
A Coluna Primeiros Escritos publica resenha de Beatriz Aguiar (IESP-UERJ) sobre Hayek’s Bastards: Race, Gold, and the Capitalism of the Far Right, livro do historiador Quinn Slobodian, lançado em abril deste ano pela editora Zone Books.
Diante do crescimento internacional das políticas de direita, a obra, ainda sem tradução para o português, reconstitui as linhagens dos intelectuais libertários, dos anos 1960 até lideranças contemporâneas, como o argentino Javier Milei e o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Para Aguiar, Slobodian tem o mérito de captar as nuances ideológicas que estruturam esse fenômeno de difícil teorização chamado neoliberalismo. O autor, assim, parte do interior do próprio complexo para demonstrar como o contemporâneo não nasce do acaso.
Aproveitamos para lembrar que a Coluna Primeiros Escritos se volta para a publicação de textos de estudantes de pós-graduação. Para conhecer mais sobre a iniciativa, clique aqui.
Boa leitura!
Resenha de Hayek’s bastards: race, gold, and the capitalism of the far right, de Quin Slobodian
Por Beatriz Aguiar (IESP-UERJ)
O discurso anti-imigração de Donald Trump, embora não configure um novo repertório, radicalizou-se na última campanha presidencial e se tornou uma das principais agendas do presidente norte-americano em início de mandato – ao lado da política econômica protecionista. No dia 4 de junho deste ano, Trump assinou um decreto que proibiu a entrada de estrangeiros de 12 países aos Estados Unidos, entre eles Haiti, Venezuela e Cuba. Não demorou para que o presidente fosse acusado de racismo, xenofobia e islamofobia pelas nações embargadas no documento. Sob a justificativa de segurança nacional, os Estados Unidos, em ato histórico, condenaram as populações de mais de uma dezena de países à clandestinidade e a imagens de violência e criminalidade, todas supostamente de “alto risco aos EUA”.
O presidente, no entanto, não está sozinho em sua rejeição a imigrantes. A ideia de que existem povos mais perigosos e hierarquicamente organizáveis em escalas de criatividade, inteligência e civilidade circula pelos corredores ideológicos da ultradireita há pelo menos 60 anos. De forma sutil ou descaradamente racista, as defesas da ciência racial, da biologia no desenvolvimento do QI de brancos e não-brancos, da segregação e da discriminação contra culturas “menos evoluídas” são temas de intensos debates e até de dissidências entre os direitistas. Publicado em abril deste ano, Hayek’s Bastards: Race, Gold, IQ, and the Capitalism of the Far Right, do historiador Quinn Slobodian, reconstitui as linhagens dos intelectuais libertários desde os anos 1960 até lideranças contemporâneas, como o argentino Javier Milei e o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.
O incômodo com a expansão de direitos civis e movimentos sociais progressistas germinou ideias que buscaram combater as ideologias igualitaristas e a pressão por políticas corretivas no período pós-guerra. Em reação à premissa das esquerdas de que cabe ao Estado democrático combater as desigualdades sociais, surgiram vertentes que passaram a defender as diferenças irreparáveis entre os indivíduos. Em Hayek’s Bastards, Slobodian argumenta que o apelo à natureza foi uma parte central da solução neoliberal ao problema da “premissa da igualdade”. E essa mesma característica distingue figuras como Murray Rothbard, Hans-Hermann Hoppe e Peter Brimelow do guru de Margaret Thatcher, o austríaco Friedrich Hayek; por essa razão, são considerados seus filhos bastardos.
A essa altura, Quinn Slobodian já pode ser considerado um escritor pop. Com 47 anos, o professor de História Internacional da Universidade de Boston coleciona obras de referência sobre neoliberalismo e história das ideias, exemplos são o Crack-Up Capitalism (2023, traduzido à edição brasileira como Capitalismo Destrutivo pela Companhia das Letras) e o Nine Lives of Neoliberalism (2020, escrito em coautoria com Dieter Plehwe e Philip Mirowski). A obra mais citada do autor, porém, é o primeiro livro: Globalists: The End of Empire and the Birth of Neoliberalism (2018), que, além da versão original em inglês, já foi traduzido em nove países, incluindo o Brasil.
A proficuidade do trabalho de Slobodian revela um empenho em captar as nuanças ideológicas que estruturam o fenômeno nebuloso e difícil de teorizar chamado neoliberalismo. Diferentemente de teóricos que, ou atribuem, de forma direta e sem mediações, o ressurgimento da ultradireita ao capitalismo, ou ignoram a dimensão econômica das análises da far right, o historiador nos guia de modo exemplar entre o pensamento político e as transformações institucionais a partir da década de 1970. Via pesquisa documental, Slobodian demonstra, em todo seu repertório, como a organização de think tanks e grupos de pesquisa – aliada à articulação de intelectuais libertários com universidades norte-americanas e a grande mídia – abriu caminho para que ideias reacionárias se propagassem na opinião pública. Sem nunca se limitar a apenas descrever as ideologias observadas, ele recorre a dados financeiros e ações efetivas dessas figuras para entender como ganharam notoriedade e relevância política.
Um estudioso dos movimentos contemporâneos de direita pode facilmente se perder no imbróglio das múltiplas vertentes do pensamento libertário. Alguns dos militantes se denominam paleoconservadores, outros, anarcocapitalistas; mas também há os grupos neonazistas, neoreacionários e da alt-right. Em uma escolha arriscada, mas inovadora, Slobodian denomina as tendências neoliberais dos anos 1990 de “novo fusionismo”. Segundo ele, enquanto o fusionismo original das décadas de 1950 e 1960 mesclava o libertarianismo e o tradicionalismo religioso, a nova linhagem defende políticas neoliberais por meio de “argumentos emprestados da psicologia cognitiva, comportamental e evolutiva e, em alguns casos, da genética, da genômica e da antropologia biológica” (Slobodian, 2025: 10, tradução própria).
Embora distintos, os novos fusionistas aliaram-se a tradicionalistas e nacionalistas para construir reivindicações sobre a “base da biologia e de diferenças imutáveis”. A nova direita surgiu como desdobramento do argumento de Hayek de que o Ocidente cristão seria a única tradição moral aceitável. A diferença é que, para Hayek, as desigualdades entre povos poderiam ser explicadas por meio da cultura. Já o grupo dos novos fusionistas, liderado por Murray Rothbard, explicou as diferenças culturais pela via da biologia e da raça. Nas palavras do libertário, “a biologia permanece como uma rocha diante das fantasias igualitárias” (apud Slobodian, 2025: 42). Aqui reside a novidade: a decadência tinha como origem não o planejamento econômico, mas a quebra das hierarquias de sexo e raça.
Em comparação, Mises associou de modo mais direto desigualdades e traços raciais: “pode-se presumir que as raças diferem em inteligência e força de vontade e que […] as melhores raças se distinguem precisamente por sua aptidão especial para fortalecer a cooperação social” (Mises apud Slobodian, 2025: 48). Por outro lado, no livro Ação Humana, o filósofo recusou a ideia de que raças diferentes seguem racionalidades diferentes. Ainda assim, as reflexões de Mises sobre a compatibilidade da teoria da raça à sua teoria da “cooperação social” pavimentaram o caminho para a defesa da biologia racial pelos novos fusionistas. É interessante notar, nessa reconstituição, a convergência da abertura dos mercados e da globalização nos anos 1990 e da problemática de Rothbard e Hoppe sobre aprendizado social e imitação cultural. O fim da Guerra Fria, ao contrário de ser a vitória da cultura Ocidental cristã, levantou preocupações com a imigração e a reprodução de pessoas pardas e negras nos Estados Unidos.
Slobodian identifica três diferenças entre as teorias do libertarianismo branco e as daquelas de Mises e Hayek. A primeira, já explorada acima, é a centralidade da biologia. Aqui o autor questiona a força do individualismo para as ideologias neoliberais ao apresentar os trabalhos de Rothbard, Hoppe e autores mais explicitamente racistas como Richard Lynn e Philippe Rushton, que publicaram insistentes pseudo-estudos sobre tamanhos do crânio, raça e influência do clima à inteligência em revistas científicas americanas. A principal preocupação desses autores foi “investigar e propor as condições sob as quais o individualismo pode existir e ser protegido”. Em outras palavras, que tipo de nação é preciso construir, por isso a atenção a leis e regras, mas também à cultura e à hereditariedade. Nas palavras de Rothbard, nos anos 1990:
Embora apenas os indivíduos existam, eles não existem como átomos isolados e hermeticamente fechados. Embora o Estado seja um conceito coletivista pernicioso e coercitivo, a “nação” pode ser e geralmente é voluntária. A nação não se refere propriamente ao Estado, mas a toda a rede de cultura, valores, tradições, religião e idioma em que os indivíduos de uma sociedade são criados (apud Slobodian, 2025: 62).
Dessa definição deriva a segunda anomalia: a exigência do direito de discriminação. Exemplar do incômodo dos libertários com a diversidade e a premissa de igualdade é a publicação de Hans-Hermann Hoppe, Democracia: o Deus que Falhou (2017). Segundo o alemão, “a entrada livre e igualitária no governo democrático é algo totalmente diferente e incompatível com a noção liberal clássica de um direito universal […]” (Hoppe, 2017: 115). Por isso, o retorno à discriminação e à exclusão seria a solução para os problemas da democracia liberal. Com isso, os povos poderiam se organizar entre iguais, homogêneos, apenas assim a paz e a prosperidade seriam alcançadas.
Do mesmo modo, Peter Brimelow, autor de Alien Nation (1995) – livro sobre o “desastre da imigração na América” –, teorizou sobre um “libertarianismo de fronteiras fechadas”, no qual o livre mercado existiria em uma estrutura social com coerência étnica e cultural. A xenofobia, então, era não apenas desejável, mas necessária para garantir a coesão social e o desenvolvimento da economia, num sistema denominado por Brimelow de “metamercado” (Slobodian, 2025: 85). Às ideias racistas e xenofóbicas do libertarianismo branco, juntaram-se os autores do The Bell Curve: Intelligence and Class Structure in American Life (1994), Charles Murray e Richard Herrnstein. Quinn Slobodian explora, em seu livro, como esse trabalho foi importante para a popularização do QI como medidor de inteligência e comparações cognitivas entre diferentes etnias. Murray e Herrnstein teorizaram sobre as “neurocastas”, supostas fragmentações territoriais entre populações com capacidade cerebral semelhante.
Em terceiro lugar, mas não menos importante, a estratégia política de Rothbard “virou o neoliberalismo hayekiano de cabeça para baixo” ao apelar diretamente para as “massas” rednecks (termo pejorativo análogo a “caipiras”) dos Estados Unidos (Slobodian, 2025: 57-58). De modo astuto, Rothbard notou que a premissa de que as classes trabalhadoras tenderiam naturalmente ao socialismo e à redistribuição não era totalmente verdadeira. Por esse motivo, ao contrário de usar as elites para persuadir as “massas”, Rothbard decidiu fazer o oposto: “usar as massas para tirar o poder das elites” (Slobodian, 2025: 58). A isso, deu-se o nome de “populismo de direita”.
Cultura difícil, dinheiro difícil e fronteiras difíceis. Essas são as três grandes dificuldades identificadas por Slobodian nas ideias libertárias dos anos 1990. À crise econômica, a solução dos bastardos de Mises e Hayek foi retomar o acúmulo de ouro, e à crise cultural, o apelo ao cristianismo branco. A etnoeconomia de Rothbard, Hoppe e Brimelow pouquíssimo tem de liberal. Na realidade, são utopias conservadoras que apostam na discriminação, na vigilância e na manutenção de uma ordem coesa – nada espontânea, como cunhou Hayek. Javier Milei, presidente da Argentina, é um dos políticos apontados pelo historiador como o discípulo dessas dificuldades, assim como Bolsonaro no Brasil e Bukele em El Salvador.
Em meio à crise mundial, a prole bastarda de Mises e Hayek pregou uma fuga da democracia para a segurança: para o ouro, para a família, para o cristianismo, um apelo para que se despojasse do dinheiro do Estado e se voltasse para o metal que pesa na mão, o material para uma moeda de cunhagem própria, para a troca em um mundo despojado dos laços coletivos de obrigação e cuidado, mas ainda coberto pelas teias de troca: o chamado para uma fuga para a liberdade do cofre em rede (Slobodian, 2025: 163).
Só conseguimos apreender a verdadeira importância de Hayek’s Bastards quando compreendemos que as grandes figuras políticas da ultradireita atual emergiram após décadas de investimento financeiro e intelectual por parte de reacionários empenhados em influenciar o debate público e moldar a opinião dos eleitores. Antes de reduzir a ascensão avassaladora da extrema-direita no senso comum a um fenômeno de ocasião, é imprescindível atentar para os resultados de pesquisas como as de Quinn Slobodian, Melinda Cooper e outros. A autoconsciência do projeto político das utopias de direita não deve jamais ser subestimada. Ainda nos anos 1990, Rothbard e sua trupe na Mont Pèlerin Society já discutiam os rótulos e ideias que defenderiam. Hoje, observamos na arena política que muitos desses autores colheram, ainda em vida, os frutos das sementes lançadas em revistas, sites, livros e congressos.
Referências
HOPPE, H-H. (2017). Democracy: the God that Failed. The Economics and Politics of Monarchy, Democracy, and Natural Order. New York: Routledge.
SLOBODIAN, Quinn. (2025). Hayek’s Bastards: Race, Gold, IQ, and the Capitalism of the Far Right. New York: Zone Books.
