Série Modos de Narrar a Sociologia Brasileira | Soraya Vargas Côrtes

Hoje teremos uma dobradinha de posts da série Modos de narrar a sociologia brasileira, que se propõe a publicar excertos de memoriais acadêmicos selecionados por sociólogas e sociólogos, a fim de contar uma história mais plural, descentrada e contingente dessa área do conhecimento. Neste primeiro post apresentamos – sempre em pares – os relatos de Irlys Alencar Firmo Barreira (UFC) e Soraya Vargas Côrtes (UFRGS).

Observando que os memoriais seguem uma “lógica do acontecido depois que o tempo se congelou em um título”, Irlys narra seu rico percurso que deságua, mas não se esgota, no campo de estudos dos movimentos sociais urbanos e sua dimensão cultural e no interesse pela construção de lideranças populares. Já Soraya organiza seu relato a partir das diferentes “identidades-nós” que assume em sua trajetória profissional – da militância e gestão na área de saúde coletiva à sociologia política das policies –, orientada por variações de um tema básico: o que explica a mudança social? Como diferentes padrões de relações entre atores em rede, que compartilham certo horizonte de expectativas, e os resultados de políticas públicas modificam desigualdades sociais e políticas duradouras, ampliando direitos e democratizando o acesso a bens e serviços?

Para conferir a apresentação e demais posts da série clique aqui.

Desejamos a todas e todos boa leitura!


Memorial (2015)

Soraya Vargas Côrtes (UFRGS)

O memorial está organizado em períodos que refletem momentos de inflexão em meus interesses de pesquisa, de docência e de ação para construção institucional. As inflexões estão relacionadas a decisões que tomei intencionalmente, após reflexão sobre minhas preferências de atuação profissional, a resultados inesperados dessas decisões, a acontecimentos contingentes que afetaram intenções prévias de como conduzir a vida profissional e, principalmente, às relações sociais que estabeleci em família, durante o processo de socialização primário, e com os vários grupos sociais com os quais interagi. O pertencimento a tais grupos e as identidades-nós que fui assumindo ao longo de minha vida profissional constituem-se como um processo de transformação constante que modificou a mim e àqueles que comigo conviveram.

Desde o mestrado, e mesmo antes, uma questão sociológica básica instigava minha curiosidade: o que explica a mudança social e como ela ocorre. As abordagens estruturais focalizam a permanência e a recorrência de estruturas rígidas de reprodução de desigualdades sociais e políticas, de assimetrias sociais que se constituem e reconstituem, mesmo quando a mudança social ocorre. Essas teorias, por mais relevantes que sejam para entender a manutenção de sistemas de dominação e de hierarquias sociais, não ajudam a compreender por que há mudança.

Eu inicio a vida profissional querendo tornar o mundo socialmente mais justo e, quem sabe, auxiliar na construção do paraíso igualitário prometido pelo marxismo. Hoje quero entender como diferentes padrões de relações entre atores em rede, que compartilham certa visão sobre o mundo e os resultados de políticas públicas (das policies), modificam padrões históricos de desigualdades sociais e políticas.

Mesmo redefinida, permanece a mesma questão guiando minha atuação profissional: o que explica a mudança social? Tendo em vista os objetos de pesquisa que construí, hoje, a pergunta que guia minha atuação profissional é: o que explica as mudanças nas policies. As críticas que o pós-estruturalismo e o pós-modernismo fizeram ao evolucionismo e às perspectivas modernas mostram que a mudança não progride necessariamente em direção à ampliação de direitos, ou em direção à ampliação da democracia. Porém, há dados consistentes que comprovam que isso ocorreu, em muitos países, durante o século 20 principalmente depois da 2ª Guerra Mundial e início do século 21. Essa direção virtuosa não é inexorável. Ao contrário, tendemos a pensar que progredimos em direção a um futuro que consideramos desejável, entretanto isso está mais relacionado a nossa necessidade de segurança existencial do que a evidências históricas. Mas meu interesse maior é pela mudança virtuosa, que amplia direitos e democratiza o acesso de bens e serviços.

Esse sentido explícito que atribuo à minha carreira é, de fato, social e não individual. A coordenação colaborativa e intersubjetiva de minhas atividades de pesquisa, docência e de gestão, com amigos, colegas, alunos, professores e autores supriram e ainda suprem minha necessidade básica, humana, de compartilhar identidades e significados.

O memorial está organizado da seguinte forma. Na primeira seção trato de minha família, da formação escolar e da graduação em História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na segunda, abordo a circunstância contingencial – não havia mestrado em história na UFRGS quando terminei a graduação – que me conduziu à sociologia e o meu encanto com a disciplina. Na terceira, trato de meu período militante no campo da saúde coletiva e da experiência na administração pública que despertou meu interesse em entender como mudam as políticas públicas. A quarta seção descreve minha transformação de militante-pesquisadora em pesquisadora em tempo integral, período em que no centro de meus interesses de pesquisa estavam as instituições participativas que se disseminavam no Brasil desde os anos 1990. A quinta parte desenvolve o período mais denso de minha vida profissional como professora, pesquisadora e integrante, simultaneamente, de redes sociais da área de saúde coletiva, sociologia e políticas públicas. Período em que as influências dos diversos grupos sociais a que pertenci guiaram minhas decisões, embora fosse eu que as tomasse. Ao final, apresento uma breve reflexão sobre minha trajetória profissional e sobre as perspectivas que diviso para o futuro.

Antecedentes: família, formação escolar e graduação em História

Nasci em 1958, em Porto Alegre, em uma família de classe média em processo de ascensão social. Embora minha mãe tenha feito duas faculdades, Letras e Direito, meu pai, que concluiu apenas o ensino médio, era o intelectual da casa. Lia obsessivamente e inundava a casa de livros. Minha mãe lia menos, mas era muito estudiosa, e uma mulher de classe média que trabalhava e ganhava bem. Entre meus amigos de classe média, era uma exceção. Apenas aqueles com pais separados tinham mães que trabalhavam para poder manter a família. Os processos de socialização em que participei no âmbito familiar foram marcados pelas discussões intermináveis sobre livros, política, sobre eventos históricos, sobre a grafia e conotação das palavras e pela percepção do lugar de destaque que minha mãe ocupava na hierarquia social familiar. A identidade-eu que construí nessas interações familiares, não apenas valorizava a leitura e o estudo, e tinha prazer em saciar curiosidades sobre o mundo social e sua história, como também naturalizava a condição de mulher inserida no mercado de trabalho. Esses processos de socialização no âmbito familiar tiveram influência marcante nas escolhas profissionais que fiz e no fato de eu sempre ter considerado “normal” ter filhos, família e uma vida profissional intensa.

Minha formação escolar foi em colégios católicos. A primeira escola que frequentei foi o Colégio Menino Deus, típica escola de bairro, próxima de nossa casa, exclusivamente para meninas. A segunda foi o Colégio Anchieta, misto, jesuíta e um dos mais tradicionais de Porto Alegre.

Ao final do segundo grau, como se denominava à época o ensino médio, para desapontamento de meus pais, que esperavam que eu escolhesse uma profissão com maior reconhecimento social e que permitisse ganhar mais dinheiro, resolvi fazer graduação em História na UFRGS. Em 1976, aos 18 anos recém feitos, ingressei no curso de História desta universidade, com o firme propósito de ser arqueóloga.

Encantei-me com o conhecimento dos professores, com a biblioteca, que além dos livros acadêmicos, tinha um acervo de literatura maravilhoso. Em seguida consegui uma bolsa na área de arqueologia. A crítica generalizada ao positivismo não alterava o etos empirista predominante na área de história, nem o rigor vigoroso com que se atentava para as questões de método. Não havia espaço para se fazer ilações teóricas sem sólida comprovação.

Porém, o aprendizado maior e mais rico veio da relação com os colegas. As intermináveis e acaloradas discussões em espaços informais de sociabilidade permitem um tipo de reflexão compartilhada no qual desaparecem as assimetrias sociais, entre professor e alunos, típicas da sala de aula ou das equipes de pesquisa. O tom dos debates que estabelecíamos era marcado pela contestação ao regime militar, ao sistema capitalista e aos professores.

Nesse processo, minha visão de mundo virou de cabeça para baixo. Desisti da arqueologia. Queria participar da transformação do sistema; estudar sobre essa transformação potencial e os responsáveis por ela, os trabalhadores; ser uma professora de escola que mostrasse aos alunos outra história que não a oficial.

Obtive uma bolsa de iniciação científica para trabalhar em um projeto da professora Silvia Petersen sobre história do movimento operário no Rio Grande do Sul. No quarto e último ano de faculdade desisti da bolsa, porque surgiu a oportunidade de dar aulas no Colégio Maria Imaculada. Concluí Bacharelado e Licenciatura em História, em 1979, com 21 anos.

Eu queria fazer mestrado, para continuar estudando. À época, o Departamento de História organizara uma especialização em História do Rio Grande do Sul, temática que não me despertava interesse. Optei pelo mestrado em Antropologia, Política e Sociologia, que, entre outras razões, me atraia porque me identificava cada vez mais com amigos, e namorado, que faziam o curso. Fui bem na seleção, fiquei em terceiro lugar. Meu objetivo racional era continuar no campo da história, como colegas meus o fizeram, ainda que com mestrado em ciências sociais. Minha trajetória encontrava o campo da sociologia.

O contingente que altera a vida: o fascínio pela sociologia

Em 1980, ingressei no mestrado em Antropologia, Política e Sociologia, com área de concentração em Sociologia. Quando relato a razão de meu encanto pela sociologia a colegas sociólogos, eles se divertem. Foi como uma libertação. Mesmo nas aulas de João Guilherme, em que apenas Marx era ortodoxo o suficiente para ser considerado “correto”, podíamos construir interpretações próprias. Vinda do ambiente da história, parecia, a princípio, que podíamos dizer qualquer coisa. Não precisava ter evidências à mão. Teorias de médio e curto alcance eram formuladas à luz das grandes teorias sociológicas. A possibilidade de pensar criativamente foi muito estimulante. Chegara ao mestrado por acaso, e quanto mais conhecia a sociologia, e o ambiente acadêmico da área, maior era minha convicção de que queria ser socióloga.

A pluralidade teórica, que caracteriza o Programa de Pós-graduação em Sociologia da UFRGS, encontra suas raízes no antigo mestrado em Antropologia, Política e Sociologia, no qual os professores ministravam aulas sobre Gramsci, Bourdieu, Barrington Moore, Foucault, entre outros. Mas nesse processo de construção de uma nova identidade-nós o que mais me fascinava eram meus colegas. Não queria ser professora universitária, queria ser como eles: trabalhar em instituições de pesquisa, na gestão pública, em sindicatos, combater a ditadura militar.

Entre 1980 e 1981, eu cursava o mestrado e lecionava no Colégio Maria Imaculada. Porém, o projeto de ensinar outra história que não a oficial perdera sentido, porque eu ansiava por trabalhar como socióloga e também porque o currículo que eu era obrigada a seguir apresentava conteúdos que eu considerava incompatíveis com interesses, capacidade cognitiva e necessidades intelectuais dos alunos.

Em 1981, passei a participar, como auxiliar de pesquisa, em investigação coordenada pela professora Maria Susana Soares, que era também minha orientadora de mestrado. A pesquisa, que servia de embasamento para sua tese de doutorado, examinava o pensamento social brasileiro nos anos 1920. Eu gostaria de me dedicar exclusivamente à pesquisa coordenada por Susana e com a investigação que embasava minha dissertação. Mas a baixa remuneração como auxiliar de pesquisa não me permitia abandonar as aulas.

Como eu desistira de ser professora de história, queria uma inserção profissional de outro tipo que me permitisse ser socióloga. Em tempos de ditadura não havia concursos públicos para administração direta. O preenchimento de cargos era feito de forma discricionária pelo gestor. Depois de muitas tentativas, e graças à indicação de amigos de meus pais, em junho de 1981, fui contratada para trabalhar na Escola de Saúde Pública (ESP) da Secretaria Estadual da Saúde e pedi demissão do colégio em que lecionava. Eu escolhera ser socióloga, mas trabalhar na área de saúde foi uma contingência. Não tinha interesse especial sobre o assunto. A nova inserção profissional, no entanto, mudou drasticamente o curso de minha trajetória profissional.

Para mudar o mundo: a política como vocação no campo da saúde coletiva

Na ESP, entre 1981 e 1990, minhas principais atividades eram a realização de pesquisas e a docência sobre política de saúde e sociologia da saúde em cursos de especialização e atualização para profissionais de saúde. Vários colegas da Escola e de outros setores da Secretaria são meus amigos até hoje. Os laços de companheirismo e de amizade se mantiveram ao longo tempo. Aos poucos fui assumindo uma nova identidade-nós: a da policy community reformista do sistema de saúde brasileiro. O conceito policy community se refere a um número limitado e relativamente estável de membros que dividem os mesmos valores e visão sobre quais devem ser os resultados da política setorial. A visão compartilhada sobre os resultados desejáveis da política de saúde eram ideias que funcionavam como uma “cola” que sustentava os laços entre nós. Defendíamos a reforma do sistema de saúde brasileiro, para torná-lo público – para alguns, estatal –, com oferta universal de cuidados integrais de saúde, organizado em uma rede descentralizada e hierarquizada de serviços, com participação dos usuários nas decisões sobre as políticas de saúde. Essa community reformista é usualmente tratada na literatura como movimento sanitário.

Meus colegas da Escola haviam entrado há pouco na Secretaria e do mesmo modo que eu: por indicação política de alguém. Eram todos de esquerda, ferrenhos opositores do regime militar e da direção da Secretaria, cujo Secretário, fora vinculado politicamente à Arena. Usávamos Gramsci para pensar em uma guerra de posição, em que nós éramos os intelectuais orgânicos da classe trabalhadora. Paulo Freire orientava nossa visão pedagógica sobre como agir para favorecer o despertar da consciência crítica dos alunos profissionais de saúde e da consciência de classe dos trabalhadores pobres. O Estado servia aos interesses da burguesia opressora, nossa ação nas “trincheiras estatais” preparava a revolução que ocorreria no futuro.

No entanto, essa visão esquemática das relações entre Estado e sociedade, da organização estatal, e que concebia a existência de um futuro inevitável, não parecia adequada à realidade em que agíamos. Como explicar que o próprio “sistema” contratasse e mantivesse em seus quadros esquerdistas opositores que trabalhavam mais ou menos abertamente para a derrubada do regime e para mudanças nas políticas da Secretaria? Mais ainda, nossas propostas não eram revolucionárias, éramos defensores de uma reforma na organização do sistema de saúde, nos marcos do capitalismo, e disputávamos com outros grupos que defendiam outras propostas.

Meu engajamento crescente com o movimento sanitário não fez com que abandonasse o mestrado. Ao contrário, meu tema de pesquisa passou a ser a política de saúde durante o último governo de esquerda no Estado do Rio Grande do Sul. Concluí a dissertação, intitulada “Desenvolvimento e Saúde: a política de saúde do governo Brizola no Rio Grande do Sul”, em dezembro de 1984. Ao estudar a política de saúde do governo Brizola, buscava respostas para perguntas que eu formulava subliminarmente. Poderia um governo de orientação de centro esquerda gastar mais com saúde e assim alterar o padrão de oferta de serviços de saúde, no sentido de expandir o acesso? Se as políticas sociais servem para legitimar o sistema capitalista, socializar os custos de reprodução da força de trabalho e disciplinar os trabalhadores – isto é, se são funcionais à manutenção e ao fortalecimento da dominação capitalista, contra a qual lutávamos –, por que eu e meus colegas considerávamos positivo expandir os serviços públicos de saúde e o acesso da população à atenção integral à saúde? Por que o Serviço Nacional de Saúde britânico, que servia de modelo para nós que defendíamos a criação de um sistema nacional único, oferecia acesso universal e cuidados integrais de saúde, enquanto nos Estados Unidos, também capitalista, isso não acontecia? O modelo analítico funcional marxista era inútil para a compreensão de trajetórias de políticas de saúde tão contrastantes em dois países capitalistas.

Ao final de 1981, eu havia casado, e esperara concluir a dissertação para engravidar. Em 27 de dezembro de 1985, nasceu meu primeiro filho. Após a licença maternidade voltei à Escola e reassumi as atividades de docência e pesquisa. Em 1986, participei na Comissão de Saúde do PT que elaborou as propostas para essa área apresentadas na campanha eleitoral para o governo do Estado. Embora o PT tenha perdido as eleições para governador, elegeu sua primeira bancada estadual que teve direito a presidir a Comissão de Saúde Trabalho e Bem-estar Social da Assembleia Legislativa. Em 1987, Maria Luiza Jaeger e eu, ambas cedidas da Secretaria Estadual de Saúde, assumimos a assessoria técnica da Comissão.

Em janeiro de 1988, voltei à Escola e, além da docência, me dediquei mais às atividades de pesquisa. No mesmo ano, obtive a concessão pelo CNPq de Bolsa PQ, por dois anos, vinculada a Diretoria de Ciências da Vida. A estratégia que eu traçava para minha carreira era acadêmica, na área de saúde coletiva, mas as circunstâncias, especialmente o crescimento do PT, continuavam a atrair-me para a atuação política direta.

Engravidei novamente e, em 5 de novembro de 1988, tive meu segundo filho. Em dezembro, eleito Olívio Dutra, do PT, prefeito de Porto Alegre, a sala de minha casa passou a ser o quartel general de articulações de um grupo de petistas da área de saúde que discutia a política de saúde a ser implementada na cidade. Iam à minha casa porque eu amamentava meu filho e não podia ficar muito tempo longe dele. Em janeiro de 1989, Maria Luiza Jaeger assumiu o cargo de Secretária Municipal de Saúde e Assistência Social. Em seguida, assumi os cargos de Secretária Substituta e de Coordenadora de Planejamento.

O trabalho na Secretaria Municipal frequentemente se estendia por três turnos e muitas vezes eu atendia a compromissos de trabalho durante os fins semana. Chegou a um ponto em que cansei. Uma das razões era a dificuldade em conviver com minha família, especialmente com meu filho menor. A outra foi, como fora na Assembleia, a angústia que me causava a impossibilidade de tomar decisões embasadas em análises consistentes, tendo em vista as constantes situações emergenciais, que impediam o planejamento das ações.

Em 1989, surgiu a oportunidade para meu marido de fazer doutorado na London School of Economics and Political Science (LSE), no Departamento de Industrial Relations. Queria que eu fosse junto, fizesse doutorado também, desistisse do crescente ativismo político. Não fosse essa circunstância, talvez não tivesse optado pelo doutorado. Mas entre tantas identidades-nós que assumi ao longo da vida, a de integrante de minha família nuclear é sem dúvida das mais fortes. Em 1990, consegui a aprovação de proposta de pesquisa de doutorado no Departamento Social Policy (Política Social) da LSE e bolsa do CNPq para realização do doutorado pleno.

Um pouco a contragosto, com um filho de dois anos e outro de cinco, em janeiro de 1991, partimos para Londres. Encerrava-se ali a fase de ativismo político em minha trajetória profissional. Embora tenha assumido posteriormente cargos de gestão acadêmica, afastei-me definitivamente da administração pública direta. Os recursos teórico-metodológicos que encontrei para entender os processos de mudança nas policies durante o doutorado e o prazer que tive durante a elaboração da tese tornaram impossível pensar em outra sequência para minha carreira que não a acadêmica.

Para compreender as instituições participativas: a ciência como vocação

O período do doutorado significou uma mudança profunda no meu modo de enxergar a sociedade, o Estado, a ciência social e o ofício do sociólogo. As relações que estabeleci com colegas brasileiros e de vários países, com os professores, com uma enorme variedade de autores a cujas obras tive acesso, particularmente na maravilhosa biblioteca da LSE, desenvolveram novas identidades-nós e transformaram também de forma relativamente rápida as identidades-nós de que já dispunha.

Londres é uma cidade altamente cosmopolita e internacionalizada e a LSE é a universidade de humanidades de Londres. A turma de doutorado, no Departamento de Política Social, era formada por europeus e norte-americanos, um mexicano e por mim. As discussões que fazíamos eram diferentes daquelas que me habituara a travar. Em primeiro lugar, à exceção do colega mexicano, para os demais as abordagens marxistas não tinham importância. As perspectivas teóricas mais relevantes eram variações da teoria feminista, que tratavam de um espectro variado de desigualdades e de modos de dominação que não apenas o patriarcado. Em segundo lugar, havia intensos debates sobre os modelos de welfare state, as policies, as teorias do Estado e outros temas, sobre os quais eu pouco conhecia.

Meu novo processo de socialização tardio envolveu estudar intensamente esses e outros assuntos. Um conhecimento tácito que aprendera ao longo da graduação e do mestrado, que fora reforçado ao longo de minha prática profissional, era o de que se desconstruía por meio da crítica o argumento de autores que classificávamos como equivocados, funcionalistas, reacionários, conservadores, ou algo assim, a partir de elementos que trazíamos de nosso ponto de vista “correto”. Frequentemente, no caso dos textos escritos, ao final apresentava-se a posição certa. Para minha surpresa, nos artigos e livros que lia não havia um “final feliz”. Em busca de orientação segura, esperava que a crítica de outras abordagens resultasse no caminho correto, de acordo com algum tipo de ortodoxia. Mas os debates não se apresentavam nesses termos. As críticas contundentes destinavam-se apenas a obras com falhas lógicas ou cujas bases teóricas e metodológicas já estivessem superadas no debate do campo acadêmico em que se encontravam. Com frequência apresentava-se ainda uma perspectiva preferencial em relação a uma ou algumas das posições consagradas sobre a questão em debate, ou uma nova abordagem, deixando em aberto a possibilidade de contestação. Aos poucos, aprendia um novo conhecimento tácito, que pressupunha respeitar e levar em conta a construção de conhecimentos feita a partir de premissas teóricas e políticas distintas. Mais do que isso, sem guia, fui sendo socializada nessa nova autonomia: cabia a mim decidir o caminho teórico e metodológico a seguir. Durante o doutorado tive enorme liberdade para elaborar o projeto de qualificação, realizar a pesquisa e escrever a tese.

O interesse sobre o tema de minha tese, a participação social na área da saúde e seus possíveis impactos no processo decisório setorial advinha da vivência como gestora na área. Ter que responder a demandas de usuários no conselho municipal de saúde de Porto Alegre provocara em mim uma sensação desconfortável, intimidadora. Refletindo sobre isso, percebia que os conselhos propiciavam um espaço, à época novo, de interlocução entre representantes de populações das periferias das cidades e gestores. Os últimos eram obrigados, gostassem ou não, a apresentar respostas. Isso poderia ter consequências positivas, no sentido de mudar o curso das políticas de modo a atender as demandas desses representantes.

A tese User Participation and Reform of the Brazilian Health System, que defendi em 1995, desenvolveu uma metodologia para analisar a participação de usuários em fóruns participativos institucionalizados. O estudo concluiu que, entre 1985 e 1991, as variações na participação no Conselho Municipal de Saúde de Porto Alegre foram fortemente associadas com mudanças importantes: (1) no quadro institucional do sistema de saúde brasileiro, (2) na organização de movimentos sociais urbanos na cidade e (3) na relação entre profissionais de saúde pública e lideranças de movimentos sociais urbanos. O estudo destacou o papel de reformadores do sistema de saúde brasileiro como promotores ou estimuladores dessas mudanças. Essa policy community teve um papel central na atração de ativistas de movimentos sociais urbanos para que se envolvessem nas atividades do Conselho. Para minha grande satisfação, a tese foi aprovada sem correções e com indicação para publicação – avaliação que menos de 5% das teses aprovadas na LSE recebia.

Na volta ao Brasil, em agosto de 1995, permaneci na Escola de Saúde Pública, até 13 de março de 1996, quando, em função de adesão a um programa de demissão voluntária, exonerei-me do cargo que ocupava na administração estadual.

Em março de 1996 assumi como docente na Unisinos e, simultaneamente, investi na aproximação com a Sociologia da UFRGS. No mesmo mês, fui selecionada para exercer o cargo de professora substituta junto ao Departamento de Sociologia da UFRGS. Em agosto de 1996, fui incorporada como professora colaboradora do PPGS, também da UFRGS.

Embora a inserção institucional na Unisinos fosse crescente, meu objetivo naquele momento era a docência na UFRGS. Eu admirava o grupo de professores do PPGS. O ambiente institucional da universidade me era familiar. Enfim, eu queria intensificar as relações com esse grupo, fazer parte dessa instituição, assumir integralmente essa identidade-nós que já sentia como minha. Prestei concurso em janeiro de 1997. Em junho, assumi como professora adjunta.

Entre 1997 e 2001, minha docência se concentrou em disciplinas de Introdução à Sociologia, Sociologia da Saúde, Políticas Públicas e Metodologia de Pesquisa. Ao mesmo tempo, orientei trabalhos de conclusão de curso de graduação e de mestrado e exerci atividades de gestão acadêmica junto ao Departamento e ao PPGS.

As instituições participativas brasileiras, particularmente as de saúde, continuaram no centro de minhas preocupações de pesquisa. A atuação na área de saúde coletiva, tratando deste tema, permaneceu intensa, como atestam os trabalhos apresentados em diversos congressos da área e nos processos das Conferências Nacionais de Saúde.

Os novos laços sociais que foram se constituindo desde meu ingresso na UFRGS e aqueles que estabelecera no passado – na área de saúde e com colegas durante o doutorado – produziram inflexões em minha trajetória profissional que, aos poucos, diversificaram os caminhos de minha atuação. Como resultado dos novos laços sociais que estabelecia, destaco o convite, de Clarissa Baeta Neves, para a publicação sobre metodologia de pesquisa em revista do PPGS, antecessora da Sociologias, os Cadernos de Sociologia.

Outra consequência da inserção no grupo de professores da UFRGS foi o generoso convite de José Vicente Tavares dos Santos para que eu participasse de Convênio Capes/FCT celebrado entre o PPGS da UFRGS e o Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra. Destaco a parceria – hoje a amizade – que mantenho desde então com a professora catedrática do Instituto Universitário de Lisboa (antigo ISCTE), Graça Carapinheiro, principal autora portuguesa na área de sociologia da saúde. Nosso primeiro estudo conjunto resultou em publicações e apresentações de trabalho em Congressos.

As redes sociais que integrei durante meu doutorado não se restringiram àquelas formadas por colegas de outros países. Quem teve a experiência de morar por vários anos no exterior sabe que a relação que estabelecemos com colegas brasileiros mimetiza as familiares. Da amizade com Sandra Jovchelovitch, brasileira, e Martin Bauer, suíço, ambos hoje professores da LSE, e contemporâneos de doutorado na mesma instituição, resultou uma cooperação (Capes / Department for International Development – DFID), iniciada em 2001, que se estendeu até 2002. Com a epidemiologista Maria de Lourdes Drachler, que trabalhara comigo na Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre e que fizera doutorado na London School of Hygiene and Tropical Medicine na mesma época que eu cursara o meu na LSE, participei em pesquisa sobre desigualdades em saúde, cujos resultados foram apresentados em congressos das áreas de sociologia e de saúde coletiva e em artigos em periódicos e capítulos de livros.

Graças à amizade com Celina Souza, colega de doutorado na LSE, recebi a proposta de participação no Seminário Temático que daria origem ao GT Políticas Públicas da ANPOCS, ainda hoje existente. Desde então, sob a liderança de Celina, Marta Arretche, Eduardo Marques, Carlos Aurélio Faria, Gilberto Hochman, Telma Menicucci e minha, o GT tem se mantido atuante e concorrido. Praticamente todos os anos apresentei ou debati trabalhos e, em 2004, 2005 e 2006, coordenei suas atividades.

O doutorado em Políticas Sociais, o interesse em continuar pesquisando e ensinando sobre políticas públicas e as redes sociais que integrara na Inglaterra me compeliam a encontrar parceiros para a empreitada de formar quadros para melhor qualificar a gestão e a análise de políticas públicas. Na UFRGS, compartilhavam essa visão José Vicente Tavares dos Santos, Ivaldo Gehlen, Carlos Steil, José Carlos dos Anjos, entre outros colegas. Desde 1999, organizamos cursos de extensão e especialização em projetos sociais e em gestão pública.

Para mim inaugurava-se um novo período profissional. A área de saúde coletiva continuaria muito relevante. Entretanto, minha inserção no campo da sociologia cresceria. Meus interesses de pesquisa concentravam-se em temas da sociologia política. A subárea significou, para mim, a combinação da sociologia com as políticas públicas, as quais, segundo um colega cientista político, são importantes demais para serem deixadas unicamente a cargo dos cientistas políticos.

A confluência de redes sociais conduzindo a trajetória profissional

A partir de 2002, iniciou-se o período de consolidação de minha carreira acadêmica. As redes sociais que eu integrara no passado e as que passara a integrar, em decorrência do ingresso na UFRGS, guiaram minha trajetória profissional. 

Permaneci envolvida na grande rede difusa de atores que compõe o movimento sanitário. O estudo das instituições participativas da área de saúde continuou importante em minha agenda de pesquisas, como atesta parcela importante de minhas publicações e os trabalhos que apresentei em eventos acadêmicos nacionais e internacionais. Nesse conjunto, a obra mais importante é o livro Participação e Saúde no Brasil, publicado pela Editora da Fiocruz, em 2009. Os capítulos, com vários coautores além de mim, foram elaborados tendo em vista um mesmo problema de pesquisa: compreender como participavam os atores sociais e estatais e qual o papel dos fóruns participativos na arena decisória setorial. A abordagem teórica comum ressalta as relações de interdependência entre as instituições, os atores estatais e os atores societais. De certa forma, a publicação desse livro, fruto de intenso trabalho de equipe, foi o coroamento de anos de pesquisa sobre o assunto.

Após 2007, último ano em que apresentei trabalho e me envolvi na organização de Congressos promovidos pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), gradativamente afastei-me de atividades organizativas dessa associação, à medida que meu envolvimento com a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) e com o campo da sociologia intensificava-se. Porém, antes disso, em 2003, fui eleita como uma das vice-presidentes da Abrasco, em mandato que se estendeu até 2006.

Entretanto, a problematização sobre como mudam as policies e se os fóruns de participação podem ser um veículo para essa mudança passou a não se restringir à área de saúde. A constatação de que mecanismos participativos eram criados em diversas áreas de políticas públicas instigava minha curiosidade em compreender por que e como isso ocorria, quais características e funções compartilhavam e quais eram peculiares a cada tipo de mecanismo. Desenvolvi projetos de pesquisa que endereçavam essas questões, sendo que, em 2005, obtive aprovação em projeto de Bolsa de Pesquisador do CNPq, Bolsa PQ, sobre investigação no tema. Adiante, passei a pesquisar a relação entre capacidade organizativa da sociedade civil e fóruns participativos. Em 2007, obtive nova Bolsa PQ, em Nível 1D, com o projeto sobre o tema.

Tendo em vista o seu impacto sobre os debates no campo das instituições participativas, destaco duas publicações. A primeira é o capítulo intitulado “Fóruns participativos e governança: uma sistematização das contribuições da literatura” publicado em 2005, em livro da Editora Vozes, em português, e pelo Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso), em espanhol. A segunda é um artigo publicado na Sociologias, em 2010, intitulado “Entre neocorportivistas e deliberativos: Uma interpretação sobre os paradigmas de análise dos fóruns participativos no Brasil”.

A participação na rede de pesquisadores do campo das políticas públicas favoreceu também a que eu viesse a realizar estudos que focalizam o “estado”, como unidade subnacional de governo, tema preferencial de pesquisas de Celina Souza, colega de doutorado. Entre 2003 e 2006, os resultados dessa linha de investigação foram publicados em artigos, capítulos de livros e apresentados em eventos acadêmicos nacionais e internacionais.

O terceiro projeto para Bolsa PQ que obteve aprovação em 2010, em Nível 1C, “Instituições, Desigualdades Socioeconômicas, Associativismo, Recursos e Motivações: o que explica a participação política?” mostrava a diversificação de meus interesses de pesquisa. A participação e o associativismo permaneciam relevantes, mas as motivações dos atores passaram também ser consideradas como explicativas da participação política. Em vez de me ater ao conceito de participação de atores individuais e coletivos, em fóruns ou por meio de mecanismos participativos, passei a utilizar a noção mais ampla de participação política associada à de desigualdade política. O acentuado crescimento do repertório de modalidades de participação política conduz à constituição de nova estratificação das desigualdades políticas, que podem ser definidas como diferenças estruturadas de influência sobre as decisões governamentais.

Essa inflexão em minha agenda de pesquisas foi resultado também de participação no Research Committee 18 – de Sociologia Política – no Congresso Mundial da International Sociological Association (ISA), em 2010, em Gothenburg, Suécia. Após a aprovação do trabalho que enviei para seção do RC, um de seus coordenadores, Joshua Dubrow, convidou-me para organizar com ele dossiê no International Journal of Sociology e escrever artigo sobre desigualdades políticas, o que fiz com mais dois coautores. Em 2013, organizamos outro dossiê no mesmo periódico que relacionava globalização com desigualdades políticas. No mesmo ano, organizamos um dossiê na Sociologias sobre a mesma temática.

Ao longo dos anos 2000 lecionei – em nível de graduação e pós-graduação – principalmente disciplinas de Sociologia da Saúde, Políticas Públicas e Metodologia de Pesquisa. A preocupação com a melhor qualificação dos sociólogos em metodologia de pesquisa orientava o modo como lecionava métodos de investigação e os escritos que publiquei sobre o tema. Em termos práticos, aplicava os princípios que defendia em minhas pesquisas e nas de meus orientandos. Entre 2001 e 2015, concluí a orientação de dezessete dissertações de mestrado e sete teses de doutorado. Todas no PPGS da UFRGS.

Em 2005, fui eleita coordenadora do PPGS. Com isso, passei a participar da rede social nacional de coordenadores de PPGs de Sociologia e de Ciências Sociais e de consultores/avaliadores da Capes. Depois que deixei a coordenação, em 2007, fui chamada a participar de reuniões de avaliação na Capes e a integrar duplas que realizavam visitas a PPGs. Em 2008, recebi o convite do então coordenador de área, Sergio Adorno, para participar como membro permanente do Comitê de Avaliação da Capes na área de Sociologia e Ciências Sociais. A avaliação trienal 2007-2009 permitiu que eu ampliasse meu conhecimento sobre a pós-graduação em sociologia e ciência sociais no Brasil. O mais gratificante, além dos laços de amizade que estabeleci com os membros do Comitê, foi perceber a seriedade com que a avaliação era realizada: baseada em evidências extraídas da Coleta Capes, fundamentada em critérios claros, com margem de interpretação restrita, limitada a pouco mais do que a definição dos pontos de corte entre as faixas de classificação dos programas.

Em mais um exemplo dos caminhos promissores que foram abertos em minha vida profissional pela confluência de redes sociais que integrei, entre 2011 e 2012 coordenei, do lado brasileiro, um Convênio Capes-FCT denominado Políticas e racionalidades de saúde e de doença, celebrado entre o PPGS da UFRGS e o Instituto Universitário de Lisboa. O estímulo para a elaboração e apresentação da proposta veio de Madel Luz, companheira de diretoria na Abrasco no período de 2003 a 2006. Na UFRGS, participou a professora do Departamento de Economia, Janice Dornelles de Castro, amiga desde a época em que trabalhamos juntas na Secretaria Municipal de Saúde, no final dos anos 1980. Na equipe portuguesa encontrava-se a parceira de estudos, e amiga, Graça Carapinheiro, professora catedrática do Instituto Universitário de Lisboa. Do convênio resultaram publicações e apresentações de trabalhos em eventos nacionais e internacionais e o doutorado-sanduíche de meu orientando Carlos Azambuja, que estudou a política de drogas no Brasil e em Portugal.

Ao final da avaliação do triênio 2007-2009 pela Capes, iniciaram-se as discussões sobre a formação da nova coordenação da área de Sociologia e Ciências Sociais. Em meados de 2011, após a apuração das sugestões dos PPGs da área, a Capes nomeou a coordenação com Jacob Lima, como coordenador, e eu, como adjunta. Funções que desempenhamos até meados de 2014. A coordenação exige mais do que trabalho intenso. As pressões dos grupos sobre a coordenação de área são muito grandes. Ser o fiel da balança no centro do processo de decisão sobre como serão classificados os Programas é o que torna desgastante a tarefa que assumimos. No entanto, acredito que conseguimos desempenhá-la a contento.

Com a participação da UFRGS no Reuni surgiu a oportunidade de criarmos um curso de graduação em políticas públicas no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Sob minha coordenação, elaboramos uma proposta que foi aprovada pelo MEC e, em 2010, o Bacharelado em Políticas Públicas iniciou suas atividades. Em 2014, participei da equipe que elaborou uma proposta de curso novo de pós-graduação, de mestrado e doutorado, em Políticas Públicas. Nesse ano, o novo PPG iniciou seus trabalhos no IFCH.

Desde janeiro de 2013, sou diretora do IFCH, cargo em que permanecerei até o final de 2016. A experiência de direção tem permitido que eu conheça melhor o funcionamento, difícil, da Universidade, para além da “bolha” de relativa eficiência da pós-graduação. Tem sido um aprendizado importante sobre gestão nas universidades públicas.

Consolidando minha inserção nos círculos sociais nacionais que formam a grande rede da sociologia brasileira, em outubro de 2013, assumi a presidência da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), depois de ter sido vice-presidente, quando Irlys Barreira presidia a Sociedade. Não vou enumerar aqui as realizações da SBS durante minha gestão. Quero apenas salientar que dei continuidade aos esforços que a Sociedade vem fazendo para consolidar ainda mais o campo da sociologia, que demonstra grande vitalidade em termos de pesquisas e de ensino superior e nas escolas de nível médio. O tema Diálogos Transnacionais, do 17º Congresso Brasileiro de Sociologia, realizado no campus central da UFRGS, em julho de 2015, expressou a preocupação da SBS com a necessidade de aprofundar e refletir sobre a internacionalização da sociologia no Brasil. Inquietação compartilhada com boa parte dos pesquisadores do país, especialmente com aqueles que se envolvem com gestão de ciência e tecnologia.

Os objetos de pesquisa que construí recentemente foram influenciados por essa dupla e profunda inserção nos campos da sociologia e das políticas públicas. As publicações mais recentes o demonstram. Por um lado, houve uma reflexão sobre a sociologia, como disciplina e nas suas relações com as ciências sociais; por outro, uma análise da relação entre sociologia e políticas públicas.

Essa nova inflexão em meus interesses de pesquisa resultou na elaboração de projeto de Bolsa PQ apresentado em 2013 ao CNPq e que tratava da área de assistência social e do papel das ideias e dos atores em processos de mudança na trajetória de políticas públicas setoriais. A proposta foi aprovada e recebi a Bolsa, em Nível 1B. Como as demais investigações que realizei desde o doutorado, essa se insere no campo da sociologia política. O estudo procura explicar a emergência de novos campos de políticas públicas, no caso, a estruturação de um sistema nacional de política pública, o da assistência social, em contextos democráticos, em Estados federativos, como o brasileiro. Trabalhos que apresentei em eventos internacionais e publicações de artigos e capítulos de livros, entre 2012 e 2014, já expressavam essa mudança no foco de minhas investigações.  

Três frentes de estudos comparativos de nível internacional vêm concentrando minhas atenções presentemente. Uma com a Universidade de Ciências Aplicadas para a Administração Pública e Gestão da Vestefália do Reno do Norte. Este ano foi firmado um convênio entre essa Universidade e o PPGS da UFRGS visando dar prosseguimento a uma relação já existente e que tem se demonstrado frutífera. Outra é um estudo sobre conferências nacionais de saúde no Brasil, em Uganda e na Tailândia, no qual integro a equipe brasileira, liderada por professores da Fiocruz. A terceira é a inserção que se iniciou no congresso da ISA, em 2014, em Yokohama, com o RC 19, Poverty, Social Welfare and Social Policy.

Breve síntese e perspectivas para o futuro

Duas razões são as principais para que eu tenha ao longo de minha carreira acadêmica me dedicado a investigar objetos relacionadas à sociologia política. A primeira é que, durante a socialização primária e nas relações sociais que estabeleci posteriormente, aprendi que política importa. Porém, percebi que são as relações entre as pessoas e as hierarquias sociais configuradas na teia dessas relações que sustentam socialmente o poder político. Na Universidade, na graduação em História e mesmo durante o mestrado, concebi as bases sociais do poder político como derivadas quase que exclusivamente das relações econômicas. O Estado opressor capitalista era o inimigo a conquistar, ainda que fosse um Estado Ocidental a ser tomado gradativamente. Mas, a experiência de gestão na área de saúde e a militância no movimento sanitário foram criando sucessivos paradoxos lógicos nesse tipo de raciocínio – queríamos mais Estado ao mesmo tempo que o concebíamos como principal veículo da opressão capitalista. Esses paradoxos me levaram a buscar outros caminhos teóricos para compreender as mudanças sociais.

A segunda razão para o meu interesse em pesquisar temas da sociologia política foi a própria experiência de gestão. As dificuldades em promover alterações substantivas no curso das policies e ao mesmo tempo a participação no processo de mudança que conduziu a criação do SUS no Brasil fizeram com que o ativismo do passado se transformasse em curiosidade sobre como e por que ocorrem processos de reforma em áreas de políticas públicas. Ao longo do doutorado desenvolvi a noção de que atores em rede, as policy communities, são os principais responsáveis pela construção de problemas e soluções que ingressam na agenda governamental setorial e que podem alterar as policies. Atualmente, cada vez mais me interessa entender o papel das ideias nesse processo, embora eu considere que os protagonistas, a agência, da mudança são os atores coletivos que compartilham ideias e procuram se tornar dominantes em um determinado campo de política pública.

A confluência do pertencimento a diferentes círculos sociais – saúde coletiva, colegas do tempo de doutorado, PPGS da UFRGS, políticas públicas, consultores/avaliadores da área de Sociologia e Ciências Sociais da Capes, SBS, entre outros – conduziu os caminhos de minha trajetória profissional. Entretanto, constituídas as identidades-nós, abertas as possibilidades, o indivíduo faz opções. Eu as fiz. De certo modo, nos últimos anos, reproduzi na Universidade um tipo de comportamento ativista, que já tivera anteriormente, quando fui Secretária Substituta de Saúde, em Porto Alegre, ao final dos anos 1980. Nos próximos anos pretendo voltar a ser pesquisadora em tempo integral (ou quase), fazer um pós-doutorado e aprofundar a pesquisa sobre atores, ideias e políticas públicas. As experiências recentes de gestão acadêmica, assim como a gestão pública e militância no passado, propiciaram um tipo de conhecimento tácito que somente a vivência pode oferecer. No entanto, assim como ocorreu no doutorado, chegou a hora de refletir sobre essas experiências.  

1 comentário

  1. amei essa ideia👏👏👏👏👏

    Enviado do meu iPhone

    <

    div dir=”ltr”>

    <

    blockquote type=”cite”>

Deixe uma resposta