
Completando a dobradinha anunciada nos posts da manhã da série Modos de narrar a sociologia brasileira, trazemos agora a dupla composta pelos relatos de Brasilio Sallum Jr. (USP) e Celi Scalon (UFRJ).
O recorte aqui apresentado do memorial de Brasilio destaca seus “agitados anos” de formação, marcados pelo golpe de 64, o debate desenvolvimentista, o contato com a Cepal, a percepção dos “problemas latino-americanos” e a orientação de Luiz Pereira. Constitui, assim, ao mesmo tempo um depoimento precioso sobre o contexto político e intelectual da ditadura militar e uma espécie de genealogia do repertório de problemas ligados ao desenvolvimento capitalista no Brasil (e, secundariamente, na América Latina) que se tornariam o núcleo de suas preocupações acadêmicas, como se depreende pela série Autorais realizada com Brasilio que tivemos a honra de publicar este ano.
O relato de Celi, por sua vez, evidencia um modelo exemplar de internacionalização e interdisciplinaridade de uma atuação profissional no campo da sociologia. Sua trajetória se confunde com a da própria consolidação da área de pesquisa sobre estratificação social, impensável hoje sem seus estudos pioneiros e inovadores sobre mobilidade, valores e percepções sociais; e tem como inquietação fundamental o problema que, segundo ela, define a sociedade brasileira: as múltiplas dimensões da desigualdade de oportunidades.
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Desejamos a todas e todos boa leitura!
Memorial (2005)
Celi Scalon (UFRJ)
Os anos no técnico e na graduação
Minha trajetória em direção às Ciências Sociais não foi linear, o que, de certa forma, imprimiu uma marca multidisciplinar à minha carreira. Na adolescência, optei pelo curso técnico de Estatística, ingressando em 1980 na Escola Nacional de Ciências Estatísticas, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em parte essa decisão foi influenciada pela longa carreira de meu pai no IBGE, onde participou dos censos de 1960, 1970 e 1980; foram 40 anos dedicados àquela instituição. Entrar aos 15 anos numa escola que tinha somente curso técnico e superior marcou uma fase de amadurecimento. Já não usava o uniforme do colégio religioso, onde fiz o ginásio, e de mim era cobrada uma atitude profissional e independente. No último ano do curso técnico, em 1982, fiz estágio de quatro meses no IBGE, onde desenvolvi meu primeiro trabalho de pesquisa: “Ordenação de provas segundo o grau de dificuldade” (SEPLAN – IBGE, 1983). A formação em Estatística foi, posteriormente, determinante para minha dedicação à Metodologia Quantitativa aplicada às Ciências Sociais e meu presente interesse em avaliação de programas e políticas públicas.
Com o fim do curso técnico, em 1982, chegou o difícil momento da escolha para o vestibular, que recaiu sobre o curso de Comunicação Social na Universidade Federal Fluminense (UFF). Essa opção estava informada pelo desejo de seguir carreira na área de Ciências Humanas, dada a minha aguçada curiosidade pelas questões políticas do país e do mundo àquela época. Ter sido aprovada numa universidade pública, em vestibular tão concorrido como era – e é – o do curso de comunicação foi extremamente importante, já que eu vinha de uma família de poucos recursos e não teria condições de pagar uma faculdade privada. O curso de Comunicação Social era dividido em quatro semestres de formação “básica” e quatro semestres de formação “específica”. Para mim, os quatro primeiros semestres superaram minhas expectativas, com os cursos de Filosofia, Sociologia, Antropologia, História, Ciência Política e Psicologia Social. Quando, de fato, entramos nas disciplinas específicas ficou claro que o Jornalismo não era minha vocação. Além disso, eu estava impactada pela leitura de A ética protestante e o “espírito” do capitalismo, de Max Weber, que representou, para mim, o verdadeiro momento de conversão à área de Ciências Sociais. Orientada pela professora da disciplina de Técnica de Pesquisa, Ângela Tygel, que tinha formação em Antropologia, me dediquei à preparação para o ingresso no mestrado em Sociologia. A opção pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) deu-se de maneira quase natural, uma vez que a instituição gozava de prestígio na área de pesquisas quantitativas e eu tinha forte formação em Estatística. Do curso de Jornalismo levei a escrita concisa, clara e objetiva que, de certa maneira, é requerida nos trabalhos científicos atuais.
A Pós-Graduação
Em 1991 ingressei no mestrado em Sociologia do IUPERJ, numa turma composta por apenas quatro alunos. Foi uma vitória importante, considerando que eu vinha de outra área e a seleção tinha sido bastante rigorosa. Optei, desde o início, pela área de Estratificação Social e Desigualdades e estive, nos dois anos de mestrado, trabalhando sob a orientação do professor Carlos Hasenbalg. A escolha pela área de estratificação deu-se por dois motivos principais, a saber: I) por ser uma área clássica das Ciências Sociais, que em muito pode contribuir para a compreensão da realidade brasileira, tão marcada pelas desigualdades; II) pela possibilidade de aplicação e aprofundamento do meu conhecimento metodológico, uma vez que os estudos neste campo são fortemente marcados pelo uso de técnicas quantitativas. Essa área de estudos requer a articulação entre teoria e empiria de uma forma muito explícita.
Os estudos de classe são clássicos na Sociologia e remontam aos seus fundadores – Marx, Weber e Durkheim –, sendo relevantes, até hoje, para a análise da sociedade pós-industrial. No mestrado apresentei duas dissertações para obtenção do título: “Cor e seletividade conjugal no Brasil” – publicada na Revista de Estudos Afro-Asiáticos (n. 23, dez. 1992) – e “Desigualdades raciais e trajetória ocupacional no Brasil”. O primeiro estudo mescla a análise de raça, classe e casamento. Ele foi fundamental para aprofundar minha compreensão das relações raciais que são, hoje, objeto de amplo debate no âmbito das políticas públicas. Foi um enorme privilégio ter sido orientada nesse tema por Carlos Hasenbalg, pesquisador cuja produção revolucionou as análises nesse campo no Brasil, debatendo diretamente com as obras de Gilberto Freyre, Florestan Fernandes, Costa Lima, Oracy Nogueira, entre outros. O segundo estudo já se dirigia para a definição da área à qual me dediquei no doutorado: mobilidade social. Hasenbalg é, também, uma importante referência no estudo da estratificação e estrutura social. Entre os colegas, é respeitado não só por seu brilhantismo, mas também por sua postura ética e seriedade. O contato com ele marcou de forma decisiva minha carreira acadêmica.
Em 1991, ainda aluna do mestrado do IUPERJ, fui convidada a fazer parte do grupo de pesquisadores do Laboratório de Pesquisas sobre Desigualdades Sociais, no Centro de Estudos Afro-Asiáticos, então dirigido por Carlos Hasenbalg. Essa experiência promoveu uma maior aproximação com Nelson do Valle Silva, com quem já convivia no IUPERJ. No doutorado foi ele quem me orientou, uma vez que eu havia decidido trabalhar com mobilidade de classes e esta era sua especialidade. Durante o mestrado, também trabalhei como assistente da professora Neuma Aguiar no projeto “Sistema Integrado de Estatísticas Sociais por Sexo e Cor”, cujos resultados foram posteriormente publicados em livro. Nascia aí uma fonte de preocupações que acompanha até os dias atuais minha trajetória profissional e marcou com o recorte de gênero minha tese de doutorado.
Nesse período, os estudos de mobilidade contavam com uma produção bastante restrita no Brasil: havia apenas um livro dedicado ao tema, que era a tese de doutorado de José Pastore da década de 70, e alguns trabalhos esparsamente publicados em revistas ou como capítulos de livro, de autoria de Hutchinson, nas décadas de 50 e 60; e de Nelson do Valle Silva, nas décadas de 70 e 80. A escassez de análises sobre mobilidade no Brasil não correspondia à tendência mundial. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, por exemplo, os estudos nesta área avançavam, teórica e empiricamente. Essa conjuntura fazia com que realizar uma tese sobre o tema na década de 90 representasse uma tarefa de extrema dificuldade e ousadia. De certa forma, recaía sobre mim a tarefa de preencher a lacuna existente na área.
Naquele momento, já estava claro para mim que deveria buscar fora do Brasil a literatura e o instrumental necessários para a elaboração da tese. De junho a agosto de 1994, participei do meu primeiro curso de métodos quantitativos aplicados às Ciências Sociais, no Interuniversity Consortium for Political and Social Research (ICPSR) da Universidade de Michigan – Ann Arbor, com bolsa da Mellow Foundation. Lá realizei o curso de Categorical Data Analysis, que me permitiu estudar modelos log-lineares, indispensáveis para a análise das tabelas de mobilidade. Além desse, fui aluna dos cursos de Maximum Likelihood e Latin American Studies. Essa foi minha primeira viagem a um país estrangeiro. A dificuldade inicial de integração e comunicação acabou sendo superada pela riqueza do ambiente intelectual, a diversidade e amplidão da biblioteca e a novidade das disciplinas oferecidas, que englobavam técnicas ainda não conhecidas no Brasil.
Enquanto estava em Ann Arbor recebi a notícia de que meu pedido de bolsa sanduíche para a Inglaterra havia sido aceito pela CAPES e pelo Conselho Britânico. Voltei em agosto de 1994 para o Brasil e, em menos de um mês, eu já arrumava as malas novamente, dessa vez para ficar um ano na Universidade de Warwick, nas Midlands.
A escolha por Warwick foi baseada na boa avaliação que o curso de Sociologia tinha no ranking das universidades inglesas e pelo prestígio que a área de Labour Studies tem naquela instituição. Além disso, meu orientador – Richard Lampard – havia demonstrado especial interesse no meu trabalho no período em que trocava correspondência com alguns especialistas ingleses. A opção pela Inglaterra era óbvia, já que eu queria trabalhar com mobilidade de classes, e não mobilidade de status, e é no Reino Unido que essa discussão se sedimentou de maneira inequívoca. A vivência fora do Brasil, numa instituição que pouco se assemelhava à UFF e ao IUPERJ, foi rica e, ao mesmo tempo, desafiadora. Os primeiros três meses foram marcados pela saudade da família e dos amigos. Superado esse período de adaptação inicial, pude perceber a valiosa oportunidade que havia recebido, já que somente na Inglaterra eu poderia desenvolver de maneira competente o estudo que me propus a realizar.
Morava no campus universitário, o que facilitava meu acesso à biblioteca e ao centro computacional. Tudo estava à mão e dessa forma podia me dedicar inteiramente à tese. Além dos recursos computacionais, das conferências e seminários e da biblioteca, onde passava horas mergulhada em leituras, o contato com Richard Lampard foi inestimável. Inúmeras vezes sentamos lado a lado em seu “office” para trabalhar os dados a quatro mãos. A dedicação e interesse que demonstrava por meu trabalho eram surpreendentes. Sua permanente disponibilidade, inclusive para ouvir as angústias e dúvidas que acompanham a realização de uma tese de doutorado, era reconfortante. Simultaneamente, Nelson do Valle Silva – distante, mas presente – acompanhava o desenrolar da tese do Brasil.
Em setembro de 1995, eu deveria voltar ao Brasil, mas o convite para permanecer mais quatro meses como visiting researcher no Departamento de Sociologia de Warwick me fez adiar meu retorno. Eu estava plenamente integrada e auxiliava Lampard em sua pesquisa sobre casamento e re-casamento. Em fevereiro de 1996, eu voltei ao IUPERJ para finalizar a tese.
O retorno foi tão difícil quanto a partida. Estava muito bem adaptada à vida universitária na Inglaterra e lá deixei muitos amigos. Além disso, a volta representou uma troca de orientação. Apesar de Nelson do Valle Silva ter acompanhado o trabalho que desenvolvia por lá, seu estilo e enfoque na orientação diferiam dos de Richard Lampard. Eu vivia uma espécie de readaptação.
Em julho daquele mesmo ano fui convidada para ministrar um curso no IUPERJ, como professora visitante. O interesse da instituição em minha contratação já era explícito. Entrei, portanto, pela primeira vez numa sala de aula na condição de professora. A disciplina, Tópicos e Análise de Dados Quantitativos II, era um curso avançado de Econometria que incorporava probabilidade e análises de modelos de regressão linear, probit e logit. Não vou negar minha insegurança e meu medo. Era muito difícil pensar que eu agora ocupava a sala de aula onde só havia estado como aluna e me tornava colega de meu próprio orientador, bem como de professores tão respeitados como Luis Antônio Machado, Elisa Reis, Edmundo Campos Coelho, Luiz Werneck Vianna, Carlos Hasenbalg, Maria Alice Rezende de Carvalho. Sem mencionar os colegas da Ciência Política, um dos quais – Jairo Nicolau – estava no curso. Bem, não é preciso dizer que a primeira aula foi um fiasco, o que me fez duvidar de minha vocação para o ensino. Minhas mãos ficavam suadas, eu gaguejava e confundia o conteúdo cuidadosamente preparado.
Mas ao longo das primeiras semanas, superei em parte minha insegurança e fui assumindo ares de mestra. Em pouco tempo, me sentia totalmente à vontade com a turma e soube, posteriormente, que os alunos me avaliaram positivamente. Hoje, os estudantes de mestrado esperam o semestre em que eu ofereço a disciplina obrigatória de Metodologia para se inscreverem. Ao longo de meus anos de magistério na pós-graduação ofereci cursos nas áreas de Metodologia, Seminários de Tese e em diferentes temas da Sociologia contemporânea, sempre buscando aliar teoria e empiria. O contato com os alunos e colegas é muito gratificante e instigante. Cada nova turma consiste para mim num novo desafio. No entanto, olhando retrospectivamente, avalio que dar aulas e fazer a tese simultaneamente não foi tarefa simples.
No ofício de sociólogo
Em dezembro de 1996, fui contratada como professora efetiva do IUPERJ, uma verdadeira honra para uma jovem socióloga como eu à época. Também em dezembro de 1996 recebi o diagnóstico de um câncer de mama, o que me obrigou a um curto afastamento para a cirurgia. Esse fato tornou ainda mais árdua a tarefa de escrever a tese, em meio às sessões de quimioterapia. De qualquer forma, minha defesa foi marcada para outubro de 1997, quando eu completava quatro anos e meio de ingresso no doutorado.
A tese sobre mobilidade de classes e gênero foi muito bem recebida pela comunidade acadêmica. Publicada pela Revan em 1999 sob o título de Mobilidade social no Brasil: padrões e tendências, influenciou outros jovens sociólogos a se dedicarem ao tema. A constatação de que a área de mobilidade havia ganhado fôlego e renascido foi, talvez, a maior compensação recebida por meu trabalho. Soube que alguns colegas têm usado o livro em seus cursos, já que na parte teórica procurei ser bastante didática. Alegra-me pensar que estudantes de graduação são introduzidos à estratificação e à mobilidade de classes através dessa obra.
Em 1998 voltei à Universidade de Michigan, para o curso de Metodologia em Ann Arbor. Dessa vez, elegi as disciplinas: Structural Equations e Advanced Topics in Regression. Também em 1998 ministrei a disciplina de metodologia de pesquisa para os alunos do mestrado em Ciência Política da Universidade Federal do Pará (UFPA), por meio de convênio entre aquela instituição e o IUPERJ. O convívio com cientistas e alunos do norte do país, especialmente na qualidade de professora de metodologia, foi importante para conhecer as questões que preocupam aquela comunidade acadêmica. O curso funcionava, também, como um espaço para orientação das pesquisas que seriam desenvolvidas pelos mestrandos. Nesse mesmo ano publiquei dois artigos: “Mapeando estratos: critérios para escolha de uma classificação” (Dados, v. 41, n. 2) e “Para cima, para baixo” (Insight/Inteligência, ano I, n. 3). Ambos eram desdobramentos da tese de doutorado. O primeiro oferecia uma proposta metodológica e teórica para a construção de uma classificação de classes; o segundo fazia uma análise da mobilidade estrutural no Brasil.
No ano de 1998, decidi explorar novos campos de estudo, sempre movida pela curiosidade e pelo gosto por desafios, bem como pela convicção de que a área de desigualdades toca, no Brasil, em diversos outros campos de conhecimento. O convite de Leilah Landim para trabalhar no ISER com o Projeto Comparativo sobre o Setor Sem Fins Lucrativos coordenado pelo Institute for Policy Studies da Universidade Johns Hopkins veio ao encontro das minhas inquietações. Ali se apresentava uma excelente oportunidade para explorar nova área, vinculada a políticas sociais, saindo um pouco do âmbito das análises de estratificação, ao mesmo tempo em que se sedimentava relação profissional e de amizade que perdura até hoje. No âmbito da pesquisa, realizamos, Leilah Landim e eu, um survey nacional, cujo campo foi coletado pelo IBOPE. Os resultados foram publicados em 2000, ano do voluntariado, no livro Doação e trabalho voluntário no Brasil, editado pela 7Letras, do Rio de Janeiro. De todas as minhas publicações essa foi, talvez, a que obteve maior impacto na mídia e na sociedade como um todo. Representava uma radiografia do estado das doações e do voluntariado em nosso país, bem como dos valores ligados a essas ações. Acredito que aí resida a origem do meu interesse por estudar valores e percepções, que vem marcando meus trabalhos produzidos desde então. Anteriormente à pesquisa sobre trabalho voluntário, houve outra publicação de Leilah Landim e Neide Beres, da qual participei como colaboradora: As organizações sem fins lucrativos no Brasil: ocupações, despesas e recursos (Editora NAU, 1999).
Seguindo a tendência de me mover por outras áreas, em 1998 fui convidada para analisar os dados da PPV – Pesquisa de Padrão de Vida – do IBGE. Propus-me, então, a realizar um estudo sobre qualidade de vida dos migrantes nordestinos no Sudeste, proposta audaciosa que conjugava a área de demografia com as minhas já sedimentadas preferências por análises de percepção e valores. Vale recordar que a PPV tem um módulo no qual o respondente é instado a avaliar suas condições de vida de forma subjetiva. O artigo, escrito com a coautoria com Ignacio Cano, foi entregue ao IBGE em 1998 e, no mesmo ano, apresentado no Congresso Luso-Afro-Brasileiro em Maputo, Moçambique. Infelizmente nunca foi publicado, o que consiste para mim em uma frustração, já que é um dos meus trabalhos que mais aprecio.
Em 1999, Manuel Palácios convidou-me para dar aulas para a segunda turma do Programa de Formação de Especialistas em Avaliação e Políticas Públicas Educacionais no Laboratório de Avaliação e Medidas Educacionais (LAME) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o que me aproximou da área de avaliação de políticas e programas. Durante um semestre ofereci o curso de Métodos Quantitativos e tive a oportunidade de debater e discutir os temas de avaliação educacional com os colegas de Juiz de Fora. Sinto-me grata por ter participado dessa iniciativa que, em 2000, deu origem ao atual Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CAEd), o qual hoje é responsável pela avaliação de toda a rede pública de educação básica.
Em fins de 1999, o IUPERJ foi convidado a fazer parte do ISSP (International Social Survey Program), como representante do Brasil. O ISSP é um programa de colaboração entre países com o objetivo de realizar surveys sobre tópicos relevantes para as pesquisas na área de Ciências Sociais. Ele promove análises comparativas, integrando aos estudos nacionais a perspectiva internacional e intercultural. A cada ano um tópico é escolhido e um questionário comum é aplicado nos quarenta países membros.
Eu havia preparado toda a documentação necessária para que o IUPERJ disputasse a vaga nesse consórcio e foi com grande alegria que recebi a notícia de que havíamos sido convidados. Ao saber que a coordenação do programa ficaria sob minha responsabilidade, recebi a incumbência mais como um prêmio do que como encargo adicional. Restava claro que se descortinavam diante de mim novos horizontes de oportunidades e contatos no plano internacional. Desde então tenho sido responsável pela captação de recursos e realização dos surveys, pela análise dos dados e pela participação nas reuniões internacionais que ocorrem anualmente entre os países membros do ISSP. Nessas reuniões são discutidas não só a metodologia das pesquisas, mas, principalmente, o conteúdo dos questionários, o que requer o envolvimento nos diversos tópicos propostos para os surveys.
Desde então foram realizados quatro surveys nacionais: Religião, Desigualdades, Redes Sociais e Sistemas de Apoio, e Gênero e Família. Este ano já contratamos o campo para coletar os dados do survey sobre Cidadania. Os dados dos surveys são públicos e estão disponíveis para toda a comunidade acadêmica no CIS – Centro de Informações Sociais – da ANPOCS, coordenado por Brasílio Sallum Jr.
Aqui gostaria de registrar a importância da coordenação do ISSP para minha carreira. Com ele fiz parcerias com diversos colegas, de distintos campos de estudo. A pesquisa sobre Redes Sociais contou com a participação de Leilah Landim, reeditando uma colaboração antiga. A pesquisa sobre religião teve apoio de Andrew Greeley, professor da Universidade de Chicago que obteve o financiamento para o survey e com quem escrevi um artigo. Com Clara Araújo fiz a pesquisa sobre Gênero, Família e Trabalho. No módulo de Cidadania, venho trabalhando com Luiz César Queiroz, Maria Alice Rezende de Carvalho e Manuel Villaverde Cabral.
Da análise dos dados sobre Desigualdades, resultou a coletânea organizada por mim intitulada Imagens da desigualdade (Editora da UFMG, 2004). Dela participaram Elisa Reis, Adalberto Cardoso, Fabiano Santos, Jessé Souza, Carlos Antonio Costa Ribeiro e Manuel Villaverde Cabral. Dois capítulos são de minha autoria. O survey sobre Gênero resultou na coletânea, também organizada por mim em coautoria com Clara Araújo, Gênero, família e trabalho (Editora da FGV, 2005), composta por textos de Bila Sorj, Paola Cappellin, Zuleica Oliveira, Clarice Ehlers Peixoto, entre outros. Clara Araújo e eu assinamos o primeiro capítulo e a introdução do livro.
A riqueza das análises comparativas internacionais e dos dados sobre percepção e atitude fazem desse projeto o meu favorito. Poder trabalhar com várias dimensões da realidade brasileira, sempre à luz das opiniões e valores da população têm sido o exercício mais desafiador e completo da minha trajetória. Ao contrário de esgotar minhas inquietações, o trabalho neste projeto canaliza meu interesse para a área de Políticas Públicas, uma vez que não acredito ser possível conceber a implementação de políticas e programas dirigidos à população brasileira sem conhecer suas percepções e valores.
Em 2000, realizei outro trabalho na área de avaliação educacional, dessa vez em parceria com Regina Novaes, no ISER. Nele fizemos uma avaliação do Programa de Aumento de Escolaridade (PAE) implementado pela Secretaria Municipal do Trabalho do Rio de Janeiro. Nesse processo fui responsável por um survey com a população alvo e a análise de seus resultados.
Paralelamente, continuava com os estudos sobre Desigualdades, Estratificação e Mobilidade. Em 2000, fui convidada para uma Conferência na CEPAL, Chile, com o título Nuevas metodologías de análisis cuantitativo en el campo de la movilidad social. Com Carlos Antônio Costa Ribeiro, que na época fazia seu doutorado em Columbia sobre o tema de mobilidade, escrevi o artigo “Mobilidade de classe no Brasil em perspectiva comparada”, já influenciada pelas análises comparativas internacionais. Nesse mesmo ano, Lena Lavinas, que então trabalhava na Organização Internacional do Trabalho (OIT), convidou-me para realizar o People Security Survey no Brasil, cujo objetivo era apreender os aspectos objetivos e subjetivos de segurança socioeconômica. O projeto incluía três países – Brasil, Argentina e Chile. Eu fiquei responsável pelo Brasil e tive o privilégio de ter como interlocutores Lauro Ramos e Lena Lavinas, além dos colegas argentinos e chilenos. O tema sobre trabalho e segurança de renda reforçava a sensação de que era preciso avaliar valores, para além das condições objetivas, ao se tratar de políticas públicas. Mesmo tendo sido responsável pela elaboração do questionário, resultado de exaustivos encontros com toda a equipe, e por acompanhar o trabalho de campo, nunca cheguei a publicar a análise dos dados porque o relatório da pesquisa foi concluído poucas semanas antes do nascimento de meu filho, em maio de 2001.
Meu filho Nicolás tinha apenas três meses quando voltei a trabalhar. Retomei as aulas, as orientações e as pesquisas, entre elas a já citada pesquisa sobre Percepção de Desigualdade do ISSP. Ela integrava um projeto maior, do Instituto Virtual da FAPERJ, coordenado por Carlos Hasenbalg, com o título de “O Estado Social da Nação”. Com este trabalho, participei em vários congressos, nacionais e internacionais. Também levei a campo o survey sobre Redes Sociais. O bebê não implicou o meu afastamento, ao contrário, ainda em 2001 cheguei a viajar com ele para o encontro da SBS em Fortaleza e para a ANPOCS em Caxambu.
Em 2002, fui para o Nuffield College da Universidade de Oxford fazer pós-doutorado de três meses. O convite de John H. Goldthorpe coroava minha trajetória na área de mobilidade social, uma vez que John é o mais respeitado sociólogo no campo. Viajei com Nicolás, então com um ano. Foi uma experiência maravilhosa, tanto profissional como pessoal. O trabalho em um centro de estudos de excelência da área de mobilidade, em ambiente tão acolhedor, foi fundamental para que eu retomasse o estudo da mobilidade, que, na minha trajetória, havia se tornado secundário com relação às pesquisas de percepção. A volta à Inglaterra, agora não mais como estudante e sim como visiting fellow, era, ademais, uma alegria.
A preocupação com as análises internacionais deu origem ao artigo “Class mobility in Brazil from a comparative perspective”, que escrevi em coautoria com Carlos Antônio Costa Ribeiro, publicado em 2003 pela editora do Institute of Latin American Studies (ILAS) no livro Brazil since 1985: economy, polity and society, organizado por James Dunkerley e Maria D’Alva Kinzo.
De volta ao Brasil, ainda em 2002, fui convidada por Estanislao Gacitúa-Marió para participar da pesquisa multidisciplinar “Social Exclusion in Brazil”, do IPEA e Banco Mundial. Nela desenvolvi uma análise sobre as percepções dos brasileiros sobre os critérios de estratificação, buscando evidenciar que elementos permitem a convivência com os elevados índices de desigualdades de renda, e sobre a opinião dos brasileiros a respeito das políticas de combate às desigualdades e à pobreza. Esse trabalho, realizado em coautoria com Ignacio Cano, foi publicado este ano na coletânea Exclusão social e mobilidade no Brasil, organizada por Estanislao Gacitúa-Marió e Michael Woolcock, que inclui textos do próprio Gacitúa-Marió, de Régis Bonneli, Elisa Reis, Simon Schwartzman, José Sérgio Leite Lopes, entre outros.
O contato com a área de Economia sempre foi frequente na minha trajetória. Além de me beneficiar com a discussão interdisciplinar, penso que os trabalhos de avaliação e diagnóstico, em geral voltados para informar políticas públicas, carecem do toque sociológico, já que em sua maioria estão sob a responsabilidade dos economistas. Acredito que a interlocução privilegiada dos economistas com o poder político deve-se em parte à importância da disciplina, e em parte ao controle do instrumental metodológico necessário à análise de programas sociais e políticas públicas. Os frutos dessa interlocução são vários, como minha participação no recente relatório publicado pelo IPEA: “O Estado da Nação”; o artigo publicado no dossiê da Revista Econômica (v. 7, n. 1, 2005), da UFF: “Comentário sobre o texto de Marcelo Medeiros: entendendo a riqueza para combater a pobreza”; e o convite para participar da pesquisa sobre juventude, que está sendo coordenada por Ricardo Paes e Barros e Simon Schwartzman.
Atualmente, estou envolvida em inúmeras pesquisas, algumas já em fase de conclusão, como a pesquisa sobre Condições de Vida e Transferência Financeira entre Gerações, coordenada por mim e financiada pelo Edital Universal do CNPq. Algumas outras em andamento, como o Pronex “Estado, Sociedade Civil e Mercado na Redução das Desigualdades”, coordenado por Elisa Reis; “Social Mobility in Late Industrializing Countries”, coordenada por Hiroshi Ishida, da Universidade de Tóquio e “Transformações no Processo Produtivo, Dinâmica do Mercado de Trabalho e Estratificação Social”, coordenada por mim e Luis Antônio Machado.
Gostaria também de salientar minha inserção como pesquisadora no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), desde julho de 2005. O convite partiu de Eduardo Marques, diretor do CEM (Centro de Estudos da Metrópole). Lá desenvolvo projetos que combinam as análises de estratificação e condições de vida com avaliação de serviços e políticas públicas. Fazer parte do grupo de pesquisadores do CEBRAP me gratifica profundamente e, de certa forma, este convite representa o reconhecimento de meu trabalho.
Integração na comunidade científica e orientações na pós-graduação
Em 1999 tive meu primeiro contato com o Research Committee on Social Stratification and Mobility (RC28) da International Sociological Assosciation (ISA). Era o Congresso intitulado “Social Stratification at Century’s End: International Perspective”, na Universidade de Wisconsin, Madison, onde apresentei um trabalho resultante de minha tese de doutorado: “Social mobility in Brazil”. Em 2000, novamente reuni-me aos colegas do RC28, no Congresso “The 50th Anniversary of RC28: Achievements and Outlooks”, que desta vez teve lugar em Libourne, França. O trabalho apresentado “Social mobility trends in Brazil” foi em coautoria com Carlos Antônio Costa Ribeiro, na época doutorando em Columbia. Peço perdão por detalhar minha inserção no RC28, mas esse fato marcou minha carreira internacional. Foi nesse ambiente que conheci John H. Goldthorpe e recebi seu convite para o Nuffield College, também ali me aproximei de Michael Hout, Tom DiPrete e Hiroshi Ishida, importantes referências na área de estratificação, educação e trabalho. Inúmeras vezes pedi o auxílio de Mike para executar modelos de mobilidade, enquanto Tom divide comigo a orientação de Lygia Costa, minha aluna de doutorado que obteve a bolsa sanduíche na Universidade de Columbia, Nova Iorque. De Ishida recebi o convite para participar do grupo de pesquisadores envolvidos no projeto “Social Mobility in Late Industrializing Countries”.
O vínculo criado com o coeso grupo do RC28 levou vários colegas americanos, holandeses e ingleses a me incentivarem a organizar no Brasil um encontro do grupo. Lancei-me, assim, na missão de preparar para mais de 70 participantes estrangeiros o Congresso no Rio, que teve o nome de: “Inequality and Stratification: Broadening the Comparative Scope”, nos dias 7, 8 e 9 de agosto de 2004 no IUPERJ. As dificuldades e preocupações envolvidas na organização de um evento desse porte com recursos escassos foram superadas pelo contentamento em receber um grupo tão prestigiado de acadêmicos em minha instituição.
Ainda no contexto internacional, não poderia deixar de enfatizar a já mencionada participação no International Social Survey Programme (ISSP). Os intensos e exaustivos debates, por internet e nos encontros anuais, são fonte inesgotável de troca de conhecimentos. É um privilégio conviver com colegas das mais diferentes áreas da Sociologia, Ciência Política e Psicologia Social.
No Brasil, componho o conselho editorial da Revista Brasileira de Informação Bibliográfica (BIB) e a futura diretoria da SBS, que tem à frente Tom Dwyer. Integro, também, o Comitê de Avaliação da CAPES, a convite de Sérgio Adorno.
Na minha experiência de orientação de teses, sinto que aprendi muito sobre uma variedade de temas. Refletindo sobre a base comum a todos eles, entendo que minha linha de orientação esteve sempre dirigida à integração de teoria e empiria, seja nas teses sobre mercado de trabalho e educação, temas intimamente vinculados à estratificação social, seja nas teses sobre participação e políticas que, confesso, também inseriam o viés das questões sobre desigualdades e pobreza. Atualmente tenho três doutorandos sob minha orientação: Márcia Segadas, que estuda informalidade; Fernando Tavares Júnior, que analisa a interface entre educação superior e mobilidade; e Lygia Costa, que investiga a trajetória ocupacional dos migrantes. Fernando, instado por mim a fazer um doutorado sanduíche, passou um ano na Universidade de Lisboa, trabalhando com Manuel Villaverde Cabral. O retorno de Fernando foi seguido pela partida de Lygia que está, neste momento, na Universidade de Columbia, com Tom DiPrete. Tenho convicção de que a experiência numa instituição estrangeira é marcante para os jovens doutorandos, especialmente nos dois casos citados: de Fernando, que chegou no IUPERJ vindo do interior de Minas Gerais, e de Lygia, nascida e criada em Teresina/Piauí.
Além dos meus orientandos, tenho grande satisfação de ter participado da formação de quadros na área de metodologia. Nas disciplinas que ofereço nesta área, tenho sempre bolsa para monitoria e os alunos que se vinculam a este projeto acabam por se inserir de forma exitosa na carreira acadêmica. Entres os monitores que já dividiram comigo o curso de metodologia, gostaria de mencionar ao menos uma: Felícia Picanço, atualmente professora da área de Métodos do Departamento de Sociologia da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).
Comentários finais
Peço licença para concluir meu memorial com uma frase emprestada de Weber: “toda obra científica ‘acabada’ não tem outro sentido senão o de fazer surgirem novas ‘indagações’: ela pede, portanto, que seja ‘ultrapassada’ e envelheça”. Esse movimento de morte e renascimento foi o que impulsionou, e ainda impulsiona, minha carreira. A inquietação e a busca por um diálogo interdisciplinar e multitemático marcam minha trajetória: da mobilidade de classes à migração, da sociedade civil e participação à educação, do gênero à raça. Passo por inúmeros campos, todos atravessados por um mesmo problema que define a sociedade brasileira: a desigualdade de oportunidades.
Olhando retrospectivamente, avalio que minha trajetória nem sempre foi linear e racionalmente dirigida, dado que a vida é moldada em parte pela agência e em parte por constrangimentos e contextos diversos. Percebo que nela trilhei vários caminhos que, se não seguem em linha reta, ao menos se dirigem a um destino comum: a análise da estrutura social brasileira. Essa análise ambiciona ser não simplesmente descritiva, mas servir de fonte para a compreensão da realidade social e, possivelmente, para a intervenção nela. Daí a proposta para um próximo destino: o estudo dos programas sociais e políticas públicas.
Queridos Colegas
Agradeço imensamente à equipe do BVPS pelo trabalho e dedicação. Para mim é uma honra e uma alegria participar desta série.
Vocês foram muito generosos na introdução a meu memorial, valorizando esse texto tão modesto.
Grande abraço, Celi