
A “banda de poesia” Poemátrio lançou no dia 10 de agosto seu mais novo álbum: “Perturbações planetárias”. Com 8 músicas autorais, escritas em forma de poemas por Rafael Lovisi (letras e vocal) e musicadas por Marconi Lovisi (contrabaixo) e Lulu (guitarra e sintetizador), a banda apresenta um inovador experimentalismo musical, que conecta, de modo reflexivo, poesia e sonoridades. Entre os beats e sintetizadores, o álbum reflete os impasses enfrentados pela humanidade do século XXI: da pandemia e dos abalos do ecossistema ao vazio existencial, passando pela crise do capitalismo.
Poemátrio é uma banda mineira que se propõe a expandir a relação entre música e poesia através de versos que misturam o canto falado aos beats e acordes. Como declara Rafael Lovisi: “somos um trio que se autointitula banda de poesia. Digamos que há no poema um lugar mátrio de nascença, de força essencial, e, ao mesmo tempo, a ideia do átrio como espaço comunicante e vital ligado às composições”.
Para mais informações, confira abaixo um texto sobre o álbum, publicado pelo site Dicas de Teatro, e uma entrevista de Rafael Lovisi ao Jornal Estado de Minas.
Álbum “Perturbações planetárias” da “banda de poesia” Poemátrio
No inverno do ano de 2021, sob os signos da clausura imposta pela pandemia do Coronavírus, e da pane política do país, o POEMÁTRIO teve na poesia o ponto de partida para eclodir um processo de criação que envolve palavra, música e performance. Assim, um conjunto de poemas, escrito ao longo daquele período perturbador, passou a encontrar forma de expressão através da conexão com sonoridades eletrônicas e instrumentais.
Naquele mesmo ano, por ocasião de um convite para participar do “1º encontro de produção literária em oficinas: Depois do Normal / Reinventar o Real”, e das instigações de seu organizador, o escritor e professor Mauricio Salles Vasconcelos (FFLCH-USP), a banda de poesia começou a dar corpo à sua busca por uma linguagem que explorasse as relações entre invenções sonoras e verbais, fora do formato dos saraus, mas também dos padrões tradicionais da canção. Nesta experimentação, sempre importou a tentativa de conduzir os textos e a musicalidade até lugares imprevistos, por meio de versos proferidos entre o canto e a fala, mediante sons fabricados entre beats e acordes. Logo a seguir, em sua segunda aparição virtual (on-line, em função do isolamento social), o POEMÁTRIO participa do “9º Festival de Cultura e Arte do CEFET-MG”, e somete em julho de 2022 realiza sua primeira apresentação ao vivo, no evento “Cordoaria 22”, na Casa Circo Gamarra.
Em 2023, a banda de poesia passa a se dedicar à elaboração do seu primeiro álbum, Perturbações Planetárias, volume inaugural da trilogia intitulada Haver mundos ainda. Já pelo título, pode-se perceber a maneira como as composições abordam as crises de diversas ordens que se instauraram no século XXI, materializando em suas imagens poéticas a sensação de “beira do abismo” provocada pelos rumos humanos e terrestres. Neste sentido, os abalos existências diante dos impactos socioeconômicos ecoam pelo repertório, como pode ser lido e ouvido na faixa “O ano em vestimos uma roupa só”: “Pouco importava à boca o vocábulo / primeiro vamos ao de comer / depois se vê a moral”; mas, também, nota-se a referência a importantes obras literárias em língua portuguesa, como mostra esta passagem de “Máquina pneumática”, que atualiza os versos de Drummond para o contexto urbano contemporâneo: “90% de crack nas calçadas / 80% de algorítmico nas almas / e uma bomba de ar pulsa a anos luz”.
Já em outra faixa, nomeada “Gimme Shelter” (dê-me abrigo, na tradução), destacam-se dois aspectos que marcam a temática de grande parte dos poemas escritos para o álbum: a interação com o universo das artes plásticas/visuais (neste caso, com o artista Hélio Oiticica e seus “parangolés”), e a possibilidade de se imaginar saídas em meio ao naufrágio planetário: “Não se está só na morada mundo / abrigo da beira, aberto / que como capa multimodal veste o corpo”.
(Texto adaptado do site Dicas de Teatro)
Em entrevista ao Jornal Estado de Minas, Lovisi deu mais detalhes sobre o projeto que começou há três anos.
“Voltei a escrever poesia com alguma frequência durante a pandemia. Fiz oficina de escrita com Maurício Salles de Vasconcelos, professor da USP, que se tornou referência importante para o nosso trabalho. A ideia que caracteriza a banda é fugir do formato de sarau recitativo, da apresentação convencional de poesia.
Trabalhamos uma forma de composição que liga o poema à musicalidade, à sonoridade de experimentação. Sempre trabalhamos na linha autoral, todos os poemas foram escritos por mim e musicalizados, digamos assim, pelos companheiros.
‘Perturbações planetárias’ é fruto dos impasses enfrentados pela humanidade neste século 21. Da pandemia e dos abalos do ecossistema ao vazio existencial, passando pela crise do capitalismo. O título vem com a ideia de abraçar todas essas crises. Gosto de dizer que estamos entre o canto e a enunciação da palavra, entre a música e a experimentação com outros sons.”