
Publicamos hoje o terceiro texto de Ítalo Moriconi em sua coluna Cenas de escrita para um diário íntimo. Intitulado “Diário Marxista”, o autor aborda as nuances entre o “socialismo ideal” e o “real”, o impacto do fim da União Soviética, a persistência dos valores marxistas em um cenário global em transformação e a guerra em curso na Ucrânia. De Marx a Derrida, passando pela inquietude política dos anos 90 e as reconfigurações da esquerda brasileira, Moriconi nos leva a revisitar fantasmas e dilemas, antigos e contemporâneos, questionando o poder do pensamento crítico frente às novas formas de dominação e resistência.
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Diário Marxista
Por Ítalo Moriconi
[12 de agosto – 7h]
Na teoria e história políticas, há uma distinção entre “socialismo ideal” e “socialismo real”, entre “comunismo ‘ideal’ ou ‘filosófico’” e “comunismo real ou soviético”. O fim da União Soviética significou o fim do comunismo real. Se vier no futuro, com base no indestrutível comunismo filosófico, um novo comunismo, será outro, será um novo comunismo real. O comunismo real soviético não se espraiou para o mundo, restringiu-se a um país, onde acabou virando real demais. Para muitos que no mundo se identificam como de “esquerda”, o fim do Império soviético foi um choque, mesmo para quem sonhava com uma autorreforma por dentro, democratizante, do regime de partido único. Apesar da dissolução definitiva de uma ilusão de modelo estatal que se tornara real demais, insuportável e sobretudo insustentavelmente real-demais, imperioso é manter-se fiel aos princípios do comunismo filosófico e do socialismo ideal, como no mínimo uma espécie de régua moral e prática controladora do capitalismo selvagem. Deixado a si, o capitalismo é selvagem – no mau sentido da palavra.
Tornou-se imperioso, nos anos 1990/2000, lutar para superar o luto, a melancolia, a depressão, a sensação de impotência política que se abateu sobre nós (epa! eu sou “nós”?). O que fazer com o legado de Marx? O marxismo, “filosofia insuperável do nosso tempo”, sentenciara vovô Jean-Paul Sartre. O que fazer com o espectro de Marx? Andei por uns tempos às voltas com leitura de O espectro de Marx, de Jacques Derrida, um livro difícil, de linguagem críptica, escrito pelo filósofo francês nascido na Argélia, geracionalmente afim a Foucault, Deleuze, Baudrillard e outros. Os que iam fazendo o lado francófilo de minha cabeça, ao mesmo tempo que mergulhava por um bom tempo na militância política e sindical.
[14h]
A origem dos meus posts políticos no Facebook foi o impulso de reagir contra o baixo astral do povo de esquerda aqui do Brasil, diante dos escândalos de corrupção, indefensáveis, apesar de sua exploração demagógica pela campanha antipetista da Lava Jato. E, afinal, a grande derrota sofrida com o impeachment de Dilma Rousseff.
Retirar da insuperável melancolia histórica a potência possível para o aqui-agora e o daqui a pouco. Para o Hamlet de Shakespeare, que é como espelho de Alice para a entrada de Derrida no Hamlet, a melancolia impotente do intelectual é o caminho para a trágica autodestruição dele e de seu país. O mais difícil logo depois do fim do comunismo soviético era encontrar um jeito de lidar com o espectro de Marx, suas imposições ao dever. Como tornar presente o ausente fantasmático? Interpretá-lo e cultivá-lo, claro que com o mesmo distanciamento crítico-histórico-etnológico, com que hoje se lê Kant (obrigado, Luiz Costa Lima), Nietzsche (obrigado, Silviano Santiago), Freud (obrigado Roberto Corrêa dos Santos, ex-Cossan).
[21h]
Rejeição do que leva do momento justo da revolução popular ao regime autoritário, patrulheiro – para evocar aqui a expressão “patrulha ideológica” utilizada por Heloisa Teixeira, ex-Buarque de Hollanda.
E o pânico de virar uma pessoa rotulada de direita por essas patrulhas?
Hoje alguns daqueles adolescentes soixante-huitards (os ativistas de 1968), agora setentões, identificam nas hostes identitárias aquelas patrulhas de que falou Helô. Porém, a própria prática dela na Universidade das Quebradas da UFRJ mostra que o identitarismo preto não é patrulha ideológica no sentido por ela cunhado há décadas atrás, até por estar associado, aliado ao não-binário, em lutas de gênero. O assim chamado identitarismo sustenta-se no discurso-prática (ideologia) do inclusivismo, professado pelo que podemos chamar de progressismo contemporâneo, neste nosso mundo até segunda ordem neoliberal, ameaçado pela extrema direita. A segunda ordem vem aí. O neoliberalismo, enquanto tal, de certa forma já era, pois dependia de uma globalização dirigida pelo eixo Estados Unidos-União Europeia, tendo a OTAN como sua força defensiva. O que vem por aí. Protecionismo, nacionalismo competitivo, retomada de política sociais e de investimento estatal na economia. Economia mais e mais pautada pela economia de guerra nos países mais poderosos: este parece que vai ser o cenário das próximas décadas. Em ambos os cenários, permanecem os valores de um progressismo inclusivista, que tem por meta sociedades multi, pluri.
A inclusão do diverso apareceu por aqui marcada pelo olhar da nova esquerda americana dos anos 1980/1990, que se espraiou para o Brasil, inoculando-se com força nas ciências sociais brasileiras durante três décadas, até que veio uma nova esquerdização causada pelo avanço da extrema direita, e pelo próprio rompimento da aliança do centro com a esquerda, através da derrubada de Dilma. O centro voltaria a se aliar com a esquerda lulista, por identificar em Jair Bolsonaro um mal maior. No momento, esse “centro”, que, na verdade, é o avatar do Poder Fático, vem flertando com a direita, apesar de todas as concessões de Haddad ao conservadorismo econômico, responsável pela inércia em que nos encontramos, graças também ao Congresso, que sequestrou os recursos orçamentários do Executivo.
Já o inclusivismo está aí, no mainstream da Comunicação midiatizada. A imagem do Brasil se assume preta. Os afetos são livres, os corpos. A reação contrária é grande. Nenhum direito é garantido. Todos podem ser retirados, instituídos e restaurados. A luta pelos modos de vida é central na política.
[20 de agosto – meia-noite]
O signo que desarruma é o mesmo que arruma e, ao se arrumar, vira milícia. Cito Ricardo Domeneck: “a própria língua / carrega a gagueira / que, no mínimo, mina / as milícias da língua”. E Graciliano Ramos com a ditadura da gramática. E Roland Barthes, o fascismo da linguagem (obrigado, novamente, Silviano, e de novo Roberto Corrêa dos Santos e também Paloma Vidal). Se podemos dizer, como Foucault numa entrevista, que prática e discurso são intercambiáveis, podemos também dizer que nessa minha equação, nesse meu emaranhado (novamente uma expressão do Silviano, lançada por ele em recente depoimento na Casa Dirce Côrtes Riedel), língua e sociedade são intercambiáveis e se encontram na noção de Comunicação, a meu ver, o mais importante e ramificadíssimo objeto das ciências sociais na atualidade. É a metáfora-núcleo, como já foram “cultura” e “linguagem”.
Outro pensador que me impactou foi Paul Virilio. Estava aqui, dentro da noite veloz do controle remoto, vendo uma reportagem de propaganda da CNN americana sobre o novo tipo de guerra baseada em drones, que dão certo poder de ataque à resistência ucraniana em nível micro, enquanto a Rússia espera ou não consegue trolar de vez a Ucrânia. Tanto a Rússia quanto a OTAN parecem estar investindo em manter a guerra da Ucrânia como escaramuça permanente, aquele ponto de atrito em que os dois impérios se enfrentam, como insetos monstruosos e mortíferos. Os soldados ucranianos e russos servem de bucha de canhão. Os ucranianos lutam por sua terra, prepararam-se a vida toda para o momento em que o desafio de vida ou morte seria colocado para seu projeto de nação. Já os soldados russos, muitos retirados das cadeias de seu país, não sabem muito bem pelo que estão lutando. Dos dois lados morrem, ficam mutilados, ficam cegos, ficam psicologicamente afetados para o resto da vida. Vida essa que, para os ucranianos, está totalmente destruída, seja qual for o destino da guerra.
Se a Primeira Guerra Mundial trouxe as armas químicas que tiveram seu apogeu no ataque criminoso a Hiroshima-Nagasaki trinta anos depois, hoje em dia os drones atuam como enxames de mosquitos do Davi ucraniano contra o Golias russo. A reportagem mostra como um drone produzido por um pelotão de nerds tornados soldados da resistência dá para destruir tanques à distância e dá também para matar os soldados que o drone percebe à distância, embrenhando-se numa mata.
[Na madruga]
Guerra é sobre matar, assassinar, horror. Mas matar é relativizado moralmente quando quem mata é soldado de resistência, Davi contra o Golias de algum poder opressor, como é o caso da Ucrânia contra a invasão russa, ou do Hamas e do Hezbollah contra o Exército de Netanyahu. Quantos cadáveres israelenses serão necessários para retaliar os 40 mil mortos de Gaza? Se os judeus são milenarmente Davis da História sem nenhuma pedra nas mãos contra o ódio antissemita, o Estado sionista tem sido um Golias em cima dos novos Davis, que são os palestinos, abandonados por todas as classes dirigentes árabes apenas por um motivo: a superioridade militar dos Estrados Unidos. O Irã é um regime teocrático, detestado em silêncio por seu povo esclarecido e sensível, mas é a única força externa com que pode contar a resistência palestina.
Matinata no forte do Leme?
