Desassossegos | Coluna de Alcida Rita Ramos

Publicamos hoje o oitavo texto de Alcida Rita Ramos (UnB) na coluna Desassossegos. Baseado na conferência apresentada pela autora na Primeira Oficina de Trabalho PFE-Funai, que ocorreu em setembro de 2013 em Brasília, Alcida nos convida a refletir: por que Antropologia, por que Etnologia Indígena? Sua defesa aberta do conhecimento antropológico é também um questionamento sobre os desafios desse ofício e as lições que ele permite.

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Por que Antropologia, por que Etnologia Indígena?

Por Alcida Rita Ramos (UnB)

O Estado brasileiro investe somas consideráveis na formação de antropólogos, entre muitas outras especialidades. Numa visão utilitarista, a antropologia, como as artes, seria perfeitamente dispensável para o desenvolvimento do país. Então, por que o Brasil encoraja a empreitada antropológica, quando, muitas vezes, ela se opõe frontalmente a projetos desenvolvimentistas de governo, alguns com alta prioridade para o Estado?

Não foi o Brasil que inventou a antropologia como campo específico de estudos. Foi a Europa, quando se deu conta da tolice que eram as imagens grotescas dos seus antípodas. Então, perguntamos: por que a Europa inventou esse campo? Que interesses regeram essa decisão?

Sem entrar na protoantropologia dos gregos, de Marco Polo etc., podemos começar com as grandes navegações dos séculos XV e XVI. Ao contrário do que a imaginação medieval e renascentista construiu sobre os antípodas, monstros incompreensíveis (muito ao gosto da ficção científica de hoje com seus aliens e ETs), o que os descobridores das Américas encontraram foi gente como a gente, mas com hábitos e modos de vida diametralmente opostos aos dos europeus. Começou então o gosto pelos gabinetes de curiosidades, o apelo do exótico, a cobiça de almas perdidas na ignorância de deus e, não menos importante, o desfrute de mão de obra gratuita.

Os nativos do Novo Mundo poderiam ter o físico humano, mas o resto era muito diferente, desde as roupas de peles dos índios norte-americanos ao nudismo dos Tupinambá da costa brasileira. A carta de Pero Vaz de Caminha é um testemunho da perplexidade europeia frente à dolce vita de um paraíso tropical. Limpos e lindos, os ‒ e, principalmente, as ‒ Tupinambá esbanjavam beleza e energia, mas não tinham o que movia os europeus: fé em Cristo e ambição econômica. Não é difícil imaginar o deslumbre dos portugueses, e depois dos franceses, com os corpos cor de jambos apetitosos contra o cenário virgem da baía de Guanabara num belo dia de sol.

Tudo correria bem, índios e europeus, fascinados com tanta alteridade, se desvendando mutuamente, se não fosse pela missão civilizadora autoatribuída dos invasores. Puseram tudo a perder. Convencidos de que faltava ali o cristianismo e a civilização, e que era seu destino manifesto preencher essa lacuna, mandaram vir os missionários que acabaram desempenhando o duplo papel de catequistas e recrutadores de mão de obra escrava, ainda que, talvez, dando-lhes o benefício da dúvida, involuntariamente.

Transformação do corpo da nova escola na região do alto rio Marauiá (AM), Terra Indígena Yanomami. Foto: Daniel Jabra, 2022.

Em menos de duas décadas do encontro dos portugueses com os Tupinambá, já os invasores passaram a ver os nativos através de imensos cifrões que lhes cobriam as pupilas. Daí à escravização foi um passo curto e rápido. Ao ver os indígenas como instrumentos de enriquecimento para a Igreja e para os próprios bolsos, os conquistadores perderam a oportunidade de mergulhar em mundos intelectuais fascinantes e de uma riqueza irrecuperável que não se conta em moedas. Coube aos antropólogos profissionais, cinco séculos depois, a tarefa de desvendar esses mundos. Ao fazê-lo, esses homens e mulheres nunca mais foram os mesmos.

Uma das coisas que nós, etnólogos, descobrimos é a extrema modéstia dos indígenas sobre seu profundo conhecimento seja do mundo físico ao seu redor, seja do mundo invisível das crenças e ideias. Sem alarde, eles nos ensinam coisas de que nem desconfiávamos e que, ao menos a mim, me deixa perplexa e fascinada pelo resto da vida. Na verdade, seria preciso que os antropólogos, antes de partir para a pesquisa de campo entre povos indígenas, se instruíssem em botânica, zoologia, geologia e até física quântica para entender e dar o devido valor aos conhecimentos que os indígenas nos passam e que, por ignorância, só entendemos parcialmente, quando entendemos. O que fazemos quando alguém na comunidade nos pergunta como se faz um caderno ou um fósforo? Pessoalmente, enrubescida, eu baixava os olhos e reconhecia a minha ignorância, até então inconsciente, ao sussurrar um pálido kuê, taimi (não sei na língua sanumá-yanomami), buscando algum consolo na alegada certeza de que o último ocidental a saber tudo sobre a própria cultura foi Aristóteles.

Os esquemas conceituais indígenas são diferentes, seus idiomas de transmissão de conhecimento são distintos e, por isso, quem os ouve superficialmente tende a relegar o que não entende à vala comum de crendices e superstições. Mais recentemente, os adeptos do desenvolvimento sustentável começaram a entender esse mal-entendido e têm se esforçado para furar a bolha da má compreensão que os separa do mundo indígena. Com todas as boas intenções, esses pesquisadores só conseguiram até agora arranhar a superfície desse mundo que levou séculos, não, milênios para se construir.

Transformação do corpo da nova escola na região do alto rio Marauiá (AM), Terra Indígena Yanomami. Foto: Daniel Jabra, 2022.

A antropologia tem sido acusada de filha do colonialismo por ter sido gestada à luz da expansão imperial da Europa, principalmente, da Inglaterra. Mas, se a intenção era desvendar para conquistar, o resultado foi muito mais surpreendente do que se esperava. Nenhum antropólogo de qualidade se expõe por tanto tempo (um, dois anos) à influência da alteridade radical sem ser profundamente afetado por ela. É como se os indígenas, de maneira imperceptível e subliminar, contagiassem os seus etnógrafos com um pouco do seu modo de ser, fazer e pensar, de modo que, por menor que seja, a sua influência persiste no etnólogo quando ele volta para casa e começa a divulgar seus conhecimentos adquiridos no campo. Antropólogos sérios e honestos criam sempre com seus anfitriões um vínculo que dura muito mais do que o tempo de pesquisa. E, mesmo nos tempos imperiais, algumas etnografias geraram em muita gente sentimentos de grande admiração pelos povos retratados por antropólogos que foram acusados de trabalhar para o império. Exemplos notáveis são os Trobriandeses, postos no mapa etnográfico por Malinowski, e os Nuer, mostrados ao mundo por Evans-Pritchard. A posteridade não poupou esses etnógrafos de críticas severas, mas os povos que estudaram continuam nas nossas estantes, ainda que congelados no momento da pesquisa de campo.

Daquilo que os antropólogos aprendem no campo algumas lições se destacam: 1) a impressionante capacidade de sobreviver às condições mais adversas suportadas por mais de quinhentos anos de contato com os conquistadores; 2) o universo de conhecimentos práticos e simbólicos que sobrevivem apesar do gigantesco processo de genocídio que ainda atinge os povos indígenas das Américas desde o fim do século XV; 3) o cuidado com os mais velhos e os mais novos: o respeito pela sabedoria dos mais velhos e a paciência e sensibilidade na formação dos mais novos; 4) a forma democrática de conduzir os assuntos públicos pela via do consenso (e não pela vontade da maioria, que é o voto) e da política da persuasão coletiva (e não da política da coerção monocrática).

Por que é preciso engajar antropólogos para decifrar esses conhecimentos indígenas? Primeiro, porque os indígenas são sábios e modestos demais para apregoar seus próprios méritos a quem nunca deu sinais de interesse. Segundo, porque, de alguma forma, a nação reconhece que manter a diversidade humana é um bem comum que é preciso preservar. Terceiro, porque sem as humanidades, incluídas aí a antropologia e as artes, a vida coletiva estaria reduzida ao nível mais pedestre de existência, o que não glorifica nem beneficia ninguém. Quarto, porque a injustiça suprema de edificar as nações americanas sobre os escombros das sociedades indígenas traz consigo a necessidade moral de algum tipo de reparação e essa reparação exige que se conheça o mais a fundo possível as lógicas que dão sentido à vida dos indígenas. Do momento em que temos acesso a esse conhecimento e usufruímos dele, é impossível não admirar e respeitar os povos indígenas.

Com todos os vícios que a antropologia possa ter ‒ e tem ‒ ela tem dado ao mundo ocidental a oportunidade de se olhar no espelho e ver, não a deslumbrante madrasta, mas um monstro canibal que devora tudo que se atravessa no seu caminho. E, mérito dos méritos, tem seduzido um número crescente de indígenas a empunhar as suas ferramentas de investigação e análise para acessar não só aspectos de suas próprias culturas que o hábito torna invisíveis, mas, e talvez principalmente, as entranhas da sociedade dominante e dominadora. 

Transformação do corpo da nova escola na região do alto rio Marauiá (AM), Terra Indígena Yanomami. Foto: Daniel Jabra, 2022.

A imagem que abre o post é de Joana Lavôr e a foto de Alcida Rita Ramos é de autoria de André Aquere