Glossário Silviano Santiago | Graciliano Ramos, por Rodrigo Jorge Neves

Publicamos hoje “Graciliano Ramos”, novo verbete do Glossário Silviano Santiago.

Assinado por Rodrigo Jorge Neves (UFF), este verbete analisa a leitura crítica e criativa que Silviano Santiago faz da obra de Graciliano Ramos, dando atenção ao romance Em liberdade (1981). Escrito como um diário íntimo do escritor alagoano logo após sua saída do cárcere, durante a ditadura Vargas, o livro de Silviano inova ao transitar entre as formas do diário, do romance, da crítica, da biografia e do ensaio. Para Neves, a relação entre corpo e linguagem é central para compreender este e outros projetos de um dos escritores e críticos mais inventivos de nosso tempo.

Acompanhe, sempre às quintas-feiras pela manhã, a publicação de novos verbetes, com versões simultâneas em português e espanhol.

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Graciliano Ramos

Por Rodrigo Jorge Neves (UFF)

Graciliano Ramos é um escritor de conflitos. Não me refiro aos episódios em que se viu enredado ao longo da vida, como prisões e outros entreveros políticos, mas ao modo como ele opera em seu trabalho com a linguagem na busca pela representação da realidade social brasileira. Diferentemente dos autores de sua geração, Graciliano concebe um texto límpido e escorreito, e, ao mesmo tempo, fragmentário e aberto, mas não no sentido do experimentalismo praticado pelos modernistas de primeira hora. O autor de Caetés, na construção de sua narrativa, nos embrenha por caminhos que ora se bifurcam, ora se turvam, exigindo do leitor papel decisivo na prospecção crítica de suas camadas de sentido.

Em Memórias do cárcere, no capítulo 6 da primeira parte, “Viagens”, quando é conduzido por um rapaz fardado a um quartel de Recife em um carro oficial, o escritor constata: “Começava a esboçar-se a terrível situação que ia perdurar: uma curiosidade louca a emaranhar-se em cordas, embrenhar-se em labirintos, marrar paredes, e ali perto o informe necessário, imperceptível nas linhas de uma cara enigmática e fria”. Emaranhar-se em cordas e embrenhar-se em labirintos são expressões que, além de mais assimiláveis, nos remetem à ideia de movimento e de indeterminação, enquanto marrar paredes, incomum na linguagem cotidiana, ao limite e ao choque. A obra crítica e a crítico-ficcional de Silviano Santiago em torno de Graciliano Ramos lidam com essas e outras dimensões do projeto literário do escritor alagoano. A atualidade de Graciliano está na incitação à reescrevê-lo, conforme observou Silviano em mesa-redonda, nos anos 1980, com Antonio Candido, Franklin de Oliveira, Rui Mourão, Mário Curvello e José Carlos Garbuglio.

Silviano acabara de publicar um dos livros mais importantes da história da prosa de ficção brasileira do século XX, Em liberdade (1981), vencedor do Prêmio Jabuti de melhor romance. O escritor e crítico literário mineiro é premido pelos integrantes da mesa-redonda a iniciar a conversa, dada a novidade do seu mais recente trabalho. Na ocasião, Silviano já era conhecido por seus trabalhos seminais para os estudos literários e culturais no Brasil, como Uma literatura nos trópicos e Vale quanto pesa, e tinha consolidada carreira acadêmica em universidades na França e nos Estados Unidos. Ou seja, falam, na mesma pessoa, o ficcionista e o crítico literário, atravessamento fundamental para a compreensão de seu romance. Para ele, Graciliano Ramos é o menos clássico dos autores modernistas, no sentido da distinção feita por Roland Barthes, em S/Z (1970), entre textos que se encerram no ato da leitura e textos que avançam, isto é, exigem uma continuação, seja a partir de seu ponto final, seja por meio da possibilidade de sua reescrita.

Publicado pela editora Paz e Terra, Em liberdade é um diário íntimo imaginado de Graciliano Ramos logo após sua saída da prisão, em janeiro de 1937, poucos meses antes da instauração da ditadura do Estado Novo, de Getúlio Vargas. O escritor alagoano havia sido preso em março de 1936, sem nenhum processo. Ou seja, não existia motivo para a sua detenção. A narrativa de Silviano Santiago expõe os conflitos do escritor alagoano nos dois meses após sua soltura, agora morador do Rio de Janeiro, então capital federal, mudança forçada por determinação do estado. Amparado por pesquisa de fôlego sobre Graciliano Ramos e sobre o período de sua permanência no Rio, o livro é classificado, nas fichas catalográficas de suas edições, como “Ficção”. A palavra vem do latim fictio, que significa, além de criar, fingir outra identidade, modelar, dar forma. A ficção, portanto, em sua origem, nos remete a esforço físico, como o escultor esculpindo no barro, no bronze ou no mármore. É como marrar paredes.

Trabalho que exige força, mas também notável habilidade com o pormenor. O ficcionista golpeia o material bruto e se detém com o cinzel em detalhes aparentemente deslocados e sem importância para a história. Entretanto, ganham corpo e se tornam fundamentais para que toda a engrenagem narrativa se movimente. A relação entre corpo e escrita é central para Silviano Santiago em sua concepção do diário de Graciliano Ramos. A abertura do romance é expressiva nesse sentido: “Não sinto o meu corpo. Não quero senti-lo por enquanto. Só permito a mim existir, hoje, enquanto consistência de palavras”.

Trata-se do primeiro livro de uma trilogia de biografias de escritores, seguido de Viagem ao México (1993), sobre Antonin Artaud, e Machado (2017), sobre o Bruxo do Cosme Velho. Nos três livros, os limites do corpo e da linguagem desvanecem, resultando em uma prosa em que os gêneros do discurso se imbricam. No caso de Em liberdade, as formas do diário, do romance, da crítica, da biografia e do ensaio se despedaçam de seus pressupostos tradicionais e são costuradas com fios delgados, quase imperceptíveis, em um outro corpo, mas que também é o mesmo. Silviano, no encontro já mencionado com seus pares, em resposta a Garbuglio, atesta a dificuldade do crítico literário em “avançar alguma coisa que não seja através do outro”. Assim, ele toma para si, crítica e literariamente, o corpo liberto do Velho Graça. A escrita como corpo tomado de outro corpo, este com as marcas da experiência do cárcere, e aquele com as condições impostas pelas palavras. Uma “prosa limite”, como define o autor mineiro. Afinal, “nos limites em que nos cingem a gramática e a lei, ainda nos mexemos”, revela Graciliano Ramos, em Memórias do cárcere, em sua mais recente edição.

Wander Melo Miranda, em Corpos escritos (1992), ensaio incontornável sobre Graciliano Ramos e Silviano Santiago, aponta para a repetição da intencionalidade das Memórias do cárcere enquanto “testemunho político-existencial” no texto de Em liberdade, no qual a reconstituição do passado funciona “como um palimpsesto histórico da sua produção”, uma mise en abyme. O diarista ficcional, construído por meio de pastiche do estilo do escritor alagoano, projeta-se para o passado, no período colonial, por meio do poeta Cláudio Manuel da Costa, e para o futuro, em mais uma ditadura na história de nossa República, por meio do jornalista Vladimir Herzog. Ambos os personagens tiveram seus óbitos declarados como “suicídio”. A subtração de seus corpos, deste modo, ocorre também no plano da linguagem, considerando que, por meio da palavra, o estado determina o lastro de suas vidas na história. O corpo, portanto, é o que e como se fala dele.

Por isso, ao se hospedar no texto de Memórias do cárcere, o texto de Em liberdade galvaniza os conflitos vivenciados pelo corpo escrito/inscrito de Graciliano Ramos, liberto e também limitado por uma perspectiva da história feita de destroços. Em Vidas secas, a família sertaneja nos é apresentada no capítulo “Mudança” e encerram a narrativa no capítulo “Fuga”, vocábulos que expressam ideias de indeterminação e deslocamento; ou seja, não há solução possível dentro da estrutura vigente para eles, a não ser se manter nesse estado de impermanência para, ao menos, sobreviver. E toda tentativa de se insurgir contra essa ordem instituída, representada nesse romance pela figura do Soldado Amarelo, está fadada ao fracasso. O que pode, então, esse corpo reescrito de Graciliano Ramos?

Em Fisiologia da composição (2020), reunião de ensaios sobre o processo de criação literária em Graciliano Ramos e Machado de Assis, Silviano relaciona o procedimento da hospedagem à “forma-prisão”, conceito proposto pelo poeta francês Robert Desnos. A ideia seria reproduzir textos canônicos por meio de sua sonoridade, mas modificando palavras e sentidos. As noções de repetição e diferença, aqui, são retomadas para pensar, uma vez mais, no (entre)lugar, sempre em suspensão, do intelectual latino-americano em uma sucessão determinada, seja a da história social, seja a do cânone ocidental, seja a da política e economia globais, ou ainda dos limites impostos pelas instituições democráticas, quanto mais em tempos como hoje, de ascensão de discursos reacionários e supremacistas, em que a justificação da violência contra o outro, por ser outro, está na ordem do dia.

A hospedagem no texto primeiro repete-o, mas criticamente, iluminando-o e ampliando suas questões em novas camadas de sentido que articulam vozes e temporalidades distintas. Em Memórias do cárcere, Graciliano Ramos retoma não apenas as notas perdidas sobre os dias de prisão, mas o seu livro mais sofrido, Angústia, objeto de ensaio escrito por Silviano para a edição comemorativa dos 75 anos do romance, em 2013. A dramatização do íntimo do protagonista, Luís da Silva, compõe um jogo de espelhos com Memórias do cárcere e Em liberdade, de maneira que passado e presente se imbricam em fragmentos, que vão se encaixando, no processo de rememoração, por semelhanças e diferenças.

Em Angústia, Silviano identifica a construção narrativa do todo a partir de um procedimento de “soldagem por sobras”. Por meio de um processo de dupla rememoração, o fluxo narrativo vai se movimentando com o encaixe de micronarrativas, que ocupam as lacunas deixadas pela memória do passado remoto do personagem. Existe a narrativa da paixão por Marina e do crime contra Julião Tavares e os vestígios sobre o passado anterior a esses eventos. A parataxe, enunciado de frases justapostas, sem conectivo de coordenação, é habilmente manejada pelo romancista alagoano na construção do discurso ficcional, que se dá por “contaminação abusiva”, segundo Silviano, conferindo continuidade a semelhanças ou reforçando diferenças, caracterizando também a obsessão de Luís da Silva. O que para alguns críticos é um problema do livro, tornando-o excessivo e comparando-o a narrativas de maior contenção verbal, como S. Bernardo e Vidas secas, para Silviano, na verdade, atesta a sua qualidade artística. A grandeza de Angústia se dá justamente por seu caráter subversivo em relação ao cânone luso-brasileiro e mesmo ao conjunto da obra do escritor alagoano. É um livro que está em desacordo com a mot juste, com os pressupostos da narrativa realista do século XIX. Por isso, “Angústia é o anti-Gustave Flaubert”, segundo o autor de Em liberdade.

Graciliano Ramos, escritor que não se repetia, na observação de Otto Maria Carpeaux, encontrou uma forma que fosse capaz de “borrar os desacertos sentimentais do passado” para enxergar melhor “os caminhos iluminados do futuro”, aponta Silviano Santiago em “A parcimônia do seco, o fascínio do sólido”, ensaio reunido na coletânea Sociologia Política do Nordeste (2024), organizada por André Botelho, Karim Helayel e Rennan Pimentel. Na busca por essa forma, o autor de Memórias do cárcere, mesmo cingido pelas condições da letra e da lei, não deixou de se mover. Para seguir, era preciso marrar paredes, repetidamente, até que outra brecha se abrisse, no concreto ou no discurso. Afinal, como recorda o narrador de Infância, foi na escuridão que ele descobriu o valor enorme das palavras.

Referências

MIRANDA, Wander Melo. (2009). Corpos escritos: Graciliano Ramos e Silviano Santiago. São Paulo: Edusp.

RAMOS, Graciliano. (2025). Memórias do cárcere. Estabelecimento de texto de Ieda Lebensztayn; posfácio de Rodrigo Jorge Neves. São Paulo: Pengui-Companhia das Letras.

SANTIAGO, Silviano. (2022). Em liberdade. São Paulo: Companhia das Letras.

SANTIAGO, Silviano. (2020). Fisiologia da composição: gênese da obra literária e criação em Graciliano Ramos e Machado de Assis. Recife: Companhia Editora de Pernambuco.

SANTIAGO, Silviano et al. (1987). Mesa-redonda. In: GARBUGLIO, José Carlos & BOSI, Alfredo & FACIOLI, Valentim. Graciliano Ramos: antologia e estudos. São Paulo: Ática (Coleção Escritores Brasileiros).

SANTIAGO, Silviano. (2024). A parcimônia do seco, o fascínio do sólido. In: BOTELHO, André & HELAYEL, Karim & PIMENTEL, Rennan. Sociologia Política do Nordeste. Rio de Janeiro: BVPS Coleção.

SANTIAGO, Silviano. (2013). Posfácio. In: RAMOS, Graciliano. Angústia. Edição Comemorativa: 75 anos. Rio de Janeiro: Record.

Sobre o autor

Rodrigo Jorge Neves é Doutor em Estudos de Literatura (Literatura Comparada) pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde também é professor de Literatura Brasileira.


Graciliano Ramos

Graciliano Ramos es un escritor de conflictos. No me refiero a los episodios en los que se vio envuelto a lo largo de su vida, como cárceles y diversos conflictos políticos, sino a la forma en que trabaja con el lenguaje en su búsqueda por representar la realidad social brasileña. A diferencia de los autores de su generación, Graciliano concibe un texto límpido y fluido, y al mismo tiempo fragmentario y abierto, pero no en el sentido del experimentalismo practicado por los primeros modernistas. El autor de Caetés, en la construcción de su narrativa, nos conduce por caminos que a veces se bifurcan, a veces se oscurecen, exigiendo del lector un papel decisivo en la exploración crítica de sus capas de sentido.

En Memórias do cárcere en el capítulo 6 de la primera parte, “Viagens”, cuando es conducido por un joven uniformado a un cuartel de Recife en un coche oficial, el escritor constata: “Comenzaba a esbozarse la terrible situación que iba a perdurar: una curiosidad loca enredada en cuerdas, adentrándose en laberintos, topándose con muros, y ahí cerca la información necesaria, imperceptible en las líneas de un rostro enigmático y frío”. Enredarse en cuerdas y adentrarse en laberintos son expresiones que, además de más asimilables, remiten a la idea de movimiento e indeterminación, mientras que “toparse con muros”, inusual en el lenguaje cotidiano, alude al límite y al choque. La obra crítica y la crítica-ficcional de Silviano Santiago en torno a Graciliano Ramos aborda estas y otras dimensiones del proyecto literario del escritor alagoano. La actualidad de Graciliano reside en el impulso a reescribirlo, como afirmó Silviano en una mesa redonda, en los años 1980, junto a Antonio Candido, Franklin de Oliveira, Rui Mourão, Mário Curvello y José Carlos Garbuglio.

Silviano acababa de publicar uno de los libros más importantes de la prosa de ficción brasileña del siglo XX, En libertad, ganador del Premio Jabuti a la mejor novela (1981). El escritor y crítico literario mineiro fue invitado por el resto de los participantes a iniciar la mesa, dada la novedad de su más reciente obra. En aquella ocasión, Silviano ya era conocido por trabajos fundamentales para los estudios literarios y culturales en Brasil, como Uma literatura nos trópicos y Vale quanto pesa, y tenía una consolidada carrera académica en universidades de Francia y Estados Unidos. Es decir, en una misma persona hablaban el narrador y el crítico literario, un cruce fundamental para comprender su novela. Para él, Graciliano Ramos es el menos clásico de los autores modernistas, en el sentido de la distinción hecha por Roland Barthes, en S/Z (1970), entre textos que se cierran en el acto de la lectura y textos que avanzan, es decir, que exigen una continuación, ya sea desde su punto final, ya sea mediante la posibilidad de su reescritura.

Publicado por la editorial Paz e Terra, En libertad es un diario íntimo imaginado de Graciliano Ramos justo después de su salida de la cárcel, en enero de 1937, pocos meses antes del inicio de la dictadura del Estado Novo de Getúlio Vargas. El escritor alagoano había sido arrestado en marzo de 1936, sin proceso alguno. Es decir, no existía motivo para su detención. La narrativa de Silviano Santiago expone los conflictos del escritor durante los dos meses posteriores a su liberación, ahora residente en Rio de Janeiro, entonces capital federal, mudanza forzada por orden del Estado. Apoyado por una investigación exhaustiva sobre Graciliano y su estancia en Río, el libro está clasificado en las fichas catalográficas como “Ficción”. La palabra proviene del latín fictio, que significa, además de crear, fingir otra identidad, moldear, dar forma. La ficción, por tanto, en su origen, remite a un esfuerzo físico, como el escultor esculpiendo en barro, bronce o mármol. Es como topetarse con muros.

Un trabajo que exige fuerza, pero también notable habilidad con los detalles. El narrador golpea el material bruto y se detiene con el cincel en detalles aparentemente marginales e insignificantes para la historia. Sin embargo, cobran cuerpo y se vuelven fundamentales para el funcionamiento de todo el engranaje narrativo. La relación entre cuerpo y escritura es central para Silviano Santiago en su concepción del diario de Graciliano Ramos. La apertura de la novela es expresiva en ese sentido: “No siento mi cuerpo. No quiero sentirlo por ahora. Solo me permito existir, hoy, en tanto consistencia de palabras”.

Se trata del primer libro de una trilogía de biografías de escritores, seguido por Viaje a México (1993), sobre Antonin Artaud, y Machado (2017), sobre el Brujo del Cosme Velho. En los tres libros, los límites del cuerpo y del lenguaje se desvanecen, cuyo resultado es una prosa en la que los géneros del discurso se mezclan. En el caso de En libertad, las formas del diario, de la novela, de la crítica, de la biografía y del ensayo se desgajan de sus presupuestos tradicionales y son enhebradas con delicados hilos, casi imperceptibles, en otro cuerpo que también es el mismo cuerpo. Silviano, en el encuentro ya referido, responde a Garbuglio afirmando la dificultad del crítico literario en “avanzar en algo que no sea a través del otro”. Así, toma para sí, crítica y literariamente, el cuerpo liberado del viejo Graça. La escritura como cuerpo tomado de otro cuerpo, uno marcado por la experiencia del calabozo, y el otro con las condiciones impuestas por las palabras. Una “prosa límite”, como define el autor mineiro. Al fin y al cabo, “dentro de los límites que nos imponen la gramática y la ley, todavía nos movemos”, revela Graciliano Ramos en Memórias do cárcere, en su edición más reciente.

Wander Melo Miranda, en Corpos escritos (1992), ensayo ineludible sobre Graciliano Ramos y Silviano Santiago, señala la repetición de la intencionalidad de Memórias do cárcere como “testimonio político-existencial” en el texto de En libertad, donde la reconstrucción del pasado funciona “como un palimpsesto histórico de su producción”, una mise en abyme. El diarista ficcional, construido mediante un pastiche del estilo del escritor alagoano, se proyecta al pasado, al período colonial, a través del poeta Claudio Manuel da Costa, y al futuro, en otra dictadura en la historia de nuestra República, mediante el periodista Vladimir Herzog. Ambos personajes tuvieron sus muertes declaradas como “suicidio”. La sustracción de sus cuerpos ocurre, de este modo, también en el plano del lenguaje, considerando que, mediante la palabra, el Estado determina el rastro de sus vidas en la historia. El cuerpo, por tanto, es lo que se dice de él y cómo se dice.

Por ello, al hospedarse en el texto de Memórias do cárcere, el texto de En libertad galvaniza los conflictos vividos por el cuerpo escrito/inscrito de Graciliano Ramos, liberado y también limitado por una perspectiva de la historia hecha de escombros. En Vidas secas, la familia sertaneja se nos presenta en el capítulo “Mudanza” y se despide en el capítulo “Fuga”, vocablos que expresan ideas de indeterminación y desplazamiento. Es decir, no hay solución posible dentro de la estructura vigente para ellos, excepto mantenerse en ese estado de no permanencia para, al menos, sobrevivir. Y todo intento de insurrección contra ese orden instituido, representado en esa novela por la figura del Soldado Amarillo, está condenado al fracaso. ¿Qué puede, entonces, ese cuerpo reescrito de Graciliano Ramos?

En Fisiologia da composição (2020), recopilación de ensayos sobre el proceso de creación literaria en Graciliano Ramos y Machado de Assis, Silviano relaciona el procedimiento de hospedaje con la “forma-prisión”, concepto propuesto por el poeta francés Robert Desnos. La idea sería reproducir textos canónicos a través de su sonoridad, pero modificando palabras y sentidos. Las nociones de repetición y diferencia, aquí, se retoman para pensar, una vez más, el (entre)lugar, siempre en suspensión, del intelectual latinoamericano en una sucesión determinada, sea la de la historia social, sea la del canon occidental, sea la de la política y la economía globales, o incluso la de los límites impuestos por las instituciones democráticas, más aún en tiempos como los actuales, de ascenso de discursos reaccionarios y supremacistas, en los que la justificación de la violencia contra el otro, por ser otro, está a la orden del día.

El hospedaje en el texto primero lo repite, pero críticamente, iluminándolo y ampliando sus cuestiones en nuevas capas de sentido que articulan voces y temporalidades distintas. En Memórias do cárcere, Graciliano Ramos retoma no solo las notas perdidas sobre los días en prisión, sino su libro más doloroso, Angístia, objeto de un ensayo escrito por Silviano para la edición conmemorativa de los 75 años de la novela, en 2013. La dramatización del mundo interior del protagonista, Luís da Silva, compone un juego de espejos con Memórias do cárcere y En libertad, de modo que pasado y presente se entrelazan en fragmentos que van encajando, en el proceso de rememoración, por semejanzas y diferencias.

En Angustia, Silviano identifica la construcción narrativa del conjunto como un procedimiento de “soldadura por sobrantes”. A través de un proceso de doble rememoración, el flujo narrativo avanza con el encaje de micronarrativas, que ocupan los vacíos dejados por la memoria del pasado remoto del personaje. Existe, en ese sentido, la narración de la pasión por Marina y del crimen contra Julião Tavares, así como los vestigios del pasado anterior a estos eventos. La parataxis, enunciación de frases yuxtapuestas, sin conectores de coordinación, es hábilmente manejada por el novelista alagoano en la construcción del discurso ficcional, que se da por “contaminación abusiva”, según Silviano, otorgando continuidad a las semejanzas o reforzando diferencias, caracterizando también la obsesión de Luís da Silva. Lo que para algunos críticos es un problema del libro, haciéndolo excesivo y comparándolo con narrativas de mayor contención verbal, como São Bernardo y Vidas secas, para Silviano, en realidad, atestigua su calidad artística. La grandeza de Angustia radica precisamente en su carácter subversivo con respecto al canon luso-brasileño y al conjunto de la obra del escritor alagoano. Es un libro que está en desacuerdo con la mot juste, con los presupuestos de la narrativa realista del siglo XIX. Por eso, “Angustia es el anti-Gustave Flaubert”, según el autor de En libertad .

Graciliano Ramos, escritor que no se repetía, como observó Otto Maria Carpeaux, encontró una forma capaz de “borrar los desaciertos sentimentales del pasado” para ver mejor “los caminos iluminados del futuro”, señala Silviano Santiago en “La parsimonia de lo seco, el encanto de lo sólido”, ensayo incluido en la recopilación Sociologia Política do Nordeste (2024), organizada por André Botelho, Karim Helayel y Rennan Pimentel. En la búsqueda de esa forma, el autor de Memórias do cárcere, aun limitado por las condiciones de la letra y de la ley, no dejó de moverse. Para seguir, era necesario toparse con muros, una y otra vez, hasta que se abriera otra brecha, en el cemento o en el discurso. Al fin y al cabo, como recuerda el narrador de Infancia, fue en la oscuridad que descubrió el enorme valor de las palabras.

Referencias

MIRANDA, Wander Melo. (2009). Corpos escritos: Graciliano Ramos e Silviano Santiago. São Paulo: Edusp.

RAMOS, Graciliano. (2025). Memórias do cárcere. Estabelecimento de texto de Ieda Lebensztayn; posfácio de Rodrigo Jorge Neves. São Paulo: Pengui-Companhia das Letras.

SANTIAGO, Silviano. (2022). Em liberdade. São Paulo: Companhia das Letras.

SANTIAGO, Silviano. (2020). Fisiologia da composição: gênese da obra literária e criação em Graciliano Ramos e Machado de Assis. Recife: Companhia Editora de Pernambuco.

SANTIAGO, Silviano et al. (1987). Mesa-redonda. In: GARBUGLIO, José Carlos & BOSI, Alfredo & FACIOLI, Valentim. Graciliano Ramos: antologia e estudos. São Paulo: Ática (Coleção Escritores Brasileiros).

SANTIAGO, Silviano. (2024). A parcimônia do seco, o fascínio do sólido. In: BOTELHO, André & HELAYEL, Karim & PIMENTEL, Rennan. Sociologia Política do Nordeste. Rio de Janeiro: BVPS Coleção.

SANTIAGO, Silviano. (2013). Posfácio. In: RAMOS, Graciliano. Angústia. Edição Comemorativa: 75 anos. Rio de Janeiro: Record.

Sobre el autor

Rodrigo Jorge Neves es Doctor en Estudios Literarios (Literatura Comparada) por la Universidad Federal Fluminense (UFF), donde también es profesor de literatura brasileña.