BVPS Edições | Autorais Laura de Mello e Souza

A série Autorais Laura de Mello e Souza chega ao fim com um desfecho à altura: uma entrevista exclusiva da autora ao curador da série, José Newton Meneses.

Nela, a historiadora reflete sobre diferentes dimensões de sua trajetória intelectual e pessoal. Ao longo da conversa, Laura comenta a pesquisa a que tem se dedicado atualmente, compartilha experiências marcantes vividas em arquivos e revisita os autores e historiadores que mais influenciaram sua formação e sua escrita, entre eles seu grande mestre Fernando Novais.

Com esta última publicação, encerramos uma trajetória de leituras que buscou não apenas revisitar textos fundamentais, mas também destacar a vitalidade intelectual da obra de Laura de Mello e Souza. Renovamos nosso agradecimento à autora, pela generosidade em compartilhar sua produção com as leitoras e os leitores da BVPS, e a José Newton Meneses por sua curadoria cuidadosa e sensível. Para acessar a série completa, clique aqui.

Boa leitura!

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Encerramos hoje a série Autorais Laura de Mello e Souza com o ensaio “Intérpretes do Brasil – Texto introdutório a Alcântara Machado, Vida e morte do bandeirante”, publicado na coleção “Intérpretes do Brasil”, organizada por Silviano Santiago em 2000.

O texto ressalta o caráter inovador do livro Vida e morte do bandeirante na historiografia brasileira, em virtude de sua capacidade de relativizar os mitos que cercavam a suposta riqueza da sociedade paulista colonial. Segundo a autora, ao deslocar o foco dos grandes feitos e dos grandes nomes para o cotidiano e a vida material, Alcântara Machado transforma a experiência até então secundária de grupos sociais em objeto central da análise histórica, valendo-se de fontes documentais que só seriam incorporadas à historiografia europeia décadas mais tarde. Tanto o tema quanto o enfoque escolhido expressam uma sensibilidade histórica profundamente moderna e original, instituindo a obra de Alcântara Machado, na interpretação de Souza, como marco inaugural da historiografia brasileira contemporânea.

E não perca, na próxima segunda-feira, o conteúdo bônus dessa Autorais: uma entrevista inédita de Laura de Mello e Souza ao curador da série, José Newton Meneses.

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“Sérgio Buarque de Holanda e uma certa escrita da História” é o nono e penúltimo texto da série Autorais Laura de Mello e Souza, apresentado em 2025 em uma conferência na Academia Brasileira de Letras.

O texto nos convida a percorrer os caminhos longos e tortuosos que levam Sérgio Buarque de Holanda a uma escrita – modernista, sugere a autora – da história, que tem como tema obsessivo a expansão paulista. Como uma “Casa-grande & senzala ao avesso”, seu olhar dirigido para o sertão buscava compreender um “Brasil em movimento”, voltado para as minas e para o interior, surgido a partir da itinerância e da incerteza, que formou uma sociedade de arrivistas e não de aristocratas, discrepando da visão estática do litoral.

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No oitavo texto da série Autorais Laura de Mello e Souza, publicamos dois trechos do seu livro mais recente O Jardim das Hespérides. Minas e as visões do mundo natural no século XVIII (2022): a introdução, “Rumo ao Jardim”, e o capítulo dois, “A dimensão trágica”.

Em um admirável esforço de reconstrução da atmosfera mental das Minas setecentistas, nos textos a seguir a autora analisa a participação do mundo natural na formação sociocultural da capitania. Entre fantasias paradisíacas e o medo do desconhecido, entre a exploração predatória e a riqueza que dela resulta, seu trabalho revela como a relação – profundamente contraditória, e talvez mesmo dialética – entre o avanço da colonização e a devastação da natureza, foi percebida precocemente na nossa história. Publicado pouco depois dos desastres de Mariana e Brumadinho, e num contexto de expansão das fronteiras agrícolas, os textos nos convidam a refletir sobre a maneira como a tragédia foi sendo incorporada ao nosso próprio sentido de progresso.

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No sétimo texto da série Autorais Laura de Mello e Souza, “Perfis brasileiros: Cláudio Manuel da Costa”, reproduzimos quatro capítulos originalmente publicados no livro Cláudio Manuel da Costa: o letrado dividido.

Nele, a historiadora traça o perfil biográfico do poeta Cláudio Manuel da Costa, ao mesmo tempo em que reconstrói um rico panorama das Minas Gerais do século XVIII. Ao percorrer as relações políticas entre os “homens bons” e a Coroa, as tensões da vida privada e as estratégias de ascensão social de um indivíduo de trajetória intensamente pública, bem como a formação de uma sociabilidade letrada na colônia, duas qualidades do trabalho de Souza ganham destaque na leitura: a capacidade de compor um retrato do homem e de sua época que ultrapassa os limites do local, e mesmo do nacional, para alcançar uma abordagem global da História; e o uso da imaginação na elaboração da narrativa historiográfica, não se deixando constranger com os limites do documento.

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Hoje publicamos o sexto texto da série Autorais Laura de Mello e Souza, “Teoria e prática do governo colonial: D. Pedro de Almeida, conde de Assumar’’, originalmente capítulo do livro O Sol e a Sombra. Política e administração na América portuguesa do século XVIII.

Alguns administradores coloniais escreveram textos que ajudam a entender não só a natureza do poder metropolitano como nossa própria tradição política, revelando que o governo na colônia superava os limites do serviço e abria espaço para reflexões originais. É o caso do personagem estudado neste texto: conde de Assumar, governador da capitania de Minas Gerais entre 1717 e 1721 e autor, como Laura de Mello e Souza se empenhou em provar, de um importante texto da historiografia brasileira, o Discurso histórico e político sobre a sublevação que nas Minas houve no ano de 1720. Acompanhando a trajetória pessoal do conde, numa época em que homens de armas eram também homens de letras, Souza observa o processo de aprendizado do governo das conquistas no Império em transformação.

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Trazemos hoje o quinto texto da série Autorais Laura de Mello e Souza, “A conjuntura crítica no mundo luso-brasileiro de inícios do século XVIII”, capítulo do livro O Sol e a Sombra. Política e administração na América portuguesa do século XVIII.

Analisando as tensões entre metrópole e colônia no romper do século XVIII, a historiadora sugere que a ideia de unidade nas terras brasílicas começou a se delinear nos discursos dos integrantes decisórios do poder em Lisboa, antes de ganhar forma nas práticas políticas dos insurretos. Em meio aos conflitos na Europa e aos efeitos da descoberta do ouro na colônia, as autoridades coloniais passaram a entrever nas revoltas o funcionamento de um sistema que só podia ser compreendido em seu conjunto, ainda sem perceber, contudo, como metrópole e colônia, embora constituíssem um mesmo corpo, já abrigavam em si possibilidades inconciliáveis.

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“O nome do Brasil” é o quarto texto da série Autorais Laura de Mello e Souza, publicado em 2001 na Revista de História da ANPUH.

O Brasil nem sempre teve esse nome. Ao longo dos séculos XVI e XVII, a ideia geral que se tinha das terras recém-descobertas era imprecisa, e duas nomenclaturas principais conviviam nos mapas e escritos: Santa Cruz e Brasil. No artigo, Laura de Mello e Souza observa como essa disputa, que dividiu humanistas e comerciantes, refletia uma inquietação maior quanto à própria natureza da ocupação da nova terra.

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Publicamos hoje o terceiro texto da Autorais Laura de Mello e Souza, “Religiosidade popular na colônia”, extraído do livro O diabo e a Terra de Santa Cruz.

Dividido em três partes, o texto analisa a natureza da religiosidade no Brasil colonial. Na primeira, a autora destaca a mistura de elementos católicos, africanos, indígenas e judaicos no cotidiano das camadas populares, que deu origem a uma religiosidade sincrética, especificamente colonial. Na segunda parte, a partir das fontes inquisitoriais, examina a ambiguidade da experiência religiosa nos trópicos: a afetivização da relação com o sagrado produzia uma familiaridade que abria espaço para atitudes de dúvida, censura e irreverência diante dos dogmas da Igreja. Por fim, a historiadora discute como a vida social no Brasil escravocrata era frequentemente interpretada em chave demonológica, enquanto o universo econômico estava associado a traços divinos. A metrópole, assim, aparecia como o destino de salvação, o ponto a que se almejava regressar, uma vez pagas as penas na colônia, e para onde, não por acaso, também se dirigia a produção colonial.

Afastando-se de leituras que reduzem a religiosidade colonial a uma simples deformação do catolicismo europeu e conferindo centralidade às práticas das camadas populares, Laura de Mello e Souza chama atenção para um movimento antagônico que atravessava os dois lados do sistema colonial. Enquanto na Europa se intensificavam os esforços de expurgo das reminiscências folclóricas da fé, a colonização europeia impunha aos trópicos o sincretismo, em todas as suas contradições.

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Dando continuidade à Autorais Laura de Mello e Souza, hoje trazemos o texto “A ideologia da vadiagem”, originalmente publicado no livro Desclassificados do ouro. A pobreza mineira no século XVIII.

Nele, a historiadora examina a constituição de uma camada de desclassificados na sociedade mineira, cujo tratamento pelas elites oscilava entre o ônus ao Estado por sua suposta indolência (que ameaçava a ordem) e a utilidade em tarefas perigosas que os cativos não podiam desempenhar. A camada dominante, ao mesmo tempo que fazia uso da mão de obra dessa população marginalizada sempre que conveniente, difundia um discurso que a estigmatizava como vadia e inapta ao trabalho. Essa ideologia teve consequências profundas, como demonstra a autora, que talvez ainda se façam sentir no presente: impediu a formação de uma consciência de grupo entre os homens livres pobres, fazendo-os se identificarem com a camada dominante em troca de utilidade social momentânea; legitimou a repressão estatal; e serviu para justificar a necessidade absoluta da mão de obra escrava, apresentando a escravidão como a única alternativa viável para o funcionamento da economia colonial.

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BVPS Edições | Autorais Laura de Mello e Souza

É com grande alegria que a BVPS retoma suas atividades em 2026 com mais uma edição da série Autorais, desta vez dedicada à publicação de textos de Laura de Mello e Souza.

Professora titular de História Moderna na USP, onde atuou por três décadas, Laura ocupou, entre 2014 e 2022, a cátedra de História do Brasil na Lettres Sorbonne Université (antiga Paris IV), instituição na qual recebeu o título de Professora Emérita. Autora prolífica, sua obra trouxe contribuições decisivas para a historiografia, tanto do ponto de vista metodológico – ao se abrir à especificidade e à imprevisibilidade – quanto pela escolha de temas marcados pela rarefação e pela complexidade documental.

Curada por José Newton Coelho Meneses (UFMG), essa Autorais reúne nove textos que revisitam aspectos centrais do percurso intelectual riquíssimo traçado por Laura. Eles estão organizados em quatro eixos temáticos que procuram oferecer uma visão ampliada de sua obra: Sociedade, cultura e administração em Minas Colonial; Portugal e o Atlântico – cultura e política no Império português; A América, a Europa e o mundo; Perfis historiográficos e biográficos brasileiros. Ao final, será publicada também uma entrevista inédita com a autora, realizada pelo curador.

Como se pode perceber, os eixos delineiam um movimento de expansão e contração – a de Minas para o mundo e de volta ao Brasil. Assim como Laura jamais se prendeu rigidamente a modelos explicativos – preferindo historicizá-los e tensionar seus próprios limites –, também o local não circunscreve seu horizonte analítico. Autodeclarada historiadora de arquivo, a autora transforma dados dispersos, indícios fragmentários e especificidades documentais em matéria de reflexão abrangente, articulando o particular a quadros interpretativos mais amplos. Desse modo, os eixos da série não se organizam apenas segundo a ordem diacrônica que a leitura impõe, mas configuram um movimento de idas e vindas, em que o geral e o específico se entrelaçam como fios de uma mesma trama.

Agradecemos a Laura de Mello e Souza por nos permitir compartilhar com as leitoras e os leitores da BVPS Edições uma amostra de suas reflexões rigorosas e instigantes, e a José Newton Coelho Meneses por sua curadoria atenta e cuidadosa.

Neste primeiro post, confira a apresentação do curador e, em seguida, o texto “O Falso Fausto”, de Laura de Mello e Souza, originalmente publicado no livro Desclassificados do ouro. A pobreza mineira no século XVIII.

Acompanhe, semanalmente, sempre às segundas-feiras, esta sexta edição da série Autorais – a primeira dedicada a uma historiadora.

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