Simpósio BVPS | 100 anos de Raymundo Faoro


Voltamos hoje com a segunda e última parte do Simpósio 100 anos de Raymundo Faoro, organizado por Paulo Augusto Franco de Alcântara (ESPM e USP). Evocando o centenário de nascimento do jurista gaúcho e os 50 anos da publicação da segunda edição de Os donos do poder (1975) – marco que consolidou como clássico a obra originalmente lançada em 1958 – especialistas de diferentes áreas e gerações foram convidados a revisitar criticamente o pensamento e a contribuição de Raymundo Faoro para as interpretações do Brasil.

Neste segundo post, contamos com as reflexões de Leonardo Belinelli (UFRRJ), Lilia Schwarcz (USP e ABL), Luís Augusto Fischer (UFRGS), Maria Victoria Benevides (USP) e Paulo Henrique Cassimiro (UERJ).

Para conferir o primeiro post e a apresentação do organizador, clique aqui.

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1.  Como foram os seus primeiros contatos com a obra e com o pensamento de Raymundo Faoro?

Leonardo Belinelli: Meu primeiro contato com Os donos do poder aconteceu numa disciplina intitulada “Introdução ao pensamento político e social brasileiro”, ministrada por Gabriela Nunes Ferreira e Maria Fernanda Lombardi Fernandes no primeiro semestre de 2008. Além de Faoro, o curso tratou das reflexões clássicas de Oliveira Vianna, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr. sobre a formação nacional. Foi aí que meu interesse por esse campo de estudos foi suscitado.

Lembro-me bem de um incômodo que tive com a minha primeira leitura de Faoro. É bom contextualizar: estávamos no meio do segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e o debate em torno das questões da corrupção existente no Estado estava em alta – aliás, o tema continuaria a desempenhar um papel central nos acontecimentos políticos subsequentes, como hoje sabemos. Nesse primeiro contato, Os donos do poder parecia sintetizar, com grande profundidade e eloquência, a narrativa dos setores liberais derrotados pelo que chamavam de “populismo” lulista. Com o tempo, percebi que essa leitura corrente, embora comum, não se aplicava bem ao espírito da obra de Faoro.

Luís Augusto Fischer: Quando cursei História, na UFRGS, virada dos anos 1970 para os 1980, fui aluno de uma professora que tinha Os donos do poder como bibliografia básica. Se chamava Helga Landgraff Piccolo. Lembro que era uma leitura muito complexa, pela frase, pelo vocabulário, mas igualmente por destoar da rotina dos textos sobre história do Brasil – basicamente os marxistas – e também dos brasilianistas que líamos. Por outro lado, o entusiasmo da professora, uma excelente expositora que nos ajudava a destrinchar o horizonte conceitual em causa, me fazia ter grande gosto e proveito com a leitura, particularmente para o período colonial, que era o recorte daquele curso.

Maria Victoria Benevides: Conheci Faoro através de amigos cariocas que lhe entregaram o meu mestrado sobre o governo Kubitschek, pouco depois publicado pela Paz e Terra. Ele me escreveu logo, com efusivos parabéns e excelentes comentários – e foi ao lançamento do meu livro, na Casa de Rui Barbosa. Sua obra – tanto Os donos do poder quanto A pirâmide e o trapézio – foi discutida em encontros e cartas. (E como escrevíamos! Algo que a juventude hoje não sabe o que é…). Nessa época eu ia frequentemente ao Rio, por conta da família e pelos ótimos contatos com o CPDOC. Depois, ele foi um interlocutor generoso sobre minha tese acerca da UDN, partido que detestava.

Foi ele quem me sugeriu investigar a formação literária (e cultural, no sentido mais amplo) dos próceres udenistas, pois dizia ser importante conhecer “o que mobiliava aquelas cabeças que se julgavam aristocráticas”. Segui o conselho e foi ótimo. Os “políticos do lenço branco e da eterna vigilância” tinham estudado nos mesmos colégios e, em geral, nas Faculdades de Direito; citavam os mesmos autores, veneravam os mesmos conceitos de história, glória, poder, soberania (nunca a popular!) e religião, e viam como natural e justa sua posição social, com uma visão literária e reacionária do que pudesse ser um “político como representante do povo”.

Paulo Henrique Cassimiro: A primeira obra de Faoro que li foi Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio, por interesse puramente pessoal na obra de Machado. Ainda no começo da graduação, levantei em sebos no centro do Rio uma bibliografia de obras sobre Machado – dentre elas a de Faoro, Lúcia Miguel Pereira, Alfredo Bosi, dentre outros cujos nomes já não me lembro – e me dediquei a lê-las. Confesso que não guardo muito bem a impressão que a leitura de Machado por Faoro me causou. Ainda na faculdade, e também por iniciativa própria, li Existe um pensamento político brasileiro?, cujo tom pouco entusiasmado com a reflexão nacional me afastou consideravelmente do interesse pelo pensamento brasileiro durante algum tempo. Apenas no final da graduação, numa disciplina sobre instituições políticas brasileiras ministrada por Maria Antonieta Leopoldi, li uma parte da segunda edição de Os donos do poder. Já no mestrado, buscando aperfeiçoar a minha formação nos estudos do pensamento brasileiro, li o livro por completo e, finalmente, no doutorado, tive contato com a primeira edição em um curso de Christian Lynch sobre o pensamento político da República de 46.

2. O que faz de Os donos do poder um clássico do pensamento social e político brasileiro?

Leonardo Belinelli: Como toda obra clássica, Os donos do poder nos interpela de diferentes ângulos. Inescapável, claro, é a referência ao uso sistemático da sociologia da dominação de Max Weber para explicar as formas particulares pelas quais coerção e consenso se manifestam e se reproduzem na história política brasileira (menos examinado, mas central em sua obra, é o seu uso da teoria das elites). Ademais, além de questionar o marxismo de matriz comunista espraiado pela inteligência brasileira, Faoro desenhou uma perspectiva clara sobre a gênese e importância do Estado na formação sócio-histórica nacional. Nesse ponto, as recepções críticas das teses de Faoro tiveram papel importante na formação da agenda de pesquisas da moderna ciência política brasileira, que se estabeleceu durante o Regime Militar. Outro aspecto a ser notado é a sua perspectiva – liberal – sobre o problema da relação entre liberalismo, política e sociedade no Brasil. Se retoma a tradição do que Gildo Marçal Brandão chamou de “idealismo constitucional” formado no Império, ele o fez com tintas próprias ao não fechar os olhos para o oportunismo que caracteriza boa parte dos nossos liberais. Nesse particular, como bem lembrou André Botelho em intervenção recente, não deixa de ser interessante notar que a segunda edição de Os donos do poder surge na mesma época de “As ideias fora do lugar”, de Roberto Schwarz, e A revolução burguesa no Brasil, de Florestan Fernandes.

Caberia acrescentar que a obra de Faoro parece tocar em um ponto central de uma sensação comum entre os brasileiros: a de que a classe política e o alto estrato do funcionalismo público, tornados “donos do poder”, estão alheios às demandas populares. Coloca em perspectiva histórica um tema-chave de toda democracia contemporânea: a representação. Nesse sentido, é uma obra que tem um apelo popular que não deve ser desprezado, mas compreendido.

Lilia Moritz Schwarcz:[1] Em Os donos do poder, Raymundo Faoro mostra como sempre vingaram, no Brasil, processos de concentração de terras nas mãos de poucos proprietários e uma gestão patrimonialista do Estado. O resultado foi a consolidação de estruturas de desigualdade, expressas no passado, mas plenamente inseridas na lógica do presente. Por aqui, o modelo colonial teria combinado grande propriedade monocultora com mão de obra escravizada, o personalismo dos mandos privados com a (quase) ausência da esfera pública e do Estado. Dessa configuração histórica e social advém, também, a vigência do patrimonialismo, que atravessa diferentes classes, não sendo monopólio de um grupo ou estrato social. O livro cobre desde o primeiro rei lusitano até o final da era Vargas, mostrando como os portugueses transportaram para o Brasil um estamento burocrático que se assenhorou do Estado, de suas instituições e de seus recursos.

Para Faoro, o poder político foi sempre exercido em causa própria por um estamento social que dominou o aparato político-administrativo, extraindo daí benefícios de poder, prestígio e riqueza. Recorrendo aos conceitos de Weber – e muitas vezes indo além deles ou reinterpretando-os a seu modo –, o autor transformou a noção de estamento burocrático em seu conceito-chave. Diante da ausência de um contrapeso descentralizador, vingou um patrimonialismo burocrático-autoritário, contraposto às formas do Estado de Direito: “O Estado projeta-se, independente e autônomo, sobre as classes sociais e sobre a própria nação.” Em seu tempo, o livro de 1958 não foi recebido com entusiasmo. A consagração da obra, década e meia depois, talvez esteja vinculada ao novo ambiente econômico e cultural vivenciado no país, com o advento da ditadura, que justamente “concentrava no corpo estatal os mecanismos de intermediação”. Quem sabe falte sociedade na análise. Talvez essa seja uma tese demasiadamente imobilista acerca da nossa história. Mas um clássico é justamente aquele que não cessa de nos interpelar, fazendo do passado uma ferramenta de entendimento do presente.

Luís Augusto Fischer: Em primeiro lugar, o fato de ser um raro caso de história dedicada à formação do Estado nacional, em Portugal e no Brasil – dimensão em geral ou ausente, ou claramente menor nos trabalhos da tradição uspiana, que dominava a bibliografia então. Em segundo lugar, porque se sente no livro um empenho em arguir a forma do Estado: não se trata apenas de uma descrição do fenômeno, mas de uma inquirição, que se nota mais nas entrelinhas do que no enunciado, mas está ali.

Maria Victoria Benevides: Considero Os donos do poder uma obra fundamental para a compreensão de nossa forte herança ibérica, de nossa dificuldade em construir a emancipação política e cultural do Brasil como nação independente. Obra densa – e mesmo de leitura árdua, sobretudo na edição ampliada em dois volumes (eu li a primeira) – que explica o Estado patrimonial e estamental e o liberalismo antidemocrático. É um clássico no sentido dado por Antonio Candido: “uma obra que, ao longo do tempo, se torna uma expressão da identidade de uma nação, reflexão sobre a sociedade, a cultura e a condição humana”. Gostei mais da primeira edição, mas foi a segunda, em dois volumes, o grande sucesso editorial. Achei especialmente interessante a discussão sobre a herança portuguesa, o direito arcaico, as Ordenações Filipinas, o capitalismo mercantil, o ideal familiar pela carreira dos bacharéis e dos cargos públicos “privatizados” – tudo imerso na estrutura da escravidão e da concentração de terras, e sob as bênçãos implacáveis da Igreja Católica. O que explicaria a brutal desigualdade social e o fato de este imenso país ter conservado seu território por séculos, mas sido incapaz de se organizar como nação. Suas considerações originais sobre “estamento burocrático” são temas de controvérsias até hoje.

Paulo Henrique Cassimiro: Me parece que Faoro é exemplar em plasmar um certo imaginário sobre a nossa pretensa “imobilidade”. Se a modernidade é pensada como um horizonte de futuro e de transformações constantes, um dos páthos da reflexão sobre o Brasil é ler a nossa história como um contínuo de vícios estruturais que impediriam a nossa entrada vitoriosa em uma modernidade ansiada. A obra de Faoro plasma como nenhuma outra esse imaginário, em que todo ensaio de transformação social e política é lido como insuficiente e capturado pelas estruturas patrimonialistas herdadas de Portugal. É interessante observar que, se da primeira para a segunda edição Os donos do poder quintuplicou de tamanho e acumulou descrições históricas imensas, a interpretação permanece a mesma. Tanto trabalho de investigação para chegar às mesmas conclusões! A despeito disso, a obra de Faoro estimulou – contra e a favor – alguns dos trabalhos mais ricos sobre a formação do Estado e das elites políticas no Brasil, como os de José Murilo de Carvalho, Elisa Reis, Aspásia Camargo e tantos outros. Creio que o caráter desafiador e instigante do livro seja seu maior legado para as ciências sociais brasileiras.

3. Como se configura a relação entre obra e trajetória no caso de Faoro?

Leonardo Belinelli: Ao contrário de outros grandes pensadores brasileiros, a vida de Faoro é relativamente desconhecida. Em parte, isso se deve à discrição do autor, que parecia gostar de emular algo da personalidade misteriosa de Machado de Assis, um de seus ídolos; em parte, à certa resistência que sua “interpretação do Brasil” causava, e ainda causa, a certos círculos intelectuais – em particular naqueles que veem o Estado como um instrumento capaz de condensar as demandas populares e liderar o desenvolvimento nacional. Poderíamos acrescer ainda que Faoro foi o último “intérprete do Brasil” que não fez carreira universitária e, nesse sentido, não produziu “discípulos” diretos. Em suma: a combinação entre discrição, certo desinteresse e falta de continuidade costuma ser letal para a consagração de um autor. Caberia entender como Faoro escapou desse destino. Por isso e por tantos outros motivos, as pesquisas recentes de Paulo Augusto Franco são especialmente bem-vindas. Ainda há muito por conhecer a respeito do jurista gaúcho. O que se pode dizer com mais certeza é que Faoro tornou suas ideias móveis de ação. Não há como deixar de nos referir ao seu papel no processo de redemocratização do país durante o Regime Militar. Eleito presidente da Ordem dos Advogados do Brasil em 1977, Faoro foi, ao mesmo tempo, interlocutor do poder então estatuído e líder das reivindicações pelo habeas corpus, pela anistia sem restrições e por um processo constitucional autêntico.

Nesse sentido, penso não ser um exagero sugerir que Faoro parece ter colaborado na redefinição do papel sociopolítico do advogado na sociedade brasileira. Se ainda há os que emulam os bacharéis à maneira do século XIX, com todos os vícios estamentais que permanecem num país em que o moderno se alimenta do atraso, é fato que a Nova República abriu as portas para um novo tipo de comportamento advocatício. Penso aqui, por exemplo, nos advogados populares.

Luís Augusto Fischer: Como conheço com alguma intimidade o lado crítico-literário de Faoro, e por ter lido com detalhe um par de ensaios dele dedicados a momentos decisivos da literatura do Rio Grande do Sul, onde vivo e ele viveu, vejo com clareza que ele teve, ao estudar o Rio Grande do Sul – sua literatura, em momentos-chave, mas ao fundo sempre pensando sobre a formação do Estado –, a sombra do modo como se processou esse fenômeno aqui na província gaúcha, que é de certa forma um ponto intermediário entre o Estado nacional brasileiro, em que as elites e frações de elite sempre compuseram seus interesses, e o Estado nacional argentino (e uruguaio), em que, pelo contrário, as elites lutavam entre si e excluíam a fração derrotada, inclusive exilando levas de políticos e intelectuais. Chego a postular uma hipótese: Faoro só pôde inventar a abordagem que inventou para estudar a formação do Estado nacional brasileiro (depois do português) por ter vivido de perto uma forma relativamente diversa de formação que marcou a trajetória política, administrativa e ideológica aqui do estado sulino – estado de fronteira, com uma organização econômica e social bastante distinta tanto da economia e da sociedade da plantation, quanto da organização da economia e da sociedade do “sertão”, do mundo interior, cuja história, dizendo de modo breve, foi liderada pelos bandeirantes.

Maria Victoria Benevides: Na USP, só ouvia falar de Faoro por Carlos Guilherme Motta. Sempre senti que havia uma certa antipatia dos paulistas com os autores do Rio – Faoro era um gaúcho-carioca – e, visto como “radical weberiano”, temiam-se suas críticas (para mim, muito válidas) ao marxismo dominante, que ele, aliás, conhecia muito bem, sendo leitor de Marx e Gramsci, ambos no original.
Sua obra começou a ser reconhecida à medida que ele foi sendo convidado para bancas de tese e comentado por intelectuais de ponta como Antonio Candido, Alfredo Bosi e Gabriel Cohn. Outro fator que influenciou a trajetória de sua obra foi sua importante atuação política, como presidente nacional da OAB, na Constituinte e como articulista em revistas e jornais. Eu lhe entreguei em mãos cartas de presos políticos em greve de fome. Ele participou de seminários do CEDEC, escreveu nota em favor de Fernando Henrique, ficou amigo de Lula e do PT. Ele chegou a ser convidado por Lula para ser seu vice em 2002; agradeceu, gostou da lembrança e, no seu peculiar estilo irônico, respondeu: “cargo público eu só aceitaria uma embaixada, em Paris ou Viena, sendo permanente e hereditária”.

Paulo Henrique Cassimiro: Sempre vi Faoro como um autor exemplar da coerência entre obra intelectual e trajetória. Seu pensamento é indissociável do diagnóstico sobre os entraves ao desenvolvimento de uma sociedade liberal e democrática no país, com atores sociais relativamente autônomos das estruturas patrimoniais e da ação predatória das elites políticas. Me parece que Faoro, como gaúcho, é um representante – muito mais sofisticado intelectualmente, sem dúvida – do liberalismo de Assis Brasil e Raul Pilla. Um liberalismo que desconfia do Estado forte e que acredita que a pedagogia da democracia virá pela liberdade e autonomia do voto. Mas, sem ser puramente um ideólogo e tendo uma preocupação histórica muito maior do que a dos seus predecessores, Faoro percebe que não bastam transformações normativas sem uma reforma estrutural da nossa sociedade que, de todo modo, ele diagnostica como uma impossibilidade em Os donos do poder.

4. Quais as suas possíveis contribuições da obra de Raymundo Faoro para pensar a agenda brasileira hoje?

Leonardo Belinelli: Em termos políticos mais imediatos, sugeri, em artigo publicado na Folha de S. Paulo no dia 26 de abril de 2025, três questões que poderiam ser examinadas à luz de insights faorianos: o papel de setores do Exército na recente tentativa de golpe, o problema da autonomia orçamentária do Congresso (tradicionalmente o lugar de representação do povo ocupado por setores oligárquicos) e os privilégios do que Conrado Hubner Mendes chama de “magistocracia” no país. Não é difícil perceber que cada um dos problemas se refere a um ramo da nossa divisão de poderes. Em comum, há o problema – aliás, já apontado por um ilustre antecessor do liberalismo crítico de Faoro, Joaquim Nabuco – de o Estado brasileiro ser instrumentalizado por setores oligárquicos, em associação com grupos modernos, que dele se valem para benefícios próprios diretos e indiretos. Em uma palavra: Faoro é um autor importante para o estudo das elites brasileiras. Desse ponto de vista, poderíamos então acrescentar: como outros clássicos da formação brasileira, Faoro nos ajuda a pensar as particularidades da relação entre Estado e sociedade no Brasil, que passaria por dois problemas fundamentais: o processo de formação e reprodução das classes sociais por aqui (com destaque para as suas feições estamentais antidemocráticas) e a particularidade da nossa variedade de capitalismo, para usar expressão corrente na sociologia econômica contemporânea.

Luís Augusto Fischer: Para pensar a literatura, Faoro nos ajuda muito por suas intuições profundas sobre a representação da política, no caso do Rio Grande do Sul e da sociedade, no caso do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro (com seu estudo sobre Machado de Assis). Para pensar uma dimensão de alta relevância como a dos grupos que se consideram “donos do poder”, o tal do estamento burocrático, seu pensamento é único entre os clássicos, abrindo caminho para um estudo atual de grande força como o de Bruno Carazza, O país dos privilégios, tema que o marxismo sempre negligenciou e que se mostra, em momentos como o atual, de alta relevância para uma reforma do Estado.

Maria Victoria Benevides: Hoje, creio que sua principal contribuição será o que escreveu sobre as desventuras do “liberalismo sem povo”, aprisionado pelo patrimonialismo e o “capitalismo burocrático”. E, como afirmava: temos que enfrentar com as melhores armas o neoliberalismo que se apresenta como solução para os países em desenvolvimento. Faoro acompanhou a história do PT e contribuiu com reflexões e debates sobre questões até hoje espinhosas, tais como: partido e movimento, trabalhadores e classe operária, autonomia sindical, partido de massa e intelectuais, vida parlamentar etc. (uma nota pessoal: lembro quando ele tentou me explicar o que chamava de “votos extravagantes”, expressão que nunca mais ouvi). Outra contribuição que acompanhei ao longo de seus novos escritos abrange uma radical dissecação do que seja “República” no Brasil: a Inacabada, a Em Transição, a Traída! Como pensar República quando a esfera privada é soberana, quando o próprio Estado serve prioritariamente aos interesses privados dos verdadeiros “donos do poder”? Penso também em sua discussão sobre o poder moderador e as intervenções militares, questão em voga nesses tempos atuais, áridos e aflitivos. Finalmente, mas não menos importante, gosto muito do que Raymundo Faoro, em inúmeros artigos, discutiu sobre a questão da legitimidade como exigência para a democracia. Temos um longo caminho a percorrer. Saudades do querido Mestre. Raymundo Faoro, Presente!

Paulo Henrique Cassimiro: Creio que precisamos urgentemente voltar ao tema das elites no pensamento social e político brasileiro. O processo global de crise das democracias tem produzido cada vez mais uma tensão entre a impermeabilidade das elites políticas tradicionais a agendas populares e a irrupção de novas elites populistas que, sob o pretexto de finalmente tornar o sistema novamente aberto a demandas do “povo” autêntico, empurram a democracia em direção ao seu próprio fechamento autocrático. Esse diagnóstico tem produzido milhares de trabalhos no campo dos estudos sobre instituições políticas, Judiciário, partidos, sociologia política etc. Até mesmo a teoria política e social tem se dedicado a ele, como demonstram trabalhos recentes de autores como Andreas Kalyvas, Nadia Urbinati e José Maurício Domingues. Mas, no campo do pensamento social e político, tenho visto poucas iniciativas para retornar e repensar o tema das elites no nosso pensamento. Recuperar como o pensamento brasileiro refletiu sobre o papel desse ator político central em suas tensões com os processos de democratização e recrudescimento democrático que o país atravessou pode nos ajudar a lançar luz sobre alguns dos dilemas que as ciências sociais brasileiras precisarão enfrentar e, principalmente, a sofisticar mais o debate conceitualmente – papel que o pensamento social e político sempre exerceu de modo exemplar.


Nota dos editores

[1] A autora optou por condensar as respostas das perguntas enviadas, considerando que estão em certa medida interligadas.

Sobre as/os autoras/os

Leonardo Belinelli é professor do Departamento de Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade e do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da UFRRJ. É autor de Os dilemas do patrimonialismo brasileiro – as interpretações de Raymundo Faoro e Simon Schwartzman (Alameda/FAPESP, 2018).

Lilia Schwarcz é professora do Departamento de Antropologia da USP, professora visitante em Princeton e membro da Academia Brasileira de Letras. Autora, entre outros, de Imagens da branquitude: a presença da ausência (Companhia das Letras, 2024).

Luís Augusto Fischer é professor de Literatura Brasileira no Instituto de Letras da UFRGS e autor de uma série de estudos, entre os quais A ideologia modernista – A Semana de 22 e sua consagração (Todavia, 2022).

Maria Victoria Benevides é professora emérita da Faculdade de Educação da USP. É autora de livros sobre História Política do Brasil (Governo JK, UDN e Udenismo, PTB e trabalhismo) e sobre temas de Ciência Política (A Cidadania Ativa, Direitos Humanos e Reforma Política).

PPaulo Henrique Cassimiro é professor do Departamento de Ciência Política e dos Programas de Pós-graduação em Ciências Sociais e Ciência Política da UERJ. É um dos organizadores do livro Visões da Independência no Pensamento Político Brasileiro (7 Letras, 2024).