Série Nordestes | De volta ao Nordeste com Mário de Andrade, por André Botelho e Onildo Correa

Temos a alegria de anunciar a volta da Série Nordestes, uma das mais celebradas da BVPS. Com curadoria de André Botelho e Onildo Correa, esta nova floração da série (agora no plural) trará as crônicas do Turista Aprendiz Mário de Andrade, escritas durante sua viagem ao Nordeste entre 1928 e 1929 e publicadas originalmente no Diário Nacional. Mas não paramos por aí. O presente do Nordeste – com suas transformações políticas e suas linguagens visuais e literárias – também será objeto de análise por colaboradores especiais.

As postagens da série serão publicadas sempre às terças-feiras, contando com iluminuras de Joana Lavôr. Neste post, você encontra a apresentação da série, assinada pelos curadores, e o primeiro texto de Mário para a coluna O Turista Aprendiz.

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De volta ao Nordeste com Mário de Andrade

André Botelho (UFRJ)

Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ)

De dezembro de 1928 a março de 1929, Mário de Andrade empreendeu sua célebre “viagem etnográfica” ao Nordeste brasileiro. Não era sua primeira jornada desse tipo. Dois anos antes estivera no Norte, movido também por muitos desejos, entre eles o de mapear as múltiplas culturas e contradições que formam um país de proporções tão vastas quanto desiguais. Nessas duas experiências, Mário pôde ver e sentir algo que ele próprio já esboçava em seu projeto modernista: primeiro, que o Brasil não cabe na palma da mão; segundo, a importância de deslocar nossos eixos de experiência para aprender. Sim, aprender. Com o outro e com a interlocução que nosso mundo particular tece com essas alteridades.

As viagens de Mário evocam uma preocupação tanto intelectual quanto sentimental, que vai da crítica do eurocentrismo à valorização das culturas populares e do processo de democratização da cultura, como já foi mostrado (Botelho & Hoelz, 2022). Não por acaso, escolheu o título para suas andanças de O turista aprendiz. O que remete à condição de um estrangeiro que deseja também ser aprendiz do “novo mundo” que lhe acomete – alguém capaz de estranhar e desnaturalizar as diferenças e desigualdades para aprender com alteridades ao mesmo tempo distantes e próximas.

Assim ele o fez.

Esses escritos configuraram uma forma especial de conhecer o Brasil e interpretá-lo, tanto por meio das leituras quanto do deslocamento espacial. E as viagens, como lembra Lévi-Strauss, um viajante profissional aos trópicos até certo ponto aborrecido ele mesmo, é sempre mais do que um deslocamento no espaço: “É pouco. Uma viagem inscreve-se simultaneamente no espaço, no tempo e na hierarquia social” (Lévi-Strauss, 1957: 85).

Como mostrou André Botelho em seu estudo sobre o viajante amazônico Mário de Andrade, seus relatos materializam um meio de descoberta do Brasil, crucial para o projeto modernista que deu vida de tornar o país familiar aos brasileiros por meio da problematização refinada das categorias de “empatia” e “autenticidade” (Botelho, 2022). Queremos testar essa hipótese estendendo-a na revisão agora da sua viagem ao Nordeste, para a qual encontrou meios próprios de financiamento com seu trabalho intelectual: viaja como correspondente do Diário Nacional, enviando seus relatos como entradas de um diário – mesma estrutura narrativa do relato amazônico (mas cuja viagem fora financiada por meio de empréstimos tomados a Paulo Prado) – para a coluna Turista Aprendiz.

Mas as questões financeiras não determinam sozinhas o tipo de viajante em que Mário se forja. Mesmo porque houve outras oportunidades e em melhores condições materiais para novas viagens, inclusive ao exterior, que, no entanto, ele conheceu apenas cruzando fronteiras fluviais amazônicas do Brasil com o Peru e com a Bolívia. Ou mesmo voltar ao Nordeste e ao Norte. Por exemplo, quando dirigiu o Departamento de Cultura de São Paulo, entre 1935 e 1938. Por sua iniciativa e sob sua orientação intelectual, a chamada Missão de Pesquisas Folclóricas, integrada por Luiz Saia, Martin Braunwieser, Benedicto Pacheco e Antônio Ladeira, refez em 1938, em grande medida, o seu itinerário da década anterior, tendo visitado Ceará, Pernambuco, Paraíba, Piauí, Maranhão e Pará.

Conhecer o Brasil e dar a conhecer o Brasil em seus relatos de diferentes tipos era parte importante do projeto modernista que, afinal, pode mesmo ser resumido como o esforço de tornar o Brasil familiar aos brasileiros, o que implicava, obviamente, familiarizar-se com ele. E Mário de Andrade chegou ao Brasil por meio de formas variadas, sentimental e intelectualmente, de modo direto em viagens pelo país e também indiretamente em torno das estantes, através de muitas leituras. Isso não significa, porém, que se possa tomar as viagens de Mário de Andrade pelo Brasil simplesmente como parte de um plano mais ou menos articulado de expansão das áreas de influência do modernismo paulista. É certo que Mário foi mesmo o modernista paulista que mais se “nacionalizou”, mas isso não significa apenas a expansão geopolítica de sua influência cultural e de política.

De acordo com André Botelho e Mauricio Hoelz (2022), Mário tinha uma capacidade ímpar de se colocar por inteiro em tudo que fazia: transitando entre diferentes mundos, ocupando o centro de diversos debates e buscando manter seu pensamento sempre descentrado. Postura que fazia parte do seu projeto de democratização da cultura. Que no fim fracassou… Junto do Brasil inteiro nesse desafio de reconhecimento dos sujeitos das culturas populares, de uma sociedade mais plural e de convivências democráticas com as diferenças e enfrentamento das desigualdades sociais.

Quando Mário produziu seu “diário de viagem” ao Nordeste e o publicou em pequenas partes no Diário Nacional, teve o mérito de criar uma sensibilização pública sobre uma região até então ignorada por muitos. Fez do Nordeste um espaço compartilhado; fez de suas contradições e potencialidades um recurso de aprendizagem coletiva que hoje queremos resgatar e ressignificar. Ou seja, se Mário valorizou a cultura popular, seu interesse não se extingue nas manifestações que colheu, mas antes no reconhecimento social e político que provocou delas e na dignidade e visibilidade que procurou conferir a seus portadores sociais. Uma sensibilidade etnográfica, como mostra Luna Ribeiro Campos (2014: 13), “não orientada apenas para a valorização das diversidades culturais, para catalogar as diferenças ou para a coleta de manifestações folclóricas, mas também direcionada para as hierarquias e desigualdades sociais”. Conforme o próprio Mário escreve:

Não sou folclorista não. Me parece mesmo que não sou nada, na questão dos limites individuais, nem poeta. Sou mais é um indivíduo que, quando sinão quando, imagina sobre si mesmo e repara no ser gosado, morto de curiosidade por tudo o que faz mundo. Curiosidade cheia daquela simpatia que o poeta chamou de “quase amor”. Isso me permite ser múltiplo e tenho até a impressão que bom. Agora que principio examinar, com o deficiente conhecimento meu, certos documentos folclóricos, tenho mesmo que afirmar estas coisas verdadeiras. Provam meu respeito pela sabença alheia, e afirmam meus direitos de liberdade. [Diário Nacional, 8 jan. 1929]

* * *

Mário ter se autodenominado “turista aprendiz” – justamente em uma viagem etnográfica – soa como uma fina provocação, bem ao seu gosto, à presunção de isenção ou de superioridade moral dos relatos, sejam científicos, sejam nativos. Nos parece um questionamento da própria disputa em torno da legitimidade (e, por que não, da propriedade) do saber. O etnógrafo turista aprendiz é não um intérprete soberano, mas antes um mediador de mundos. O conhecimento que resulta do encontro cultural é não um dado objetivo, mas uma co-produção feita em diálogo com uma alteridade que é relativa e relacional, a partir do confronto e da tradução mútua de perspectivas, que nos exige pensar a diferença e de modo outro, em vez de reduzi-la aos lugares conhecidos (em nome da inteligibilidade ou da autoridade).

Acontece que, assim como Mário de Andrade, todos nós somos – ou podemos ser – turistas aprendizes desse enigmático país chamado “Brasis”. E o “fracasso” do seu projeto de democratização da cultura em nada deve arrefecer nosso ímpeto por mais democracia (Botelho & Hoelz, 2022). Ao contrário, ele tem tudo para no inspirar e subsidiar numa (necessária) reinvenção do Brasil, como uma sociedade mais plural e menos desigual.

É nesse espírito que temos o prazer de apresentar a retomada da Série Nordeste – sucesso ao longo do primeiro semestre de 2023 – nas semanas da BVPS. Todas as terças-feiras, seremos conduzidos por Mário ao Nordeste de 1928-29, por meio de suas pequenas (entretanto interessantíssimas e reveladoras) crônicas em terras nordestinas.

Mas isso é apenas uma parte. Esta nova etapa da série também propõe um mergulho no contemporâneo da região, com textos de diversos autores sobre imagens, literaturas, experiências de viagem e reflexões políticas, sociais e econômicas que envolvem o Nordeste brasileiro. Ou seja, ao lado das postagens de Mário de Andrade – cujos textos foram integralmente transcritos do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional – receberemos convidados que aprofundarão em diálogos diretos e indiretos com ele temas de interesse sociológico, político e estético sobre o Nordeste.

Dois exemplos. A antropóloga, historiadora e curadora de arte Lilia Moritz Schwarcz terá uma coluna mensal na qual, em diálogo com Mário de Andrade, recomporá uma espécie de imagética do Nordeste. Livremente inspirada no notável e inconcluso projeto do Atlas de Imagens Mnemosine (Bilderatlas Mnemosyne) de Aby Warburg, que pretendia estabelecer “cadeias de transporte de imagens”, linhas de transmissão de características visuais através dos tempos, Lilia nos propõe refletir, a partir de imagens variadas do e sobre o Nordeste, as intrigantes permanências e mudanças da desigualdade, que embaralham passado e presente.

Também prevista é uma colaboração com o OPEL, o Observatório Político e Eleitoral (UFRJ e UFRRJ), que desenvolve pesquisas sobre política e eleições, buscando compreender a dinâmica do sistema político brasileiro. Sob curadoria de Rennan Pimentel, traremos para a série dados e reflexões sobre as transformações na representação política brasileira no Nordeste e no Brasil vistas a partir do Nordeste. Interessa-nos, especialmente, pensar as dimensões transversais do processo eleitoral, como gênero, raça, religião (com atenção particular ao crescimento dos evangélicos), movimentos sociais, entre outras temáticas relevantes.

Joana Lavôr, ilustradora carioca, retomou esboços e trabalhos seus sobre Mário e sua e outras viagens ao Nordeste que serão destacados, iluminuras preciosas no corpo do texto dos posts.

Mário de Andrade, torna-se, portanto, também uma espécie de anfitrião, e nos puxa pela mão para formarmos uma das cirandas que tanto o encantaram. A ideia da ciranda é boa inclusive para reforçar um ponto fundamental: estamos em movimento. Não desejamos, porém, partir de um lugar para o outro (travessias simples não interessam). Preferimos o desconforto ontológico do entre-lugar aos lugares reificados, “nativos” ou “estrangeiros”. Em seu conjunto, desejamos propor um diálogo, construído e vivido por autores e leitores, com o propósito de reconhecer nosso estatuto de turistas do mundo – e, assim, ampliar nossos repertórios de aprendizagens sobre o outro. Reconhecendo as diferenças, é claro, mas também estabelecendo as importantes interconexões que atravessam uma experiência nacional em curso: sempre incompleta e desigual.

* * *   

Essa nova floração da Série Nordeste insere-se nos trabalhos do INCT Instituto da Igualdade e Aprendizado Social, voltado, como o próprio nome sugere, para processos de aprendizado social de expansão da igualdade. Não somente em termos de políticas públicas, mas também de experiências sociais e culturais que, embora possam estar em sua base, nem sempre conhecem os desdobramentos institucionais por vezes previstos. O foco empírico do INCT, coordenado por Celi Scalon e André Botelho, ambos da UFRJ, é justamente o Nordeste. Daí a importância deste espaço de comunicação entre disciplinas (sociologia e literatura), áreas de pesquisa (estratificação e pensamento social), temporalidades, linguagens e saberes para seu desenvolvimento. Como o foi antes a primeira floração da coluna para sua formulação e proposição exitosa.

A Série Nordeste tem sido guiada por um quadro teórico definido a partir de um tema clássico da sociologia política: as relações entre comunidade e democracia. Busca destacar, no caso do Nordeste, discussões sobre estrutura agrária, participação social e mudanças sociais e políticas. E perguntar se é possível pensar um percurso (não linear e inacabado) que liga a emergência da questão social (face à estrutura agrária vigente) à participação social que acaba por alterar politicamente a sociedade.

Noutras palavras, queremos entender se e como, na longa duração e visto em termos macrossociológicos, se forjou um processo social de aprendizado social da democracia que envolveu três momentos decisivos: no primeiro, operando-se a construção social de inteligibilidade da “injustiça” diante de situações como a seca, a fome, as migrações e a violência, que recebem progressivamente novas interpretações; num segundo momento, como faces da questão social, que passam a ser objeto de conflitos entre diferentes setores da sociedade e do Estado. É com base, em grande medida, nessa experiência – que também pode ser caracterizada como um aprendizado social do conflito pela terra –, que, num terceiro momento, no presente, a participação social não apenas se adensa, mas ganha condições tangíveis de alterar o cotidiano da política no Nordeste (Botelho & Helayel & Pimentel, 2024).

Ressaltamos, do ponto de vista do pensamento social que praticamos como sociólogos, a importância e o necessário cuidado com a dimensão semântica da vida social. É uma forma específica de fazer pensamento social no Brasil, centrada nos textos e na diversidade textual das narrativas sobre o Brasil. Partindo da visão das ideias como forças sociais, chegamos ao problema do caráter reflexivo da vida social e suas relações contingentes com as ideias. Que tipo de aprendizado social é possível recompor a partir da textualidade da vida social? Quais são os repertórios do aprendizado social da cidadania e da democracia codificados nos “textos” sobre o Nordeste – por exemplo, de Os sertões (1902) a São Bernardo (1934), passando por Gilberto Freyre e Josué de Castro ou Celso Furtado?. Pois, também essas interpretações constituem, a seu modo, espécies de códigos simbólicos potentes, que ultrapassam o mero registro factual sobre a formação histórica e/ou social da região e do país e tornam-se parte das relações sociais que visam interpretar, modelando tanto a compreensão dos especialistas quanto o autorreconhecimento social em geral.

Tanto Mário de Andrade quanto o Nordeste – e, especialmente, a relação entre os dois – possuem a capacidade de produzir uma nova impressão do social. Afinal, como aprendemos com ele, aprender com o outro é o primeiro passo para imaginar uma sociedade mais justa. Entre contendas de atores e grupos sociais, formas de ação e de narrativa ganham e perdem eficácia, assim como se transformam os modos de sensibilização e reconhecimento dos problemas sociais. E, apesar do aprendizado envolvido, tais processos nem sempre resultam em mudanças efetivas, pois dependem de portadores sociais e das relações que estabelecem entre si para que se consolidem ou não como forças sociais reflexivas (Botelho & Hoelz, 2022).

Nesta floração, a Série Nordeste contará com curadoria de conteúdos de André Botelho (UFRJ) e editorial de Onildo Correa (PPGSA/IFCS/UFRJ). Agradecemos à Equipe BVPS, especialmente à Maria Fernanda Argileu (PPGSA/IFCS/UFRJ), a transcrição direta dos textos de Mário do Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. É uma imensa alegria retomar a Série Nordeste nos termos aqui rapidamente apresentados.

Agora, restará a nós um detalhe importante: a coragem de, na condição de viajantes no tempo social, com suas múltiplas temporalidades, nos deixar sensibilizar.

Começamos?

Fotografia publicada junto à crônica “Catolé do Rocha”, de Mario de Andrade, no Suplemento de Retrogravura de O Estado de S. Paulo (São Paulo n. 135, a. 9, 1° quinzena de maio, 1939). Retirada daqui.

Referências

BOTELHO, André (2022). A viagem de Mário de Andrade à Amazônia: entre raízes e rotas. In: BOTELHO, André & HOELZ, Maurício & BITTENCOURT, Andre. A sociedade dos textos. Belo Horizonte: Relicário, p. 87-115.

BOTELHO, André & HOELZ, Mauricio. (2022).  O modernismo como movimento cultural: Mário de Andrade, um aprendizado. Petrópolis: Editora Vozes.

BOTELHO, André & HELAYEL, Karim & PIMENTEL, Rennan (Orgs.). (2024). Sociologia Política do Nordeste.BVPS Coleção. Número 004.

CAMPOS, Luna Ribeiro. (2014). Sensibilidade etnográfica, narrativa e interpretação do Brasil: a viagem de Mário de Andrade ao Nordeste (1928/29). Dissertação (mestrado) – UFRJ/IFCS/Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia, Rio de Janeiro.

LÉVI-STRAUSS, Claude. (1957). Tristes trópicos. São Paulo: Editora Anhembi Limitada


O Turista Aprendiz

S. Paulo, 27 de Novembro (21 horas)

Se repetiu a mesma sensação desagradavel do ano passado quando parti pro Amazonas. Está provado que não fui feito pra viajar.

Faz já uns seis dias que vivo em dois homens. E o novo, ajuntado agora a mim, é um desconhecido até desagradavel capaz de enfrentar a onda enorme do oceano. Vai viajar, vai pro nordeste. Os amigos abraçam êsse viajador, perguntam coisas, e o viajante fala por quanta junta tem, mais projetos que pernilongos na capital luxuosa do genio Pires do Rio. Não tive a culpa, outro dia. Estava esperando o meu bonde, e no automovel passando um homem se desbarretou com uma largueza mãi. Respondi ao cumprimento, está claro, enquanto punha reparo na pessoa cumprimentadeira. Não tive a culpa, era Pires do Rio. Senti não estar prevenido, ah… seria tão facil estar olhando pro céu que todos aceitam sem antipatia nem imposições das classes opressoras. Juro que não tive a culpa.

Mas é isso mesmo. Barulho afobado da estação, o trem-de-ferro vai partir, todos êsses amigos, alunos, me cercando… Tarsila, Osvaldo de Andrade, está na hora, abraços. Subi no vagão. Sem saber direito o que fazia, percorri o corredor inteirinho. Me lembrei que é costume a gente ficar na porta do vagão, nalguma janela, dizendo adeuses pros que ficam, fiz. Que sensação desagradavel. Adeus, gente! – Boa viagem, Mario! – Divirta bastante – Não se esqueça da gente!… Minha impressão é que está tudo errado. Tive ímpeto de botar toda aquela gentarada no vagão, ficar na plataforma eternamente paulistana e berrar contente pros amigos partindo:

– Adeus, gente! Boa viagem! Divirtam bastante!… Boa viagem!

E voltava prá minha rua Lopes Chaves, portava num cinema, coisas assim…

MÁRIO DE ANDRADE