
Há um destino reservado para a história humana? Nesta nova edição da coluna de Renato Ortiz (Unicamp), o autor revisita as disputas em torno da ideia de “fim da História” e propõe uma reflexão sobre as formas como o Ocidente, desde o Iluminismo, buscou construir sentidos totalizantes para seu próprio percurso. E assim, diante do colapso das certezas liberais, da ascensão de novos polos de poder e das ameaças ecológicas globais, Ortiz sugere como passado, presente e futuro se enredam hoje em novas – e incertas – perplexidades.
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O Fim da História
Por Renato Ortiz (Unicamp)
A ideia do fim da História se move entre um H maiúsculo e outro minúsculo, mas não se deve confundi-los. A ilusão ocidental, insuspeita de si mesmo, considera o fim uma concepção filosófica da história universal que emerge no final do século XVIII. O conceito é teleológico, isto é, pressupõe a existência de uma orientação (telos), de um objetivo; a História a que se refere tem uma duração milenar, abarca o início dos tempos, quando os seres humanos se separam da natureza, e por fim, como indivíduos racionais, encontram a liberdade plena. Entre o passado e o presente (isso inclui o futuro) o progresso seria necessário e inelutável. Como se dizia, esse é o “sentido da história”. O h minúsculo diz respeito aos acontecimentos empíricos: guerras, disputas palacianas, descobertas marítimas, invasões, migrações, etc. Cada um desses fatos encerra também um sentido, cabe aos historiadores decifrá-lo; no entanto, são eventos secundários para a realização da marcha da humanidade, do H maiúsculo. O termo sentido, utilizado duas vezes, possui, portanto, significados diferentes. O historiador se dedica a entender a articulação dos fatos entre si, o filósofo tem a ambição de ordenar sua diversidade segundo a vontade da “natureza”, da “Razão” ou da “luta de classes” (Kant, Hegel, Marx). Isso não significa que os acontecimentos empíricos sejam inteiramente irrelevantes, mas a filosofia que os interpela é seletiva, desconsidera o conjuntural em detrimento do essencial, o que impulsionaria o movimento geral na direção da telos. Por exemplo, a Reforma ou a Revolução Francesa. Há ainda uma diferença entre o fim da História e a noção de utopia. A utopia fala do presente, apenas dele, não se interessa pelo pretérito, quer romper com as contradições do atual, projetando-as no devir à nossa frente. O ideal utópico não é teleológico, não tem o intuito de ordenar o passado numa progressão que se alinha do mais simples ao mais complexo, ele se insere na brecha entre o imaginário e o concreto, importa “o aqui e o agora”, na verdade, sua superação. A utopia é uma falha geológica na sequência temporal dos acontecimentos.
O fim da História dificilmente disfarça seu mal de origem, o eurocentrismo. Hegel dizia que o Espírito (maiúscula, novamente) caminhava do leste para o oeste, na esfera ocidental realizaria sua integralidade. Antes disso haveria a pré-história, ela englobaria da China imperial aos indígenas das ilhas de Trobriand. A repetição, isto é, o eterno retorno sobre si mesmo, nos mitos ou no tradicionalismo asiático, restringiria o movimento da liberdade a limites estreitos. A imobilidade é sua essência. Depois, preferencialmente com a polis grega, viria o momento, ainda imperfeito, dos primeiros passos da verdadeira história. A razão é uma qualidade de todo ser humano, entretanto, ela se conjugaria enquanto Razão apenas com o advento do esplendor ocidental. Mas o fim da História se encontraria no futuro ou poderíamos imagina-lo ao alcance das mãos? Os especialistas dizem que os pensadores da modernidade o consideravam de maneira prospectiva – um dia estaríamos lá (por exemplo, a sociedade comunista em Marx). No entanto, ao longo do século XX surge uma interpretação que olha o passado a partir do ponto no qual o destino tinha lhe reservado. A plenitude da civilização teria encontrado seu “déjà-là” (Kojève). Ou como afirma Fukuyama, o “último homem” – parte do título de seu livro (The End of the History and the Last Man) – torna-se realidade. Desde então a categoria espaço se impõe, o mundo estaria dividido entre zonas “pós-históricas”, com estados liberais, democráticos e capitalistas, e “históricas”, imersas nas malhas da temporalidade inacabada.
O fim da União Soviética e a queda do muro de Berlim foram pensados como um marco dos tempos, o término da História universal neles estaria condensado. A globalização econômica e o triunfo do liberalismo seriam a evidência da crônica de um término anunciado (o livro de Fukuyama, publicado em 1992, expressa esse momento de euforia e cecidade). Porém, o caminhar da pequena história trouxe um gosto amargo de incompletude, em poucos anos a Razão e a liberdade conheceram um ocaso inesperado. O império celestial despertou de sua sonolência milenar e o “resto do mundo” não mais se conforma à imagem refletida no espelho ocidental. A isso os geopolíticos denominam de mundo multipolar. O retorno do fascismo, com sua intolerância e violência, projeta um manto sombrio sobre a idealização do liberalismo, e um espectro ronda o espírito da época: morte das democracias, derrota do Ocidente, Ocidente sem rumo, etc. A revanche do h minúsculo sobre o maiúsculo incorpora ainda ameaças e dilemas recentes: as “mudanças climáticas” implicam em se reconhecer os limites da relação homem e natureza. Ela não mais se reduz à dominação do ambiente pelos seres humanos – interpretação cultivada pelos iluministas; o progresso esbarra na finitude dos recursos naturais. Até mesmo os paleontólogos trazem uma visão incômoda do passado distante, durante milênios (300.000 a 50.000 a.C) havia no planeta uma variedade de tipos de hominídeos (homo neanthertalensis, homo denisova, homo sapiens, etc.), mas com exceção de nossos antepassados, todos desapareceram. O sapiens é uma espécie predadora que se expande para todo o globo terrestre e impõe à natureza uma perda irreversível de biodiversidade. Passado e futuro se juntam assim às incertezas do presente e o brilho de uma ideia fosca traduz o vestígio de sua própria miragem.
