
Contracultura é o nono verbete que publicamos no Glossário Silviano Santiago, projeto coletivo organizado por Mario Cámara.
O verbete assinado por Fred Coelho (PUC-Rio) amplia o entendimento do termo contracultura para analisar ações e ideias que tensionam a cultura oficial em diferentes contextos históricos. Adotando esse enquadramento, Coelho mostra como na obra e na trajetória de Silviano Santiago a contracultura aparece de diferentes formas: na crítica literária e cultural que pratica, na experiência biográfica de um intelectual que transitou entre Belo Horizonte, Paris, Nova Iorque e Rio de Janeiro entre as décadas de 1950 e 1970, e na interlocução com movimentos políticos radicais e vanguardas artísticas. Para o autor, a obra de Silviano é uma fonte incontornável para compreender a contracultura brasileira e sua “poeira rebelde”.
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Contracultura
Por Fred Coelho (PUC-Rio)
Enquanto termo histórico, a contracultura é uma palavra guarda-chuva para dar conta de uma série de manifestações comportamentais, políticas, estéticas e epistemológicas ocorridas entre as décadas de 1950 e 1970 – majoritariamente em países do Ocidente, porém com desdobramentos em outras regiões do mundo. O termo é utilizado de forma indiscriminada para falar tanto sobre eventos, quanto sobre obras e biografias ligadas a esse período. Em seu sentido mais estrito, ela funciona como um enunciado associado a transgressões performativas (por via da poesia, do teatro, do cinema, da música popular, das artes visuais, da dança etc.) cujos agentes e suas ações “desviam” do “sistema”. Ser ligado à contracultura é, por analogia, ser ligado aos termos que reivindicam tal “desvio”, como marginais, independentes ou alternativos. Assim, a contracultura ganha uma capacidade conceitual elástica para dar conta de diversas situações que podem ser relacionadas – mesmo que de forma epidérmica – a diferentes manifestações – indo do uso do LSD aos movimentos estudantis, da androginia à guerrilha, da macrobiótica aos Panteras Negras. Esses trânsitos, muitas vezes com vetores indo em direções opostas, fazem com que a contracultura tenha ligação direta com a ampliação de movimentos contestatórios ligados às pautas de gênero, étnicas e ambientais.
Neste verbete, vamos expandir a perspectiva conhecida do termo e pensá-lo em sua tensão: ideias e práticas feitas contra a cultura. Ou melhor, contra a ideia oficial (em seus muitos modos de sistematização e hierarquização) de Cultura que circula em um determinado período histórico ou contexto social. Desta perspectiva, atos e ideias feitos no sentido de transgredir a norma – da linguagem, do corpo, da lei – podem ser entendidos como ações (práticas) de sujeitos dissidentes – ou, no contexto brasileiro, subversivos, porra locas, alienados e desbundados. Se a contracultura tem sentido histórico muito preciso quando atrelada aos eventos de maio de 1968 na França ou ao movimento Hippie norte-americano de 1967, o contraponto sugerido acima nos permite ir além dessas datas e eventos “oficiais” e revelar outras “contraculturas”, isto é, ações contra a hegemonia de uma ideia oficial de Cultura (oriunda de um Estado, de um governo, de uma etnia, da Razão, do patriarcado etc.). Uma abordagem anacrônica que, de alguma forma, trata de situações análogas ao que ocorreu na década de 1960, porém em outros tempos e espaços.
No caso da relação entre a obra de Silviano Santiago e esse tema, podemos abordar o assunto a partir dessas diferentes perspectivas. Isso ocorre porque há, pelo menos, duas camadas para falarmos do tema contracultura na obra de Silviano: crítica e biográfica. Na primeira, uma bifurcação aponta tanto para a escrita do ensaísta que faz do seu tempo presente um espaço reflexivo e produtivo, quanto do ficcionista que sabe situar um enredo no olho do furacão de um período histórico que conheceu bem. Já na segunda camada, sabemos que Silviano viveu diferentes momentos de sua vida pessoal e profissional contra a cultura oficial de seu tempo e espaço. Se pudermos esboçar ainda uma terceira camada para pensarmos esse tema em sua obra, vale apontar sua filiação ao pensamento desconstrucionista de Jacques Derrida e sua convivência com autores ligados ao pós-estruturalismo francês, contemporâneo das revoltas estudantis e dos movimentos políticos radicais. Tal aproximação situa a obra do crítico, escritor, ensaísta e poeta no cerne das leituras que alimentaram as práticas políticas oriundas do pensamento contracultural das décadas de 1950-1970.
Indo mais além, pode-se afirmar que o próprio pensamento-vida de Silviano Santiago passa, ao longo de sua trajetória, por uma transformação contracultural interna. O período histórico de grandes agitações e revoluções comportamentais foi também o período biográfico de expansão de horizontes para um jovem intelectual mineiro que se lança no mundo. Do ponto de vista cronológico (e analógico), na mesma época em que Silviano atuava em diferentes cineclubes, revistas e suplementos culturais em Belo Horizonte, os poetas Beats lançavam as bases transgressoras (na poesia, no comportamento sexual, no uso de substâncias psicoativas, na recusa do american way of life, no diálogo com religiosidades de matrizes orientais etc.) do que viria a ser a contracultura norte-americana.
Vale pensarmos que a formação (palavra cara a Silviano) de um pensamento ligado ao rigor e ao cânone dos clássicos nos tempos de Belo Horizonte – feitos sob orientação de nomes como Jacques do Prado Brandão e Francisco Iglesias –, tem no campo do comportamento uma afinidade com manifestações vanguardistas e sociabilidades que, segundo o próprio, produziam contrapontos desviantes para as normas da época. Esse jovem intelectual latino-americano que se via mergulhado na língua francesa para estudar André Gide na Sorbonne, chega a Paris em 1961 e encontra as ruas fervilhando com imigrantes e intelectuais da diáspora africana, em decorrência da guerra da Argélia. Esse processo, a descoberta crua da condição subalterna do intelectual colonizado pelo saber do Ocidente, produz uma imediata desconstrução na trajetória intelectual de Silviano, instaurando uma duplicidade entre o interesse erudito pela tradição moderna ocidental (com seu viés vanguardista, vale ressaltar) e o arrebatamento antropológico e antropofágico pela contemporaneidade.
Sempre entre a universidade e a rua, entre a biblioteca e o front instável da experiência boemia, Silviano é parte de uma geração em Belo Horizonte no final dos anos de 1950 que já pratica uma perspectiva crítica e uma visão pessoal de mundo em que o intelectual público escapa das pressões conservadoras (seja de direita, seja de esquerda) e incorpora, como pares, aqueles segmentos excluídos ou hostilizados pela boa sociedade mineira (pretos, gays e mulheres).[1] Sua ida para o doutorado em Paris e sua imediata entrada no mundo acadêmico norte-americano por meio da Universidade do Novo México (1962), fez com que seu pensamento se instalasse nessa multiplicidade – de nações, de línguas, de leituras, de informações. Quando formula, entre 1969 e 1971 (ou seja, durante o período ligado ao termo histórico da contracultura), o conceito “entre-lugar”, Silviano já vinha atravessando a década de 1960 entendendo e absorvendo as novas vozes políticas e estéticas que adentravam a universidade e o mercado cultural do período. No caso norte-americano, essas vozes eram ligadas, majoritariamente, aos movimentos antirracistas de grupos afro-americanos e hispânicos.
Quando ingressa na Buffalo University (estado de Nova Iorque) como professor de literatura francesa, no segundo semestre de 1969, Silviano já era um intelectual capaz de articular suas experiências acadêmicas a essas transformações. Em Buffalo, ele estará próximo da marcante presença dos Black Panthers no recém-criado Black Studies Program. Ele também interfere diretamente na criação do Puerto Rican Studies Program, por sua vez articulado ao movimento porto-riquenho dos Young Lords. Nesse mesmo período, ele conhece o artista visual carioca Hélio Oiticica, que passa a residir em Manhattan no final de 1970. Eles estavam próximos quando Oiticica e Neville de Almeida, um velho amigo de Silviano dos tempos de Belo Horizonte, realizam a série das Cosmococas em 1973. Essa relação entre Silviano e Oiticica ainda possibilitou que Abdias Nascimento fosse contratado pela Buffalo University. Silviano conseguiu recursos para convidar nomes como Glauber Rocha, Augusto Boal e o próprio Oiticica para participarem de atividades no campus. Se tais artistas e intelectuais brasileiros em Nova Iorque não eram propriamente hippies, o período que vivam (o final dos anos de 1960 e início de 1970) era ainda rico de experimentações comportamentais, sensoriais e estéticas no âmbito de uma contracultura contestatória à vida burguesa – seja nos Estados Unidos, seja no Brasil.
Quando falamos especificamente da contracultura no Brasil (que talvez seja diferente de falarmos de uma contracultura brasileira), temos que pensar que esse termo circulou – e circula até hoje – tanto no que diz respeito à incorporação local do que o mercado cultural internacional oferecia como produto (filmes como Hair e Woodstock, peças como Jesus Cristo Super Star, roupas e acessórios feitos sob medida para uma estética hippie), quanto na sua relação com um setor do campo cultural que fez da transgressão seu espaço criativo.
Esses encontros em Nova Iorque (muitos com a presença de Silviano) e a ligação com interlocutores que ficaram no Brasil são fundamentais para que ocorra um arranjo singular em que revistas radicais como Navilouca e Polem, ou jornais como Presença e Flor do Mal, reunissem em suas páginas psicodelia, cultura pop e ideários utópicos solares, ao lado de discursos sobre a marginalidade urbana e existencial, o experimentalismo formal das vanguardas concretas e neoconcretas e o surgimento selvagem de uma poética que seria definida como marginal. Assim, podemos ver Haroldo de Campos e Waly Salomão, Lygia Clark e Júlio Bressane ou Décio Pignatari e Chacal em um mesmo espaço discursivo. Com um olho afiado e conhecedor intelectual (e pessoal) da maioria desses nomes, Silviano observou de forma interessada a presença da contracultura no país, debruçando-se sobre alguns dos trabalhos que foram feitos dentro dessa perspectiva – e, principalmente, sobre as formas como cada um desses grupos agiram contra a cultura conservadora e torturadora do seu tempo.
Tal interesse ficou maior quando, em 1972, Silviano faz o caminho inverso dos brasileiros autoexilados em Manhattan e vem trabalhar por um ano no Brasil – mais especificamente, no Departamento de Letras da PUC-Rio. Logo após esse período de pesquisa e experimentação in loco, o crítico publicou uma sequência de textos em periódicos e revistas, cujo tema da juventude brasileira era lido pela chave do desbunde – termo adotado à época por Silviano para dar conta do flower power tropical em pleno período de repressão e violência do Estado por parte do governo civil-militar. Os textos, em sua maioria coletados no livro de ensaios Uma literatura nos trópicos (1978) foram “Os Abutres” (1973), “Caetano Veloso enquanto superastro” (1973), “Bom Conselho” (1973) e “O Assassinato de Mallarmé” (1975).[2] Eles permitiram que Silviano, depois de ter passado no exterior boa parte dos anos agudos das transformações na arte brasileira, pudesse abordar o Tropicalismo, a música popular, a poesia marginal e as publicações fugazes da imprensa alternativa. Sua abordagem articulava de forma original tanto um mapeamento desse novo campo contracultural brasileiro, quanto propunha uma análise crítica de suas obras.
Toda vivência descrita acima entre a contracultura norte-americana e a biografia contra a cultura conservadora brasileira é sintetizada no seu romance Stella Manhattan, de 1985. Publicado em pleno período de redemocratização, seu texto camp traz uma escrita definida pelo próprio autor como “proverbial, juvenil, intuitiva, lúdica e estilosa”.[3] Por ter vivido próximo às revoluções sexuais, aos conflitos raciais e às revoltas estudantis do período (o romance abre como a revolta de Stonewall, marco do movimento gay mundial), tais assuntos atravessam a vida de brasileiros em Manhattan durante traumas e perseguições ligadas à ditadura civil-militar brasileira.
De alguma forma, é o ficcionista que amarra os fios soltos de uma trajetória intelectual que conseguiu, como poucos de sua geração, produzir uma obra de reconhecida densidade acadêmica e impressionante engajamento na volatilidade de seu próprio tempo. A política, seja ela de gênero, das artes, ou institucional, ocupa o proscênio de um texto que não deixa dúvidas sobre o impacto da contracultura na vida de seu autor.
Constituindo um perfil indeterminado, desde sua formação como crítico de cinema, poeta e estudante de Letras em Belo Horizonte, até a consagração literária em prêmios nacionais e internacionais, Silviano nunca abandonou uma postura crítica contra a cultura de seu tempo. Por dominar os clássicos sem se adequar ao esperado de quem os estuda, por se aproximar do contemporâneo sem sucumbir ao efêmero do mercado e por apostar no jogo entre ficção e verdade sem apagar a marca autobiográfica que lida com os riscos de suas escolhas, temos na obra de Silviano Santiago um manancial incontornável para entendermos a contracultura brasileira e sua “poeira rebelde”.
Notas
[1] Em uma entrevista concedida para Eneida Leal Cunha e Wander Mello Miranda, Silviano fala sobre seu grupo de amigos em Belo Horizonte no final da década de 1950: “Então a gente levanta o tapete político-partidário que camufla, tira essa poeira rebelde lá de baixo e começa a falar da questão feminina de maneira bastante ampla e feliz. A falar também das preferências sexuais de maneira muito ampla. Pertenciam também à turma figuras que seriam consideradas ‘de cor’ e que, muitas vezes, em grupos anteriores, não teriam todo boa receptividade. Nosso grupo era um mix” (Santiago, 2008).
[2] Para um aprofundamento sobre os textos referidos, suas leituras críticas e o diálogo com os eventos do período, conferir Coelho (2019).
[3] Conferir o prefácio “Diante da porta aberta”, escrito por Silviano para nova edição de Stella Manhattan, publicada pela Companhia das Letras em 2019.
Referências
COELHO, Fred. (2019). Tempo de abutres e superastros. In: SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos – Edição Ampliada. Recife: CEPE, p. 349-359.
SANTIAGO, Silviano. (2008). O intelectual Silviano Santiago. In: CUNHA, Eneida Leal (org.). Leituras críticas sobre Silviano Santiago. Minas Gerais: Editora UFMG/Fundação Perseu Abramo, p. 171-210.
Sobre o autor
Fred Coelho é pesquisador, ensaísta e professor de Literatura Brasileira e Artes Cênicas da PUC-Rio. Participa como pesquisador associado do Núcleo de Estudos em Literatura e Música (NELIM) da PUC-Rio.
Contracultura
Como término histórico, la contracultura es una palabra paraguas que abarca una serie de manifestaciones comportamentales, políticas, estéticas y epistemológicas ocurridas entre las décadas de 1950 y 1970 – mayoritariamente en países de Occidente, pero con ramificaciones en otras regiones del mundo. El término se utiliza de forma indiscriminada para referirse tanto a acontecimientos como a obras y biografías ligadas a ese periodo. En su sentido más estricto, funciona como un enunciado asociado a transgresiones performativas (a través de la poesía, el teatro, el cine, la música popular, las artes visuales, la danza etc.) cuyos agentes y acciones se “desvían” del “sistema”. Estar vinculado a la contracultura es, por analogía, estar ligado a términos que reivindican tal “desvío”, como marginales, independientes o alternativos. Así, la contracultura adquiere una elasticidad conceptual capaz de abarcar diversas situaciones que pueden relacionarse – aunque sea superficialmente – a distintas manifestaciones: desde el uso de LSD a los movimientos estudiantiles, de la androginia a la guerrilla, de la macrobiótica a los Panteras Negras. Estos tránsitos, muchas veces con vectores en direcciones opuestas, hacen que la contracultura esté directamente relacionada con la expansión de movimientos contestatarios ligados a temas de género, étnicos y ambientales.
En esta entrada vamos a ampliar la perspectiva conocida del término y pensarlo en su tensión: ideas y prácticas hechas contra la cultura. Mejor dicho, contra la idea oficial (en sus múltiples formas de sistematización y jerarquización) de Cultura que circula en un determinado periodo histórico o contexto social. Desde esta perspectiva, actos e ideas destinados a transgredir la norma – del lenguaje, del cuerpo, de la ley – pueden entenderse como acciones (prácticas) de sujetos disidentes – o, en el contexto brasileño, subversivos, “porra-locas”, alienados y “desbundados”. Si la contracultura tiene un sentido histórico muy preciso cuando se vincula a los acontecimientos de mayo de 1968 en Francia o al movimiento hippie estadounidense de 1967, el contrapunto sugerido arriba nos permite ir más allá de esas fechas y eventos “oficiales” y revelar otras “contraculturas”; es decir, acciones contra la hegemonía de una idea oficial de Cultura (proveniente de un Estado, un gobierno, una etnia, la Razón, el patriarcado etc.). Es un enfoque anacrónico que, de alguna forma, aborda situaciones análogas a lo que ocurrió en la década de 1960, pero en otros tiempos y espacios.
En el caso de la relación entre la obra de Silviano Santiago y este tema, podemos abordarlo desde esas distintas perspectivas. Esto ocurre porque hay, al menos, dos capas para hablar del tema de la contracultura en la obra de Silviano: la crítica y la biográfica. En la primera, una bifurcación apunta tanto a la escritura del ensayista que hace de su tiempo presente un espacio reflexivo y productivo, como al narrador que sabe situar una trama en el ojo del huracán de un periodo histórico que conoció bien. En la segunda capa, sabemos que Silviano vivió diferentes momentos de su vida personal y profesional contra la cultura oficial de su tiempo y espacio. Si esbozamos todavía una tercera capa para pensar este tema en su obra, conviene señalar su filiación al pensamiento deconstructivista de Jacques Derrida y su convivencia con autores ligados al posestructuralismo francés, contemporáneo de las revueltas estudiantiles y de los movimientos políticos radicales. Tal aproximación sitúa la obra del crítico, escritor, ensayista y poeta en el núcleo de las lecturas que alimentaron las prácticas políticas surgidas del pensamiento contracultural de las décadas de 1950 y 1970.
Más allá de eso, se puede afirmar que el propio pensamiento-vida de Silviano Santiago atraviesa, a lo largo de su trayectoria, una transformación contracultural interna. El periodo histórico de grandes agitaciones y revoluciones comportamentales fue también el periodo biográfico de expansión de horizontes para un joven intelectual de Minas Gerais que se lanza al mundo. Desde el punto de vista cronológico (y analógico), en la misma época en que Silviano actuaba en distintos cineclubes, revistas y suplementos culturales en Belo Horizonte, los poetas beat sentaban las bases transgresoras (en la poesía, la conducta sexual, el uso de sustancias psicoactivas, el rechazo del american way of life, el diálogo con religiosidades orientales etc.) de lo que sería la contracultura estadounidense.
Vale la pena pensar que la formación (palabra cara a Silviano) de un pensamiento vinculado al rigor y al canon de los clásicos en los tiempos de Belo Horizonte – bajo la orientación de nombres como Jacques do Prado Brandão y Francisco Iglesias – encuentra en el campo del comportamiento una afinidad con manifestaciones de vanguardia y sociabilidades que, según el propio autor, producían contrapuntos desviantes a las normas de la época. Ese joven intelectual latinoamericano, inmerso en la lengua francesa para estudiar a André Gide en la Sorbona, llega a París en 1961 y encuentra sus calles vibrando de inmigrantes e intelectuales de la diáspora africana debido a la guerra de Argelia. Este proceso, el descubrimiento crudo de la condición subalterna del intelectual colonizado por el saber de Occidente, produce una inmediata deconstrucción en la trayectoria intelectual de Silviano, instaurando una duplicidad entre el interés erudito por la tradición moderna occidental (con su sesgo vanguardista, conviene subrayar) y el arrebato antropológico y antropofágico por la contemporaneidad.
Siempre entre la universidad y la calle, entre la biblioteca y el frente inestable de la experiencia bohemia, Silviano forma parte de una generación en Belo Horizonte, a finales de los años 1950, que ya practicaba una perspectiva crítica y una visión personal del mundo en la que el intelectual público escapa de las presiones conservadoras (sean de derecha o de izquierda) e incorpora, como pares, a aquellos segmentos excluidos u hostilizados por la buena sociedad minera (negros, gays y mujeres).[1] Su ida al doctorado en París y su inmediata entrada en el mundo académico estadounidense a través de la Universidad de Nuevo México (1962) hizo que su pensamiento se instalara en esa multiplicidad – de naciones, lenguas, lecturas e informaciones. Cuando formula, entre 1969 y 1971 (es decir, durante el periodo vinculado al término histórico de la contracultura), el concepto de “entre-lugar”, Silviano ya venía atravesando la década de 1960 comprendiendo y absorbiendo las nuevas voces políticas y estéticas que penetraban la universidad y el mercado cultural de la época. En el caso estadounidense, esas voces estaban ligadas, mayoritariamente, a los movimientos antirracistas de grupos afroamericanos e hispánicos.
Cuando ingresa en la Universidad de Buffalo (estado de Nueva York) como profesor de literatura francesa en el segundo semestre de 1969, Silviano ya era un intelectual capaz de articular sus experiencias académicas con esas transformaciones. En Buffalo, estuvo cerca de la destacada presencia de los Panteras Negras en el recién creado Black Studies Program. También intervino directamente en la creación del Puerto Rican Studies Program, articulado al movimiento puertorriqueño de los Young Lords. En ese mismo periodo, conoció al artista visual carioca Hélio Oiticica, quien se trasladó a Manhattan a finales de 1970. Estuvieron cerca cuando Oiticica y Neville de Almeida, un viejo amigo de Silviano de los tiempos de Belo Horizonte, realizaron la serie de las Cosmococas en 1973. Esta relación entre Silviano y Oiticica posibilitó que Abdias Nascimento fuera contratado por la Universidad de Buffalo. Silviano consiguió recursos para invitar a nombres como Glauber Rocha, Augusto Boal y el propio Oiticica a participar en actividades en el campus. Aunque estos artistas e intelectuales brasileños en Nueva York no eran propiamente hippies, el periodo que vivieron (finales de los años 1960 y comienzos de los 1970) todavía estaba impregnado de experimentaciones comportamentales, sensoriales y estéticas en el marco de una contracultura contestataria de la vida burguesa, tanto en Estados Unidos como en Brasil.
Cuando hablamos específicamente de la contracultura en Brasil (que quizá sea distinto de hablar de una contracultura brasileña), debemos considerar que este término circuló – y circula hasta hoy – tanto respecto a la incorporación local de lo que el mercado cultural internacional ofrecía como producto (películas como Hair y Woodstock, obras como Jesucristo Super Star, ropa y accesorios hechos a medida para una estética hippie) como en su relación con un sector del campo cultural que hizo de la transgresión su espacio creativo.
Estos encuentros en Nueva York (muchos con la presencia de Silviano) y la conexión con interlocutores que permanecieron en Brasil son fundamentales para que se diera una configuración singular en la que revistas radicales como Navilouca y Polem, o periódicos como Presença y Flor do Mal, reunieran en sus páginas psicodelia, cultura pop e ideales utópicos solares, junto a discursos sobre la marginalidad urbana y existencial, el experimentalismo formal de las vanguardias concretas y neoconcretas y la aparición salvaje de una poética que sería definida como marginal. Así, podemos ver a Haroldo de Campos y Waly Salomão, Lygia Clark y Júlio Bressane o Décio Pignatari y Chacal en un mismo espacio discursivo. Con un ojo atento y conocedor intelectual (y personal) de la mayoría de estos nombres, Silviano observó con interés la presencia de la contracultura en el país, deteniéndose en algunos de los trabajos realizados dentro de esa perspectiva – y, principalmente, en las formas en que cada uno de esos grupos actuó contra la cultura conservadora y represiva de su tiempo.
Ese interés creció cuando, en 1972, Silviano recorrió el camino inverso de los brasileños autoexiliados en Manhattan y vino a trabajar un año en Brasil – más específicamente en el Departamento de Letras de la PUC-Rio. Poco después de ese periodo de investigación y experimentación in situ, el crítico publicó una serie de textos en periódicos y revistas, cuyo tema de la juventud brasileña era leído bajo la clave del desbunde – término adoptado en la época por Silviano para dar cuenta del flower power tropical en pleno periodo de represión y violencia del Estado por parte del gobierno civil-militar. Los textos, en su mayoría recopilados en el libro de ensayos Uma literatura nos trópicos (1978), fueron “Os Abutres” (1973), “Caetano Veloso enquanto superastro” (1973), “Bom Conselho” (1973) y “O Assassinato de Mallarmé” (1975).[2] Estos permitieron que Silviano, tras haber pasado en el exterior buena parte de los años álgidos de las transformaciones en el arte brasileño, pudiera abordar el Tropicalismo, la música popular, la poesía marginal y las publicaciones fugaces de la prensa alternativa. Su enfoque articulaba de forma original tanto un mapeo de ese nuevo campo contracultural brasileño como una propuesta de análisis crítico de sus obras.
Toda la vivencia descrita arriba, entre la contracultura estadounidense y la biografía contra la cultura conservadora brasileña, se sintetiza en su novela Stella Manhattan, de 1985. Publicada en pleno periodo de redemocratización, su texto camp ofrece una escritura definida por el propio autor como “proverbial, juvenil, intuitiva, lúdica y estilosa”.[3] Por haber vivido cerca de las revoluciones sexuales, los conflictos raciales y las revueltas estudiantiles del periodo (la novela comienza con la revuelta de Stonewall, hito del movimiento gay mundial), esos temas atraviesan la vida de brasileños en Manhattan durante traumas y persecuciones ligados a la dictadura civil-militar brasileña.
De alguna forma, es el narrador quien hilvana los cabos sueltos de una trayectoria intelectual que consiguió, como pocos de su generación, producir una obra de reconocida densidad académica e impresionante compromiso con la volatilidad de su propio tiempo. La política, sea de género, artística o institucional, ocupa el proscenio de un texto que no deja dudas sobre el impacto de la contracultura en la vida de su autor.
Constituyendo un perfil indeterminado, desde su formación como crítico de cine, poeta y estudiante de Letras en Belo Horizonte, hasta la consagración literaria con premios nacionales e internacionales, Silviano nunca abandonó una postura crítica frente a la cultura de su tiempo. Por dominar los clásicos sin ajustarse a lo que se espera de quien los estudia, por acercarse a lo contemporáneo sin sucumbir a lo efímero del mercado y por apostar por el juego entre ficción y verdad sin borrar la marca autobiográfica que lidia con los riesgos de sus elecciones, tenemos en la obra de Silviano Santiago una fuente ineludible para comprender la contracultura brasileña y su “polvo rebelde”.
Notas
[1] En una entrevista concedida a Eneida Leal Cunha y Wander Mello Miranda, Silviano habla sobre su grupo de amigos en Belo Horizonte a finales de la década de 1950: “Entonces levantamos la alfombra político-partidaria que camufla, quitamos ese polvo rebelde de debajo y empezamos a hablar de la cuestión femenina de manera bastante amplia y feliz. A hablar también de las preferencias sexuales de forma muy amplia. También pertenecían al grupo figuras que serían consideradas ‘de color’ y que, muchas veces, en grupos anteriores, no habrían tenido muy buena acogida. Nuestro grupo era un mix” (Santiago, 2008).
[2] Para un análisis más profundo de los textos mencionados, sus lecturas críticas y el diálogo con los acontecimientos del período, véase Coelho (2019).
[3] Consúltese el prólogo “Frente a la puerta abierta”, escrito por Silviano para la nueva edición de Stella Manhattan, publicada por Companhia das Letras en 2019.
Referencias
COELHO, Fred. (2019). Tempo de abutres e superastros. In: SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos – Edição Ampliada. Recife: CEPE, p. 349-359.
SANTIAGO, Silviano. (2008). O intelectual Silviano Santiago. In: CUNHA, Eneida Leal (org.). Leituras críticas sobre Silviano Santiago. Minas Gerais: Editora UFMG/Fundação Perseu Abramo, p. 171-210.
Sobre el autor
Fred Coelho es investigador, ensayista y profesor de Literatura Brasileña y Artes Escénicas en la PUC-Rio. Participa como investigador asociado del Núcleo de Estudios en Literatura y Música (NELIM) de la PUC-Rio.
