
Continuando os posts da série A Sociologia Digital e suas Interfaces, publicamos hoje texto de Maria Aparecida Bridi (UFPR), onde analisa como a digitalização do trabalho no Brasil, longe de promover autonomia, aprofunda a precarização sob o neoliberalismo.
A autora desenvolve a categoria de “fábrica digital dispersa” para descrever como plataformas e algoritmos transferem custos e riscos para os trabalhadores, do teletrabalhador ao entregador de aplicativo, estendendo o controle do capital para o domicílio, as ruas e os ambientes digitais, ao mesmo tempo em que atomizam a força de trabalho e dificultam a formação de identidade de classe. Como romper a invisibilidade desses novos vínculos e reconstruir laços de solidariedade em um cenário de profunda atomização social mediada por telas?
A Sociologia Digital e suas Interfaces é uma série da BVPS Edições, com curadoria de Richard Miskolci. A série vai ao ar semanalmente, sempre às quartas-feiras. Outros posts da série podem ser conferidos aqui.
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A fábrica digital dispersa: trabalho em TI, teletrabalho e trabalho de plataforma no Brasil
Por Maria Aparecida Bridi (UFPR)
Introdução
As transformações no mundo do trabalho nas primeiras décadas do século XXI não podem ser compreendidas apenas como uma evolução tecnológica, mas como uma profunda reconfiguração das relações de produção sob a égide do neoliberalismo. O cenário brasileiro revela que a digitalização do trabalho, longe de promover a autonomia prometida pelos discursos gerenciais, tem servido como suporte técnico para a expansão de fronteiras de extração de valor, desfazendo as distinções clássicas entre os espaços da produção, do consumo e da reprodução social.
Este texto propõe analisar as formas de trabalho que emergem dessa dinâmica, caracterizadas por uma heterogeneidade estrutural que abrange desde o teletrabalhador até o entregador plataformizado nas ruas. O argumento central é o de que as tecnologias informacionais digitais, ao atuarem como mediadoras e controladoras da atividade laboral, permitem ao capital externalizar custos operacionais e riscos para os indivíduos, atomizando a força de trabalho. Esse processo dificulta a percepção de uma identidade de classe comum e transforma o habitat e a cidade em extensões diretas do capital.
Nesse sentido, utiliza-se neste artigo a noção de desterritorialização do trabalho para designar o deslocamento do espaço produtivo tradicional da empresa para múltiplos espaços sociais, como o domicílio, as ruas da cidade e os ambientes digitais, sem que isso implique a perda do controle empresarial sobre a atividade laboral, que passa a ser exercido por meio de infraestruturas tecnológicas e sistemas de gestão algorítmica. É nesse contexto que se consolida o que aqui denominamos de “fábrica digital dispersa”, isto é, uma configuração na qual o trabalho se distribui por diferentes territórios sociais, permanecendo, contudo, integrado e coordenado por empresas de plataformas digitais e sistemas de gestão informacional.
Convergência tecnológica e desterritorialização do trabalho digital
A revolução das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), iniciada nos anos 1970, atingiu um novo patamar de capilaridade na última década. Se, em períodos anteriores, o acesso ao computador e à internet era restrito a setores qualificados e núcleos técnicos, a popularização dos smartphones e a universalização dos planos de dados transformaram o equipamento informacional em uma ferramenta onipresente, inclusive na vida das classes populares.
Contudo, essa intensificação do uso não se traduziu necessariamente em um processo de emancipação laboral ou social; ao contrário, resultou na criação de uma infraestrutura técnica que permite ao capital extrair valor em qualquer tempo e lugar, rompendo barreiras geográficas e temporais anteriormente associadas à jornada de trabalho tradicional. A transformação digital, sob o comando do capital, reconfigura estruturas produtivas e formas de trabalho, fazendo emergir novos tipos de empresas e ocupações.
Nesse contexto, a análise das faces do trabalho no chamado capitalismo contemporâneo, muitas vezes denominado “informacional”, “de plataforma”, “digital” ou “cognitivo”, revela uma clivagem estrutural do trabalho mediado e progressivamente controlado pelas tecnologias digitais. Sua marca é uma profunda diversidade e heterogeneidade, abrangendo atividades vinculadas à produção, ao desenvolvimento e à manutenção de tecnologias. Esse escopo compreende desde os profissionais de TI e desenvolvedores de software até trabalhadores fabris de hardware, operadores de call centers, trabalhadores de “fazendas de clique”, entregadores de mercadorias, motoristas e diversas novas atividades que vêm sendo plataformizadas.
Nesse universo do trabalho, de um lado situa-se uma aristocracia do conhecimento, composta por desenvolvedores, arquitetos de software e analistas de sistemas, cuja atividade é marcada pela imaterialidade e pelo uso intensivo de algoritmos. Do outro lado, emerge um vasto “proletariado” digital, isto é, uma classe trabalhadora que abrange desde o trabalho taylorizado em fábricas de hardware e call centers até trabalhadores plataformizados e teletrabalhadores, nos quais a subordinação é frequentemente mascarada pela interface amigável de aplicativos, conforme analisam Lima e Bridi (2019). Os autores destacam que cada um desses segmentos apresenta características específicas em termos de perfil, qualificação, sistemas de remuneração e modalidades de contratação.
Esse campo desafiou a Sociologia do Trabalho a adentrar o setor informacional no Brasil, buscando identificar o que há de propriamente novo no trabalho a partir das configurações desenhadas pelas tecnologias digitais e informacionais[1]. Esses estudos procuraram compreender o perfil dos trabalhadores e a configuração da organização do trabalho em TI. Em decorrência das transformações impulsionadas pelas tecnologias, emergiram novos modelos de negócios e de trabalho, cujas configurações foram viabilizadas por um contexto mais amplo de mudanças políticas e ideológicas.
Esse processo coincidiu com uma ampla agenda neoliberal de questionamento do trabalho protegido e de implementação de reformas laborais, que estruturou o cenário para a ascensão das empresas de plataformas digitais. Tais organizações mobilizam milhões de indivíduos, aos quais sistematicamente se nega o estatuto de trabalhador.
Essa descaracterização do vínculo empregatício apoia-se na retórica do “empreendedorismo de si”, na qual o controle disciplinar, antes exercido pela vigilância direta, é convertido em métricas de produtividade e mecanismos de gamificação. Assim, as plataformas se eximem de responsabilidades previdenciárias e securitárias, transferindo a maior parte dos riscos da atividade econômica para o indivíduo isolado. Geralmente controladas por corporações multinacionais, essas empresas operam formas intensivas de exploração da força de trabalho, frequentemente sob o verniz ideológico da chamada “economia do compartilhamento”. Na prática, rejeitam a identidade de empregadoras clássicas, instrumentalizando a tecnologia para descaracterizar a relação de emprego e ocultar a subordinação estrutural.
Esse processo, que vinha ocorrendo em ritmo constante, avançou de forma acelerada a partir da segunda década do século XXI. Observou-se uma intensificação durante a pandemia da Covid-19, que exigiu rápida adaptação ao trabalho a distância, tornando-o viável para atividades passíveis de execução por meio das tecnologias digitais.
A necessidade de distanciamento social, como medida de saúde pública, fez emergir com força inédita a tendência do trabalho realizado no local de moradia. Essa modalidade distingue-se do “trabalho doméstico” do século XIX em razão de sua mediação tecnológica. Ao contrário do trabalho manufatureiro em domicílio oitocentista, o teletrabalho transporta para o interior do lar as hierarquias e os mecanismos de vigilância do espaço corporativo. O espaço privado da casa passou a incorporar atividades antes realizadas em instituições como escolas, universidades e empresas. Atividades como os call centers, que antes implicavam grandes aglomerações de trabalhadores, foram deslocadas para as residências.
As condições desse trabalho tornaram-se objeto de debates e questionamentos sobre sua permanência no período pós-pandêmico. Essa transição forçada, contudo, não ocorreu de forma homogênea, revelando profundas desigualdades nas condições materiais de realização do trabalho remoto, conforme demonstram nossas investigações e a literatura da Sociologia do Trabalho.
A pesquisa do GETS/REMIR, realizada em 2020 no contexto da pandemia, com o objetivo de analisar as condições do trabalho remoto/home office, contou com 906 respondentes de todas as regiões do Brasil e evidenciou a erosão da fronteira entre o público e o privado, mostrando que a suposta “flexibilidade” camufla jornadas estendidas, com demandas em fins de semana e a tendência à ampliação da jornada de trabalho. Para além da ausência de um “escritório” formal, que em muitos casos obrigou o trabalhador a ocupar cozinhas ou cantos improvisados para garantir o acesso à internet, o teletrabalho significou, para muitas mulheres, a reconcentração do trabalho produtivo e reprodutivo no domicílio, aprofundando a desigualdade na divisão das tarefas de cuidado.
A pesquisa corroborou a tese de que a infraestrutura adequada para o trabalho, à época denominado home office ou trabalho remoto, era um privilégio restrito a uma minoria. Essa opção pelo termo deveu-se à compreensão de que o teletrabalho se encontra regulado e ajustado com o trabalhador, ao passo que a maioria dos casos, no contexto da Covid-19, tratou-se de uma adaptação forçada e sem regras.
Ao serem questionados sobre a ergonomia de seu local de trabalho em home office, apenas 30,79% dos entrevistados classificaram suas condições como excelentes, dispondo de escritório com mesa e cadeiras adequados. Em contrapartida, a grande maioria enfrentava cenários de improvisação: para 57,06%, as condições eram apenas razoáveis, contando apenas com parte da tecnologia e dos equipamentos necessários, enquanto 12,14% declararam viver situações péssimas, carecendo da infraestrutura básica para a execução de suas tarefas. Para cerca de 70% dos entrevistados, o ambiente de moradia não estava preparado para a transposição das atividades laborais, resultando em uma “domesticação” forçada do trabalho em espaços multifuncionais e ergonomicamente inadequados.
Essa realidade evidencia que a economia de custos operacionais celebrada pelas empresas e pelo Estado no pós-pandemia fundamenta-se, em grande medida, no desgaste físico e material do trabalhador, que passou a arcar individualmente com o ônus de adaptar seu habitat para atender às exigências de produtividade do capital.
Complementarmente à dimensão ergonômica, a avaliação das condições dos equipamentos e tecnologias disponíveis no domicílio revelou uma divisão significativa na capacidade de resposta dos trabalhadores à demanda pelo remoto. Embora 45% dos entrevistados tenham classificado sua infraestrutura tecnológica como excelente, a maioria absoluta situa-se em patamares de limitação ou exclusão técnica: 51% consideraram suas condições apenas razoáveis, operando com recursos que não atendiam plenamente às necessidades das atividades laborais, enquanto 4% afirmaram enfrentar condições péssimas, carecendo dos instrumentos básicos para o trabalho.
Essa disparidade evidencia que a “conectividade” exigida pelo capitalismo contemporâneo não é distribuída de forma equânime. A predominância de condições “razoáveis” sugere que uma parcela considerável da força de trabalho opera no limite da eficiência técnica, dependendo de equipamentos próprios muitas vezes obsoletos ou compartilhados com outros membros da família. Esse cenário reforça a tese de que a digitalização do trabalho, ao desestruturar o espaço coletivo da empresa, individualiza não apenas o local de trabalho, mas a própria viabilidade técnica da produção, tornando o acesso a equipamentos de qualidade um novo marcador de desigualdade socioprofissional.
Para além do ambiente doméstico do teletrabalho, a Sociologia do Trabalho tem lançado luz sobre os trabalhadores plataformizados. Se no teletrabalho o equipamento central é o notebook, aqui o instrumento de trabalho é o smartphone e o veículo (carro ou moto), subordinados à “gestão algorítmica”. Neste setor, as classes trabalhadoras não utilizam a tecnologia apenas para comunicação, mas como meio de sobrevivência. Motoristas de Uber e entregadores constituem o que se pode denominar como “proletariado digital”, um grupo que, segundo a pesquisa do IBGE (2025), cresceu 25,4% em número de pessoas ocupadas nesse setor em comparação com 2022, cujo contingente era de 1,3 milhão.
Neste trabalho, diferentemente do setor de Tecnologia da Informação (TI), onde ainda há negociação coletiva e sindicatos organizados, conforme observado nas pesquisas sobre os sindicatos em tecnologia da informação (SINDPDs) em 2021, no trabalho plataformizado o controle é invisível e individualizado. O algoritmo define a rota, o valor da corrida e a punição (bloqueio), sem que haja a figura de um superior para questionamento. Enquanto o teletrabalhador enfrenta o adoecimento psíquico pelo isolamento, o trabalhador de plataforma enfrenta a precariedade física, a inexistência de seguro-acidente e a total ausência de vínculos garantidos pela CLT, apesar da subordinação clara ao sistema informacional.
As centrais de atendimento (call centers), resultado do avanço da externalização adotada pelas empresas a partir dos anos 1990, foram impactadas pela pandemia em 2020. Inúmeros call centers, que antes aglomeravam centenas de trabalhadores em galpões taylor-fordistas, foram desestruturados fisicamente. A atividade foi pulverizada, e essa “desterritorialização” significou a criação de milhares de microunidades de atendimento nas residências, onde o custo da infraestrutura foi integralmente repassado ao trabalhador. Como analisam Bridi, Trópia e Vazquez (2024), a transição para o âmbito doméstico não arrefeceu a disciplina taylorista. Pelo contrário, as ferramentas digitais de monitoramento (softwares de log-in/log-out, métricas de tempo e gravação de telas) mantiveram a subordinação rígida dentro de casa. O trabalhador, muitas vezes em condições habitacionais precárias, passou a lidar com a pressão por produtividade sem o suporte imediato de supervisores ou a sociabilidade no espaço do trabalho, o que acentua o sentimento de solidão e o sofrimento psíquico.
Outro segmento reconfigurado no contexto da pandemia e da plataformização da economia em curso é o setor financeiro digital, que representa o ápice da simbiose entre desterritorialização bancária e precarização. Bridi, Trópia e Vazquez (2024) destacam a transição de ocupações típicas do bancário para modalidades de “parceria” ou prestação de serviços (PJ), refletindo a estratégia de externalizar os custos da força de trabalho e desvincular o capital dos encargos sociais e trabalhistas da CLT.
Nessas atividades, os sistemas de gestão de metas em tempo real mimetizam o controle taylorista de forma invisível. O trabalhador isolado é monitorado por métricas de desempenho digital em um cenário de disponibilidade permanente de seu tempo. Para o trabalhador, isso significa o ônus de garantir a infraestrutura de conexão de alta performance necessária para operar sistemas complexos e a própria cibersegurança. A responsabilidade técnica e o risco operacional, antes centralizados na instituição, tendem a recair sobre o indivíduo, dificultando a percepção de uma identidade de classe comum e fragilizando a ação coletiva.
Considerações finais
A análise das diversas faces do trabalho digital no Brasil revela que a tecnologia tem atuado como suporte técnico para a expansão de uma agenda de precarização e individualização de riscos. O cruzamento entre a Sociologia do Trabalho e a Sociologia Digital permite compreender que a pretensa “imaterialidade” do dado e do algoritmo ancora-se em uma materialidade física exaustiva e em uma disciplina frequentemente até mais rígida do que aquela do antigo chão de fábrica. Seja no isolamento do teletrabalhador doméstico, na vigilância algorítmica do operador de call center ou na jornada incerta do entregador plataformizado, observa-se a consolidação de uma “fábrica dispersa”. Nela, o domicílio e a via pública tornam-se extensões do espaço produtivo, sem que o capital assuma as responsabilidades quanto à saúde, à infraestrutura e à seguridade do trabalhador. O desafio para a regulação pública e para a organização coletiva no século XXI reside em romper a invisibilidade desses novos vínculos e reconstruir laços de solidariedade em um cenário de profunda atomização social mediada por telas.
Notas
[1] As investigações pioneiras no campo da Sociologia do Trabalho sobre este segmento no Brasil foram articuladas a partir de projetos financiados pelo CNPq, com foco inicial na indústria de informática no Paraná. Parte desses resultados foi sistematizada na obra Flexíveis, virtuais e precários? Os trabalhadores em tecnologia da informação (Bridi & Lima, 2018), que condensa pesquisas iniciadas em 2011 pelos grupos de pesquisa coordenados por Maria Aparecida Bridi (UFPR) e Jacob Carlos Lima (UFSCar).
Referências
BRIDI, Maria Aparecida & TROPIA, Patrícia Vieira & VAZQUEZ, Bárbara Vallejos. (2024). Teletrabalho e saúde no contexto da pandemia de covid-19. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v. 49.
GETS/UFPR & REMIR. (2020). Relatório técnico de pesquisa: trabalho remoto/home office no contexto da pandemia covid-19. Curitiba.
IBGE. (2022; 2025). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua): teletrabalho e plataformas digitais. Rio de Janeiro: IBGE.
LIMA, Jacob Carlos & BRIDI, Maria Aparecida. (2019). Trabalho digital e emprego: a reforma trabalhista e o aprofundamento da precariedade. Caderno CRH, Salvador, v. 32, n. 86, p. 325-341, maio-ago.
Sobre a autora
Maria Aparecida Bridi é professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Paraná e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia dessa mesma universidade.
