Lançamento | “E quando a limonada antropológica azeda?”, organizado por Rodrigo Toniol e Soraya Fleischer

Divulgamos hoje o lançamento do livro E quando a limonada antropológica azeda?, organizado por Rodrigo Toniol, professor do Departamento de Antropologia Cultural da UFRJ, e Soraya Fleischer, professora do Departamento de Antropologia da UnB. A publicação é da editora Zouk, de Porto Alegre.

Os textos reunidos na obra são de autoria de Tiago Nogueira Hyra e Chagas Rodrigues, Tadeu Lopes Machado, Stephania Gonçalves Klujsza,  Natânia Lopes, Karina Kuschnir, José Miguel Nieto Olivar, Jaqueline Ferreira, Guillermo Vega Sanabria, Clarice Cohn e Pedro Paulo Gomes Pereira.

O livro está em pré-venda e pode ser adquirido por este link.

Confira abaixo uma apresentação dos organizadores sobre a obra.

Boa leitura!



Quando a pesquisa antropológica desanda devemos sempre fazer do limão uma limonada?

Por Rodrigo Toniol (UFRJ) e Soraya Fleischer (UnB)

Em 2022, a publicação de Argonautas do Pacífico ocidental completou um século. Tão logo foi lançada, ainda na década de 1920, essa monografia consolidou-se como um verdadeiro monumento da etnografia, que tem sido capaz de balizar muitas imaginações sobre quais são os protocolos, na Antropologia e em tantas outras áreas, para um trabalho de campo bem-sucedido. É verdade que, em cem anos, essa obra tanto já foi celebrada como também teve alguns de seus aspectos colocados sob prismas críticos, como seus traços funcionalistas, o modo de descrição dos “nativos”, o contexto colonial ignorado, para citarmos apenas alguns dos debates mais comuns que ela despertou. Passadas tantas décadas de críticas e celebrações, no entanto, os empreendimentos de trabalho de campo descritos em nossas monografias permanecem guardando um cacoete malinowskiano: são sempre bem-sucedidos. Na cartilha antropológica, no melhor espírito redentorista, o imperativo é: quando algo não ocorrer como se espera, faça do imponderável uma oportunidade para descobrir novas questões, acionar outros debates, reconhecer espaços antes invisíveis. Faça do limão uma limonada.

A capacidade de criar a partir dos limites que se impõem aos pesquisadores certamente é uma qualidade e uma habilidade que devem ser nutridas. Obviamente não é contra isso que nos mobilizamos. Neste livro, estamos empenhados em dar visibilidade ao enorme não dito de que às vezes o trabalho de campo dá errado, fracassa, desanda e nem sempre é possível “salvar” a pesquisa − ou fazer do limão uma limonada. Brigas com interlocutores, impedimentos burocráticos, desentendimentos com comitês de ética, ou mesmo perseguições, paixões, adoecimentos, acidentes, mortes, são inúmeros os assombros cada vez que entramos em campo. Não nos referimos a eventuais e transitórios desafios ou dificuldades, mas a rupturas que impedem completamente o andamento da pesquisa. Talvez seja hora de reconhecermos que a ausência deste debate é um aspecto estrutural de nossa própria narrativa sobre o que é a Antropologia, ou sobre o que gostaríamos que fosse num plano ideal. Ao contrário de nossos colegas historiadores que parecem muito mais dispostos a reconhecer que não tiveram acesso aos arquivos ou não puderam ler determinadas fontes, ou mesmo dos nossos colegas de bancadas de laboratório que assumem ter perdido amostras ou estragado reagentes, na Antropologia o trabalho de campo parece gozar da aurada infalibilidade. Ao negar reconhecer nossas limitações e falhas, reforçamos mitologias heroicistas, ou mesmo sustenta- mos uma ideia de eterna adaptabilidade, infinita e prodigiosa criatividade para contornar os impedimentos.

Talvez nos debatamos demais contra um fantasma do positivismo científico e, dispostos a denunciar a construção histórica da objetividade, caímos em negação. Recusamo-nos a reconhecer que, se há método na ciência que praticamos, a possibilidade de erro ou fracasso deve ser uma premissa. Neste livro, sob muitos aspectos, tematizamos diversos limites que podem se impor no trabalho de campo: os limites dos etnógrafos, dos interlocutores, do ambiente da pesquisa, das agências de financiamentos, das instituições acadêmicas etc. Não queremos fazer deste livro algo
como um manual sobre como evitar “erros no trabalho de campo”, mas enfatizar que a pesquisa antropológica também pode fracassar. E ainda, queremos perguntar: o que a existência desse grande não dito disciplinar nos diz sobre a disciplina?