Coluna MinasMundo | Langsdorff, a Universidade e a Capital do Brasil, por Angelo Oswaldo de Araújo Santos

A BVPS publica hoje na coluna MinasMundo texto Angelo Oswaldo de Araújo Santos, jornalista e atual prefeito de Ouro Preto, sobre o naturalista alemão Georg Heinrich von Langsdorff e a criação das primeiras universidades no Brasil.

Segundo o autor, os estudos de Langsdorff apontavam que Minas Gerais deveria sediar a primeira universidade do país. Além disso, seus diários indicam que o arraial de Curral del Rei (posteriormente Belo Horizonte) teria sido uma alternativa conveniente para a nova capital do Império, devido ao seu clima e à melhor posição geográfica em relação às “mais longínquas províncias”.

Boa leitura!


Langsdorff, a Universidade e a Capital do Brasil

Por Angelo Oswaldo de Araújo Santos

Exatos 200 anos atrás, o cientista alemão Georg Langsdorff disse que o Brasil precisava de uma universidade sediada em Minas Gerais e indicava a região de Belo Horizonte para a construção da capital do Império nascente.

Há dois séculos, o Brasil quis criar a sua primeira universidade e o tema ganhou forte debate na Constituinte do Império. Ainda no Setecentos, os conjurados mineiros de 1789 sonharam a criação de uma universidade, que teria sido a primaz do Brasil. Mas, ao largo dos discursos candentes da Assembleia, logo fechada pelo arbítrio imperial, o primeiro projeto de implantação de uma universidade no país foi consubstanciado, em 9 de outubro de 1824, em estudo realizado pelo naturalista Georg Heinrich von Langsdorff (1774-1852), um barão alemão a serviço do imperador da Rússia. Em carta dirigida ao primeiro presidente da província de Minas Gerais, José Teixeira da Fonseca e Vasconcelos, o visconde de Caeté, visando alcançar por seu intermédio o imperador Pedro I, Langsdorff disse que a universidade tinha que ser criada em Minas Gerais.  

Comprova aquela meta dos companheiros de Tiradentes a palavra de José de Resende Costa Filho, um degredado que retornou da África e traduziu o capítulo relativo à Inconfidência Mineira, da História do Brasil, escrita por Robert Southey. Em 1839, ele entregou esse trabalho ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, criado no ano anterior, no Rio de Janeiro.

O próprio inconfidente é citado no texto, no qual se registra o fato de Resende Costa Filho não ter sido enviado pelo pai à Universidade de Coimbra – para a qual seguiram numerosos mineiros ao longo do século XVIII –, ambos confiantes na possibilidade de ele vir a estudar na universidade a ser fundada em Vila Rica de Ouro Preto, de acordo com os planos da Independência do país. [1]  A única instituição de ensino superior em Minas, no período colonial, foi o Seminário de Mariana, criado pelo primeiro bispo, dom Frei Manuel da Cruz, em 1750.

O governo do príncipe regente e futuro rei Dom João VI, sob as luzes que guiavam o espírito do ministro Rodrigo de Souza Coutinho, alguns anos depois da conspiração da capitania de Minas Gerais, em 1801, autorizou a construção, em Angola, pelo degredado José Álvares Maciel, da fábrica de ferro que ele havia imaginado erguer nas proximidades de Ouro Preto, no caso do êxito da conjura. No mesmo ano, a metrópole criou uma aula de medicina em Vila Rica, implantada pelo médico Antônio José Vieira de Carvalho, residente na sede do governo de Minas Gerais, onde mantinha uma oficina de cerâmica no arrabalde de Saramenha, concebida com o apoio do padre Viegas de Menezes, mestre em artes gráficas e pioneiro da impressão de um livro no Brasil, em 1806. Uma aula igual devia ser instalada no Rio de Janeiro, mas o médico nomeado pelo príncipe não conseguiu deixar Portugal, de modo que Ouro Preto acolheu a primeira escola de medicina do Brasil.

Em 1803, o governo de Lisboa cogitou a instalação de uma escola de engenharia de minas. Somente em 1810, ao levar para Ouro Preto o barão Eschwege, engenheiro alemão especialista no setor, houve avanços, com a introdução de novas tecnologias e a inauguração da fábrica de ferro “Patriótica”, em 12 de dezembro de 1812, no termo de Vila Rica, nas proximidades de Congonhas do Campo, junto aos córregos da Prata e das Almas. De suas instalações restam portentosos paredões e muradas de pedra. Seguiram, já no Reino Unido do Brasil, as iniciativas similares do intendente Manuel da Câmara Bittencourt, em Morro do Pilar, nas proximidades de Conceição do Mato Dentro, cujo êxito foi festivamente celebrado no arraial do Tijuco (Diamantina), e de Varnhagen, com a fábrica São João de Ipanema, em Sorocaba, São Paulo.

A transferência do governo português, em 1808, proporcionou uma evolução mais célere ao progresso da colônia, até então contido por uma série de restrições que preponderavam sobre os ensaios de transformação da realidade colonial. O regente criou a Academia médico-cirúrgica da Bahia, em Salvador, e a Academia de Belas Artes, no Rio de Janeiro, onde também se implantaram a escola de medicina e a academia militar. Com a Independência, abriu-se o espaço de reivindicação e debate. O destino da nova nação tentou definir-se em meio a conflitos e confrontos, tanto que a Assembleia Constituinte foi fechada pelo imperador Pedro I, outorgante da Carta Magna de 1824. No seio das polêmicas travadas pelos constituintes, emergiu a ideia de se instituir uma universidade no Rio de Janeiro.

Langsdorff achava-se em Santa Luzia do Rio das Velhas, na travessia da vasta província de Minas Gerais, quando redigiu o documento enviado ao visconde de Caeté a respeito da universidade no Brasil. Em seu estudo sobre as viagens de Langsdorff, entre 1821 e 1829, Bárbara Freitag-Rouanet ressalta que ele dominava onze línguas — “entre elas o português, pois passara quatro anos em Portugal, depois de formado em Göttingen, como médico pessoal do príncipe Christian de Waldeck”. Isso contribuiu para que o czar Alexandre I o nomeasse, em 1813, cônsul-geral da Rússia no Rio de Janeiro, capital do império português. [2]

Wolfgang G. Müller, ex-prefeito de Lahr, a cidade alemã dos Langsdorff, em visita a Ouro Preto, chamou-me a atenção para mais esse ponto relevante na biografia de Langsdorff, ao ter-se preocupado com a criação da primeira universidade nos primórdios do Brasil independente. A ele devo o exemplar da obra de Hans Becher, na qual se transcreve a íntegra da mensagem ao presidente de Minas.

“Ontem e anteontem”, anotou em seu diário em 7 de outubro de 1824, “escrevi um pequeno ensaio a respeito da universidade que deverá ser criada no Brasil e que querem fundar no Rio de Janeiro. Sou da opinião de que ela deveria ser construída na província de Minas – vide meus apontamentos em língua portuguesa”.

Hospedado na ampla casa do tenente-coronel Manoel Ribeiro Vianna, “pessoa opulenta e generosa[3] – “diariamente somos mais de 20 pessoas à mesa” [6] -, o naturalista datou do dia 9 a carta endereçada ao presidente da província mineira. No remate da missiva, desculpou-se e pediu “indulgência para ter talvez abusado da benevolência preciosa com o meu atrevimento”, assinando “G. de Langsdorff, Dr. da Academia Imperial de Ciências em São Petersburgo, das Academias das Ciências em Göettingen, Munnich e de muitas outras”.

A correspondência, localizada pelo professor, etnógrafo, geógrafo e historiador alemão Hans Becher, entre documentos do visconde de Caeté no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, revela, de início, que, no entendimento de Langsdorff, o estabelecimento de muitas universidades feitas de uma vez “foi um erro bem intencionado, mal sucedido e inocentemente cometido pelo nosso augusto imperador Alexandre I, no princípio do seu reinado: de três universidades que foram então estabelecidas de uma vez, no vasto e povoado Império (em Moscou, Charkow e Casan), já não existe senão a de Moscou”. [4]

“Uma só universidade, e esta, bem dotada e provida, seria bastante por agora”, refletiu, ao focalizar a notícia do “Diário Fluminense”, de 13 de setembro de 1824, sobre a criação de uma universidade no Rio de Janeiro. Quis ele expressar ao presidente, rogando-lhe que levasse ao imperador sua análise, o “desejo de poder contribuir, com minhas pequenas forças e poucos conhecimentos, com a experiência da minha vida de meio século, enfim, com o meu grãozinho, à prosperidade deste Império nascente, desta minha pátria adotiva e procurada aos meus filhos”.

A questão principal para Langsdorff foi a escolha do local. “A necessidade de uma (e não mais) universidade é inegável; porém a escolha do lugar aonde estabelecê-la merece a consideração bem madura do Ministério”. Passou, então, a enfatizar as desvantagens do Rio de Janeiro. “Uma cidade grande oferece muitíssimas distrações perniciosas aos estudantes”. O Rio “fica numa extremidade”, não é central e “não oferece as comodidade requeridas para as províncias mais remotas”. “Por esta mesma razão, nem São Paulo nem Pernambuco responde às vistas”. “As despesas tanto para a construção (…) quanto para as compras dos mantimentos para o sustento (…) são, sem comparação alguma, maiores na capital do que numa parte central do Império”.

“O clima e as águas do Rio de Janeiro são mui contrários (…) e produzem a disposição de uma indolência pouco proveitosa aos estudos”. “A moral da mocidade fica mais exposta e mais cedo perdida numa cidade grande”. E por tudo isso, ele enalteceu “a preferência a um lugar central e saudável onde existe um clima moderado”, além de comodidades, abundância de mantimentos e bons preços.

– “Qual é a província, e qual o lugar mais próprio e menos dispendioso para o Estado?”. E ele mesmo respondeu, em seguida: “A província de Minas Gerais”.

Langsdorff indicou, a seguir, três lugares que julgou adequados e pertinentes à instalação da primeira universidade brasileira. “Um Ministério sábio e benevolente” haveria de ter atenção e consideração para com tais sítios, afirmou. São eles:  o Seminário de Mariana, o Eremitério do Caraça, já entregue aos padres lazaristas (município de Catas Altas), e o Vínculo da Jaguara, a fabulosa fazenda de Antônio Abreu Guimarães, hoje no município de Matozinhos, nas cercanias de Pedro Leopoldo.

A opção pelo Seminário de Mariana, argumentou, seria beneficiada pelo fato de haver casas e fundos próprios e requerer menos capitais. A Fazenda da Jaguara, vinculada ao Estado por ato de 4 de junho de 1787, teve três quintos de seus rendimentos estipulados para a instrução pública, de acordo com os alvarás de 27 de outubro e 23 de novembro do mesmo ano de 1787. Isso seria “um socorro mui agradável” para os fundos de uma universidade, estando os rendimentos anuais na casa dos oito contos de réis. Em terceiro lugar, sugeriu “o hospício (hospedaria) e as casas existentes na Serra de Caraça, aonde se acham presentemente as residências dos Padres missionários”, aos quais Dom João VI havia pouco antes confiado o legado do fundador Irmão Lourenço ao monarca.

A maior garantia do sucesso da escolha de um dos três lugares situados em Minas estava, para o sábio alemão, nas características de sua gente. Impressionado com a mão aberta do “ilustríssimo tenente-coronel Manoel Ribeiro Vianna”, anotou que ele “me deu licença de o nomear como quem está pronto de querer dar para este fim uma prova”. Prosseguiu, então: “os habitantes desta província, ricos e generosos, com disposições intelectuais as mais felizes, os quais em todo o tempo concorrerão com meios pecuniários, com donativos e subsídios maiores do que qualquer outra província, e os quais fizeram construir em maior parte, e duas vezes, os palácios reais em Portugal, e certamente não haviam de hesitar, cada um com suas forças e conforme a sua necessidade para a instrução dos seus filhos, e de contribuir voluntariamente com a generosidade reconhecida a eles, tanto para a primeira e única Universidade (grifo na carta) do Império, quanto também para a construção e contribuição de um Palácio Imperial”. [5]

A universidade do Brasil seria tarefa da República. Mas escolas isoladas de ensino superior fundaram-se em diferentes cidades e províncias. A Escola de Farmácia de Ouro Preto foi criada pelos mestres Cabral e Arieira, em 4 de abril de 1839, ainda no período regencial. A Escola de Minas começou a ser concebida em 1874, quando o professor francês Claude-Henri Gorceix, indicado pelo diretor da Escola de Minas de Paris e convidado pelo imperador Pedro II, chegou ao Brasil para conduzir tal projeto. A instalação da Escola de Minas aconteceu em 12 de outubro de 1876. A Escola de Direito de Ouro Preto surgiu em 1892, por iniciativa de Afonso Pena, depois presidente da República, e do escritor Afonso Arinos, que desejavam suprir a necessidade dos estudantes mineiros fadados a se dirigirem às Arcadas de São Francisco, em São Paulo, para os estudos jurídicos. A Universidade Federal de Ouro Preto somente foi criada em 1969.

A Universidade de Minas Gerais surgiu em 1927, em Belo Horizonte, da iniciativa do então presidente do Estado, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, de congregar as diversas escolas superiores da capital numa instituição universitária estadual. Ela foi federalizada em 1949 (UFMG), e hoje Minas Gerais conta com duas universidades estaduais, a UEMG e a Unimontes. O Estado possui onze universidades federais em seu território.

O cientista alemão anteviu a mudança da capital brasileira. No remate de sua considerações, ele ressaltou que seria também necessária a construção de um palácio imperial longe do Rio, “visto que, mais cedo ou mais tarde, será absolutamente preciso escolher para a comodidade de Sua Majestade Imperial e do Governo, para as reuniões dos Senhores Senadores e Deputados, e para eles poderem melhor dirigir o leme do Governo, um centro de reunião, isto é, uma Cidade Central Imperial na Província de Minas Gerais, na Comarca de Sabará, na vizinhança dos rios navegáveis de São Francisco e Rio das Velhas, aonde a vida dos homens é prolongada além dos limites ordinários”.

E continuou em seu diário:

O calor e o clima do Rio de Janeiro e a sua distância em relação às mais longínquas províncias, como Pará, Mato Grosso e Montevidéu – e consequentemente o desconforto para deputados de algumas províncias, que levam mais de oito meses para ir de Mato Grosso ao Rio de Janeiro – todos esses fatores deveriam ser objeto de atenção e reflexão por parte do governo.

O viajante atento impressionou-se com a longevidade dos habitantes de Minas Gerais. Encontrou mulheres e homens com mais de cem anos, conforme registra no seu diário, concluindo que, “de maneira geral, as redondezas do rio das Velhas são muito saudáveis”. [6]

Após assinalar as características do arraial de Curral del Rei, que o credenciavam como um sítio excepcional, Langsdorff arriscou a indagação, nas notas do dia 5 de outubro de 1824: “não seria este o local conveniente para se construir a nova capital do Império?”. [6]

O arraial de Curral del Rei, renomeado Belo Horizonte, em 12 de abril de 1890 e elevado a Cidade de Minas, de 1894 a 1906, quando voltou a chamar-se Belo Horizonte, por decreto do presidente João Pinheiro, cumpriu o destino prenunciado por Langsdorff e tornou-se a capital de Minas Gerais, desde o dia 12 de dezembro de 1897. E o mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira, presidente da República, inaugurou Brasília em 21 de abril de 1960, no planalto central do país, numa homenagem aos partícipes da Inconfidência Mineira de 1789. Cumpriu-se assim o vaticínio de Georg Heinrich von Langsdorff sobre a mudança da capital do Brasil.        


Notas

[1] Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – RIHGB 8:299 (2ª edição). Nota Número 113.

[2] Bárbara Freitag-Rouanet. “Viajando com Langsdorff”. Brasília: Edicões do Senado Federal, Volume 195, 2013, p. 82.

[3] Hans Becher. “O Barão Georg Heinrich von Langsdorff – Pesquisas de um cientista alemão no século XIX”. Brasília: Editora UnB, 1990, p. 72.

[4] Hans Becher. Obra citada, p. 70.

[5] Hans Becher. Obra citada, p. 71 e 72.

[6] Danúzio Gil Bernardino da Silva (org). “Os Diários de Langsdorff – Volume I – Rio de Janeiro e Minas Gerais – 8 de maio de 1824 a 17 de fevereiro de 1825”. Rio de Janeiro: AIEL/Editora Fio Cruz, 1997.

Sobre a imagem que abre o post: Panorama da cidade de Ouro Preto, por Rugendas, em 1824, por ocasião da passagem de Langsdorff pela capital de Minas Gerais