
Um dos maiores pesquisadores de literatura e críticos literários brasileiros da sua geração faz 70 anos. Ítalo Moriconi é respeitado e querido em medidas estranhamente iguais. Professor aposentado da UERJ, Moriconi é autor de uma série de livros e coletâneas marcantes. Entre suas publicações, destacamos O sangue de uma poeta (1996), dedicado a Ana Cristina César; Como e porque ler a poesia brasileira do século XX (2002); o mais recente Literatura, meu fetiche (2020); as cartas de Caio Fernando Abreu; a antologia Torquato Neto essencial (2017) e a coletânea 35 ensaios de Silviano Santiago (2019).
Para comemorar o aniversário do Ítalo e sua trajetória intelectual, trazemos em primeira mão o diário da sua última viagem à Itália, dividido em dois posts.
Boa leitura!
Diário na viagem – Itália, 2023
Por Ítalo Moriconi
[Perugia, Úmbria, 5 de março]
É grande a indignação popular na milenar província de Crotone (comuna de Cutro), na Calábria, contra a indiferença dos responsáveis ante os apelos do barco de imigrantes naufragando na madrugada gelada da costa italiana. O presidente Matarella fez uma visita muito digna aos caixões friamente enfileirados num ginásio de esportes. Mas num vídeo no site do La Repubblica, quando a reportagem mostra a chegada de um sobrevivente resgatado, alguém no meio da folla/foule exclama – um negro!
No meio da madrugada, no quarto quentinho e protegido, assisto à RAI Storia recapitulando as cenas marcantes da chegada dos primeiros imigrantes albaneses à Itália, trinta anos atrás, num grande iate hiper lotado. Os rapazes jovens, à vista de terra, atiravam-se ao mar, em frente às câmeras, desesperados de tanta felicidade. O mote da reportagem era: “há trinta anos, descobrimos que éramos a América dos albaneses”. Uma percepção confirmada pelos depoimentos de quem estava e de quem não estava no desembarque. Não estava no desembarque quem tinha preferido ficar na Albânia, por não poder ou não querer aproveitar a liberdade trazida pela derrubada do ditador. Penso, minha mente replicando a TV: “quem diria, para os albaneses, a Itália era uma América”.
Reverberações: o livro de Gian Antonio Stela – Quando gli albanesi eravamo noi (Rizzoli, 2003). Minha memória é invadida por imagens de Ellis Island, naquela ida de tantos calabreses para o outro lado, muito além do Mediterrâneo, o inteiro Oceano, a grande abertura. Sobrevém o sono, embalado pelo zumbido da tela, separado pela distância oceânica entre o meu sul, no Rio, e meu norte temporário, aqui.
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Nos tempos de diretório estudantil, brincávamos com os resultados das eleições na Albânia – o ditador de lá e seu PC as venciam sempre com 95 por cento de votos ou mais. No entanto, sua hora chegou e Enver Hoxha foi varrido do poder e simbolicamente executado pela massa que se atirou furiosa sobre suas estátuas. Cada pessoa fazia questão de dar seu soco e sua martelada nas estátuas atiradas ao chão.
Triste fim do comunismo albanês, que nada mais era senão uma ditadura monocrática arrogante, que se acreditava dona da verdade (Hoxha tinha boa formação intelectual) e locatária eterna do poder. O então chamado “socialismo real” era uma ditadura da teoria, dos esquemas abstratos, das planificações de cima para baixo.
Ninguém traiu mais os ideais do socialismo, de Marx, que os regimes comunistas da Europa do Leste, com exceção talvez da Iugoslávia de Tito, cujo regime se mostrou historicamente melhor que o que veio depois, com o desrecalque dos ódios interétnicos, massacres, genocídios. Certa vez, numa viagem, vi um documentário num museu de Berlim, em que mulheres já maduras lembravam com saudade seus tempos de juventude na Alemanha comunista, dizendo que para as mulheres a vida era melhor – mais livre e menos ansiosa para arrumar marido e acompanhar as novidades da cosmética e da última moda. A História revém, devém, naquelas mulheres cujos nomes não gravei, ondas de memória.
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Hoje a Croácia é destino turístico top de linha… na região banhada de sangue e prenhe de histórias. Há muitos séculos, Francisco, daqui pertinho de Assis, lá esteve, buscando por conta própria um caminho de paz entre cristãos e muçulmanos. Meu santinho: o playboy que largou a vida mansa e lacerou seus pés na sandalinha precária.
O ódio profundamente enraizado do povo contra os governantes comunistas da Europa Central, agentes teleguiados por Moscou, talvez explique o desrecalque do fascismo na região e a adesão incondicional de alguns seus atuais governos aos EUA e à OTAN.
Pena que a Europa ocidental esteja embarcando nessa. A Alemanha de Scholz é o caso mais constrangedor, abandonando seu destino geográfico de mediadora entre as duas Europas. Mas a verdade nua e crua é que se as economias da região puderam se reerguer foi porque a imensa capacidade de trabalho de seus povos recebeu muita grana dos americanos que a liberaram da agressão nazista. O preço pago foi ter-se transformado numa espécie de protetorado dos EUA, condição contra a qual ensaiam-se rejeições, mais pela direita.
A Europa Central, claro, foi liberada do nazismo pelos soviéticos. Temos em nossa poesia a Carta de Stalingrado, de Drummond. Passados 80 anos, porém, não convence a manipulação da propaganda por Putin, assumindo a simbologia da bandeira vermelha da foice e do martelo (trabalho e sangue), dizendo estar lutando contra o nazismo na guerra da Ucrânia. Sua União Soviética, ainda nos anos 1980 carimbava “judeu” em passaportes. O que talvez ajude a entender a virada para a direita de Israel dos anos 90 para cá, marcada pela chegada dos egressos da Rússia e da Europa Central, depois da queda do muro. Cadê o Israel dos kibbutzim socialistas, que embalava meu sonho comunista adolescente?
Desço mais um círculo na seminarcose televisiva. Outra reportagem na RAI Storia, dessas que reavivam a memória das coisas humanas feias. O massacre de Katyn. Deve ser difícil ser polonês, porque não dá para não ter ódio preventivo tanto dos russos quando dos alemães. O mesmo Papa que acabou com a Teologia da Libertação latino-americana atuou para infundir nos poloneses alguma vontade de prosseguir.
Vontade de prosseguir… De onde vem ela? Apenas instinto de sobrevivência?
Evoco as “ironias da história” de Isaac Deutscher, memória de adolescência. Se na América Latina, no Brasil, comunismo é sinônimo de história de luta pela liberdade e justiça, na Europa soviética é sinônimo de ditadura, de sociedade sufocada. As ironias da História são ondas de sentimentos coletivos, movidas pelas ilusões dos que sabem e mandam.
[Perugia, 8 de março]
Hoje é o Dia Internacional da Mulher, que já foi uma data de bonitas manifestações no Brasil nos tempos finais da luta contra a ditadura e no período da redemocratização dos anos 1980. Ocorreram nesta data as contundentes passeatas feministas no Rio de Janeiro, já neste século 21. Ni Uma A Menos. Me too. As melhores que fui nos últimos anos.
Imagino que a TV e a imprensa brasileira concederão bastante espaço ao tema, como ontem aqui a TV italiana. Aqui o espaço foi mais ocupado pela Primeira-Ministra, a Meloni, cuja fala teve um pedacinho retransmitido ad nauseam pelos poucos, e de certa forma toscos (em comparação com a Globo), telejornais que a seleção de canais do meu apartamento Airbnb fornece. Eles são bons na cobertura internacional, principalmente da Ucrânia, que vem sendo acompanhada de perto pelos repórteres italianos. Da fala da Meloni, o que a mídia a que tive acesso enfatizou foi o trecho em que ela advoga maior presença de mulheres na direção das empresas.
Em matéria de presença de mulheres na política, neste momento a Itália apresenta uma situação interessante, não pelo número de deputadas ou prefeitas, mas porque tanto a primeira-ministra quanto a secretária-geral do maior partido de oposição (o Partido Democrata, de centro-esquerda, bota centro nisso) são mulheres. A moldura dos discursos aqui ontem teve sabor de convergência entre governo e oposição. No entanto, no dia a dia dos embates, o PD assumiu como prioridade a defesa dos direitos LGBTQ+ e principalmente o reconhecimento da família “arcobaleno” (arco-íris). A ala centrista avalia ser esse tipo de prioridade uma das causas do deslocamento do apoio da classe trabalhadora italiana para os partidos de direita. Meloni cometeu a ousadia de comparecer ao congresso das centrais sindicais, aplaudida pelo centro (aparentemente majoritário nos sindicatos) e execrada pela esquerda clássica, que durante a fala da Premier se retirou do recinto cantando Bella Ciao.
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Me deu vontade de postar no Facebook o quadro de Gustave Courbet, L’origine du monde, mas não o fiz. Autocensurei-me, não só porque provavelmente ele seria apagado pelo robô algorítmico da plataforma, mas também porque acho que seria vilipendiado pela nova contracultura woke (gíria para “acordada”, “conscientizada”) que o filme TAR retrata, por exemplo.
Depois, dando uma guglada wikipédica básica, fiquei sabendo que o quadro, hoje uma notável referência na alta cultura pictórica eurocentrada, foi pintado por Courbet por encomenda de um sultão otomano colecionador de imagens pornográficas. Nem sempre se sabe avaliar a taxa de confiabilidade da Wikipédia… Se o quadro foi encomendado por um pornógrafo, seu título terá sido uma ironia. Aquele tufo obsceno, para muitos ameaçador, é por onde passamos todes, ao nascer.
Fico me perguntando sobre o estatuto desse feminino que abrange da puta à mãe, em nossos tempos de provocação, de práticas, de existências não-binárias. Andei vendo uns vídeos de pornografia gay trans. Confesso que me perturbaram um pouco, não pela pornografia em si, pois eu sou um pornógrafo, mas porque o não binário, concretizado, ainda me desafia como algo da esfera de um certo monstruoso, algo completamente novo e intempestivo no meu repertório de fetiches, independentemente de meu apoio cidadão ao mundo trans no âmbito das liberdades civis. Refiro-me ao monstruoso como percepção social e historicamente condicionada. Há que enfrentar Paul B. Preciado – Eu sou o monstro que vos fala – Relatório para uma academia (Zahar, 2022). Já começa citando Derrida e Kafka.
Nos vídeos pornô trans gays, vejo homens musculosos, seus peitorais avantajados de guerreiros lutadores, aureolados pela sombra da cicatriz cirúrgica, seus bíceps de ferro sugerindo o intenso e incontrolável desejo do masculino pelo masculino (lembro da cena machadiana em que Bentinho apalpa e inveja o bíceps de Escobar) e o foco do orgasmo no atrito prazeroso entre o velho pênis ereto de um e o clitóris do outro avantajado como uma fatia de fruta – paradiso!
Para uns, será la fin du monde, em contraste com o tufo negro do quadro de Courbet, designado origine, blasfêmia contra o imaginário da Eva bíblica.
Para mim, é un autre monde, para o qual preciso/precisamos de muita pedagogia e muita firmeza na prática da democracia. Uma democracia de nossos sentimentos, uma proliferação de sentidos em nossos corpos e vistas.
[10 de março]
Hoje teríamos na Universidade degli Studi di Perugia, organizado pela incansável Vera Lúcia de Oliveira, um debate sobre crítica e criação e em seguida uma leitura de poesia. Mas as atividades na Universidade foram canceladas pelo Reitor, como precaução, por causa do terremoto com epicentro numa cidade aqui perto (Umbertide), cujas ondas vieram até Perugia. Tive assim uma primeira experiência dos tremores de terra comuns na Úmbria, que meu pai relatava ao final de nossos jantares em família em Brasília.
Eram oito horas da noite. Eu estava esquentando uma comida e de repente o apartamento baloiçou como um barco. Foi só uma balançada, mas suficiente para me fazer seguir a instrução que me fora dada pelos locais. Se sentir alguma coisa, aproveite que está no primeiro andar e saia correndo para a rua. Quando saí, a população toda do meu quarteirão estava já lá embaixo. Estou no coração do bairro estudantil da cidade, eram, portanto, muitas jovens, a maioria de fora daqui, vindas de outras áreas do país. Pareciam dispostas a permanecer no frio de 10 graus a noite toda (e olha que as temperaturas estão subindo, vem aí a primavera).
Aos poucos, porém, tudo serenou. Os naturais da terra nem se abalaram. Continuavam em casa, lendo, vendo TV, jantando, preparando-se para dormir. Estão mais que acostumados a esses pequenos abalos. Em seus 2400 anos de história, Perugia, diz-me o proprietário de meu Airbnb, apesar de situada numa região, digamos assim, tectonicamente comprometida, nunca desabou. Ao contrário de Assis, aqui pertinho. Há não muitos anos, essa joia de cidade medieval sofreu um abalo sísmico que destruiu para todo o sempre uma igreja com afrescos originais de Giotto.
Quatro anos atrás, eu fazia esse mesmo roteiro de agora, entre Perugia e Roma, fugindo do calor tremendo do Rio e buscando traços da herança paterna nas belas paisagens da Úmbria onde ele nasceu. A situação era e é propícia para o reencontro com o lazer que me faz voltar um pouco à raiz semiamadora de minha escrita poética.
[10 de março]
Posto no Facebook foto tirada durante um passeio bilingue com os poetas Walter Cremonte (de Perugia), Vera Lúcia de Oliveira (Perugia-Brasil), Alessio Brandolini (Roma), Alexandre Pilati (Brasília). Ateu tem lugar sagrado? Eu sim! É o Templo de Sant’Angelo, São Miguel Arcanjo, aqui em Perugia, na subida do venerando e acolhedor Corso Garibaldi, onde estive hospedado num pequeno e austero apartamento de estudante há quatro anos. É no final do Corso Garibaldi que fica o mosteiro de Monte Ripido por onde Alfredo Bosi passou, para estudos e pesquisas.
Que bom que Vera Lúcia nos levou ao pequeno templo circular, construído em época paleocristã sobre um sítio pagão consagrado. E ateu tem devoção? Eu sim! Francisco de Assis, na história – Sebastião imaginado, na fantasia do corpo perfeito perdido – José carpinteiro, fora de qualquer poeirento catecismo. Devoção = atenção intensa, permanente. Acima de todos, no meu panteãozinho de tantos homens, o caniço pensante, vibrante, Píer Paolo, o século! Homenageio aqui Alexandre Pilati por ter empreendido a tradução de Le ceneri di Gramsci, um grande poema de Pier Paolo, um grande poema da literatura universal. Recuso pedir perdão, como Drummond no poema “São Francisco de Assis”, de seu livro Claro Enigma. Minha religião é a obra humana. La religione del mio tempo. Em forma de rosa, cito Pier Paolo. A desfolhar-se.
Foi uma intensa, lúcida manhã, depois do terremoto, algo muito real, apesar do desdém manifesto dos locais. Tanto que causou rachaduras numa propriedade do pai do amigo Claudio Maccherani, implicando nas despesas e na dor de cabeça da restauração.