Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Natal (27 de dezembro)


Mário de Andrade compartilha a história de Mestre Carlos. De acordo com o que ouviu dos devotos, um dos mestres mais impressionantes dos catimbós nordestinos, embora pouco mencionado entre os estudiosos das macumbas da Bahia e do Rio de Janeiro de então. Mário reconta sua trajetória desde a infância até ser encontrado morto ao pé da raiz do juremal, tecendo uma crônica que é um raro mergulho na lógica espiritual do catimbó.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. À tarde, confira texto de André Botelho para a série! Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Natal (27 de dezembro)

Catimbó. Fotografia: Luis Saia, 1938.

Da Bahia pro Rio de Janeiro os espiritos invocados nas macumbas são deuses africanos muitas feitas identificaveis com os santos catolicos. São mesmo chamados de santos e “cair no santo” significa que o deus invocado chegou e entrou no corpo da pessoa que o invoca. Aqui no Rio Grande do Norte os catimboseiros não falam nem em santos nem em deuses. Os espiritos invocados são “mestres”, como mestres são tambem os chefes de catimbó, os “pais de terreiro” da Bahia.

Um dos mestres mais impressionantes dos catimbós nordestinos é Mestre Carlos que Ascenso Ferreira celebrou numa das mais bonitas poesias dele. Me afirmaram os meus catimboseiros que a devoção a Mestre Carlos se estende de norte a sul, no Brasil. Deve de ser exagêro de devotos… Os que estudaram as macumbas da Bahia e do Rio de Janeiro não falam nele não.

A historia de Mestre Carlos é bonita. Desde muito cedo se mostrou um piá excepcional. Travesso como o Cão, andava no meio de mulheres-perdidas e de mais gente muito livre. O pai dele, Inacio de Oliveira, era catimboseiro, tinha desgôsto do filho e não o queria iniciar na feitiçaria.

Porêm Carlos “aprendeu sem se ensinar”. Um dia que o pai sahiu de casa, Carlos com 12 anos apenas, penetrou no “Estado (sala onde se realizam as sessões), tirou os objetos imprescindiveis de invocação e saiu com êles. Foi num mato de jurumeiras e iluminado por uma presciencia maravilhosa, conseguiu abrir uma sessão sozinho e invocar um mestre. Logo “caiu no santo”, quem sabe lá o que fez com o santo no corpo e no fim, como em geral sucede, quando o mestre invocado se “desmaterialisou” outra vez, caiu desacordado.

O pai chegou em casa, Carlinhos nada de voltar. No dia seguinte a inquietação principiou. Andaram campeando o menino por toda a parte e no outro dia seguinte, Inacio de Oliveira desesperado, reuniu gente e fez uma sessão. Quando cahiu em transe, que Mestre entrara no corpo dele? Nada menos que mestre Carlos, o mestre menino, tirando um canto novo, cuja melodia já possue e cujo texto conta assim:

“Vinde, vinde, vinde, ôh flor da noite! reduzindo por todas as mesas!… Rei, ôh rei, ôh rei Yayá! Mestre Carlos vem trabaiá! Meia hora de relogio! Licença me queiram dar! Mestre Carlos é bom mestre que aprendeu sem se ensinar; tres dias levou caido na raiz do juremá; quando êle se levantou, foi pronto pra trabaiá, trunfando na mesa escura, na rua mesa riá! ôh rei Nãnã! ôh rei Nãnã! ôh rei Nãnã! ôh rei Nãnã!

Campearam o corpo dele e acharam logo o mortinho na raiz do juremal. É poderosissimo, duma sinceridade brutal, descobre segredos, especialista em casamentos e protetor da mocidade.

MÁRIO DE ANDRADE