
Helena Bomeny, professora titular de Sociologia da UERJ e referência na área de pesquisa do pensamento social e das ciências sociais brasileiras, é homenageada no texto de Mauricio Tenorio (Universidade de Chicago) que publicamos hoje.
Ao rememorar a amizade iniciada em Stanford e o papel decisivo de Helena em sua formação intelectual, Tenorio engata uma conversa com ela para desenvolver uma reflexão provocadora sobre “nós, acadêmicos”, discutindo os desafios contemporâneos das humanidades, da universidade, do ensino e da docência.
Como não poderia deixar de ser, num texto de Tenorio sobre Helena, a homenagem ganha um sentido concreto, na particularidade do elogio à amizade, reverberando questões mais gerais da condição intelectual e humana. Merece ser conhecido e, diríamos mesmo, meditado, especialmente em tempos de crise de sentidos e dificuldades nas relações acadêmicas.
O texto foi publicado inicialmente em 2024, em espanhol, na coletânea Ciências Sociais na UERJ: temas, trajetórias e perspectivas, organizada por Aline Gama, Bernardo Ferreira, Joana Bahia e Raquel Emerique.
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Helenismos: nós, acadêmicos
Por Mauricio Tenorio (Universidade de Chicago)
Anos atrás, em uma de minhas visitas ao Rio, a professora Helena Maria Bomeny me mostrou alguns mementos do início de nossa, já então, longa, profunda e inestimável fraternidade. Chorei muito… pela saudade de nossas respectivas juventudes; também por testemunhar tão vividamente uma forma raríssima da felicidade humana, aquela que um dia nos é revelada como um milagre cotidiano: como aconteceu? Como tive tanta sorte? Se Helena Maria não estivesse lá, o que teria acontecido? Hoje, confirmar que ela esteve lá, que eu estou aqui, homenageando-a depois de tantos anos, ultrapassa minha capacidade de parcimônia. E eu não tenho mais idade para fazer o papel de bobo sentimental.
Nos conhecemos em Stanford. Eu tinha vários medos; ela tinha vivido, ela sabia viver. Ela logo corrigiu e editorou o primeiro artigo acadêmico que publiquei na minha carreira (na revista Estudos Históricos, do CPDOC), e graças a ela Stephen Greenblatt publicou meu primeiro livro na University of California Press. Ela sempre esteve presente em todas as etapas da minha jornada acadêmica. Foi graças a ela que este mexicano, formado como sociólogo no marxismo althusseriano das universidades públicas mexicanas, dialogou com Richard Morse, Hayden White, Steven Greenblatt, Wanderley Guilherme dos Santos, Lucia Lippi, José Murilo de Carvalho, Maria Alice Rezende de Carvalho, Marcelo Jasmin, Peter Fry, Valter Sinder, Lilia Schwarcz… e tantos mais. Graças a ela li literatura e pensamento social brasileiro do século XX, de Carlos Drummond e Mário de Andrade a Pedro Nava e Sérgio Buarque de Holanda; de Manuel Bandeira e Ledo Ivo a Paulo Henriques Britto; de Darcy Ribeiro a Wanderley Guilherme. E não é tudo: Helena Maria tem sido o sol de uma constelação de planetas velhos e jovens. Muitos de nós temos vivido do seu calor intelectual e humano. Em qualquer livro meu, seu nome será encontrado, não por gratidão, mas por justiça. Minha dívida é muito grande, e é difícil para mim manter o profissionalismo que uma coletânea de homenagem exige. Mas é assim: para mim, ela foi mais do que Stanford, do que Austin, do que Chicago na construção de mim mesmo, na minha desmexicanização, no meu ser, finalmente e completamente, humano. Certamente Helena Maria fez coisas muito melhores; não a culpe por esta consequência involuntária da sua inteligência e da sua bondade (eu).
Não me é possível, com autoridade, avançar muito o vasto e variado trabalho da professora Bomeny. Quero homenageá-la de outra forma: não vou fazer eco às palavras de Helena, vou exercitar o “helenismo” instalado em mim. Ou seja, nos últimos anos, depois de décadas na academia estadunidense, tenho debatido comigo mesmo, ou seja, com Helena Maria Bomeny, e assim, voltando às nossas antigas conversas, tenho escrito uma série de reflexões sobre “Nós, acadêmicos”. É claro que minhas reflexões também se inspiram nas de Nietzsche em 1875 (Wir Philologen), após ser rejeitado como candidato a uma posição acadêmica alemã. Permitam-me homenagear a professora Bomeny com estas indiscrições, como se estivesse falando com ela e com a nossa história. Com isso, claro, abuso dela para liberar a minha angústia; mas quando não foi esse o caso? Quando, com generosidade, Helena Maria não me ajudou a aliviar as minhas dúvidas, as minhas ansiedades? Tenho uma dupla esperança, porém, de que ela me perdoe pelo abuso, e de que o que se segue seja compreensível beyond a minha dívida e beyond a coevolução intelectual entre mim e Helena Maria.
***
“Os filólogos são pessoas”, escreveu Nietzsche em 1875, mas poderia ter dito “as/os acadêmicos são pessoas” “que, para ganhar o pão, exploram essa insatisfação vagamente sentida do homem moderno e seu desejo de algo melhor.”// “Eu os conheço – eu mesmo sou um deles –” (Wir Philologen, 1875). À luz dessa suspeita, desse pecado pessoal, retomo algumas conversas – velhas e novas – com a professora Bomeny, e reflito em voz alta sobre o estado do nosso ofício: as humanidades e as ciências sociais.
I.
Professora Bomeny, você se lembra de quando, imersos em Marx, descobrimos Weber e Bendix? Acredito que naquele momento não nos detivemos no fato de você ser libanesa, brasileira, indígena, mulher – nem de eu ser homem, assexuado, tímido, mexicano, purépecha, mestiço. Mas, professora, hoje, nas ciências sociais e nas humanidades, essas ontologias voltaram, e tudo o que não parte delas corre o risco de, para muitos, ser nada – ou, para alguns, ser tomado como insulto. Aquilo que a você e a mim nos ocupava e preocupava vai se misturando na mesma pilha de documentos onde certamente também se perderam as ideias de Marx ou Weber. Nada mais justo que reivindicar identidades; as nossas, por exemplo, contaram, e muito, mas não pelo que éramos, genética e culturalmente, e sim pelo que nos tornamos ao nos nutrirmos mutuamente, para além da definição padrão de cada um. Não sou o mesmo antes e depois da professora Bomeny: sou menos e mais o “eu” programado pelos meus genes e pela minha cultura, porque foi você quem ampliou os referenciais culturais, linguísticos, geográficos e humanos da minha identidade. Porque as identidades que podem ser abraçadas não são apenas as do “ser para ser”, mas também as do “deixar de ser”. Ainda assim, nas prestigiosas universidades estadunidenses, de uns tempos para cá, nada tem mais peso nas humanidades e nas ciências sociais do que noções fixas de “identidade”, “identidades” ou o sonoro “interseccionalidade”. Hoje, discutir identidade implica que o emaranhado de identidades de qualquer pessoa, por necessidade, acaba sendo lido como discriminação ou privilégio, sem espaço para matizes, reinvenções, nem para aquela promiscuidade inesgotável. Como Rubén Darío dizia sobre a “juventude, divino tesouro”, digo eu: “Identidade, divino tesouro: quando quero tê-la, não posso; e às vezes me identifico sem querer.” Pode soar como provocação recorrente, mas o dano é lento e grave. A doença identitária demora a incubar e as erupções derivadas da competição entre vítimas constituem apenas seus sintomas precoces. A doença deixa sequelas: quantas gerações vão crescer convencidas que a identidade de tribo – qualquer uma – é sinônimo automático de paz, justiça, integridade, autenticidade, lucidez e bondade, e não aquilo que toda identidade também carrega – a saber, um boletim de guerra, uma derrota que condensa a raiva do vencido, a resignação de continuar na luta e a infâmia da vitória imerecida?
II.
Professora Bomeny, quando eu lutava para escrever em inglês, você me previu um futuro de sucesso na academia estadunidense. Olhe para mim agora: sigo obstinado em não te decepcionar, mas vivo também as contraindicações da profecia. Uma coisa era quando eu, como você na UERJ, lecionava em Austin, uma imensa universidade pública. Lá, apreciei as promessas e os grandes problemas que as universidades públicas enfrentam e que devem ser defendidos a todo custo. Mas nas prestigiosas universidades privadas americanas reina tanto o absurdo identitário, tanto o falso moralismo, que dá vontade de desistir. E quando percebo isso, penso e me dou conta da longa história dessas moralidades, e percebo que é a história que explica por que hoje alguém como eu pode ser professor em uma universidade como a de Chicago. Não fui só eu, foram as circunstâncias, as longas lutas. Esclarecer essa história não diminui a estupidez do que estou vivendo, mas eu entendo, agradeço e, em silêncio, aceito. “Todo guarda en sí mismo/ la memoria de un futuro vivido/ antes de Tiempo.// Toda está siempre a punto/ De no valer la pena” (Bernardo Valdés, Sedienta calma, 2015).
III.
Professora Bomeny, você sempre foi, antes de tudo, professora. Em você eu descobri aquela que era a minha vocação mais verdadeira – a docência. Acadêmicos: nosso único valor de uso (Gebrauchswert) é ensinar – ainda que não no sentido antigo do quadrívio, que nem nós, professores, dominamos por completo. Nosso dever é ensinar no sentido de abrir algumas portas, de expor, de dar a conhecer, de intuir, de desfrutar, de perturbar. Se com isso salvamos o mundo – é legítimo pretender isso em nossos mundinhos –, isso é incomportável, improvável e, portanto, irrelevante. Mas ensinar é necessário, vital. As métricas da produtividade acadêmica acabam ocultando essa verdade, que, de todo modo, frequentemente preferimos não encarar. Não esquecemos que, por trás de cada um de nós, acadêmicos, sempre existiu um teacher modesto, quase sempre do ensino médio, que fez exatamente isso conosco: abriu portas. É verdade que esse professor não teve nem tem fama em nossos círculos. Não ocuparia grandes cátedras na USP ou em Harvard, mas ele sim mudou o mundo – o mundo de cada um de nós. Nos Estados Unidos, para um professor de nome em uma instituição famosa, não conta a tropa miúda (os estudantes de graduação). Importam apenas os que aspiram a ser como nós – isto é, os doutorandos –, a quem nos dedicamos com a obstinação do gorila macho-alfa decidido a reproduzir seus genes no bando. Mas ensinar mesmo, o que significa realmente ensinar, isso é um milagre, uma loucura. E sempre há milagres. A academia oferece o cenário, mas não acrescenta nem tira nada para que o milagre aconteça.
IV.
Professora Bomeny, você se lembra de Wanderley Guilherme dos Santos? Você não apenas me colocou a fumar charutos com ele, como também me fez lê-lo, me introduzindo, assim, a uma forma de ser “intelectual público” que eu tentei, sem sucesso, seguir. Não fiz isso por virtude, mas por medo do veredito de Wanderley: “Lembrar sem ser lembrado. É isto a solidão” (Acervo de Maldizer, 2008). Evoco agora, professora Bomeny, a Stanford que, já velho, Wanderley recordava – ele ali aprendendo, sem deixar de zombar, a teoria dos jogos ou as teorias pluralistas dos grupos de interesse (que para ele soavam como um catecismo protestante), mas ainda ali jovem, fascinado como nunca por partilhar tempo e espaço com a “Biblioteca Green”, cercado por luminárias de todo o mundo reunidas em Stanford. Quando eu escutava as lembranças dele, acreditava intuir um certo “tudo isso já acabou”. Coisas de velho, claro – mas eu diria que, até hoje, a “great American research university” – em sua maioria privada, mas também pública, e sempre lastreada por volumosos subsídios públicos à pesquisa – segue sendo o centro de produção e reprodução não apenas de acadêmicos, mas também de intelectuais públicos. Contra o que imaginavam Daniel Bell, na década de 1950, ou Russell Jacoby, na de 1980, os “intelectuais públicos” existem e se reproduzem – mas não nascem da rua: nascem das universidades. De toda forma, como em qualquer lugar, fama, prêmios e reconhecimentos dependem da política acadêmica. Hoje, para cada prêmio Nobel “Chicago boy” do departamento de economia, há também uma “Chicago girl ou boy” em antropologia ou história que está na vanguarda da teoria crítica e da militância, de todas elas, a que for o caso. E para cada humanista sem sentido pós-isso e pós-aquilo, que aliás saem muito baratos, há nessas universidades mais de uma cientista ou humanista, americana ou não, explorando as verdadeiras fronteiras do conhecimento. Essas universidades, de fato, estão cheias de problemas e elitismo, especialmente porque têm funcionado como clubes privados de socialização de elites culturais, políticas e econômicas. Esse é o seu grande pecado, juntamente com este outro: constituíram um privilégio e um luxo imerecidos. Esse privilégio é o maior prêmio a que um acadêmico pode aspirar.
Talvez seja necessários tantos privilégios para manter a inteligência do mundo unida. Não posso dizer que seja um desperdício de recursos porque não conheço alternativas. Talvez seja. O que sei é que estamos vivendo seus últimos dias. Talvez, a longo prazo, duas ou três sobrevivam, mas, aos poucos, o modelo da velha “grande universidade americana de pesquisa” está entrando em decadência. Cada vez mais, elas são obrigadas pelos governos federais ou estaduais, ou por suas próprias regras de mercado, a seguir o modelo que mistura escolas práticas e a “Trump University”. Não é bom nem ruim, mas será o fim do que era essa nova versão dos mosteiros obscurantistas, onde se debatiam as ideias e os conhecimentos mais obscuros e especializados. Cada vez mais são “clubes privados” com bom atendimento ao cliente. Nada para comemorar; nada para lamentar. Tive a sorte de vivê-las, ser parte delas e por elas. Se pudesse, eu as defenderia, mas compreenderei e aceitarei seu fim.
V.
Professora Bomeny, o que você faz hoje quando um(a) estudante diz: “quero fazer doutorado, ser pesquisadora, ser acadêmica”? Acho que este deveria ser o diálogo entre qualquer estudante e um(a) professor(a) responsável:
— Quero fazer doutorado em ________ (ciência política, literatura, história, antropologia, filosofia, filosofia).
— Para quê, menina? O que fizeram com você? Você não está falando sério; as coisas não podem estar tão ruins assim.
— Por que não? Gosto de ________; quero ser acadêmica.
— Calma, não é para tanto. Se você quer ser acadêmica para ser o que até agora nós, acadêmicos, temos sido, esqueça, isso não vai mais existir.
— Não vai existir academia?
— Vai existir, sim, mas a pergunta já não pode ser sobre o fim do projeto (ser acadêmica), e sim sobre o caminho. Você quer o caminho?
— Não estou entendendo.
— Se você não quer, se só está disposta a atravessar o deserto, o vale das lágrimas, para alcançar a vida que nós, acadêmicos, temos, pense duas vezes. Se, por outro lado, o que você ama é o deserto, o vale das lágrimas, primeiro, você precisa conversar com seu terapeuta e, segundo, seja bem-vinda. Então, sim, lance-se para ser acadêmica. Se amanhã você acabar como professora na UFRJ, na Complutense ou em Harvard, isso já se verá. Ou seja, da forma como as coisas estão, não são desprezíveis seis ou sete anos sofrendo com uma bolsa básica de uma universidade estadunidense que lhe oferece tempo para ler coisas muito interessantes e bobagens, tempo para escrever relatórios estúpidos e trabalhos que realmente lhe interessam. Se for isso e, muito importante, se você não tiver nada melhor para fazer, então vá em frente. Você servirá à academia que sobreviver; ou não. Mas não haverá frustração, você terá feito o que queria e ninguém tirará de você o que você conquistou.
— Mas e se eu for genial? A melhor?
— Fantástico, você terá mais chances, e se você souber fazer política, melhor ainda. Qualidade e política vão colocá-lo entre os cem finalistas para qualquer cargo, mas só haverá seis ou sete vagas. E mesmo ganhando, é possível que você nunca mais reencontre aquelas horas doces e terríveis de biblioteca, escrita e perdição que você teve no caminho para o doutorado.
— Então, afinal, o que eu faço?
— Eu te repito: você tem algo melhor para fazer da vida? Dinheiro? Família? Fama? Política? Para todas essas coisas há caminhos melhores.
— Que elitismo…
— Sim. Acadêmicos sempre foram elitistas, mas nunca uma aristocracia intelectual.
VI.
Você se lembra, professora Bomeny, de um dos nossos dias de compras em Barcelona, um collete, e outro dia em que desistimos: não conseguíamos entender um Heidegger brasileiro, que é melhor não citar, e sobre o qual nossa Lucia Lippi nos dizia: “teremos que esperar que seja traduzido para o alemão para que possamos entender”. Hoje concluo que os parâmetros de ação de um acadêmico honesto oscilam entre um papagaio e Massimo Dutti. Os acadêmicos, se tudo correr bem, após muito trabalho, anos de pesquisa, leitura e escrita, daremos à luz uma ou duas ideias; ideias que, se formos honestos, perceberemos que são um matiz, um collete na moda colocado sobre o que muitos já disseram antes. Ou não percebemos e, então, sem saber, agimos como papagaios de ideias mais ou menos perdidas pela má memória que carrega nossa profissão.
VII.
Lembro-me do conselho, professora Bomeny, que você deu a um querido e lúcido colega, cujos artigos costumavam ser ilegíveis. Você dizia a ele, mas como se estivesse dizendo a mim: “Don Mauro, sujeito, verbo e complemento direto, direto, nada mais”. É que, independentemente da disciplina, qualquer acadêmico tem como matéria-prima a linguagem. Por mais especializados, enfadonhos, irrelevantes ou reveladores que sejam, os trabalhos acadêmicos não passam de palavras. Daí seu grande valor e sua fraude.
Os matemáticos e físicos quase nem notam as palavras que os unem à vasta tribo. Trabalham com um vocabulário reduzido – quase sempre em inglês – e aplicam o brilho a outra retórica: a matemática, acessível apenas aos iniciados. Não parecem ter problema algum com as palavras, porque gozam de uma clareza já pactuada. Agora, por meio de uma linguagem aparentemente “científica”, economistas e cientistas políticos conseguiram fazer com que sua disputa com as palavras parecesse inexistente. Eles fazem crer que o importante são suas metodologias, suas descobertas, suas conclusões. Assumem que a verdade é sem linguagem, e então um computador a coloca em palavras. A IA já funciona como um aplicativo programado com o vocabulário acordado por economistas e cientistas políticos. Os dados, a bibliografia, as variáveis e as teses principais são introduzidos, e o próprio aplicativo escreve o artigo (em inglês, é claro). A ilusão é vasta: escrita e artigo, embora ninguém escreva, muito menos em papel. Não haverá nos artigos de economistas ou cientistas políticos do futuro (escritos com IA) nenhuma decisão retórica, apenas clareza cristalina. Mas a espécie humana não conhece assunto mais complicado do que a clareza e a exatidão retóricas; a IA alcançará mais clareza, mas sem entender nada. Os dedicados às ciências sociais há muito tempo têm como modelo a prosa “neutra” dos biólogos, mas não conseguem alcançá-la. Costumam inventar jargões da moda como substitutos da clareza, como se fosse possível extrair das palavras uma matemática intrínseca e implacável. Claro, as palavras não se prestam a isso. De qualquer forma, sua retórica, se importante, é geralmente exercida em inglês, graças aos recursos dessa língua e para o brilho ou desgaste dela mesma.
Em contrapartida, os humanistas com trabalhos ocultam que continuam sendo ourives da língua e pouco mais. Mas as palavras são muito traiçoeiras. Não se deixam. Ter uma ideia – filosófica, histórica ou literária – e expressá-la é quase a mesma coisa. Ocorre uma espécie de efeito óptico: primeiro se tem a ideia e depois é preciso procurar como expressá-la, com a clara convicção de que a ideia se desvaloriza se for expressa em uma linguagem mais ou menos comum. Daí a tentação de criar guerras entre as palavras, para que fique claro que se teve uma ideia, e se ela não for compreendida, o problema é do leitor, não da ideia, nem de quem a teve, se é que a teve. Assim, proliferam linguagens “humanistas” privadas, compreensíveis dentro dos diversos guetos e modismos. Nada de estranho, sempre foi assim em mosteiros, academias e universidades. O problema é que o humanismo ainda acredita que fala à tribo, que cumpre, além da academia, um papel social – justiceiro, pedagógico, moral, cívico, poético. Mas hoje é mais comum que um economista ou um biólogo se faça entender pelo comum dos mortais do que um humanista. Além disso, nas humanidades também se impõe o inglês ou, melhor dizendo, imperam versões acadêmico-humanísticas de vários ingleses. Normal, antes era o latim bom ou mau, mas com modelos clássicos precisos – hoje os humanistas apenas aspiram imitar o inglês do último artigo da moda.
Os acadêmicos são das línguas, mas as palavras, com todos os seus segredos, são alérgicas às academias. Estão nas ruas, na invenção não acadêmica do dizível e do indizível. Ao falar, a máxima do humanista deveria ser a de Joaquim Nabuco: “Somos uma gota de água no oceano. Tenhamos consciência de que somos uma gota de água, mas também de que somos o oceano”.
VIII.
Paulo Garchet, professor de línguas, tradutor, o querido parceiro de quem sentimos saudades, professora Bomeny, reclamava da nossa confusão nas prosas acadêmicas que lhe pedíamos para traduzir. Ele não sabia, professora Bomeny, que o que buscávamos não era ganhar com os trabalhos, mas com ele mesmo: a companhia. Nós, acadêmicos, escrevemos de forma tão confusa por medo da solidão. Assim nos sentimos acompanhados, mesmo que por poucos. A ironia não poupa crueldade: por não estarmos sozinhos, estamos mais sozinhos do que um anacoreta. O que produzimos é a ilusão de companhia; fazemos, à maneira da máfia, o que outros faziam na forma de, dizia Fray Luis de León, “os poucos sábios que existiram no mundo”. Mas o que é verdadeiramente irônico, e mais cruel, é que, quando conseguimos boa companhia, geralmente é com mortos ou não nascidos. Porque, se boas, nossas palavras dialogam, ecoam a voz dos mortos, da mesma forma que, se tudo correr bem, nossa solidão prolixa encontrará finalmente seu ouvido em outro solitário que ainda não nasceu. No entanto, o comum é escrevermos para ninguém ou para uma máfia efêmera como uma gangue de viciados em heroína que morrem cedo e sozinhos, mas com a lembrança da fugaz e final comunhão.
IX.
Sendo você o sol de uma imensa constelação transnacional, sempre me perguntei por que você, professora Bomeny, não se tornou a voz principal em jornais, suplementos, estações de rádio e televisão. Os debatedores mexicanos ou brasileiros consagrados pelos grandes consórcios de mídia audiovisual – ou pelo star system mais ou menos oficioso – falam sobre qualquer tema, sabem de tudo, amparados por uma aura mística: estiveram, estão ou orbitam a academia. Isto é, pesquisam, leem, sabem. Fazem crer que sua presença na cena pública é apenas uma pausa ocasional em seu suposto confinamento entre livros, salas de aula, dados e ideias. Sua vida pública é vendida como o fruto maduro de sua privacidade intelectual. Sua verdade está em transmitir, mas de forma enganosa. “A verdade não é apenas o conteúdo, mas a própria transmissão”, escreveu em 1946 Günther Anders, já cansado da prosa de Adorno. Para ele, a ideia de uma filosofia – e de uma academia – pública “pressupõe a existência e a legitimação da filosofia universitária (como ‘verdadeira filosofia’). Por meio de seu esoterismo, a filosofia universitária seria culpada pelo surgimento e pela qualidade da filosofia popular: indiretamente, mas culpada. O conceito de leigo existe apenas, e exclusivamente, onde existe o conceito de clero ou círculo interno; e somente onde há uma filosofia esotérica como a nossa, manifesta-se também a filosofia popular.” A questão hoje é mais complicada: nós, do clero acadêmico atual, assumimos que os leigos não percebem nossa estupidez, mas nossa estupidez é a mesma deles.
Hoje, nas redes sociais, podcasts, blogs… ser uma voz pública é tão possível, barato e fácil quanto ser ou parecer intelectual sem qualquer aura acadêmica. Qualquer um assume uma vida pública absoluta, e a vida privada torna-se suspeita. A ideia ou o pensamento são postados na rede tal como vêm, da mesma forma que se posta no Facebook o bolo do café da manhã. Nos vídeos, discursa-se do sofá de casa e de mangas de camisa, porque a privacidade é um anátema para o “influenciador” ou para os executivos do Google e do Facebook. Reina, claro, a insensatez e o insulto grosseiro, mas também uma moderação natural: os “chavos” e “chavas” dos podcasts, youtubes e blogs costumam se agrupar por preocupações. Ou seja, discutem sobre algo, não sobre tudo, e se gabam de lucidez e ativismo, não de credenciais acadêmicas ou de reclusões íntimas no estúdio. Para a nova geração de jovens intelectuais públicos americanos, a universidade foi ou é uma perda de tempo, seus professores eram antiquados, pouco comprometidos, porta-vozes do sistema que os jovens aspiram derrubar sem concessões. No campus, dizem eles, não se aprende nada importante. Exceto encarnar o “campus” como uma segunda natureza. A academia lhes causa repulsa, por ser heteropatriarcal, racista e elitista, mas os novos intelectuais públicos são puros, nunca saem de seus limites, eles os expandem. Sem querer, assumem que o mundo é um campus, seu tom de voz é de campus, tanto quanto sua hipersensibilidade e radicalidade. Ou seja, nós, acadêmicos, ganhamos mais importância por nosso pecado de ensinar a irrelevância moral do que por nosso modesto confinamento coletivo entre livros, salas de aula e ideias.
X.
Professora Bomeny, evoque você nossas aventuras em conferências em Santa Cruz, em Stanford, ou naquela que foi a minha primeira grande conferência – em homenagem a Richard Morse, em Washington DC – para a qual fui convidado por sua causa. Acredito que você, assim como eu, se lembra de personagens, de alguma que outra palestra, mas você se lembra dos que fizeram perguntas? Após tantos anos participando de conferências e palestras de humanistas e cientistas sociais, concluo: ou ninguém tem uma pergunta ou ninguém sabe perguntar. Para nós, perguntar é um “saia da frente, que é a minha vez de falar”. Como até agora não ouvi ninguém fazer uma pergunta, não sei dizer se sabemos responder. Talvez sim, mas suspeito que apenas aquele que fosse capaz de fazer uma pergunta poderia alcançar a clareza de responder. Se existe esse chato, por que perguntar? Estamos melhor assim: cada um lança seus galos para lutar e depois publicamos as intermináveis atas do aquelarre.
XI.
Professora Bomeny, concluímos que, em nossas trajetórias acadêmicas em Stanford, Berkeley, São Paulo ou Berlim, só rimos de nós mesmos e em particular. Porque o humor acadêmico é muito idiossincrático e, em geral, pouco engraçado. Na academia alemã, piadas são mal vistas, quem conta piadas é porque é novo e americanizado. Na espanhola, em geral, reina a pomposidade, mas entre eles há galegos e andaluzes e bem… brota o humor voluntário ou involuntário. Na academia mexicana, não se pode dizer que exista uma tradição humorística ou irônica, mas já houve (entre os historiadores, três grandes: Francisco Bulnes, Edmundo O’Gorman e Luis González). A academia inglesa, essa sim, está cheia de humoristas sublimes (de Bertrand Russell a David Lodge). Na academia americana, houve alguns grandes ironistas (Richard Morse, por exemplo), mas o que se destaca é que todos, engraçados ou não, temos que fazer piadas. Trata-se de um humor raro, muito próximo da comédia stand-up. Não sei quando e por que, mas está convencido que se deve fazer piadas e soltá-las aqui e ali, especialmente em apresentações em público. Não podem ser piadas cruéis, obscenas ou maldosas, mas é preciso contar piadas, geralmente pré-fabricadas, como se fossem ensaiadas diante do espelho. Os historiadores e economistas mais insossos fazem isso, tanto quanto o crítico literário pós-moderno e confuso. Não acredito que exista um modelo – se existe, é mais próximo de Jerry Lewis do que de Woody Allen. Sempre me perguntei quando, por que e como foi acordado que deveríamos ser engraçados em nossas apresentações. Quando é que se instalaram em nós as risadas falsas, aquelas que, como nas séries de televisão de antigamente, temos gravadas dentro de nós? Porque não somos engraçados, mas todos rimos quando o palestrante nos indica.
XII.
De onde viemos, professora Bomeny, sempre nos preocupou a inclusão social. Tendo essa inquietação na pele, vimos atravessar tantos mundos educacionais, no México, nos Estados Unidos e no Brasil. Hoje, da Universidade de Chicago, sinto saudade das nossas antigas formas de nos preocupar. O problema continua o mesmo, mas agora as soluções também se tornaram um problema. Avançamos muito na inclusão nas universidades de elite americanas, mas a vida no campus é uma estufa onde crescem orquídeas artificiais de diversidade e inclusão. “O verdadeiro problema do Departamento é a diversidade, diversidade de cores, diversidade de saúde”, reclamou a aluna diante do corpo docente. De fato, não há sombra de dúvida: nos dias que correm, a “diversidade” alivia tudo na academia: o elitismo, a politicagem, a ignorância, a injustiça e a doença. Contra a cólica da “preguiça”, contra a erupção cutânea da culpa histórica ou contra a simples falta de lucidez, a “diversidade” – que, como um opiáceo, faz sentir bem, mas não cura e cria dependência.
Nos Estados Unidos, o termo diversidade tornou-se um mandato quando já é pouco como fato. Por um lado, e além das cores e dos sexos, não existem dois Johns ou duas Marias iguais; por outro, o iPhone, o inglês ou o Facebook igualam tudo. Quão “diversas” são as palavras morenas ou negras submetidas aos caracteres, e em inglês, do Twitter (X)? Quão diversas podem ser as ideias de negros, brancos, pardos, heterossexuais ou homossexuais submetidas, como estão, a ser trabalhos acadêmicos, American Studies, Queer Studies, Cultural Studies…? A diversidade na academia não tem sido uma questão de pluralidade, mas de homogeneização; ela não engorda, mas pasteuriza o caldo de cultivo das ideias. Duas décadas de “diversidade” como política universitária, como nova e irrepreensível bem-aventurança acadêmica, só nos tornaram ainda mais homogêneos.
Antigamente, assim como no Brasil, não era a diversidade, mas a compensação, uma boa ideia na academia americana: reparar injustiças históricas, pelo menos por um bom tempo. A Ação Afirmativa foi uma solução concreta não para o abstrato “todas as vítimas da história”, mas para personagens claros: negros, mexicano-americanos, indígenas da América do Norte e porto-riquenhos. Era aceitar alunos e professores que, historicamente, não tinham acesso à universidade e, assim, como se dizia, nivelar o terreno porque, presumia-se, o terreno não tinha sido igual para todos. Se a isso tivesse sido acrescentado um claro componente de classe – ou seja, negros, chicanos, porto-riquenhos… pobres –, eu seria hoje um diversófilo como qualquer outro. Mas caímos na ideia de diversidade como fé em nossa (dos acadêmicos) superioridade moral diante da maldade passada, presente e futura; uma superioridade mantida, por um lado, em poucos, mas autoritários indicadores: raça, etnia, gênero e sexualidade. Por outro lado, a superioridade assumiu que tais indicadores completam a melhor Weltanschauung que o mundo já conheceu, porque se presume que a cada indicador (raça, etnia, gênero e sexualidade) correspondem visões de mundo diametralmente diferentes, embora, supostamente, a longo prazo sejam complementares entre si. Um verdadeiro enigma: o credo da diversidade não admite diversidade, exige consenso, todos falando sobre diversidade em constante espera pela inclusão total de todas as identidades raciais, étnicas e sexuais que defendem ontologias antagônicas, independentemente de classe, história, coexistência. Uma espera que, na verdade, não espera nada: as identidades antagônicas foram, devem ser, são e sempre serão assim, distintas e confrontadas, porque se a diversidade leva a apagar as supostas diferenças, então ela deve ser submetida novamente à diversidade. Alcançar os mesmos direitos e oportunidades não deve nos tornar iguais, mas cada vez mais diferentes, mesmo que consumamos, falemos, façamos e pensemos sobre as mesmas coisas.
Na academia, a ação afirmativa não era uma má ideia. O direito consuetudinário, no entanto, teme a mea culpa coletiva que pode acarretar demandas massivas de grupos tão grandes quanto “brancos” ou “negros”. As universidades estadunidenses, até a década de 1970, temiam a diversidade de classe e raça e hoje abraçam a diversidade entendida como homogeneidade de classe e ideias, mas com medo da originalidade, do verdadeiro confronto de ideias. Hoje, nas universidades, busca-se diversidade de cor ou sexualidade, não diversidade de ideias. Assim, devido às estratégias legais impostas pela Suprema Corte, a diversidade derivou em uma categoria não de compensação social transitória, mas de integridade intelectual mal compreendida. Para evitar processos judiciais por discriminação reversa, acabou-se adotando, primeiro como estratégia jurídica e depois como credo moral, uma ideia ironicamente mais ecológica da diversidade, a saber, diversidade não como argumento de justiça social, mas de ecologia do conhecimento: se na universidade há pessoas de todas as cores, preferências sexuais e sexos, conhece-se melhor porque se tem várias e diferentes perspectivas. Se na universidade há negros e pardos – mesmo que sejam filhos de médicos, advogados e acadêmicos –, então pagamos nossa culpa coletiva e o conhecimento completa todas as suas partes. E todos somos mais sábios e justos do que nunca. Não se trata, evidentemente, de diversidade de classe ou de ideias, não; a diversidade homogeneíza mais as ideias do que a teologia cristã, onde sempre havia maneira de jogar a carta de acordo com quem, de Spinoza a Kant, de Suárez a Carl Schmitt. Presume-se que, se se tem um aluno ou professor “moreno”, ele falará por sua raça. A lucidez deve vir do “moreno”, da própria diversidade, porque, se não for assim, não estamos diante de um diverso, mas diante de um White Latinx, um vendido. E, claro, a variabilidade de ideias diminui enormemente, reduzindo-se a uma dúzia de palavras associadas ao tema: diversidade, comunidade, raça, branquitude, justiça social, negritude, melanina, agência, institucional, supremacia, identidade, genocídio, violência, heteropatriarcado, gênero, opressão… Na historiografia, isso implica que qualquer história escrita antes de 1990 é racista, homofóbica, sexista, não valoriza a diversidade, por inconsciência ou por militância. A miscigenação não pode ser estudada como um tema complexo na história do Brasil ou dos Estados Unidos, porque a miscigenação foi genocídio… e o professor espertinho que não acredita nisso, nós colocamos no Twitter (X), cancelamos, sem detalhes e sutilezas: miscigenação = genocídio.
A situação seria bem diferente se todos os recursos e projetos dedicados à diversidade, digamos, na Universidade de Chicago fossem destinados a: i) conceder bolsas de estudo aos 10 melhores alunos do ensino médio das escolas públicas dos bairros pobres de Chicago, independentemente da raça. Isso traria mais justiça ao meio acadêmico do que toda a infraestrutura voltada para a diversidade. A bolsa incluiria um curso preparatório de verão, remunerado, para preparar os alunos selecionados com habilidades retóricas, analíticas e aritméticas mínimas. Essas gerações de bolsistas compensariam os males causados, o que criaria uma verdadeira diversidade de classes sociais na universidade, de perspectivas, e isso, talvez, deixaria os alunos bolsistas falarem de outras coisas além da diversidade. E ii) se ter um diploma da Universidade de Chicago significasse o domínio real de outra língua além do inglês, favorecendo o espanhol, o mandarim e o cantonês por razões óbvias, criaria-se uma diversidade de ideias e experiências muito mais real do que o credo da diversidade que temos vivido. Mas a diversidade na academia está sendo outra forma de promoção eficiente do monolinguismo em inglês, da homogeneização cultural que nunca existiu… “… os profissionais do pensamento despacham os assuntos correntes. Corre o boato de que a época é medíocre” (Henri Meschonnic)
XIII.
Professora Bomeny, e se tivermos passado a vida fingindo ser estudiosos brancos e deixado que se apropriassem da cultura à qual pertencemos, você como carioca, libanesa, mulher que sabe latim, e eu como purepecha, mexicano, latinx, zelador mexicano wannabe? Será que somos colonizados? Ou culpados de apropriações culturais tão enraizadas em nós que nem percebemos? Nos campi universitários americanos, é proibido “passar” por branco se você é negro; ainda mais proibido passar por negro se você é branco, e os “pardos” podem falar de “parditude” e de nada mais. É claro que é permitido mudar ou trocar de gênero e sexualidade, mas o outro é “apropriação cultural”. A academia é regida pelo mandamento “não desejarás a cultura do próximo”. Ninguém se pergunta o que significa “passar por”, nem o que é cultura negra, branca ou latina ou o que quer que seja em dois séculos de miscelânea genética, histórica, cultural, industrial e consumista. O campus americano constitui uma parcialidade na qual, de forma quase mágica, ninguém vai ao essencial (tudo é uma construção cultural), mas o essencial existe mais essencialmente do que à mercê do mundo desigual, racista e do cada um por si.
A apropriação cultural é um exagero, porque ser acadêmico branco ou negro ou… não é escolher entre culturas diferentes, mas pertencer à cultura, ao cultivo das diferenças em uma mesma ontologia. Bem visto, a grande apropriação cultural que a humanidade conheceu é aprender línguas, reinventar-se em termos de classe, sotaque, ambiente. T. S. Eliot cometeu o pecado da apropriação cultural quando mudou seu sotaque e sua vida de sulista de Saint Louis para editor pedante de Londres e reinventor da poesia? Não será que todo criador comete o pecado da apropriação cultural e se reinventa repetidamente? Certamente, como filólogo conhecedor do sânscrito, do latim e do grego clássico, Nietzsche foi um orientalista, um ocidental inveterado que impôs o império da razão sobre universos alternativos. Mas sua apropriação cultural constituiu o que ele era, a fonte de seu mal-estar em sua cultura, de torná-la diferente para sempre. E Darcy Ribeiro, de quem ele roubou a cultura? Da sociologia e antropologia europeia e americana que aprendeu com Donald Pierson e Herbert Baldus na Escola de Sociologia e Política de São Paulo? Dos Kadiwéu e Urubu Kaapor que estudou e defendeu? Em verdade, observo que na academia estadunidense reina o monolinguismo como prova irrefutável de nossa homogeneidade cultural; não se exige nem se estimula a apropriação de outras línguas – é muito antiquado, um gesto de falsa erudição e um pouco elitista. Talvez seja verdade, não ganharíamos nada com o retorno de professores machistas que falavam muitas línguas. Mas se o logos não importa, então o que se apropria quem cai no pecado da apropriação cultural?
XIV.
Você se lembra, professora Bomeny, da lição de Berlim? Tantos bons e tantos maus petrificados no asfalto. Você se lembra das lições da ditadura, Darcy e do exílio? Refiro-me ao que Ángel Rama escreveu ironicamente a Darcy, como se dissesse: “temos que agradecer às ditaduras pela sua latino-americanização, Darcy”, e que nossos Gordo Fierro e Ida Vitale – você se lembra deles em Austin, professora Bomeny? – resumiam como “graças ao exílio que me deu tanto”. Falo, professora Bomeny, da ironia factual e moral da história, aquela que já não é bem-vinda. Atualmente, a academia tem uma visão muito higiênica da história: ou ela é limpa, bondosa e bonita, ou a apagamos. Escrever história, no entanto, é como fazer xixi. Em Israel, ouvi algo como que uma boa “micção” equivale a meio orgasmo. Ora, não há como fazer xixi direito sem soltar um pum. Escrever boa história é como “a micção”, que não é boa se não tiver um certo ar de entranhas. Mas a história, como “a micção”, foi e é uma porcaria.
XV.
Sejamos sempre, professora Bomeny, o que sempre fomos: professores. Por mais crítico que seja, não deixaria de fazer o que faço, de viver como vivo, como acadêmico. Talvez porque não saiba fazer outra coisa. Entre ser inútil como político, opinador, burocrata ou empresário, opto pela minha inutilidade. Outra coisa seria poder ser, como meu pai, um médico útil e indispensável; como Helena, um sol que ilumina uma constelação de perdidos. Mas não consegui. Nada me fez duvidar da minha vocação, nem as modas, nem os absurdos, nem a politicagem. Com todos os seus males, a academia é um oásis para ler e pensar. E o deserto é vasto e eterno.
Acho que a única coisa que me faria ver a saída é a ausência de um ou dois pares de olhos inquisitivos no início de cada ano acadêmico. Já velho, percebo que meu mundinho me presenteia com uma ou duas palestras lúcidas por ano, o diálogo com quatro ou cinco colegas, a oportunidade de trocar ideias com alguns visitantes por ano e minha imensa e imerecida biblioteca. Eu me divirto como uma criança com tudo isso, mas o indispensável são as birras, as dúvidas, a paixão, a curiosidade – renovadas a cada ano – de alguns alunos. Sem eles, sem elas, como continuar?
A juventude é minha aliada: é lei da vida que os estudantes se irritem, duvidem, neguem, queiram romper e saber. Mas o que nós, professores, temos feito? Nos últimos anos, chegam cada vez mais estudantes de mestrado e doutorado que assumem o mundo como um campus e que transformaram sua rebeldia e curiosidade naturais em uma imitação de seus professores progressistas. Eles submetem tudo a rigorosos exames de identidade, raça, sexualidade, justiça e, claro, poucos são aprovados. Qualquer dúvida ou ironia se transforma em prova de supremacia branca ou negação da justiça social.
Cada nova geração de estudantes traz consigo uma nova regra moral para o campus, e aumentam minhas chances de ser reprovado no exame por não saber que tal conceito já foi proscrito, que tal pronome não corresponde a tal pessoa, que “x” não é mais utilizado porque foi declarado impróprio. Tudo neles é rebeldia, mas eles não se rebelam contra seus privilégios, contra seu senso de direito, vitimização, contra as bobagens que seus professores lhes ensinaram. Fico cada vez mais calado, mas procurando em cada aula o olhar de um ou dois que tornarão possível o milagre da comunhão intelectual e, não menos importante, minha permanência na academia. Tenho uma fé positivista, quase biológica, na renovação da incerteza e seu corolário: vamos conversar, vamos ler juntos. Mas é fé, e talvez o dano que nós, professores, causamos seja irreparável.
XVI.
Eu sei que você acreditou em mim quando nem eu acreditava, professora Bomeny, mas sejamos honestos: sempre se tratou de “Fake it until you make it” (Finja até conseguir). Esse é o lema que os entendidos decifram entre os latinismos dos brasões universitários. Porque na academia todos nós representamos diferentes momentos do ciclo da charlatanice. Os mais ou menos honestos se condenam a viver, por anos, se perguntando: “Quando eles vão perceber?”. Entre aqueles que são capazes de manter um pouco de honestidade intelectual, essa sensação perturba menos à medida que se percebe a charlatanice dos outros. Mas a sensação persiste: sempre acredito que o próximo artigo ou livro será aquele que me tirará de tantos anos de “fake it”. Quando o novo trabalho é lançado, já não quero relê-lo, promovê-lo, apresentá-lo, consciente como estou de que é mais do mesmo. É claro que a gente vai aprendendo e, acima de tudo, ensinando. Mas o murmúrio interior (“você não sabe tudo o que diz saber, nem diz nada interessante”) persiste. Pelo menos em alguns. Outros, assim que “have made it”, acreditam nisso e veem crescer a charlatanice nos outros à medida que se tornam mais brilhantes, assim como um peixe na água que denuncia que os molhados são os outros.
Ars longa, vita brevis: o bom acadêmico, em primeiro lugar, sente o cheiro da charlatanice, que é a sua própria; e, em segundo lugar, não espera fugir dela, mas deixar alguma ideia, algum conhecimento, no esforço inútil de fugir dela.
XVII.
Professora Bomeny, lembre-se dos seus sonhos de interdisciplinaridade – lá estava você misturando biografia e sociologia, literatura e teoria social, pedagogia e história. No entanto, hoje qualquer um diria que, nas prestigiosas universidades estadunidenses, é impossível encontrar uma língua em comum entre a história, a filosofia, os estudos literários, a antropologia, a sociologia ou a economia. Mais ainda: em cada disciplina impera a hiperespecialização, e cada subcampo acabou forjando a sua própria linguagem pactuada.
Ao longo do século XX, as ciências sociais tentaram alcançar duas linguagens simultâneas: a gíria hiperespecializada de cada disciplina e uma linguagem interdisciplinar. Entre 1940 e meados da década de 1960, em Harvard ou em Chicago, tentou-se repetidamente realizar ambas as proezas: profissionalizar a sociologia ou a psicologia, forjando suas respectivas e exclusivas linguagens e, ao mesmo tempo, conseguir capturar o social e o humano misturando todas as disciplinas por meio de uma linguagem comum. Essas tentativas fracassaram e, por exemplo, Talcott Parsons ficou falando com alguns poucos a gíria sociológica que ele havia cunhado. Outra sorte teve o projeto de uma “inteligência artificial” (IA) que, em suas origens, era um projeto profundamente interdisciplinar (envolvendo matemáticos, informáticos, engenheiros, físicos, biólogos, filósofos, linguistas, psicólogos). Na última década, o projeto foi bem-sucedido e já se percebe que em breve a IA acabará por transformar todas as formas de conhecimento, todas as linguagens. No entanto, hoje em dia, uma linguagem comum entre as ciências sociais e as humanidades parece uma quimera inatingível.
Mas acredito que, na academia americana, apesar da hiperespecialização, quase sempre houve uma linguagem comum. Ou seja, bem ouvidas, as humanidades e as ciências sociais falavam e falam uma língua comum. Não é preciso dizer que é impossível para um economista entender um artigo confuso sobre estudos sobre obesidade, assim como seria impossível para um operário mexicano entender as conversas sobre futebol em um bairro de Buenos Aires. Mas, quando se trata de conversar, o mexicano e os portenhos teriam uma linguagem em comum: a estrutura básica do espanhol, o futebol e suas paixões. O mesmo ocorre no mundo acadêmico, cuja linguagem comum se sustenta em:
- o inglês acadêmico e todos os seus mandatos e possibilidades. Não é pouca coisa; é quase tudo, desde a estrutura do pensamento até a do parágrafo, por mais complexo que seja; desde o uso de coloquialismos e referências à música popular, ao cinema, às séries, ao humor, à blasfêmia e à moral compartilhadas no inglês americano-centrado, até a necessidade de patentear frases de efeito cativantes ou marcar território com frases que começam com “I submit”, “I argue”, “I theorize”, “I problematize…”
- Os mecanismos institucionais para publicar, divulgar e vender conhecimentos criaram uma linguagem comum além das gírias especializadas. Pense no uso de manuais de estilo (Chicago, MLA) exigidos por revistas e editoras especializadas, ou no uso e abuso da linguagem do PowerPoint ou do Twitter para “formatar” ou criar ideias. Assim, a linguagem de uma antropóloga feminista, derridiana, e a de uma economista freedmaniana, por mais diferentes que sejam, são pensadas em pontos-chave, falam os caracteres do Twitter, são letras diferentes cantadas com a mesma música. A sociologia, a história, a filosofia ou a economia jogam o mesmo jogo e com o mesmo baralho, mas o embaralham de maneiras diferentes.
- Em cada momento histórico, e especialmente nas últimas duas décadas – devido à imediatez e abrangência da internet, das redes sociais e da inteligência artificial –, as discussões acadêmicas funcionam como planetas girando em torno de alguns sóis interconectados. Os sóis são temas, preocupações centrais, conceitos aparentemente muito decisivos, mas não fica claro se são os professores que os dizem ou se são ditos pelos conceitos. São temas e conceitos delimitados epocalmente e são sempre imperativos morais e cognitivos. Por exemplo, na academia de 1950, esses sóis eram formados por dicotomias que atraíam tudo: tradição-modernidade, atraso-modernização, classe-grupos de interesse, indivíduo-comunidade, eu íntimo-nós coletivo, biologicismo vs behaviorismo. Na última década, essa linguagem comum é mais comum do que antes porque, por meio da internet e das redes sociais, essa linguagem abrange não apenas a academia, mas também Hollywood, a indústria tecnológica, Wall Street e o consumismo. Na linguagem comum atual do campus, esses sóis são formados por preocupações muito importantes e muito dominantes: raça, gênero, sexo, identidade, cérebro, genes, big data, inteligência artificial. Conclui-se que as humanidades e as ciências sociais falam uma linguagem mais comum do que se imagina.
- O profissionalismo levado ao carreirismo é a outra fonte de uma linguagem comum, independentemente da hiperespecialização de cada disciplina. Ou seja, o quadro institucional e burocrático em que vivemos os acadêmicos à americana é, acima de tudo, uma linguagem comum, e se a interdisciplinaridade não funcionou é precisamente porque essa linguagem exige que cada um cuide do seu próprio umbigo. Os códigos são compreendidos, observados e compartilhados entre todas as disciplinas, espera-se, exige-se, que sejam bem usados e que se comporte bem. Na era dos mercados acadêmicos deprimidos, da perda de prestígio do conhecimento humanístico e especializado, do Twitter, da internet e da inteligência artificial, o carreirismo trouxe uma profunda contradição: enquanto caem os empregos nas ciências sociais e humanas, enquanto menos estudantes seguem carreiras humanísticas, mais carreiristas são os poucos que optam pela profissão de acadêmicos. A escassez de peças produz o domínio sublime das jogadas do xadrez. E isso com raiva e rancor: estudantes e jovens professores sentem que não tiveram a mesma facilidade que aqueles que já estão estabelecidos, e se, para piorar, alguém zomba do carreirismo, isso é o mais próximo do crime de lesa profissão. Estudantes e professores não duvidam da relevância social, política, humana e não humana de seus trabalhos, mas o que lhes parece impensável é questionar a linguagem comum do campus.
Assim, a academia americana se assemelha a um musical da Broadway, um musical muito “diverso”, pois cada um parece cantar suas próprias falas e dançar seus próprios passos; costuma-se criticar quem canta mal, dá um passo errado ou sai fora do tempo, mas o que não se suporta é que você não acredite nisso, que faça parecer que é um musical e não a vida real.
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Em suma, resta-me agradecer a honestidade intelectual e a fidelidade pessoal da professora Bomeny. Ambos os presentes, professora Bomeny, foram inestimáveis para mim e brilharam ainda mais quando enfrentei, por um lado, minhas ignorâncias e, por outro, as traições do caminho que, se é que existiram, sempre existiram, para você, para mim. (Por que doem tanto, Helena?). Entre aquele ontem dos nossos dias em Stanford, em que você me levava um sanduíche para a biblioteca e me fazia descobrir a cada encontro um mundo de leituras brasileiras, e o hoje, em que, em uma conversa recente na cozinha da sua casa, você me falava dos problemas das universidades públicas brasileiras e de um novo livro de Antonio Risério sobre mestiçagem, enquanto eu devorava aqueles charutos árabes de folha de uva que você preparava, entre aquele ontem e esse hoje, Helena, passaram-se vários mundos, várias crises pessoais. Mas você sempre foi minha Quixote, e eu sempre feliz sendo seu Sancho Pança. Que assim seja pelo tempo que nos resta. No que você escreveu, nos alunos e alunas que você formou, fica sua marca sólida. Eu aqui, na UERJ, vim apenas para deixar um pequeno traço da cumplicidade intelectual e da amizade irrepetível que nos uniram, como se para testemunhar que aquilo que parece tão raro, a comunhão intelectual, ainda é possível, e como se assim pudesse saldar a dívida que, é claro, nunca terminarei de pagar.
