Ocupação Mulheres 2025 | Quem cala não consente: apontamentos sobre abuso sexual infantil e literatura contemporânea de autoria feminina, por Laura Barbosa Campos

Em mais uma rodada da Ocupação Mulheres, Laura Barbosa Campos (UERJ) explora a relação entre o movimento Me Too e a literatura autobiográfica feminina na França, analisando como a denúncia da violência sexual se expandiu das redes sociais para a escrita. A autora toma como ponto de partida as obras de Annie Ernaux, Christine Angot, Vanessa Springora e Neige Sinno para discutir a persistência do abuso sexual, o papel da literatura na quebra do silêncio e a ampliação do conceito de incesto.

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Quem cala não consente: apontamentos sobre abuso sexual infantil e literatura contemporânea de autoria feminina

Por Laura Barbosa Campos (UERJ)

O Movimento Me Too, criado em 2006 pela ativista americana Tarana Burke, ganhou proporções e viralizou em outubro de 2017, quando foi divulgado por Alyssa Milano no antigo Twitter. A atriz acusou o produtor de Hollywood Harvey Weinstein de assédio sexual e sugeriu que mulheres abusadas ou assediadas sexualmente respondessem ao seu tweet com a hashtag #MeToo. O gesto teve forte repercussão e rompeu com o silenciamento das vítimas, desencadeando o que ficou conhecido como o “efeito Weinstein”, ou seja, mulheres do mundo todo se sentiram encorajadas a denunciar situações de violência sexual.

No contexto francês, o movimento de liberação e denúncia foi além das redes sociais e se manifesta também na potência da literatura autobiográfica de autoria feminina. Embora temas como assédio, estupro e incesto já existissem antes do caso Weinstein, o aumento significativo do número de publicações e, sobretudo, a visibilidade alcançada por essas escritas de si foi alavancada.

Vale lembrar que, antecedendo ao Me Too, tivemos obras importantes em língua francesa forjando certa tradição de relatos que trazem à tona temas tabus e violência de gênero. Livros como Mémoire de fille (2016) [Memória de moça], de Annie Ernaux, foram fundamentais para contribuir com os movimentos de exposição desses casos. Embora a laureada pelo Nobel de Literatura (2022) não chegue a mencionar a palavra estupro, a obra tematiza a iniciação sexual violenta e traumática da narradora, durante uma colônia de férias, em 1958. A relação totalmente assimétrica entre a moça despreparada e inferiorizada e o monitor experiente escancara a “dominação masculina” (Bourdieu). A relação sexual do casal envolve poder e submissão e não está distante de uma violação – apesar da moça de 1958 não ter tido esta consciência, a experiência traumática provocaria reverberações duradouras no corpo e na existência da narradora.

O projeto ernausiano trata, contudo, de uma narradora adulta – e em muito difere dos textos da escritora francesa Christine Angot (1959), por exemplo, cujo abuso sexual incestuoso do qual foi vítima fora insistentemente tematizado e transformado em matéria literária. Desde 1999, com a publicação de L’inceste[1] [O incesto], a autora, em um movimento de retorno característico de eventos traumáticos, narra o incesto de maneira frontal. Esse é o tema também de Une semaine de vacances (2012) [Uma semana de férias], ou ainda, de seu lançamento mais recente, a narrativa autobiográfica Le Voyage dans l’est (2021), [Viagem ao leste] prêmio Medicis no mesmo ano de publicação. É durante uma viagem ao leste da França, mais precisamente à cidade de Estrasburgo, que a narradora Christine Schwartz, então com 13 anos e registrada apenas com o sobrenome materno, de origem judaica, conhece Pierre Angot, seu progenitor e molestador. O encontro tardio com a figura paterna é imediatamente associado à dominação e ao poder que o crime do estupro revela. Não é anódino se, em Le Voyage dans l’est, o agressor demonstra antissemitismo, sentimento de superioridade intelectual, social e total consciência da vulnerabilidade de sua “presa”.

A obra de Angot despertou polêmicas e apresentou, ao longo desse primeiro quarto de século, uma recepção instável na França. Eurídice Figueiredo analisa a parte da recepção negativa da obra de Angot na França da seguinte forma:

Causou incômodo a irrupção dessa voz de mulher que desvendava um segredo de Polichinelo, que pais e outras figuras paternas abusam de meninas. Os homens, que dominavam o jornalismo literário, pareciam criticá-la pelo crime do pai, chamando-a de provocadora e histriônica. (Figueiredo, 2020: 260)

Embora já tenha recebido o reconhecimento de importantes prêmios literários e seus livros tenham sido lançados em diversos países, a obra de Angot ainda não foi traduzida no Brasil, o que pode refletir uma certa resistência ou, pelo menos, falta de interesse das editoras brasileiras pela temática do abuso sexual infantil. No Brasil, sociedade violenta e misógina, temos poucas obras autobiográficas de autoria feminina que tematizam o abuso infantil. Como destaca Figueiredo (2020: 256), aqui “é mais difícil para as mulheres fazer esse tipo de confissão pública, por falta de tradição, e talvez por temerem se expor demais”[2].

Apesar das resistências, a produção de Angot exerceu um papel determinante, tanto no sentido de formação de um público leitor mais preparado para enfrentar o tabu, quanto pelo fato de contribuir para que escritoras das novas gerações denunciem dramas semelhantes. Os relatos autobiográficos de autoria feminina em língua francesa vêm exercendo um papel importante na quebra do silêncio imposto às vítimas de violência.

Boa parte dos molestadores, como Pierre Angot, apresentam uma percepção deturpada da noção de consentimento e tal distorção diz muito sobre as relações de poder da sociedade. O Consentimento (Le Consentiment, 2020-2021) é justamente o título de um relato autobiográfico lançado na França pouco antes de Le Voyage dans l’est. A obra da jornalista Vanessa Springora (1973) expõe o relacionamento abusivo vivenciado pela autora-narradora durante a adolescência com o prestigiado escritor francês Gabriel Matzneff (1936), quase quatro décadas mais velho. O livro provocou grandes debates sobre abuso sexual infantil, cultura do silêncio e sobre a importância de se discutir a ideia de consentimento de maneira mais ampla. A dificuldade de se obter provas das violações leva frequentemente a questionamentos em torno das noções de consentimento, de submissão e de liberdade. No caso de Springora, assim como para outras meninas de sua geração, a diferença etária radical entre a adolescente e seu predador era socialmente aceita por uma determinada elite intelectual parisiense das décadas de 1980 e 1990, inclusive pela mãe da vítima. Matzneff exibiu sem pudores sua pedofilia, não apenas em seu comportamento social, mas também em sua obra autobiográfica, algo que passou a ser criticado apenas recentemente[3].

Em capítulo intitulado “A presa”, encontra-se a seguinte epígrafe: “Consentimento: Acepção moral. Ato livre do pensamento pelo qual nos comprometemos inteiramente a aceitar ou realizar alguma coisa. […]. Tesouro da língua francesa.” (Springora, 2021: 33). O título do capítulo é bastante eloquente no sentido de destacar a relação predatória entre a personagem denominada por V. e o abusador. Na definição de consentimento presente na epígrafe, encontra-se a ideia de liberdade de pensamento, algo inexistente em relacionamentos em que o fenômeno da dominação invade o psiquismo de uma menina/adolescente em construção e com figuras parentais ausentes ou fragilizadas. Não existe consentimento quando há uma pessoa em situação de fraqueza ou influenciada, pois o indivíduo não dispõe de elementos para uma escolha livre. A socióloga Marie-France Hirigoyen (2014: 27) lembra que, nesses casos, trata-se do que se denomina no plano jurídico, de um vício de consentimento, mas que não é algo fácil de ser demonstrado nos tribunais de justiça.

Vários episódios semelhantes ao de Springora, envolvendo meninas entre 12 e 15 anos e molestadores de prestígio, ocorreram no meio cultural francês na mesma época. Dentre os mais midiáticos, destaca-se o caso da atriz Adèle Haenel (1989), cujo agressor, Christophe Ruggia (1965), foi condenado a cinco anos de prisão pelos tribunais franceses. Outra renomada atriz e produtora, Judith Godrèche (1972), também denunciou aclamados diretores de cinema: Benoît Jacquot (1947) e Jacques Doillon (1944), ambos por agressão sexual e estupro de vulnerável.

Vanessa Springora: 13 anos; Adèle Haenel: 12 anos; Judith Godrèche: 14 anos. Será que, a despeito da ausência de consanguinidade, podemos falar em abuso incestuoso nesses casos? Se considerarmos a definição expandida de incesto, para além de laços familiares biológicos, adotivos ou por aliança (como no caso de padrastos e tios, por exemplo), todas essas meninas das décadas de 1980 e 1990, menores de 15 anos, vivenciaram estupros infantis incestuosos, embora socialmente aceitos naquele momento.

Em La Culture de l’inceste (2022), obra coletiva organizada por Iris Brey e Juliet Drouar, as autoras adotam uma definição ampliada de incesto, entendendo que ele ocorre quando a relação envolve “figuras paternas” e baseado em laços de “proximidade, autoridade, confiança, dependência e amor”. Ora, tais aspectos estão claramente presentes nas vivências das três meninas mencionadas e de seus algozes da elite intelectual parisiense.

Na França, o movimento #Metoo interagiu fortemente com a literatura de cunho autobiográfico produzida por mulheres. O livro La família grande (2021), de Camille Kouchner (1975), foi determinante e grande responsável pela extensão do Me Too em Me Too Inceste a partir de 2021. O relato traz, nesse caso, um testemunho indireto, pois a autora-narradora expõe o abuso sexual sofrido por seu irmão gêmeo, quando ambos tinham entre 12 e 14 anos. A obra teve forte impacto midiático em terras francesas por envolver, mais uma vez, um molestador de renome, o cientista político Olivier Duhamel, padrasto da vítima. A publicação abriu enormes discussões sobre abuso infantil incestuoso na França e as denúncias parecem estar longe do fim.

Em 2023, a publicação de Triste tigre, de Neige Sinno (1977), trouxe para os holofotes mais um crime de violação incestuosa infantil, desta vez em um contexto bem distinto dos mencionados anteriormente. Longe das celebridades e da Jet set parisiense, o calvário vivenciado pela autora-narradora acontece em um vilarejo modesto do sudeste da França, entretanto, no que tange à dominação, manipulação e crueldade, o modelo se repete.

O texto de Sinno é extremamente bem construído e obteve grandes reconhecimentos, tanto na França quanto no exterior. Triste tigre foi laureado, entre outros prêmios, pelo Femina e pelo Prêmio Goncourt des Lycéens, além de ter vencido o Choix Goncour tInternational[4] em mais da metade dos países onde a distinção é concedida, inclusive no Brasil. Trata-se de um divisor de águas na produção da escritora que reside atualmente no México e que, até então, havia lançado apenas duas publicações em pequenas editoras de baixa circulação[5].

Triste tigre tematiza o estupro recorrente sofrido pela autora-narradora na infância, sendo vítima do padrasto dos sete aos quatorze anos. O livro escapa a categorizações e vai muito além do relato individual de abusos sexuais. Em uma narrativa híbrida, Sinno mescla relato autobiográfico, testemunho, romance e ensaio, em uma escrita poética que instaura uma tensão ao confrontar-se com um ethos coletivo.

Sinno parece buscar fôlego em escritoras que a precederam, como Annie Ernaux, Christine Angot e Camille Kouchner, amplamente citadas. A narradora se debruça sobre sua experiência individual para narrar um flagelo coletivo da sociedade patriarcal. Ela esclarece que não pretende realizar um diário íntimo, mas expor o abuso incestuoso como algo de âmbito coletivo, subvertendo o senso comum de que a violência intrafamiliar pertenceria à esfera privada. Segundo a autora, as alarmantes estatísticas mostram que o abuso sexual infantil é “um crime sistêmico cometido no segredo de centenas de milhares de famílias”[6] (Sinno, 2023: 257).

Neige Sinno convoca, portanto, um eu de caráter coletivo, narrando uma experiência recorrente, sobretudo para as meninas. A perspectiva da autora alinha-se à mudança de paradigma sobre o abuso incestuoso, operada principalmente a partir do livro de Dorothée Dussy, Le Berceau dês dominations (2013), mencionado por Sinno (2023: 97). Dussy demostra que o incesto não é apenas um tabu ou um interdito, mas um estruturador da sociedade patriarcal, mudando o enfoque da questão, de um viés patológico para um entendimento antropológico.

O livro de Sinno se inicia in media res, criando um tom de conversa que será reforçado ao longo de toda a narrativa. Ao dirigir-se diretamente aos leitores, a autora os implica e enfatiza o aspecto coletivo e sociológico da experiência. Sinno interpela leitores e leitoras, tratando-os como seus “semelhantes” e ecoando os versos de Charles Baudelaire em “Ao leitor”, poema introdutório de As Flores do Mal (1857): “Amigo leitor, amiga leitora, minha semelhante, minha irmã[7] […]” (2023: 52). Entretanto, o monstro ameaçador do qual fala Sinno, não é o Spleen baudelairiano, mas a violência de gênero que nos espreita a todas.

A literatura contemporânea de autoria feminina, incluindo obras como Triste tigre (com lançamento no Brasil previsto para 2025, pela editora Record) e muitas outras, tem muito a nos dizer sobre a reconfiguração de paradigmas e os silenciamentos.


Notas

[1] Embora o livro de Angot tenha tido um enorme impacto midiático em terras francesas, Vanessa Massoni da Rocha (2024: 7) reivindica que “o pioneirismo literário no tratamento do tema do incesto em língua francesa contemporânea escrita por mulheres remonta à Gisèle Pineau e à Nicole-Florentiny que publicaram, em 1995 e em 1998 narrativas que, respectivamente, se centram no tema do incesto e nas quais as vítimas narram em primeira pessoa a experiência incestuosa”. O livro de Angot se diferencia, entretanto, pela abordagem autobiográfica em tratamento frontal.

[2] É importante destacar a publicação recente de Melhor não contar (2024) que, apesar de categorizado como romance, é uma obra de cunho autobiográfico, na qual Tatiana Salem Levy expurga o segredo que a atormentou por décadas: o assédio do padrasto sofrido a partir dos 10 anos de idade.

[3]Apenas em 2020, após a publicação de O Consentimento, a editora francesa Verdier retirou os livros de Matzneff de circulação.

[4] O Choix Goncourt é uma espécie de internacionalização do Prêmio Goncourt que ocorre atualmente em mais de 40 países do mundo. O Choix Goncourt Brasil acontece desde 2019.

[5]Um livro de contos, La vie des rats, em 2007, pela editora La tangente, e o romance Le camion, pela editora Christophe Lucquin, em 2018.

[6] “un crime systémique commis dans le secret de centaines de milliers de familles” (traduçãoda autora).

[7]“Ami lecteur. Amie lectrice, ma semblable, ma sœur […]” (traduçãoda autora).

Referências

ANGOT, Christine. (1999). L’inceste. Paris: Flammarion.

ANGOT, Christine. (2021). Le Voyage dans l’est. Paris : Flammarion.

BOURDIEU, Pierre. (1999). A Dominação masculina. Tradução: Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

BREY, Iris & DROUAR, Juliet (dir). (2022). La culture de l’inceste. Paris: Seuil.

DUSSY, Dorothée. (2021). Le Berceau des dominations. Anthropologie de l’inceste.Paris: Pocket.

ERNAUX, Annie. (2016). Mémoire de fille. Paris: Gallimard.

FIGUEIREDO, Eurídice. (2020). Por uma crítica feminista – leituras transversais de escritoras brasileiras. Porto Alegre: Zouk.

HIRIGOYEN, Marie-France. (2014). Abuso de fraqueza e outras manipulações. Tradução: Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

KOUCHNER, Camille. (2021). La Familia grande. Paris: Seuil.

LEVY, Tatiana Salem. (2024). Melhor não contar. São Paulo: Todavia.

MASSONI DA ROCHA, V. (2024). Pai abusador: incesto e pedofilia contra meninas em Gisèle Pineau, Nicole Cage-Florentiny e Cinthia Kriemler. Revista do GELNE[S. l.], v. 26, n. 1.

SINNO, Neige. (2023). Triste tigre. Paris:P.O.L éditeur.

SPRINGORA, Vanessa. (2021). O Consentimento. Tradução: Maria Alice Araripe Sampaio. São Paulo: Planeta.

Sobre a autora

Laura Barbosa Campos é professora de língua e literatura francesa do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Coorganizou, entre outros, o livro Escrever a vida: diálogos em torno de Annie Ernaux (Editar, 2024)