
É com imenso pesar que a BVPS informa o falecimento do professor Charles Pessanha. Cientista político, professor do IFCS/UFRJ e editor emérito da DADOS – Revista de Ciências Sociais (da qual esteve à frente por décadas), além de criador do BIB da ANPOCS e precursor da profissionalização do ecossistema de periódicos no Brasil, Charles foi e continuará sendo o maior nome da editoria científica das ciências sociais brasileiras.
Graduado em Ciências Sociais pela UFF (1968), realizou mestrado em Ciência Política pelo IUPERJ (1981), doutorado pela USP (1997), além de pós-doutorados na University of London (2002) e na École de Hautes Études en Science Sociales (2012). Charles foi também presidente da Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC) e um dos fundadores da plataforma SciELO, além de membro de Conselhos Editoriais de vários periódicos prestigiosos.
A ele nossos agradecimentos por tantos e tão relevantes serviços prestados à comunidade acadêmica. À querida colega Elina Pessanha, filhos e netos manifestamos nosso sentimento de pesar e deixamos nosso abraço.
A seguir, como uma forma de homenagem, reproduzimos a fala de Breno Bringel (IESP-UERJ), a quem agradecemos, por ocasião da entrega a Charles Pessanha do Prêmio ANPOCS de Excelência Acadêmica Gildo Marçal Brandão em Ciência Política.
Maurício Hoelz (Editor da BVPS)
Entrega do Prêmio ANPOCS de Excelência Acadêmica Gildo Marçal Brandão em Ciência Política a Charles Pessanha
Caxambu (MG), 21 de outubro de 2019, Hotel Glória
Por Breno Bringel (IESP-UERJ)
Boa noite a todas e todos! Muito me honra poder entregar ao nosso querido Charles Pessanha o Prêmio ANPOCS de Excelência Acadêmica em Ciência Política. O que posso dizer do Charles Pessanha que já não saibam? Charles é uma avis rara.
Em uma academia impregnada de egos, disputas de poder e conflitos, Charles talvez seja um dos poucos consensos existentes entre nós. Sua serenidade, transparência e assertividade delicada fazem com que no pierda la ternura jamás, mesmo quando estamos diante dos temas mais sérios e dos momentos mais delicados, como é o caso hoje. Em uma academia repleta de assédios, de brigas entre grupos, humilhações e pequenas (e grandes) trocas de favores, a trajetória de Charles Pessanha mostra que é possível navegar contra a corrente: com afeto, humildade, generosidade e solidariedade.
Mas há outra coisa excepcional no Charles que talvez vocês não saibam. Ele é uma das poucas pessoas que conheço que continuam torcendo pelo América Futebol Clube. O América é uma agremiação centenária, fundada em 1904. E, se não recordo mal, o último título importante deste time da Grande Tijuca foi em 1962…
Não por isso Charles deixou de estar ao lado do América. De hastear sua bandeira e vestir sua camiseta vermelha. Eis outro ensinamento importante do Mestre Pessanha: apoiemos e defendamos aquilo e aqueles que acreditamos e não os vitoriosos ou os pregadores de modismos (sejam estes acadêmicos, políticos ou esportistas).
Dois anos após esse título do América, em 1964, sabemos bem o que ocorreu no Brasil. Importante lembrar para não repetir. Desde então, Charles nunca deixou de vestir a camiseta vermelha. Não me refiro já, claro, à camiseta do América, mas àquela da luta contra a ditadura, a censura, a repressão e todas as formas de opressão.
Como muitos de sua geração, sua formação acadêmica foi marcada também pelas lutas políticas da época, o que impede de falarmos em trajetórias óbvias ou lineares. Formou-se em Ciências Sociais pela UFF em 1968, simbólico ano de revoltas estudantis e populares pelo mundo, mas também de recrudescimento do regime no Brasil. Viriam depois, nas décadas seguintes, o mestrado em Ciência Política no antigo IUPERJ (atual IESP-UERJ) e o doutorado, também em Ciência Política, na USP.
Em 1974, Charles começa a trabalhar como professor da Universidade Candido Mendes e dois anos depois assume o cargo ao qual até hoje muitos de vocês o associam: editor da revista Dados. Permaneceu nessa função por quase quatro décadas até que em 2012 assumi a editoria e tive o imenso prazer de conviver mais intensamente com Charles. Nunca pensei em ficar quarenta anos na revista, mas vivemos juntos seis anos intensos (e difíceis) na editoria, hoje muito bem conduzida por Luiz Augusto Campos, que bem poderia ficar ao menos vinte. A longevidade e o sucesso da Dados deveram-se, sem dúvida, ao apoio institucional do IUPERJ e depois do IESP, mas sobretudo ao trabalho dedicado e sério do nosso homenageado, precursor na profissionalização dos periódicos em nosso país.
No entanto, a contribuição de Charles Pessanha foi muito além da Dados, da qual hoje é editor emérito. Charles foi peça-chave na criação das principais instituições de divulgação científica nas últimas décadas no Brasil, com destaque para a Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC), fundada em 1985, da qual foi o primeiro e até agora único presidente da área de Ciências Sociais; e para a plataforma SciELO, conhecida por todos, da qual Charles foi um dos fundadores em meados dos anos 1990.
Além disso, foi idealizador e o primeiro editor do BIB (Boletim Informativo e Bibliográfico de Ciências Sociais), publicação da ANPOCS criada logo após a fundação da associação em 1977 no antigo IUPERJ, inicialmente como um suplemento da revista Dados. Em um momento de institucionalização das Ciências Sociais, o BIB teve um papel importante em estimular a cooperação entre os programas de pós-graduação e, por isso, Charles, com a colaboração de Lucia Lippi e outros colegas envolvidos nessa empreitada, contribuiu de maneira decisiva para o desenvolvimento da ANPOCS. Ainda assim, colaborou ativamente na criação e na profissionalização de alguns dos principais periódicos científicos em nossas respectivas disciplinas, conquanto não exclusivamente.
Ao não buscar favorecer um grupo, uma revista ou uma perspectiva, Charles tornou-se um protagonista das Ciências Sociais no Brasil nas últimas décadas. E se, infelizmente, a tônica geral no Brasil é termos pesquisadores que ocupam de forma precária e temporária a posição de editor, Charles tornou-se um editor profissional e decano da divulgação científica no país, mas também um professor dedicado aos seus alunos e um pesquisador com notáveis pesquisas, principalmente sobre as relações entre executivo e legislativo e sobre o controle do judiciário, muitas das quais apresentadas na própria ANPOCS.
Nestes tempos sombrios e de desmanches, este prêmio é não somente um reconhecimento de uma trajetória ímpar dedicada às ciências sociais e à divulgação científica, mas também um chamado para que possamos aprender com as contribuições de Charles: tratemos nossas revistas de maneira mais imparcial e profissional; pensemos amplamente e não somente a partir de lógicas departamentais; articulemos uma unidade e uma solidariedade de resistência; sejamos criativos para, como disse Charles recentemente, construir uma resposta intelectual à barbárie atual a partir das ciências sociais. Parabéns e obrigado, Charles.