
Encerrando (ou quase) a folia de Momo de 2025, retomamos nossa programação na BVPS. Mas, de um modo muito especial, e que já está se tornando uma marca. Anunciamos que neste sábado, dia 8 de março, daremos início à terceira edição da Ocupação Mulheres BVPS.
A Ocupação deste ano marca os 50 anos da institucionalização do Dia Internacional da Mulher pela ONU. É um momento especial para refletirmos sobre conquistas, mas também sobre persistências e recriações de desigualdades de gênero no Brasil e no mundo. Na curadoria, somam-se a Caroline Tresoldi – socióloga, doutoranda do PPGSA/UFRJ e editora do Blog –, as professoras Eurídice Figueiredo (UFF) e Lia Zanotta Machado (UnB). Serão pouco mais de 30 textos, divulgados em duas postagens diárias durante uma semana. A todas as nossas colaboradoras – pesquisadoras, artistas e ativistas de diferentes gerações, estados e instituições – deixamos, desde já, nossos mais sinceros agradecimentos.
Nossa Ocupação, este ano, é muito especial também por outro motivo: agora em março celebramos 8 anos de atividades do Blog da BVPS. Esse espaço, em construção e desconstrução permanentes, é pioneiro na comunicação pública da sociologia, das ciências sociais, da literatura e de outras áreas afins do conhecimento. Temos ampliado nossa audiência e discutido temas candentes da vida social, cultural e política inclusive junto a leitores não especializados.
Para essa comemoração, lançaremos ao fim da Ocupação um e-book no selo BVPS Coleção, organizado por Caroline Tresoldi, com uma seleção especial das duas primeiras edições. Por ora, para esquentar os trabalhos, deixamos leitoras e leitores com o poema “Quero ser amiga dela”, assinado por Clarisse Lyra, poeta e doutoranda em Teoria Literária na USP.
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Quero ser amiga dela
Por Clarisse Lyra (USP)
Quero ser amiga dela, daquela garota,
a que no final da noite descobriu e anotou:
“O fato de ninguém poder resistir a mim é uma genialidade.”
Aquela que afirmou:
“O que eu e minhas amigas fazemos tem mais a ver com
mágica que com gambiarra.”
A que sustentou: “Não, não roubamos nada.”
Aquela que viajou ao centro vermelho e voltou sussurrando:
“Criança dourada de tristeza infinita,
não peça a Deus que te leve,
peça um ouvido absoluto.”
A que manteve o silêncio, que pensou:
“Supondo que os sujeitos Gilles Deleuze
e Félix Guattari tivessem tido acesso
somente às edições da Cia. das Letras
de Kafka, seria de se supor que não
pudessem ter feito a leitura que fizeram.”
Aquela cuja folha de caderno voou,
e estava escrito:
“Até agora,
fiz o que pude.
A partir de agora,
farei o que quero.”
A que deu de presente o umbigo
do sonho,
que quis contar e contou:
“Foi a pele quem me avisou do choro”,
“Eu deixei que ele me visse rir”,
“Mudo de ideia muito rápido”.
Quero ser amiga dela, dessa garota,
essa que não é a dona da casa,
essa que está parada, balançando
algo na mão.
Sobre a autora
Clarisse Lyra é poeta e tradutora. Mestra em Letras pela Universidade de São Paulo e doutoranda em Teoria Literária (FFLCH/USP). Publicou, em 2022, o livro Tanto tempo para aprender a escrever um poema com hortênsias.
