
Damos continuidade hoje à série Modos de narrar a sociologia brasileira, que se propõe a publicar excertos de memoriais acadêmicos selecionados por sociólogas e sociólogos a fim de contar sequências de uma história mais plural, descentrada e contingente dessa área do conhecimento. O post de hoje – sempre em pares – traz os relatos de Paula Cristina da Silva Barreto (UFBA) e Leopoldo Waizbort (USP).
Narrando aqui parte de sua trajetória, Paula Barreto flagra também a constituição de um novo momento no campo dos estudos das “relações raciais”, marcado pela virada em direção às desigualdades raciais e ao racismo e, posteriormente, à defesa das políticas antirracistas. Já Leopoldo Waizbort realiza uma provocativa “sociologia do memorial acadêmico” que indaga o sentido – extemporâneo e anacrônico, segundo o autor – dessa peça discursiva num mundo cujo grau de racionalização da profissão, soterrado o exercício da “ciência como vocação”, pode ser sintetizado pelo famigerado currículo lattes – figurando as transformações contemporâneas desse espaço social que é a universidade.
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Desejamos a todas e todos boa leitura!
Memorial (2009)
Leopoldo Garcia Pinto Waizbort (USP)
2009: Explicação
Em três momentos da vida universitária fui solicitado a apresentar memoriais acadêmicos: em 1998, no concurso de efetivação como professor assistente doutor; em 2003, no concurso de livre-docência; e agora, no concurso para professor titular.
Este memorial adota um partido para cumprir sua função documental: reúne os memoriais anteriores, que demarcam momentos da trajetória e da auto-reflexão, e os envolve em outro contexto, no qual seus sentidos naturalmente se alteram. O que porventura se perder em atualidade, ganha-se em documentação e testemunho. A isso se acresce a parte de 2009, escrita especialmente para esta situação.
O conjunto oferece portanto uma dupla face, como reflexão e como documentação, na esperança de assim poder melhor cumprir a exigência universitária.
1998: Para uma sociologia do memorial acadêmico. Um fragmento.[1]
De nobis ipsis silemus.
Para o sociólogo, o memorial implica, de imediato, em uma sociologia do memorial.
Escrever um memorial não é, definitivamente, uma tarefa fácil. Mesmo nos limites da sociologia, a grande autobiografia escrita por Herbert Spencer, já há muitos anos, é um marco inaugural em um gênero de excelências e grandes obras. Decerto que o memorial acadêmico não pode postular para si a exclusividade de um gênero; mas situa-se muito próximo de toda a narrativa memorialística e, sobretudo, da autobiografia. Por sua indefinição, ele permite a aproximação com essas formas narrativas, embora, por outro lado, marque uma certa diferença, a ser creditada às exigências contingentes de sua fatura.
O memorial converte o candidato em um narrador de extração distinta da que lhe é usual. Se a escrita e algumas formas narrativas lhe são familiares, em uma vida que consiste também em escrever textos, o texto do memorial impõe suas exigências peculiares e, para muitos dos seus autores mais recentes, é oportunidade para dar curso a pretensões narrativas que, no dia a dia da produção científica, ficam recalcadas.
Entretanto, com isso já estamos no próprio âmago da própria história de nossa disciplina (e talvez não apenas dela). A sociologia surgiu em um espaço narrativo entre a literatura e a ciência (Lepenies, 1988); ela, em sua pretensão de autonomia, viu-se constrangida a se distinguir da literatura, mas em mesma medida reivindicou para si um espaço próprio que não se confundia de imediato com a ciência estabelecida. Nada exprime melhor do que isto a tensão entre tratado e ensaio na sociologia, que sempre oscilou (e ainda oscila) entre pretensões tratadísticas e ensaísticas[2]. Naturalmente, essa tensão não é livre de consequências.
Digamos que a ciência segue a regra doctrina primus, stilus ultimus e a literatura, por seu lado, realiza o stilus primus, doctrina ultimus. Onde está o memorial?
Georg Misch, um autor não de todo distante da sociologia, em virtude de suas ligações com Wilhelm Dilthey, escreveu há quase um século uma gigantesta História da autobiografia que, de tão ampla, viu-se condenada ao inacabado. Isso, entretanto, não afeta sua relevância, porque marca a grandeza do gênero narrativo de que nos aproximamos.
A autobiografia é a história do próprio Eu. Ela supõe, assim, um distanciamento considerável e fundamental: o Eu que narra precisa ser capaz de contemplar a sua própria história e desenvolvimento. Isso supõe, claro está, um momento muito avançado no processo de civilização ou, se se quiser, no processo de formação e identidade do Eu, na medida em que exige um eu claramente formado e circunscrito, ao qual se pode atribuir um desenvolvimento, história, trajetória, peripécia ou o que quer que seja.
A auto-identidade é sem dúvida um grande problema para os sociólogos. Um primeiro desdobramento da questão é abordar a identidade do eu, a identidade profissional, a identidade intelectual. Identidade do Eu é um tema sociológico clássico e, por essa razão mesma, abordado de formas variadas. Só para citar um desdobramento possível, menciono os trabalhos de Habermas e Kohlberg[3]. A questão da identidade profissional é, também, um tema de investigação sociológica, que remete a uma sociologia das profissões que tem por objeto a própria profissão do sociólogo. Emblemático, nesse aspecto, são as reflexões de Weber registradas em “Ciência como vocação”. Por fim, em relação à identidade intelectual, cabe investigar os nexos de influência e a autonomia intelectual que atam e desatam o narrador, de que ele se incumbe e desincumbe.
Um segundo desdobramento da questão é abordar os níveis de identidade a partir dos quais Lepenies propõe tecer uma história da sociologia, a saber: a identidade cognitiva, a identidade social e a identidade histórica. Diz ele:
“[Nesta história da sociologia] indaga-se acerca da peculiaridade e coerência das orientações, paradigmas, formulações de problemas e instrumentos de pesquisa sociológicos (identidade cognitiva); são descritos os processos de institucionalização, através dos quais a disciplina tentou se estabilizar no plano organizacional (identidade social); são por fim retomados alguns dos esforços, realizados já há algum tempo, de reconstruir um passado da disciplina, ao qual em princípio todos os membros da comunidade científica da sociologia podem se remeter (identidade histórica).
A comprovação de uma identidade cognitiva serve, com isso, em primeiro lugar, para distinguir um programa teórico dos programas concorrentes já existentes ou em gestação. A identidade social é alcançada mediante uma estabilização organizatória que garante a sobrevivência na luta pela reputação acadêmica. Finalmente, as pretenções a uma identidade histórica singularizada servem também na distinção das disciplinas concorrentes, mas devem ao mesmo tempo evitar uma diferenciação interna precoce da disciplina” (Lepenies, 1981: 1).
Tudo isso, imagino, são dimensões que devem ser incorporadas, em foco apropriado, na narrativa do memorial. O que demonstra, rapidamente, quão grandes são as suas exigências.
Outro ponto a ser considerado, já que falei em gênero, é o tópico da mistura dos gêneros, que parece ser pertinente no que diz respeito à autobiografia e ao memorial.[4] O que é um memorial, o que o distingue da autobiografia? De uma etnografia de si?
O que deve o memorial acentuar: as continuidades ou as descontinuidades no percurso do professor que se submete ao concurso? As fraturas e as dúvidas com que ele se defrontou e defronta, ou as certezas que ele porventura possua?
Como escrever o memorial: pelo que foi ou pelo que poderia ter sido e não foi? Pelos trabalhos publicados ou pelos não publicados? Pelos concebidos ou pelos que sequer foram imaginados? Pela inserção profissional ou por sua ausência?
Seria possível escrever meu memorial sem falar da instituição na qual me graduei e tornei-me mestre, doutor e docente, isto é, sem falar das ciências sociais e da sociologia na USP entre 1984-1998? E seria possível tal circunscrição?
O memorial enquanto “auto-tematização da pessoa”, como diz Kohli (1981: 428)[5]. Daí a necessidade da etnografia de si, do auto-distanciamento; daí a afinidade com a análise, com a auto-análise.
O memorial acadêmico supõe uma injunção de obra e autor, uma injunção que pode ser positivada ou não, potencializada na figura daqueles autores que se escondem por detrás de sua obra e daqueles outros que se utilizam da obra como fundo de sua figura. Mas o que dizer de um autor que não possui obra e, portanto, não é propriamente sequer autor, como é o meu caso?
Se o memorial se limita à apresentação da própria obra daquele que escreve, a pessoa se esconde por detrás de sua obra. Isso tem sua razão de ser e remonta, por exemplo, a Bacon. Quando ele silencia acerca de si, isso significa que ele não aceita uma razão fundada na autoridade daquele que está falando, ele recusa a hierarquia da ordem estamental e da tradição para fundamentar-se na própria razão, que apenas fala através dele. As questões relativas às condições históricas e biográficas da gênese do pensamento (supondo que a obra seja pensamento cristalizado e decantado) são postas de lado, como se não fossem, elas mesmas, parte do pensamento; como se fosse possível pular sobre sua própria sombra. Isso é até possível; supõe apenas que nos tornemos um Peter Schlemihl.
Como uma narrativa, o memorial joga com ficção e realidade, res factae e res fictae (Koselleck, 1991: 278ss.). A exigência de se anexar ao memorial os documentos que comprovem o que foi dito enfatiza a necessidade de se imaginar que o que foi dito coincide com a realidade. O leitor de romances é curioso pela vida do autor de romances porque imagina que por detrás da ficção do romance há, em algum lugar, em alguma medida, mesmo que ínfima, mesmo que imperceptível, uma realidade vivida pelo autor, que pode – em que medida, não nos interessa aqui – iluminar, ou obscurecer, a ficção. O memorial joga com uma ilusão muito poderosa, pois pretende dizer que o que se narra é o próprio fato e subentende que a ficção está erradicada de sua narrativa. Mas os leitores de memoriais também não são ingênuos e sabem que o memorial é, de qualquer modo, uma objetivação realizada pelo candidato.
O memorial é ocasião para a fantasia do narrador. Ele pode inventar, se descolar da realidade (qual realidade?) e construir as continuidades e descontinuidades que lhe agradem. Se possuir engenho e arte suficientes, quem garante que não convencerá seus examinadores? Por outro lado, o memorial é oportunidade de construção de tudo o que poderia ter sido, para aqueles inúmeros “ou bien” com que Alain Resnais compôs seus “Smoking/No smoking”. O que, diga-se de passagem, a teoria da literatura já havia explorado, como se pode ver pela seguinte passagem de Jauss (1974: 229-230): “Se a lógica narrativa, que aqui ainda se move inteiramente no âmbito restrito da poética clássica, deve fazer justiça à contingência da história, então ela poderia seguir o paradigma do romance moderno que, desde Flaubert programaticamente, desmontou a teleologia da fábula épica e desenvolveu técnicas narrativas com a finalidade de reintroduzir o horizonte aberto do futuro na história passada […]”.
Como narrar a história de vida no memorial? De um passado para um futuro? De um presente para um passado? De um futuro para um presente? De um tempo qualquer? De qual tempo? Por exemplo: narrar a história de vida prospectivamente pode se tornar uma comédia de erros; narrá-la retrospectivamente uma lição de coerência. Qual a melhor opção?
O memorial deve se aproximar mais das “memórias” ou das “confissões” daquele que narra? Se, digamos, as “memórias” se apoiam com mais vigor nos acontecimentos do mundo exterior, e as “confissões” se perdem na terra incógnita do mundo interior, como equacionar interior e exterior na narrativa do memorial?
E não deveria ser creditada à especificidade desse tensionamento sua fisionomia singular?
Isso está, decerto, em relação com o conceito de indivíduo de que depende o memorial. Qual haveria de ser ele? O do indivíduo autônomo e soberano, o da personalidade? Ou o do indivíduo como ponto de cruzamento dos círculos sociais? É o indivíduo que suporta as ações, ou são as ações que levam adiante os indivíduos? Para tantas quantas noções de indivíduo a sociologia conseguir prover, haverá ritmos específicos no andamento da narrativa memorialística.
Ao menos é certo que se precisa atentar para as implicações da reconstrução que dá corpo à narrativa do memorial. “[…] toda narrativa (bem-sucedida) precisa cumprir duas funções: aquela da referência, isto é, da relação frente aos eventos narrados, e aquela da valoração, isto é, da relação frente à situação atual do narrar. Assim, uma narrativa não se esgota na descrição de eventos passados; ela precisa também evidenciar para os ouvintes o ‘sentido’ dos eventos relatados. […] a história nunca é apenas referência ao passado, ela é sempre também uma reconstrução a partir da situação atual […]” (Kohli, 1981: 447, 460).
Outra coisa que também é certa é que todos os gêneros possuem sua história – da epopéia ao romance, do relato científico ao ensaio, e junto a todos o memorial também reclama a sua própria história, a cada vez que é escrito. Isso nos levaria a investigar o desenvolvimento histórico da concepção do memorial e ainda, como um pendant não dispensável, rascunhar uma história dos memoriais da FFCL-FFLCH.
O desenvolvimento histórico da autobiografia, que não é de todo estranha ao memorial, sendo mesmo sua parente próxima, sofreu uma inflexão poderosa por volta do final do século XVIII, quando a ideia da verdade daquilo que se narrava passou a ser uma verdade “interior” ou “subjetiva”, que não estava necessariamente colada à “verdade” “factual” e “exterior” (“objetiva”?)(ver Waizbort, 1996).
Isso nos deixa em meio à indagação acerca da pretensão de verdade que o memorial reclama para si, uma pretensão de verdade que é absolutamente distinta da pretensão de verdade do discurso científico (Habermas, 1987). Essa tensão entre pretensões de verdade diversas é especialmente recalcitrante, ou então pungente, no memorial acadêmico.
Esquematicamente, poder-se-ia dizer que os pólos desse tipo de narrativa são: a construção das coerências ou, no caso mais extremo, a construção da coerência; ou então os acasos, tropeços, contingências e fracassos.
Que concepção de pessoa este memorial – ou aquele outro – põe ou pressupõe? Qual é o Ego que vem aqui à tona? Pois o memorial põe ou pressupõe uma “certa concepção da própria identidade” (Kohli, 1981: 451).
Um outro dilema daquele que escreve um memorial: contar uma história que culmina no “hoje”, que articula o conjunto dos eventos em uma corrente de sentido que desagua no presente e mostra, assim, uma história de vida enquanto uma “trajetória”, que pode ser “congruente”, “constante”, “plena de sentido”, “radical”. Em contrapartida, o que diríamos daquele que escreve um memorial que não culmina no “hoje” e que pode parecer aos seus leitores – que são de fato examinadores – “sem sentido”, e portanto de menor valor: uma “trajetória” “labiríntica”, “confusa”, “dispersante”? O que devemos, uma vez mais, construir, isto é, narrar: continuidades ou descontinuidades?
Kohli (1981: 452) afirma: “É grande a tentação de fazer a sequência relatada dos acontecimentos culminar não só temporalmente no hoje, mas também de a interpretar como uma linha inequívoca de desenvolvimento, que desde o início estava apontada, teleologicamente, para o hoje”. Não é isso que faz a felicidade do leitor de memoriais, que se vê defronte a algo que lhe faz lembrar um Bildungsroman?
Sem a menor pretensão de ir além de um quadro grosseiro e esquemático, reproduzo, apenas como exemplo, algumas distinções feitas por M. Kohli dos modos como se pode contar uma história de vida:
1. Uma história de vida que é criada autonomamente, algo próximo da ideia de um self-made man.
2. Uma história de vida que é orientada por uma meta, isto é, é mantida pelo sujeito em uma direção determinada e superior, não se deixando levar pelas contingências, sufocando-as em favor da meta determinada.
3. Uma história de vida institucional, no sentido da adaptação às estruturas institucionais dadas, como se deixa ver do modo mais claro em uma história que segue o padrão/modelo de uma “carreira”.
4. Uma história de vida de alguém que está sempre procurando, e por isso muda sempre de direção e tem sempre novas embocaduras.
5. Uma história de vida que é um jogo, como se fosse a linha resultante de um paralelogramo de forças exteriores.
6. Uma história de vida auto-reflexiva, que problematiza as possibilidades de continuidade e do eu que conta a história.
É certo que este rol poderia ser ampliado e refinado ao gosto dos leitores. Interessa apenas pontuar a diversidade de embocaduras que se deixam perceber na narração do memorial. Qual é a adequada, a correta, a bela, a enganadora, a instigante, a expressiva, a mentirosa, a reveladora, a secreta…
O sinônimo o mais perfeito para memorial é armadilha. Se ele não narra as continuidades, ele narra, no final das contas, um fracasso. Se o memorial não apresenta as continuidades que levam ao “sucesso”, ele funciona tal qual o Anton Reiser frente ao Bildungsroman: como um caso difícil de classificar.
Memorial e memória. Eis um parentesco para o qual o famoso dito de Wittgenstein parece fazer sentido.
Por que escrever um memorial suscita mais perguntas do que respostas?
Perguntar pela própria ideia de memorial implica em delimitar um âmbito de problemas que mal sou capaz de revolver, quanto mais resolver. A rigor, não posso escrever um memorial;[6] e por isso só me resta apresentar, como Ersatz, um currículo em forma narrativa. […]
2003: Adendo
No mesmo momento em que escrevia e encaminhava o que precede, por ocasião de meu concurso de efetivação no Departamento de Sociologia desta Faculdade, em 1998, minha colega Irene Cardoso escrevia e encaminhava um memorial, escrito para seu concurso de livre-docência. Se há uma diferença geracional que nos separa, há também, nos dois textos, uma similaridade, que é a pergunta pelo sentido do memorial na situação concreta em que o escrevíamos, ela e eu. Os dois aspectos valem a reflexão, e de fato se embaralham, pois que é a diferença de geração que levou cada um de nós a encaminhar de modo bastante diverso uma questão comum. E se me refiro aqui àquele outro memorial, é por considerar que muitas das questões e problemas que ele aborda e desdobra confluem com minha experiência nesta Faculdade, de sorte que retomar alguns de seus desenvolvimentos é uma maneira de escrever este memorial.
É fato que a aspiração daquele memorial é muito diversa da deste, quando postula para si uma exigência que aqui não se pretende: “a atribuição de sentido a uma vida intelectual na universidade”.[7] Não obstante, muito da reflexão assim motivada ultrapassa o registro pessoal, inscrita que está em um nexo histórico que a transpassa, para não falar de como essa “vida intelectual” é ela mesma marcada e marcante do mundo no qual existe. Por conta disso, precisando enfrentar exigência similar, quero retomar o que considero seu argumento principal:
“O memorial, enquanto um ritual acadêmico, estava ligado a uma concepção de universidade que talvez pareça hoje, ao olhar do presente, deslocada, quando a atividade universitária era concebida como vocação, que pressupunha como valor uma ligação íntima entre vida e trabalho intelectual.
As transformações pelas quais vem passando a universidade contemporânea, a sua modernização, deslocam a ideia da atividade universitária como vocação para um outro registro, o da profissão. Esse deslocamento significa agora uma ênfase não mais na ligação íntima entre vida pessoal e trabalho intelectual na universidade, mas sim na separação racional entre essas duas esferas da existência social.
Esta talvez seja uma primeira questão com a qual se defronta hoje aquele que se pergunta sobre o significado de um memorial como atividade universitária. O deslocamento do registro da vocação para o da profissão produz uma modificação profunda do sentido do memorial, ao ponto de que se possa perguntar se não teria havido um esvaziamento do significado do ritual acadêmico, que, de atividade que supunha uma suspensão da rotina, como condição de uma reflexão sobre um itinerário intelectual, tivesse se transformado em atividade rotineira mesmo. De rito, cuja função era a de refundação do sentido da universidade, a partir daquela ligação íntima entre a vida pessoal e o trabalho intelectual, no registro da vocação – ligação entre a particularidade de uma existência pessoal e a instituição universitária – tende a se transformar em rotina profissional, equivalente às tantas outras que devem ser desempenhadas na organização universitária.
O memorial, como expressão de estilos diferentes de itinerários intelectuais, porque construídos a partir das particularidades de inserção na vida universitária, tende hoje a se padronizar, como obrigação acadêmica que deve atender aos requisitos de uma ordenação universitária que se superpõe, ou mesmo tende a desconhecer, se não a anular, as inserções intelectuais particulares na universidade” (Cardoso, 1998: 11).
Todavia, a atividade universitária como vocação, testemunhada e vivida pela autora, já era então extemporânea, por conta de um processo de transformação da universidade e do mundo. Já no início do século XX, Max Weber demonstrou a seus alunos, com sua verve característica, a impropriedade de uma ciência como vocação, a sua extemporaneidade radical em uma época (e ele ainda acrescentou: destino) em que só tem sentido falar da ciência como profissão. E assim, com esse título, “Ciência como profissão”, dirigiu-se aos ouvintes; ouvintes, diga-se de passagem, que estavam ali em busca de profissão, e não vocação – sentido este que já há muito vinha sendo soterrado por aquele.
Na língua de Weber – e havia aí intenção e provocação do sociólogo –, “Beruf”, o termo selecionado, fôra móvel de uma construção semântica bastante significativa, por ocasião da versão da Bíblia para o alemão, por Lutero.[8] Como por um lado a fixação da língua alemã não estava consolidada, e por outro a tradução oferece oportunidade privilegiada para construções e deslizes semânticos, Lutero congregou no termo de chegada “Beruf” mais de um termo de partida, e variadas dimensões de sentido. Sem reconstituir todo o processo, vale fixar sobretudo que há um sentido dúplice do termo na tradução de Lutero, circunscrevendo os significados variados de “vocação” e “profissão”.[9] Entretanto, quando Weber o utilizava, à época da Grande Guerra, após um longo processo de secularização das camadas religiosas de seu sentido, “Beruf” significava exclusivamente “profissão”. Daí o jogo de palavras que embasa (e às vezes embaça) o título e o conteúdo da famosa conferência: embora falando sempre de “profissão”, e reconhecendo que só tem cabimento falar de “profissão”, Weber joga com o sentido soterrado e arcaico do termo, insinuando que é esse outro sentido que poderia dar algum sentido (em um mundo em que falta sentido à vida dos homens) àquilo de que se fala e por que se fala.
Irene, por sua vez, repete o mesmo deslocamento semântico, considerando-o como uma realidade histórica que de algum modo testemunhou. Todavia minha geração, tanto quanto posso avaliar, está em situação similar aos ouvintes de Weber. O que não significa que ela não possa ocasional e repentinamente sonhar, como parece aventar o professor alemão, com o sentido antigo, sem mais lugar neste mundo. (Um outro professor alemão, alguns anos depois, perceberia que esse sonho, quando sonhado, era de fato um pesadelo.)
“Vocação” é um “chamado”, um “sopro interior”, que vem ou da interioridade ou de uma instância superior (Deus, ou equivalente), e que portanto, como sabemos pelo menos desde os românticos, está o mais das vezes em contradição e tensão com o mundo exterior. Se a própria Irene soube indicar a tensão e os limites que a universidade impõe à atividade criadora, o que pensar da passagem da “vocação” à “profissão”? Weber (1988: 202-204), que se pretendia “cientista” e portanto buscava clareza no tocante a essa pergunta, ofereceu como resposta suas célebres considerações ao final de “A ética protestante e o espírito do capitalismo”. A equação demoníaca de “vocação” e “profissão”, na qual esta faz crer que é aquela, aterrorizava, como um fantasma, Max Weber.[10] À minha geração, creio, só resta destacar contínua e intransigentemente a falsidade dessas soluções (“O puritano queria ser um homem de profissão – nós precisamos sê-lo”); nas condições que correm já seria uma grande tarefa, firmando o pé no diagnóstico weberiano, cumprir até mesmo o sentido da “profissão”.
Nesses termos, o memorial delineia o seu problema – segundo Irene (1998: 12), “a questão do tipo de relação entre vida pessoal e instituição universitária” – na disjunção cada vez mais consumada dos dois termos, banindo a vida pessoal em favor da vida propriamente profissional, que transcorre no espaço da universidade (em sentido amplo, como lugar social do conhecimento).[11] Não obstante, é precisamente nesse aspecto que se pode observar um fenômeno curioso: uma vista d’olhos pela coleção dos memoriais mais recentes desta Faculdade mostra como a vida pessoal adentra fortemente nas narrativas, ganhando contorno e relevância inéditos. Creio que a explicação para isso possui várias dimensões (que seria importante estudar); uma delas é que é preciso dar lugar à narrativa da vida pessoal justamente porque a universidade, livre da vocação e tornada profissão (sendo esta algo que se configura segundo uma estandardização e um padrão), não oferece lugar e ocasião para o escoamento do que é pessoal (nos casos modelares, aquilo que Irene Cardoso circunscreve como itinerários e inserções intelectuais particulares), que fica represado. O memorial, então, é o lugar por excelência para abrir as comportas. Talvez em contradição com sua ideia original, mas em sintonia com os tempos que correm, o memorial acadêmico propicia um espaço privilegiado para o “intercâmbio regrado de narcisismos”[12], quando não abdica por completo de qualquer regra.
Não por acaso, Irene aproxima a vocação de uma liberdade que, embora cerceada pela instituição universitária, possibilitava o desdobramento criativo das atividades de professor e pesquisador. Havia, portanto, um jogo de liberdade e limitação, que grosso modo se regia pelas ideias de vocação e de instituição universitária. Jogo este que, creio, não se joga quando regido pelas ideias de profissão e organização universitária. Ou melhor, joga-se, mas trata-se de outro jogo.
O resultado disso é que, se a geração anterior pôde testemunhar, ou melhor, viver “a possibilidade de entrecruzamento do tempo histórico de uma existência individual com o tempo histórico da própria instituição” (Cardoso, 1998: 12), essa possibilidade não se coloca mais, ou ao menos não se coloca para a minha geração – aqui mostra-se a recorrente simultaneidade do que não é simultâneo, desde muito pensada na coexistência sincrônica de diferentes gerações [13], que ganha corpo em uma experiência universitária desigual no intervalo geracional que nos separa.
Anoto ainda que o entrecruzamento que ela assinala e julgo perdido repõe-se de uma outra forma, diria que uma espécie de disjunção, que tem a ver com algo já assinalado: a narrativa do memorial torna-se uma espécie de romance autobiográfico que se desvincula do tempo institucional e voa livre sobre ele, o qual se torna apenas cenário dos acontecimentos (quando muito), enquanto no outro caso, antigamente, era, ao invés de cenário, protagonista.
Trata-se, é certo, de um equilíbrio muito tênue e frágil, pois, como assinala a própria autora para aquela situação, havia sempre o risco da transformação da vocação em devoção, quando uma parte se anula sob a outra. Para não falar dos próprios percalços da instituição enquanto tal, em uma quadra histórica bastante adversa.
Tudo isso se reconfigura sob novas formas na geração seguinte, e sem dúvida em grande parte (mas não só) devido às transformações desse espaço social que é a universidade. Tomo uma vez mais um longo trecho daquele memorial:
“No registro agora, não mais da instituição, mas da organização, a universidade tende a modificar a sua função: de lugar de coordenação da vida universitária, que supunha a articulação de uma pluralidade de estilos de trabalho intelectual, produto daquele tipo de ligação entre uma existência particular e a instituição, torna-se dispositivo de normalização.
Este novo modelo de racionalização da universidade, que se funda na ideia da profissão como esfera racional separada da vida pessoal, subordina o trabalho intelectual aos dispositivos organizacionais, retirando do agente individual a liberdade de exercê-lo de modos ou estilos diferentes. Mas, mais do que isso ainda, os dispositivos organizacionais passam a se autonomizar de tal modo, enquanto força de um modelo, que o trabalho intelectual aparece cada vez mais como efeito dessa normatização. Neste novo modo de funcionamento, a organização universitária passa a garantir o controle sobre o trabalho intelectual, valendo-se dos mecanismos de avaliação prospectiva inerentes ao modelo – que tem como critério a eficiência do sistema, especialmente em relação ao investimento a ele destinado – significando a possibilidade de determinação da própria atividade intelectual, do tempo da atividade e ainda, da elaboração da atividade no tempo. O contexto normativo da universidade sinaliza hoje para uma organização da atividade intelectual, na qual prevalece o modelo da pesquisa coletiva em detrimento da pesquisa individual, de caráter artesanal, apontando mesmo para a diminuição da importância relativa deste estilo de trabalho na organização, se não mesmo para a sua extinção. É o dispositivo da organização que passa a definir o tempo socialmente útil para a produção do conhecimento, construindo a partir deste critério todo o contexto normativo, cada vez menos flexível, da atividade intelectual. Define também o tempo médio de produtividade, independentemente das especificidades das áreas de conhecimento e, evidentemente, das particularidades individuais. Define ainda como finalidade o aumento da produtividade acadêmica, o que vem a significar a diminuição do tempo da produção do conhecimento. Na noção de produtividade está implícita a elaboração temporal da atividade que, ao imbricar atividade e tempo, permite o controle dessa atividade no seu próprio interior.
No limite, o modelo da universidade como organização desconhece ou suprime a atividade intelectual como expressão das particularidades individuais, e portanto a própria ligação entre vida pessoal e trabalho intelectual na universidade” (Cardoso, 1998: 13-14).
Ajunto que a separação de uma ordem profissional da vida, em contraposição à vida pessoal, é caracteristicamente um fenômeno moderno e referente à separação, tipicamente burguesa, da casa enquanto refúgio em contraposição ao local de trabalho.[14] Portanto, a figura organizacional, sob a qual Irene enxerga o processo de transformação, já está de fato indicada na própria fundação e fundamentação da universidade moderna[15] – e não por acaso Niklas Luhmann compreendeu, com acurácia, a universidade como uma espécie de simbiose de organização e liberdade.[16] Nos termos desse sociólogo teríamos, então, uma espécie de limitação crescente da liberdade, em favor da organização, confluindo em um diagnóstico similar ao de Irene.
A autonomização de uma ordem profissional da vida estava, segundo o texto, enlaçada aos procedimentos de normatização, aliás em sintonia com o que Marx já destacara com relação ao operariado industrial. Estamos portanto, novamente, no âmbito daquela conferência de Max Weber, que diagnosticou a situação do pesquisador e professor universitário como uma espécie de operariado específico, mas cada vez menos específico e mais similar ao operariado industrial:
“Podemos então observar com clareza, entre nós, que o desenvolvimento mais recente do universo universitário transcorre em amplos domínios da ciência na direção norte-americana. Os grandes institutos de medicina ou de ciências naturais são empresas ‘de capitalismo de estado’. Elas não podem ser administradas sem recursos empresariais da maior magnitude. E ali ocorre o mesmo que em toda parte onde se implanta a empresa capitalista: a ‘separação do trabalhador dos meios de produção’. O trabalhador, o assistente [na universidade, LW], portanto, não pode prescindir dos meios de trabalho que são postos à disposição pelo Estado; em virtude disso, ele é tão dependente do diretor do instituto como um empregado numa fábrica (pois o diretor do instituto considera, com a maior boa-fé, que o instituto é o ‘seu’ instituto e dispõe dele à vontade): o assistente, com frequência, tem uma existência tão precária como toda existência ‘proletaróide’ e como a do assistente na universidade americana.
Nossa vida universitária alemã americaniza-se, assim como nossa vida em geral, em pontos absolutamente importantes, e esse desenvolvimento, de que estou convencido, vai atingir inclusive aquelas disciplinas (como ainda é atualmente, em grande medida, a minha) nas quais o artesão possui ele mesmo seus meios de trabalho (no essencial: a biblioteca) – em correspondência total com o modo como o antigo artesão, no passado, atuava no interior do seu ofício. O desenvolvimento vai de vento em popa.
As vantagens técnicas são absolutamente indiscutíveis, tal como em todas as empresas capitalistas, ao mesmo tempo burocratizadas. […] Tanto interna como externamente, o antigo espírito universitário tornou-se fictício” (Weber, 1988 [1917]: 584-585).[17]
Aliás, se a geração dos meus professores pôde viver a universidade, meio século após o diagnóstico de Max Weber, em uma situação muito diferente da detectada pelo sociólogo alemão, é porque a universidade que aquela geração experimentou é rigorosamente anacrônica[18]. A experiência do anacronismo possibilitou a existência de duas gerações também anacrônicas (embora cada uma delas a seu modo) – nascidas, grosso modo, por volta de 1920 e 1945 –; a geração seguinte, a que pertenço, nascida com o golpe militar, já não o experimentou, e desde então a profissionalização faz-se mais e mais às custas da vocação, que é ela, agora, extemporânea.
Se compreendi o passo de Max Weber, ele antecipa as afirmações de Irene em cerca de cinquenta anos; ou melhor, talvez se trate do contrário: minha colega testemunha, em sua condição anacrônica, uma situação que já era objeto de nostalgia naquele Patriarca.
Esse quiproquó pequeno e local não deixou de ter efeitos poderosos, um dos quais procurei alentar na tese que acompanha este memorial. Mas, de qualquer modo, sua herança está comprometida, na medida em que não mais se dispõem daquelas condições de reflexão que estão na origem das duas gerações indicadas. Daí o impasse que se coloca para aqueles que, agora, vêem-se confrontados com a necessidade de escrever um memorial, cuja saída mais correta, e simples, seria um relato profissional. Quis o destino que se oferecesse uma outra alternativa, mais em sintonia com os tempos que correm.
“Plataforma de outras gerações”
O memorial acadêmico é um fenômeno da ápoca anterior à Plataforma Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e, portanto, do passado. Hoje, a extemporaneidade e arcaísmo, o caráter jurássico do memorial é flagrante. E que alguns acadêmicos tornem seus memoriais quase-romances é sintoma de algo que ficou recalcado nessa nossa época, “neste tempo de complacência autobiográfica” (Candido, 1980: 107). Pois, antigamente, o memorial ainda podia ser escrito como narrativa de uma trajetória, itinerário ou percurso – não obstante uma ou outra ressalva sobre isso no “Fragmento” acima –, mais imune, talvez por serem tempos um pouco menos narcísicos, à sua conversão em romance autobiográfico. Hoje, é válvula de escape para tudo aquilo que o Currículo Lattes e a vida universitária sob o regime de produção da organização recalcam, algo como um retorno do reprimido e, nesse sentido, objeto privilegiado para a sociologia.
Ademais, agora a nossa Faculdade adotou o Currículo Lattes como currículo padrão. Dessarte, quando a própria FFLCH, ou mesmo a Universidade de São Paulo, adota institucional e organizacionalmente o Currículo Lattes, elas mesmas estão a indicar a obsolência daquela narrativa específica que foi o memorial. Estamos aqui no âmbito daquela transformação profunda do sentido do memorial de que se falava; assumindo a validade e legitimidade do Currículo Lattes, sua “adequação”, cumprimos em detalhe mais uma etapa daquele processo que foi compreendido como transformação da instituição universitária em organização universitária.
Por conta disso, pulsa aqui uma tensão, constituinte deste memorial, no sentido de que não almejo uma subordinação submissa e inconteste aos dispositivos organizacionais da universidade, ao mesmo tempo em que busco encontrar um modo de resposta e posicionamento frente a eles. Ou seja: a Universidade e a Faculdade nos dizem, junto com o CNPq e demais agências, que o que importa saber para avaliar está lá no Currículo Lattes, acessível, exposto e formulado da maneira apropriada. No caso, a essa salutar estandardização das atividades acadêmicas e intelectuais, que para ser suficientemente eficiente exige a padronização da sua exposição.
Creio que é desnecessário insistir acerca da padronização do Currículo Lattes, que por princípio exclui brechas para o qualitativo, convertendo e classificando tudo segundo critérios quantitativos; aliás, o Currículo Lattes é concebido e estruturado para confluir na síntese quantitativa com que culmina (os “Indicadores de produção”, expressão que tem sua origem no universo da indústria e dos seus “gerentes”) e que permite a visualização e avaliação otimizadas (pois visualizar num relance é um modo otimizado de avaliar).[19] É também desnecessário sublinhar como o Currículo Lattes foi concebido a partir da perspectiva das ciências naturais, um de cujos exemplos é valorizar mais os artigos do que os livros, algo que, em princípio – isto é, de acordo com os princípios de antigamente –, seria descabido em nosso domínio de conhecimento.
Vale destacar, ainda, que a Plataforma Lattes – e com ela o Currículo Lattes – é um esquema (não cabe falar de “texto”) eletrônico que só se deixa imprimir como uma de suas múltiplas funções. O modo de experiência que eles exigem e promovem é virtual e eletrônico, em sintonia com a revolução tecnológica da informática. Nesse aspecto, também encontramos uma configuração de cesura epocal – a assim chamada “terceira revolução industrial”(ver Anders, 1992) –, uma de cujas formas é a experiência de leitura propiciada e criada pela tela do computador, completamente diferente da leitura de texto em papel. No contexto dessa revolução, passamos da concepção e escrita do memorial ao preenchimento do currículo eletrônico.[20]
Um último ponto. Em princípio, o memorial é uma espécie de “gerador de biografia”, através do qual se constitui uma identidade individual (Hahn, 2000). Entretanto, como seu domínio é a vida acadêmica e científica, ele é suprimido, via superposição pelo mais forte (e obsolescência do “redundante”), pelo Currículo Lattes. Daí ter dito logo acima que o memorial tornou-se obsoleto por ocasião da adoção organizacional do Currículo Lattes. Pode-se objetar que o “currículo” é distinto do “memorial”, e é precisamente este o ponto: a diferença possível entre eles é suprimida, pois ao invés da ocasião específica do memorial a vida universitária faz-se, agora – basta lembrar a produção industrial de teses e dissertações, impensável na época em que o memorial foi concebido –, na avaliação continuada e ininterrupta da produção através do Currículo Lattes (donde a preocupação em mantê-lo sempre “atualizado”).[21]
(Com tudo isso, não quero ocultar a presença de um problema, ao contrário: o esforço é responder à exigência, problematizando-a nos limites da minha capacidade. Pois o presente é o interregno no qual confluem todas essas questões.)
Nesse contexto, faz sentido retomar rapidamente algo das formulações de Niklas Luhmann, que disse convergir, em muitos aspectos, com a reflexão local acerca das condições atuais da universidade e, consequentemente, sobre o sentido do memorial. Como já sugeri, trata-se de compreender a universidade como pautada por dois vetores distintos, organização e liberdade, nos quais conflui a universidade moderna, tal como foi formulada no início do século XIX.
“Desde a época de Humboldt persiste a tendência de tratar as questões da universidade, pelo menos politicamente, como questões de organização. O resto, o resto não-organizável, pode então, de novo politicamente, ser destacado de modo positivo como liberdade. Organização e liberdade – com isso estão denominadas aquelas características com as quais o século XIX procurou realizar a sociedade moderna. Os conceitos definem, em sua tensão, o espectro político no interior do qual as forças puderam ser fixadas e as oposições desdobradas. Na França, foi possível enfatizar mais a organização, pois o sistema político já estava ordenado por uma constituição e, pela razão oposta, na Alemanha foi possível enfatizar mais a liberdade. Isso impregnou as estruturas universitárias de modo variado e perdura até hoje. Todavia, organização e liberdade dependem um do outro. Cada um deles exige o outro, sobretudo quando são contrapostos no registro político. Também dependem um do outro na medida em que ambos foram dirigidos contra a ordem estamental e contra a educação que a reproduzia” (Luhmann, 1994: 202).[22]
Em primeiro lugar, é importante o destaque dado à dimensão política da questão da universidade, pois navegamos aqui nos mesmos mares.[23] Sem retomar as tensões e ambiguidades de nossa história local, que são decisivas e que Luhmann sugere na diferenciação França / Alemanha, é instrutivo reconhecer como desde sempre essa universidade moderna – que se quis moderna lá e cá – estruturou-se no equilíbrio desses dois vetores mutuamente dependentes, pois sem um mínimo de organização não há universidade, do mesmo modo que sem um mínimo de liberdade. Toda a questão está, portanto, nesses equilíbrios específicos, históricos e peculiares de que derivam o esplendor e a miséria da universidade moderna.
“Pode-se discutir acerca do peso desses dois fatores. […] Contudo, minha opinião é que a organização tornou-se a rigidez dominante, porque ela dispõe do dinheiro e com isso do tempo. De fato, pode-se observar que a organização – e agora podemos dizer: a burocracia – ocupa ela mesma progressivamente os espaços de liberdade. […] E quando um indivíduo é obtuso o suficiente para enrijecer do outro lado (pois só se pode tratar o enrijecimento com enrijecimento), temos no melhor dos casos uma perturbação e uma paralização. E com isso lucram apenas aqueles que podem utilizar a paralização como meio para suas finalidades” (Luhmann, 1994: 203).
Essa caracterização da organização enrijecida, isto é, burocracia, que dispõe do dinheiro e com isso organiza a disposição do tempo, conflui novamente com o que destaquei anteriormente. A colonização progressiva dos movimentos livres e dos espaços desorganizados realiza-se através de uma normatização e regulamentação, que a burocracia e tecnocracia universitária e extra-universitária implementam contínua e progressivamente.[24] Se já se falou em morte da universidade – e aqui situa-se também um outro diagnóstico, estrangeiro-nacional[25] – por conta do enrijecimento e conversão da liberdade em mero preenchimento de casas já definidas, a paralização e a inércia são, segundo meu juízo, as forças mais atuantes na nossa Faculdade. Que é quase que uma imagem invertida do que ocorre nas unidades mais velozes e vorazes, em que há movimentação porque não há enrijecimento contra o enrijecimento. Isto é: ao acréscimo das exigências e controles da burocracia, reponde-se com a agilidade de uma liberdade diabólica (que lembra o que Marx afirmava acerca do trabalhador que é livre como pássaro): a liberdade de modelar sua atividade, seu tempo e sua reflexão por aqueles critérios extrínsecos ao âmbito do conhecimento, donde a transformação sugerida da universidade como local social do conhecimento. Mais ainda: na situação atual, não são apenas critérios exclusivamente extrínsecos que modelam a reflexão, porque já foram, em grande medida, internalizados.
Portanto, o problema da rigidez e do enrijecimento frente à rigidez estão no âmago da existência do intelectual na universidade hoje (e não só nela). Mas o problema vem de longa data, pelo menos desde a passagem do século XVIII para o século XIX, isto é, daquele momento de gestação da universidade moderna. Max Horkheimer formulou-o nos termos da “particularidade necessária” (que se contrapõe à “má particularidade”), que é o domínio da universidade como um mundo próprio, que almeja o universal; Pierre Bourdieu (1996: 369-378), por sua vez, formulou-o nos termos de um “corporativismo do universal”, uma defesa da liberdade frente à organização, dos intelectuais frente à ordem econômica e política.[26]
A autonomia dos campos artístico e científico funda-se ela mesma na diferença frente ao que lhe é exterior – como o “mercado”[27] –, diferenciando-se e insistindo nessa diferença. Não que esses campos, na busca de sua autonomia – cada vez mais complexa, cada vez mais difícil –, não devam considerar as investidas, demandas e exigências do exterior. A questão é o modo como tais demandas são postas no interior do campo (que se pretende) autônomo: não como imediaticidade dada e consumada, mas como algo a ser traduzido em linguagem pertinente ao campo e posto, então, em processos de comunicação interna (e a seguir, obviamente, também externa).
A universidade firmou-se historicamente, enquanto lugar social do conhecimento e da reflexão, como um mundo diferente que permite – potencialmente ao menos – a todos os seus ver diferente, pensar diferente, reagir diferente, agir diferente; ela possibilita alargar nossa capacidade de percepção, compreensão e comunicação para outras formas que são possíveis no mundo, para o fato de que algo pode ser diferente e, depois, diferente novamente. E isso implica afastar de toda a discussão acerca da universidade a recorrente referência à utilidade, pois que “o mundo não tem utilidade, mas sim todos aqueles atributos que Nicolau de Cusa atribuiu ao seu Deus: ele não é nem grande nem pequeno, nem unidade nem pluralidade, nem originado nem não-originado – e justamente por isso necessitado de forma” (Luhmann, 1997: 242)
Entretanto, isso não significa, como disse, que a negação da utilidade como parâmetro definidor da universidade seja a recusa da relação com o exterior, e de que não haja possibilidades de contato com ele (contra a argumentação da “torre de marfim” e similares). Ao contrário: o tesouro da universidade é que, quando viva, é capaz de reconfigurar o mundo exterior em suas próprias linguagens, vale dizer problemas; a relação mediada com os problemas do mundo resulta em uma relação muito peculiar, de criação da diferença e sua circulação, oferecendo desse modo novos materiais que, uma vez exteriorizados, são processados e reprocessados contínua e ininterruptamente, realimentando inclusive o espaço do conhecimento. Ciência e cultura, dessa maneira, atravessam continuadamente os marcos da universidade e do mundo, em um processo contínuo de produção de diferença, possibilidade de injeção de novidade no mundo e transformação daquilo que é.
Portanto, a relação imediata com o mundo, tomada como dever da universidade, significa de fato sua morte e transformação em algo igual ao mundo, quando então ela deixa de ter sentido em existir.
Este é o universo no qual o candidato é instado a escrever seu memorial; aliás, é esta a sua memória, o seu memorial, o seu presente. […]
Notas
[1] Publicado como “Para uma sociologia do memorial acadêmico. Um fragmento” em Literatura e Sociedade, n. 3, 1998, p. 77-82.
[2] Tratei do assunto em Waizbort (1996) e, posteriormente, na aula para concurso junto ao Departamento de Sociologia da FFLCH-USP em dezembro de 1997.
[3] Tive oportunidade de abordar isto no texto “A vida humana e a maturidade no processo de civilização”, lido no Seminário Internacional Ciência, Cientistas e Tolerância da UNESCO, Universidade de São Paulo, 18 a 21 de novembro de 1997 e a ser publicado nos anais do Seminário.
[4] Caso ainda obscuro diz respeito a “las autobiografías de los arcángeles” (como disse certo narrador argentino), mas sobre isso é necessário aguardar novas notícias.
[5] O texto de Kohli é muito mais presente aqui do que as referências e notas podem atestar.
[6] “[…] minha terra é pobre demais para produzir as ricas flores que entre elas se acham desabrochadas e que apesar dos maiores esforços não as igualaria jamais” (Montaigne, 1984: 192).
[7] Ver Cardoso (1998: 11), citado aqui na versão publicada pela FFLCH-USP como subsídio para uma discussão acerca da Faculdade.
[8] Veja-se Max Weber, “Luthers Berufskonzeption”, a terceira parte do capítulo inicial de “Die protestantische Ethik und der Geist des Kapitalismus” em Gesammelte Aufsätze zur Religionssoziologie. 9a. ed., Tübingen, J.C.B. Mohr (Paul Siebeck), 1988, vol. 1, p. 63 ss., inclusive os importantíssimos rodapés.
[9] Respectivamente, do latim vocatio, “ação de chamar”, “intimação”, “convite”; e professio, “ação de declarar”, “manifestação”, “promessa”, “ação de professar, de ensinar”, “profissão”, “mister”, “exercício”, “ocupação”, “emprego”. Com relação a “Beruf”, consultei o Duden Deutsches Universalwörterbuch A-Z. 3a. ed. eletrônica, 1997.
[10] “Weber constatou, ao final de seu estudo, que na época do capitalismo avançado a ideia de um dever profissional habita como um fantasma a nossa vida, como um fantasma de antigos conteúdos religiosos, ou melhor, de conteúdos ético-religiosos, como um caput mortuum. Pois o ‘espírito’ capitalista já tinha perdido em grande parte, com o despontar da época férrea no século XIX, os substratos éticos: ao invés do dever profissional, o que conta agora é o sucesso profissional. Onde a atividade profissional significou mais do que adaptação às duras coações econômicas, onde ela pretendeu ser, além disso, realização, ela estava referida não mais a imperativos morais, mas sim a imperativos técnicos e pragmáticos” (Schluchter, 1991: 216-217; ver também vol. 2: 502-504) (o termo fantasma provém do próprio Weber, na referência dada acima).
[11] A questão, decerto, ultrapassa em muito o âmbito restrito que discuto, sendo mesmo um traço constitutivo, segundo os sociólogos, da vida contemporânea. Veja-se, a título de exemplo, Ulrich Beck e Elisabeth Beck-Gernsheim (1990) e Niklas Luhmann (1995), especialmente os capítulos iniciais e finais.
[12] A expressão é de Pierre Bourdieu (2001: 44). Sobre o tema, o seguinte passo de Christopher Lasch (1983: 76): “O narcisismo parece realisticamente representar a melhor maneira de lutar em igualdade de condições com as tensões e ansiedades da vida moderna, e as condições sociais predominantes tendem, em consequência, a fazer aflorar os traços narcisistas presentes, em vários graus, em todos nós”. Especialmente pertinente para o caso dos memoriais é também o parágrafo “Confissão e anticonfissão” (p. 38-43). Trata-se, sem dúvida, daquele “segredo do indivíduo” analisado por Alain Corbin (1991: 455ss.), em que se vislumbra a “crescente necessidade de escrever sobre si”, para a qual o memorial oferece oportunidade. Cf. ainda Michel Foucault (1992: 129-160).
[13] O tema, na sociologia, tem clássica formulação em Karl Mannheim (1928: 157ss.); cf. ainda Eckart Liebau (1997: 295-306).
[14] Cf. Max Weber (1980: 552), que aborda o fenômeno no âmbito da discussão acerca da dominação burocrática (este um termo que já indica, ele mesmo, a separação).
[15] Embora de modo altamente ambíguo e em tensa relação com as assim chamadas “humanidades”: afinal, à diferença dos que pesquisam em laboratórios, quantos de nós não trabalham em “casa”?
[16] Cf. Niklas Luhmann (1994: 202-211). Anoto que a distinção instituição/organização, operada por Irene Cardoso, provém, salvo engano, de Michel Freitag (1995), que não desenvolve satisfatoriamente, a meu ver, os conceitos de organização e instituição, embora sua análise do naufrágio da universidade seja de extremo interesse. Para o sociólogo, creio, a referência de discussão está dada por Max Weber (1980: 548-549; 561-570), na discussão acerca da “dominação como ‘organização’” e da “dominação burocrática”. Assim, a “passagem” instituição → organização poderia ser compreendida nos termos seguintes: “A burocratização é o meio específico de trasladar o ‘agir comunitário’ [acordado] em um ‘agir societário’ ordenado racionalmente” (p. 569-570); mas, como se pode racionalizar em graus e direções muito variadas, o campo abre-se (ao menos em princípio) para a luta de deuses e demônios”.
[17] Verti “Universitätsverfassung” por “espírito universitário”. Veja-se também, do mesmo autor, “Der Sozialismus” (1918) in Gesammelte Aufsätze zur Soziologie und Sozialpolitik. 2a. ed., Tübingen, J.C.B. Mohr (Paul Siebeck), 1988, p. 498-499 e Wirtschaft und Gesellschaft, p. 567.
[18] Se me é permitido alguma elucubração, diria que há aqui algo como um “anacronismo necessário” (a expressão é de Hegel, mas em outro contexto), a ser tributado à singularidade histórica da Universidade de São Paulo. Sobre isso, ver Irene Cardoso (1982) e Franklin Leopoldo e Silva (1999: 1-47).
[19] Otimização, modernização e avaliação é um enlaçamento característico do processo de burocratização, tal como Max Weber o evidenciou em Wirtschaft und Gesellschaft (p. 577) e adjacências; no contexto local, ver Irene Cardoso (2001: 55-80).
[20] Há aqui inclusive um procedimento, muito sintomático, que indica o grau e o teor de despersonalização que o Currículo Lattes gera e reproduz: pois o preenchimento pode ser deixado para terceiros. O terceiro que pode preencher o Currículo Lattes é, em regra, uma secretária ou secretário, um prestador de serviços, ocasionalmente até mesmo terceirizado, em sintonia com a divisão do trabalho característica da organização burocrática.
[21] Com o que voltamos ao domínio das questões à respeito do tempo do trabalho intelectual, levantadas por Irene Cardoso, em passo citado acima.
[22] Anoto, à margem, que Antonio Candido (1997: 67) já destacara o “desejo de criar uma sociedade livre e bem organizada” no ponto de partida da formação de nossa literatura que, por conta da peculiaridade de nossa formação, constituia o centro agregador da incipiente vida cultural e intelectual. Portanto, talvez se possa dizer que o caminho da nossa modernidade particular também se fazia na confluência de organização e liberdade.
[23] O que as histórias da moderna universidade alemã realizaram, foi feito entre nós por Irene Cardoso em A universidade da comunhão paulista. A diferença entre cá e lá pode ser aquilatada pelos ideólogos e sua situação, de um lado Wilhelm von Humboldt & Cia. na época napoleônica, de outro o grupo ao redor de O Estado de São Paulo nos tempos de Vargas. As similitudes são relevantes, justificando retomar alguns traços do fenômeno alemão, para evidenciar os nexos: “Em uma série de memoriais programáticos Kant, Schelling, Fichte, Schleiermacher e Humboldt desenvolveram seus ideais de liberdade acadêmica. Motivos idealistas, neo-humanistas e mesmo pietistas foram unificados em seus escritos. As universidades, argumentavam eles, não deveriam ser como fôra a de Halle, uma mera entidade para a formação de funcionários públicos. A faculdade de filosofia – e não as faculdades de direito, medicina ou teologia – deve formar o centro da nova universidade. Nesta deve prevalecer a ciência pura, em sentido idealista, por si e em si mesma. O estado deve bancar essa finalidade grandiosa, sem pretender exercer controle direto sobre os conteúdos de estudo e materiais didáticos. A partir de então as universidades deveriam formar os futuros funcionários públicos e professores, mas deveriam encarregar-se dessa tarefa no espírito da formação filosófica e não sob o ponto de vista da utilidade de vistas curtas. Com o tempo, tanto o estado como a sociedade se beneficiariam, sem qualquer dúvida, com a influência espiritual e moral da nova ciência” (Ringer, 1987: 33).
[24] Tecnocracia, aliás, potencializada na cesura epocal indicada, como se vê pelo seguinte esforço de definição: “A sociedade da organização (programação e planejamento) é, na verdade, o verdadeiro ambiente que constitui o genus tecnocrático, enquanto que a terceira revolução (a da automação ou do computador) comporta mais a emergência de novas espécies tecnocráticas” (Fisichella, 1995: 1234). Novas espécies com que convivemos em nosso cotidiano universitário.
[25] Refiro-me a Gérard Lebrun, que em artigo de 1986 afirmou: a “universidade, que foi — desde o começo do século XIX — o principal veículo para a difusão da cultura, bem pode haver completado o seu tempo.” Não obstante, “a universidade ainda existe — e acontece que em alguns lugares a sua vocação formadora não se exauriu por completo. Nessas condições, eu me espanto de ver que os médicos mais zelosos dessa velha senhora lhe prescrevem uma beberagem que lhe será fatal. Todos devem ter o direito de morrer em paz” (“Da rentabilidade”, Folha de São Paulo, 31/08/1986). A percepção sempre refinada de Lebrun toca o nervo do problema: o anacronismo da universidade moderna no Brasil, fundada no momento em que ruia o projeto moderno da universidade na Europa. Por conta disso, embora a vocação formadora da universidade europeia, conforme já o diagnóstico de Max Weber, tenha se tornado pura ideologia, ela manteve sentido e realidade aqui, um daqueles lugares em que “sua vocação formadora não se exauriu por completo”, isto é, não é apenas mera ideologia, mas possui teor de verdade e lastro na experiência histórica, por mais confusa e contraditória que esta possa ser. Assim, à época da falência da universidade moderna na Europa e de nascimento da universidade pós-moderna – a universidade que abandona a pretensão da “formação” e percebe que só pode almejar a “especialização” –, deste lado do oceano assistimos ao nascimento de uma universidade que segue e implementa o projeto moderno, seguindo, não obstante as dificuldades e os ajustes necessários, o ideário moderno, tal como formulado ainda ao final do século XVIII: este o anacronismo de raiz, que significou, por outro lado, um adensamento do tempo histórico; seu resultado pode ser aquilatado, grosso modo, nas duas gerações formadas pela FFCL-USP, antes de sua transformação em FFLCH.
[26] O mesmo problema foi tratado, mediante a análise da especificidade da primeira geração formada pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, por Florestan Fernandes (1980: 213-252).
[27] Não por acaso, Weber (1988: 562) mostrou como a objetividade da burocracia, que implementa e funciona “segundo regras calculáveis e ‘sem consideração à pessoa’” é precisamente a mesma objetividade do “‘mercado’ e de toda a perseguição de interesses econômicos”.
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