
Renato Ortiz parte de um historiador quase esquecido para iluminar um fenômeno atual: a crença coletiva em explicações implausíveis. Em “Implausibilidade”, Henry Thomas Buckle é resgatado como exemplo de que certos discursos fantasiosos, embora falsos, podem ganhar força social duradoura, seja no século XIX, seja na era das fake news. A questão do texto é direta: o que torna plausível aquilo que claramente não é? Ortiz nos convida a refletir sobre os mecanismos sociais que sustentam narrativas absurdas, mas eficazes. Sugerindo que, muitas vezes, não é a verdade que importa, mas o contexto que a molda.
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Boa leitura!
Implausibilidade
Por Renato Ortiz (Unicamp)
Henry Thomas Buckle (1821-1862) foi um historiador menor de grande êxito em sua época. Dele, ninguém se recorda, mas é justamente esta ausência – ou melhor, o esquecimento que o abraça – que torna o seu caso exemplar. Foi um próspero homem de negócios cuja ambição era escrever uma robusta obra sobre a noção de civilização. Diletante, eurocêntrico, de certo modo encarnava a figura do senso comum do orgulho britânico. Seu livro História da Civilização na Inglaterra, em dois volumes, traduzido para o português ainda no final do século XIX, é fruto de um saber enciclopédico e inócuo. Buckle almejava transformar a história numa disciplina equivalente às ciências da natureza; queria desvencilhar-se das interpretações metafísicas e das elucubrações filosóficas. Tinha certa obsessão pela estatística e pela geografia, acreditando ser possível compreender o destino humano por meio do estudo do clima, do solo, da alimentação e da natureza. O comportamento dos indivíduos e dos povos seria modelado por esses fatores inelutáveis, os “agentes físicos” que os determinariam. Com afinco, dedicou-se a escrever uma “teoria” insensata da história, capaz de desvendar os segredos da civilização. Mas qual a relevância de se recuperar um pensamento esotérico desse tipo? A implausibilidade plausível do relato. Para a elite brasileira, ele era conveniente na interpretação de seu próprio destino: funcionava como um artifício crível para explicar o atraso de um país diante da modernidade europeia. Esse era o retrato a ser esculpido (Sílvio Romero dedicou a Buckle todo um capítulo da longa série História da Literatura Brasileira). No primeiro tomo do livro, quando o autor apresenta suas premissas conceituais e divaga sobre as virtudes da Antiguidade e da civilização na China ou na Índia, algumas páginas, poucas, referem-se ao Brasil. O arcabouço argumentativo no qual assentava seu raciocínio era simples: a civilização teria florescido nas sociedades que conheciam um solo húmido, que lhes propiciaria a acumulação da riqueza. O Brasil surgia, assim, como um contraexemplo a seus argumentos: era um país coberto por uma vegetação e uma fauna vigorosa, nele manifestava-se uma “efusão e uma abundância vital”. Porém, seu povo era “ignorante e brutal”. Entre a potencialidade da civilização e a presença da barbárie havia um hiato a ser explicado. A resposta ao dilema proposto — um falso problema — Buckle a encontrou nos ventos alísios. Ao atravessar o Atlântico, oriundos do leste, eles sopravam na costa oriental da América do Sul e, em seu trajeto, acumulavam uma grande quantidade de vapor, que posteriormente se condensava no solo brasileiro. Não havia outra possibilidade para o escoamento desses ventos fustigantes: eles não podiam avançar para oeste devido à gigantesca cadeia dos Andes. Isso provocava o surgimento de inundações sucessivas e destrutivas. A umidade era excessiva, nefasta; a “energia da natureza” impedia a realização humana. O atraso era fruto dessas circunstâncias climáticas adversas.
O que torna plausível a implausibilidade dos relatos? A questão não se coloca apenas em relação ao passado. De fato, as explicações cientificistas do século XIX sobre a superioridade ou a inferioridade das nações ou das raças representam bem esse tipo de interpretação do mundo. São inteiramente fantasiosas. Entretanto, o presente não se encontra imune à sua existência. Diz-se que a modernidade instaurou entre nós uma descrença generalizada; sua racionalidade seria uma espécie de desencantamento do mundo (no XIX, havia todo um debate sobre o fim da religião). O diagnóstico repete-se muitas vezes na atualidade: a hipermodernidade narcísica dos indivíduos implicaria o descrédito dos valores coletivos. Mas a implausibilidade é resiliente, contradiz essa ideia ao desafiar as contradições impostas pela realidade. O que torna o relato plausível é a crença em sua autenticidade: sua falsidade, desde que percebida como verdadeira, é inabalável. Não se deve imaginar que esse tipo de explicação seja fruto da irracionalidade ou da incoerência; pelo contrário, ela repousa sobre a ordem racional do discurso. Isso acontece com as teorias conspiratórias ou as interpretações racistas da inferioridade dos outros, de maneira sistematizada e ordenada elas “falam” do mundo. Mas ela pressupõe ainda outro aspecto: o contexto. Nele, se dá a confluência do relato com a inconsistência de sua veracidade. A crença, para ser convincente, precisa ser coletiva, não necessariamente de todos, mas de um grupo amplo de indivíduos. Dessa forma, ela se mineraliza, se solidifica, torna-se senso comum. Pode-se inclusive dizer que a internet favorece esse tipo de situação. Em sua dimensão global, ela recorta o espaço digital em “bolhas” que se imaginam universais. A verdade das narrativas parciais se afirma, assim, como indubitável, nutre-se de um ilusionismo que se sobrepõe ao real. Esse é o destino das fake news: a disputa em torno de sua implausibilidade é secundária diante de seu enunciado e do contexto. A crença molda a concepção de mundo, traz com ela o bálsamo dos ventos alísios.
