
Nesta semana, a série especial Poder Local e Eleições Municipais traz três textos que buscam ampliar o entendimento das dinâmicas eleitorais locais e suas conexões com as disputas nacionais, oferecendo uma análise sobre os desafios para a democracia e as formas de participação política no Brasil.
“A polarização e as eleições municipais de 2024”, de Josué Medeiros (UFRJ/UFRRJ) e Rennan Pimentel (IESP/UERJ), analisa as eleições municipais de 2024 no Brasil, destacando a polarização política entre democracia e autoritarismo. O texto propõe um balanço das dinâmicas eleitorais por região e por partidos. Em “Candidaturas de Mulheres nas Regiões Brasileiras: Avanço ou Estratégia Partidária nas Eleições de 2024?”, Mayra Goulart (UFRJ/UFRRJ) e Giulia Gouveia (PPGCS/UFRRJ) exploram a representação política das mulheres nas eleições de 2024 no Brasil, examinando as candidaturas femininas às prefeituras e vice-prefeituras por região. A análise inclui dados sobre gênero e raça, discutindo como a legislação eleitoral recente impactou (ou não) a paridade de gênero na política. O último texto, “Polarização e Terceira Via”, assinado por Jorge Chaloub (UFRJ), aborda o conceito de polarização na política brasileira, explorando como ele se tornou um elemento central no debate público. O autor examina também como o discurso de polarização é moldado por interpretações normativas e retóricas sobre o Brasil contemporâneo.
A série especial Poder Local e Eleições Municipais é organizada por Lucas Carvalho (UFF e coordenador do CP de Pensamento social da SBS) e Rennan Pimentel (doutorando IESP-UERJ). Para ler outros posts da série, clique aqui.
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A polarização e as eleições municipais de 2024
Por Josué Medeiros (UFRJ/UFRRJ) &
Rennan Pimentel (IESP/UERJ)
No Monitoramento Eleitoral do Observatório Político e Eleitoral (OPEL)[1], afirmamos que a política brasileira está marcada por uma polarização que vai além das eleições, abrangendo aspectos políticos e sociais, e envolvendo um embate entre democracia e autoritarismo. Isso significa que a disputa entre partidos e candidatos pelo voto reflete visões e projetos de país profundamente diferentes e, em muitos casos, antagônicos.
Entretanto, como afirma Antonio Gramsci (2000), “o número de votos é a manifestação terminal de um longo processo” marcado por demandas, agendas e sentimentos os mais diversos, tal como deve ser em uma sociedade plural. Isso quer dizer que, embora o ponto de chegada da disputa eleitoral seja o confronto entre duas propostas de Brasil, o ponto de partida e todo o seu desenvolvimento são marcados por um caldeirão de lutas, conflitos, convergências, acordos e composições entre os muitos “Brasis” que pulsam em nossas cidades e no campo, nas periferias e nas praças, nas redes e nas ruas.
O esforço do nosso projeto de pesquisa, que conta com cerca de 30 estudantes de graduação e pós-graduação, passa justamente pela capacidade de sistematizar essas múltiplas dimensões em suas tendências estruturais, aquelas que nos permitem costurar as diversas conjunturas eleitorais recentes (desde 2020 realizamos o monitoramento), sem, contudo, perder de vista esta diversidade e toda a potência analítica que emerge de cada dimensão específica e de cada tema individual que pesquisamos.
Esse texto pretende apresentar um primeiro esboço de balanço tanto geral como específico, nesse movimento duplo e complementar de interpretar as eleições brasileiras pela polarização entre democracia e autoritarismo e, também, pelas dinâmicas regionais, locais e temáticas que se apresentaram ao longo do pleito municipal de 2024.
Para isso, iniciaremos com um balanço geral, baseado na noção de polarização e nos três campos políticos que estruturam a pesquisa do OPEL. Em seguida, apresentaremos uma análise regional do país e, depois, uma avaliação do quadro partidário. Posteriormente, discutiremos os temas que ameaçam a democracia, destacando as candidaturas da extrema direita, e, por fim, abordaremos os temas que identificamos como favoráveis ao fortalecimento da democracia, como as candidaturas antirracistas, feministas, LGBTQIAPN+ e dos movimentos sociais.
A Polarização e os campos políticos
O mapa eleitoral municipal que emerge das urnas em 7 de outubro parece contradizer a tese da polarização. A análise do cenário partidário revela que os partidos de Lula e Bolsonaro ficaram longe da liderança em número de prefeituras e cadeiras nas câmaras municipais, posições dominadas por agremiações do chamado “centrão”, ou, como preferimos no OPEL, da direita tradicional. O problema é que o mesmo “retrato” saiu das urnas em 2016 e 2020 e, quando passamos para as eleições presidenciais de 2018 e 2022, o que vivemos foi uma radical polarização entre Lula e Bolsonaro. Como explicar esse aparente descompasso?
É preciso reconhecer a validade das análises que enfatizam o foco local nas eleições municipais. Há um consenso na ciência política brasileira sobre a prevalência dos temas de zeladoria na disputa pelas prefeituras, o que impede a nacionalização do debate eleitoral. Mas tal racionalidade se mostrou parcial, não apenas na relação entre as eleições municipais e as eleições gerais, mas na própria dinâmica do conflito político e eleitoral nas cidades.
Ocorre que a polarização em eleições municipais não se dá contra o elemento local, mas sim se adaptando a ele. Isso significa que, no lugar de vermos uma candidatura nitidamente lulista e outra nitidamente bolsonarista liderando as intenções de voto, vamos precisar ampliar o olhar para encontrar as manifestações do fenômeno da polarização em suas particularidades. Exemplos não faltam.
O mais estridente deles foi o coach de extrema direita Pablo Marçal, em São Paulo, que conquistou quase um terço do eleitorado paulistano, influenciando não apenas a agenda da disputa na maior cidade do país, mas também em âmbito nacional, uma vez que forçou o posicionamento de diversas lideranças políticas, a começar pelo próprio Jair Bolsonaro.
Mas não foi o único. As candidaturas bolsonaristas cresceram no final, de Norte a Sul, muitas vezes contrariando as pesquisas e provando, novamente, que o bolsonarismo é um “time de chegada”. Contra as pesquisas, foram para o 2º turno Cristina Graeml (PMB) em Curitiba, o ex-ministro Marcelo Queiroga (PL) em João Pessoa e Capitão Alberto Neto (PL) em Manaus. Fora Belém, Belo Horizonte, Goiânia e Fortaleza, entre outras, em que a presença do bolsonarismo no 2º turno já era esperado.
É impossível interpretar esses resultados e explicar a força do bolsonarismo sem aceitar que a polarização política e eleitoral se impôs. E, ainda que seus principais adversários não sejam necessariamente candidaturas de esquerda, são figuras apoiadas por Lula, reestabelecendo a dinâmica de frente ampla democrática de 2022.
Balanço por região
No recorte regional, a polarização política se expressa com o crescimento da extrema direita bolsonarista, que pautou o debate na maioria das capitais de todas as regiões. Na região Norte, Belém, Porto Velho e Rio Branco eram governadas pela esquerda e, no momento, são disputadas pela direita tradicional e extrema direita no 2º turno, com a direita tradicional favorita em Belém, Macapá e Manaus, ao passo que a extrema direita prevalecendo em Boa Vista, Palmas e Porto Velho.
Assim como nas eleições gerais, a região Nordeste é aquela em que a esquerda tem seu melhor desempenho, com a vitória do PSB em Recife e com candidaturas de esquerda disputando o 2º turno em Aracaju, Fortaleza e Natal contra candidatos apoiados por Bolsonaro. O bolsonarismo venceu as eleições em Maceió, única capital nordestina que Bolsonaro venceu Lula em 2022 e Haddad em 2018. A direita tradicional venceu no primeiro turno em Salvador e Teresina (com apoio do bolsonarismo) e em São Luís. Por fim, em João Pessoa, a disputa será entre a direita tradicional e a extrema direita.
Na região Centro-Oeste, Cuiabá é a capital em que há polarização nos mesmos termos nacionais, Abílio (PL), da extrema direita, e Lúdio Cabral (PT), da esquerda. Em Campo Grande e em Goiânia, o embate é entre direita tradicional e extrema direita, com destaque para o confronto entre Bolsonaro e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado.
As três capitais do Sul apresentavam uma dinâmica de polarização nítida entre extrema direita e esquerda: em Porto Alegre, o prefeito Sebastião Melo, com apoio de Bolsonaro, liderou a corrida, enquanto Maria do Rosário (PT) e Juliana Brizola (PDT) disputaram a vaga no 2º turno, com vitória da petista. Florianópolis reelegeu Topázio (PSD) no 1º turno com apoio de Bolsonaro, e o PSOL ficou em segundo com Marquito. Já Curitiba, reservou uma surpresa na reta final com a jornalista autodeclarada bolsonarista Cristina Graeml (PMB) atropelando a candidatura da esquerda e conquistando a vaga no 2º turno contra o atual vice-prefeito, Eduardo Pimentel, apoiado por Bolsonaro.
No Sudeste, a esquerda se destacou apenas em São Paulo, com Guilherme Boulos (PSOL) no 2º turno. O governo Lula obteve sucesso no Rio de Janeiro, com a reeleição de Eduardo Paes (PSD) no 1º turno, e apoia em Belo Horizonte o atual prefeito Fuad Noman (PSD), favorito contra o bolsonarista Bruno Engler (PL) no 2º turno. Bolsonaro, por sua vez, garantiu a reeleição de Lorenzo Pazolini (Republicanos) em Vitória e pode ver seu aliado Ricardo Nunes vencer em São Paulo, embora na maior cidade do país o bolsonarismo tenha rachado.
Balanço por partidos
O resultado do 1º turno das eleições de 2024 redefiniu o cenário político-partidário. Pela primeira vez desde 1985, o MDB não conquistou o maior número de prefeituras, ficando com 861, enquanto o PSD de Gilberto Kassab obteve 877. O mais interessante é que, entre todos os partidos do chamado “centrão”, o PSD é o mais alinhado a ambos os lados da polarização: Rodrigo Pacheco, senador do PSD por Minas Gerais e presidente do Senado, é uma peça-chave para Lula no parlamento, enquanto Eduardo Paes, prefeito reeleito do Rio de Janeiro, atua como o principal cabo eleitoral lulista entre a direita tradicional no Sudeste.
Paralelamente, Kassab mantém uma forte influência sobre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ex-ministro de Bolsonaro, que continua dialogando com o bolsonarismo e é apontado como possível candidato da extrema direita à presidência em 2026. Como presidente do PSD, Kassab tem aconselhado Tarcísio a buscar a reeleição como governador, em vez de enfrentar Lula, o que poderia abrir caminho para que o partido formalize seu apoio ao atual presidente.
O MDB, agora o segundo maior partido, está muito mais alinhado a Lula do que à extrema direita, impulsionado pelo apoio da ministra Simone Tebet e do governador Helder Barbalho, que se fortalece ainda mais com a provável vitória em Belém. No entanto, o bolsonarismo conseguiu penetrar no partido, apoiando nomes como Sebastião Melo em Porto Alegre, Ricardo Nunes em São Paulo, entre outros. Ainda na direita tradicional, o PP, liderado por Ciro Nogueira, registrou um crescimento modesto, aumentando suas prefeituras de 690 para 743. O União Brasil também cresceu, passando de 560 para 578 prefeituras.
O maior destaque positivo foi o Republicanos, de Tarcísio de Freitas, que dobrou sua presença no cenário municipal, com um crescimento de 102% em relação ao pleito de 2020, saltando de 212 para 430 prefeituras. O destaque negativo ficou com o PSDB, que perdeu relevância, reduzindo suas prefeituras em 48%, conquistando apenas 269 municípios.
Entre os partidos da polarização nacional, o PL, do ex-presidente Jair Bolsonaro, obteve um expressivo crescimento de 48%, atingindo 509 prefeituras. O PT, sob a liderança do presidente Lula, teve uma leve recuperação, com um aumento de 36%, passando de 182 prefeituras em 2020, para 248. No entanto, o partido continua longe de seu antigo tamanho. Na esquerda, vale ainda mencionar que o PSB, do vice-presidente Geraldo Alckmin, também registrou crescimento, passando de 253 para 307 prefeituras, um aumento de 21%. Por outro lado, o PDT, de Ciro Gomes, sofreu uma queda acentuada, diminuindo de 315 prefeituras em 2020 para apenas 148 em 2024.
Dimensões que favorecem a extrema direita
É preciso destacar algumas dimensões que favorecem a extrema direita nestas eleições. O PL de Bolsonaro, embora não tenha conquistado o maior número de prefeituras, foi o partido que mais recebeu votos, com 15,7 milhões de votos. O PSD de Kassab vem em 2º com 14,5 milhões e o MDB em terceiro com 14, 4 milhões.
Fato é que as eleições municipais recolocaram Bolsonaro e a extrema direita no cenário político brasileiro, representando a primeira recuperação desse campo desde a derrota em 2022. Após a perda da presidência para Lula, Bolsonaro recusou-se a reconhecer o resultado, e seu círculo político, militar e empresarial orquestrou uma tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, prontamente neutralizada pela firme liderança de Lula, ainda amparado pela coalizão da frente ampla que o reconduziu ao poder.
Esses dois processos, somados aos crimes cometidos por Bolsonaro durante sua presidência, resultaram na inelegibilidade do maior líder da extrema direita brasileira, na prisão de centenas de militantes bolsonaristas e no desmantelamento de redes e estruturas políticas que esse campo vinha construindo desde o golpe contra a presidenta Dilma em 2016. Inclusive, o provável é que este cerco jurídico e político contra Bolsonaro tenha tirado do PL a capacidade de ter ainda mais votos e prefeituras neste ano.
Mas a verdade é que Bolsonaro contra-atacou no pleito municipal, retomando a iniciativa ao polarizar as eleições não apenas nas capitais, mas também na maioria das cidades que terão 2º turno. Seus candidatos tiveram votações expressivas de pelo menos 30% na maioria das cidades, forçando o 2º turno em municípios como Niterói-RJ e Diadema-SP, ou mesmo derrotando o PT em cidades simbólicas do partido, como Araraquara-SP. Isso sem falar em vitórias por larga margem em colégios eleitorais importantes, tais como São Gonçalo e Duque de Caxias, ambos no Estado do Rio de Janeiro.
Outro ponto favorável é a consolidação de novas lideranças, como Pablo Marçal em São Paulo e Cristina Graeml em Curitiba, além de figuras como Nikolas Ferreira em Minas Gerais, André Fernandes em Fortaleza, Fred Rodrigues em Goiânia, entre outros.
Nem tudo são flores para o bolsonarismo. A disputa entre essas lideranças, protagonizada especialmente por Marçal, ameaça fragmentar a extrema direita em 2026. Outro revés foi o recuo das candidaturas evangélicas conservadoras em capitais importantes como Rio de Janeiro e São Paulo. No entanto, apesar desses obstáculos, Bolsonaro voltou ao jogo político nacional.
Dimensões que fortalecem a democracia
As eleições municipais também foram palco de experimentações e movimentos interessantes, cujo impulso e energia caminham para fortalecer a democracia, visto que renovam a representação a partir da diversidade e da defesa dos direitos.
A começar pela convergência de partidos de esquerda em torno de candidaturas que representam dinâmicas de renovação. O principal exemplo ocorreu em São Paulo, com a união de PSOL, PT, PC do B, PV e PDT em torno da candidatura de Guilherme Boulos, líder do MTST. Outros exemplos de unidade também se destacaram, como Natália Bonavides em Natal e Margarida Salomão em Juiz de Fora. A superação da fragmentação favorece a ampliação do alcance das pautas democráticas e do combate às desigualdades. O desempenho de Boulos no 1º turno, sendo o candidato mais votado no conjunto das periferias de São Paulo, é animador para a renovação da esquerda.
As candidaturas dos movimentos sociais cresceram. O MST elegeu 110 vereadores e 23 prefeitos e vice-prefeitos entre 850 candidatos do movimento. O MTST elegeu, entre outras candidaturas, Jô Cavalcanti, vereadora em Recife, que dialoga não apenas com a pauta do direito à moradia, mas também com os trabalhadores sem direito, sendo ela ex-camelô. No Rio de Janeiro, Rick Azevedo foi o vereador de esquerda mais votado após liderar um movimento chamado “Vida Além do Trabalho” (VAT), indicando um potencial caminho de organização e mobilização da nova classe trabalhadora que não vivencia a CLT.
Movimentos como a “Bancada do Clima” e o “Vote pelo Clima” pautaram a centralidade da emergência climática, um tema que ainda não recebe a devida atenção diante da urgência da crise ambiental. No entanto, essa pauta começou a ganhar espaço no debate político em cidades como Porto Alegre e São Paulo, especialmente no 2º turno das eleições.
A sub-representação de mulheres, pessoas negras, indígenas e LGBTQIAPN+ continua sendo um problema grave da nossa democracia, mas também tivemos avanços. As vereadoras eleitas aumentaram em 13% e a prefeitas cresceram 9%, e há a possibilidade de eleição de mais 13 delas, sendo 7 em capitais. A expressiva votação de Amanda Paschoal em São Paulo, eleita vereadora com mais de 100 mil votos, representou uma vitória da pauta das mulheres trans, além da comunidade LGBTQIAPN+ eleger 3 prefeitos e 222 vereadores. O número de vereadores indígenas aumentou 33%, de 181 para 241, embora ainda representem apenas 0,41% do total. O número de pretos e pardos vereadores também cresceu, passando de 26.003 para 26.789, o que dá 45,86% do total de eleitos e 1.841 prefeitos, sendo 33,7% do total. Mulheres negras seguem sub-representadas, configurando um desafio para um efetivo fortalecimento da democracia.
Considerações Finais
As eleições municipais de 2024 mantiveram intacta a principal característica da política brasileira desde 2016: a polarização não apenas eleitoral, mas também política e social, entre um projeto autoritário de extrema direita, liderado por Jair Bolsonaro, e um projeto democrático, cuja principal expressão é o presidente Lula.
De fato, as eleições municipais têm uma lógica própria, marcada pela preocupação com a zeladoria e pelas especificidades de cada cidade. Mas a força da polarização se manifesta à medida que alguns candidatos, sem aderência na dinâmica local, recorrem a figuras de expressão nacional para reforçar suas candidaturas, inserindo o embate polarizado no contexto municipal. E, especialmente na extrema direita, essa estratégia obteve sucesso, resultando em um crescimento expressivo de votos e demonstrando que a polarização exerce uma influência decisiva nas disputas para prefeituras e câmaras municipais.
Ao afirmarmos que Bolsonaro defende um projeto autoritário, nos referimos ao fato da extrema direita buscar substituir o arranjo institucional brasileiro, estabelecido pela Constituição de 1988 e fundamentado na garantia, promoção e ampliação de direitos, por um regime em que a cidadania é restrita aos chamados “cidadãos de bem” e a violência é legitimada como método de resolução de conflitos contra seus opositores.
No mesmo sentido, afirmar que o presidente Lula é a principal expressão do projeto democrático significa recuperar a dinâmica da frente ampla democrática que derrotou Bolsonaro em 2022, reconhecendo toda sua diversidade e complexidade.
Aqui, é preciso separar o joio do trigo. Sabemos que setores da frente ampla democrática em 2022 estiveram com Bolsonaro em 2018 e no golpe de 2016 contra Dilma. São segmentos que defendem as instituições da Constituição de 1988, mas não apoiam um aprofundamento das dinâmicas de combate às desigualdades.
É neste sentido que a vitória dos partidos da direita tradicional nas eleições deve ser interpretada. PSD ou MDB não têm forças para disputar a presidência contra Lula e Bolsonaro. Entretanto, tais partidos conseguem se posicionar como fiel da balança para viabilizar ou bloquear as políticas de governo, ou mesmo influenciar as chapas presidenciais.
Por isso, é fundamental intensificar os esforços em torno das dinâmicas de unidade e renovação que fortalecem a democracia. As candidaturas oriundas de movimentos sociais que lutam por moradia, terra e pelos direitos da classe trabalhadora, além da eleição de mais mulheres, pessoas negras, e LGBTQIAPN+, representam um avanço fundamental na defesa do combate às desigualdades e no fortalecimento de uma agenda inclusiva e democrática.
Nota
Referências
GRAMSCI, Antonio. (2000). Cadernos do Cárcere: Volume 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
