barreto como “Liderança e hierarquia em Alencar” aparecieron compilados en Vale quanto pesa (ensaios sobre questões politico-culturais), publicado en 1982. A su vez, “A palavra de Deus” fue publicado en el número 3 de la revista Barroco, durante el año de 1970, resultando luego excluido, por parte de los editores, de la selección final de la primera colección de ensayos de Silviano, el ya clásico Uma literatura nos trópicos. No obstante, fue incluido posteriormente como apéndice a la versión conmemorativa del mismo libro, publicada en 2019, a casi cuarenta años de la primera edición.
[3] En la nota introductoria para Jano, Janeiro, John Gledson, principal impulsor y editor de la publicación, relata los sucesos que le llevaron a planear la publicación y señala cómo, en el intercambio que dio origen al libro, Silviano le cuenta que el proyecto Retórica e ruptura: ensaio sobre o romance brasileiro do século XIX llegó a tener un contrato de publicación en el Conselho Estadual de Cultura do Estado de São Paulo, pero que finalmente el proyecto no se concretó debido a razones que obedecen a cambios de gobierno. Cabe señalar que “Retórica da verossimilhança” apareció publicado en Uma literatura nos trópicos.
[4] Cabe recordar, que en el punto cuatro de la Bula Romanus Pontifex del Papa Nicolás V, del 8 de enero de 1454, la cual define la conquista colonial portuguesa como un instrumento de expansión del cristianismo, se lee “Por eso nosotros, todo pensando con debida ponderación, por otras cartas nuestras concedimos al dicho Rey Afonso la plena y libre facultad, entre otras, de invadir, conquistar, subyugar a cualesquiera sarracenos y paganos, enemigos de Cristo, sus tierras y bienes, a todos reducir a servidumbre y todo aplicar en utilidad propia y de sus descendientes”.
[5] En cuanto a la relación entre la palabra y Dios, Giorgio Agamben, en su ensayo sobre Bartleby el escribiente, señala, aunque al interior de la Cábala, algunas consideraciones que no podemos desechar para entender en su potencia tal relación: “En Mesina, entre 1280 y 1290, Abraham Abulafia compuso ciertos tratados cabalísticos que, habiendo permanecido manuscritos durante siglos en las bibliotecas europeas, tuvieron que esperar al nuestro para llamar de nuevo la atención de los no especialistas, gracias a Gershom Scholem y Moshe Idel. En ellos, la creación divina se concibe como un acto de escritura, en el cual las letras representan, por así decirlo, el vehículo material a través del cual el verbo creador de Dios -asimilado a un escriba que mueve la mano- se encarna en las cosas creadas. “El secreto que se halla en el origen de todas las criaturas es la letra del alfabeto, y toda letra es un signo que se refiere a la creación. Así como el escriba sostiene en la mano su pluma, llevando en ella algunas gotas de la materia de la tinta, prefigurando en su mente la forma que desea dar a la materia -con todos esos gestos en los cuales la mano del escriba es la esfera viviente que mueve la pluma inanimada que le sirve de instrumento para que la tinta discurra por el pergamino que representa el cuerpo, soporte de la materia y de la forma-, así se cumplen actos similares en las esferas superiores e inferiores de la creación, como comprenderá por sí mismo todo el que esté dotado de inteligencia, pues acerca de ello está prohibido extenderse”.
Sobre el autor
Hugo Herrera Pardo es profesor del Instituto de Literatura y Ciencias del Lenguaje de la Pontificia Universidad Católica de Valparaíso, Chile.
