
Mar e Sertão: ensaio sobre o espaço no pensamento brasileiro, do ensaísta e diplomata mineiro Luiz Feldman, é resenhado por João Marcelo Maia (FGV-RJ). Publicado em 2023 pela Editora Topbooks, o livro propõe uma releitura do pensamento brasileiro a partir do critério espacial, destacando as temáticas da formação marítima ou terrestre do país. Autores como Joaquim Nabuco e Gilberto Freyre são abordados como representantes da vertente marítima, enquanto Manoel de Oliveira Lima e Sérgio Buarque de Holanda são eleitos como representantes da vertente terrestre.
Maia lembra que as categorias espaciais nas interpretações do Brasil constituem um campo de estudo próprio e sugere que a obra de Feldman se insere nele com uma perspectiva original, apontando uma “antinomia” entre “transoceanismo” e “telurismo” nas grandes linhagens interpretativas do pensamento brasileiro. Enquanto a primeira insere o Brasil em dinâmicas civilizatórias mais amplas, permitindo pensá-lo pela chave da universalidade, a segunda enfatiza a diferença, interpretando o país a partir da construção de sua autonomia em relação a outras formações nacionais. O livro de Feldman abre, assim, novas possibilidades para refletir sobre o lugar do Brasil no mundo.
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O mar e o sertão
Por João Marcelo Maia (FGV-RJ)
O sentido assumido pelas categorias espaciais nas interpretações do Brasil é assunto aparentemente inesgotável, podendo-se falar na existência de uma subárea no campo de estudos do pensamento social que se dedica ao tema (Amado, 1995; Lima, 1999; Oliveira, 2006; Maia, 2006). Com seu Mar e Sertão: ensaio sobre o espaço no pensamento brasileiro (2023), o diplomata e escritor Luiz Feldman junta-se a esse time com um livro finamente urdido, que recolhe o melhor dessas contribuições e sugere novas vias de análise para o tema.
Seu argumento de partida diz respeito à existência de uma “antinomia” entre “transoceanismo” e “telurismo” nas grandes linhagens de interpretação do pensamento brasileiro. Segundo Feldman, os escritos orientados para o mar situariam o Brasil na chave geopolítica como sujeito ou objeto de dinâmicas civilizatórias mais amplas que permitiram pensar o país pelo registro da universalidade. Já os textos “telúricos” apontariam para a diferença, interpretando o Brasil a partir da construção de sua autonomia em relação a outras formações nacionais. Nas palavras do próprio autor:
Transoceanismo e telurismo dão-nos uma chave – por se referirem antes ao espaço que à ideologia – para falar em geopolítica e isolacionismo no Brasil a partir de nossos clássicos. Enquanto mar e sertão são dimensões do espaço, transoceanismo e telurismo são tradições de pensamento sobre essas dimensões, linhagens que imaginam o lugar do Brasil no mundo imerso na geopolítica ou a salvo em seu isolamento (Feldman, 2023: 55)
Trata-se, portanto, não de um estudo historiográfico de conceitos espaciais, mas de uma interpretação dos estilos de pensamento que acionam tais conceitos para pensar o lugar do Brasil no mundo. Feldman busca ler temas caros ao ensaísmo nacional a partir do que é nomeado como “pensamento internacional brasileiro”, descrito por ele como “uma camada posterior ao pensamento político e social e anterior ao pensamento diplomático” (Feldman, 2023: 55).
A obra é estruturada em quatro capítulos, cada qual dedicado a um pensador brasileiro tomado como representativo das linhagens em análise. Os eleitos de Feldman são Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, Oliveira Lima e Sérgio Buarque de Holanda, dispostos numa sequência que não é propriamente cronológica, mas sim existencial. Afinal, argumenta o autor, “(…) a hegemonia do telurismo cobrou seu tributo à compreensão de nossos pensadores de mar, cujas problemáticas são reduzidas de oceânicas a litorâneas e de mundiais a nacionais e regionais” (Feldman, 2023: 57)
Munido dessa hipótese, Feldman inicia sua navegação justamente pelo “partido transoceânico”, representado na obra por Nabuco e Freyre, uma dupla que, embora comumente acionada por estudiosos do pensamento brasileiro, não costuma ser lida a partir da chave “marítima”. No registro do autor, Nabuco seria o pensador oceânico que veria na abertura do Atlântico Sul ao vento liberal a possibilidade de avanço da igualdade e de entrada do Brasil no mundo da civilização, ao passo que o sentido do termo em Freyre orienta-se para a busca de uma “comunidade luso-brasileira” transoceânica, resposta imaginada pelo autor pernambucano para dar conta dos desafios impostos pela descolonização africana nas décadas de 1960 e 1970. Trata-se, como se pode ver, de modos distintos de pensar o lugar do Brasil no mundo a partir das dinâmicas oceânicas. Se, em Nabuco, o Atlântico unificado representaria o ingresso do Brasil numa ordem potencialmente universal, no caso de Freyre, o mar seria o espaço para reorganizar um projeto imperial sobre novas bases, supostamente mais fraternas, mas ainda tutelares e escoradas ideologicamente em uma diferença lusotropical.
O partido telúrico, tido como vitorioso na imaginação brasileira, também guarda suas complexidades. Feldman vê na obra de Oliveira Lima uma interpretação que localiza no hinterland não propriamente uma essência original ou autêntica, mas o espaço interno que permitiria ao Brasil abandonar um malogrado projeto de imperialismo externo herdado do Império português e transplantado por D. João VI, que resultou em conflitos com nossos vizinhos ao sul, em prol de uma ocupação territorial das fronteiras internas que seria a mola para uma futura solidariedade platina. Já o telurismo de Sérgio Buarque é analisado à luz dos escritos do historiador paulista sobre os caminhos bandeirantes e os efeitos que a rusticidade do espaço americano exerceria sobre a experiência brasileira, desvinculando-a da inércia colonial litorânea. Esse argumento, cuja inspiração pode ser encontrada na obra de Robert Wegner (2000), é adensado por Feldman, que mostra como o elogio de Sérgio Buarque ao militarismo pragmático dos “soturnos paulistas” permite entender o movimento pelo espaço interno como espécie de “navegação” em terra, combinando mobilidade e invenção republicana. Numa leitura habilidosa, é Maquiavel que permite a Feldman sustentar esse argumento.
O saldo final da obra é seguramente positivo, com alguns pontos altos que merecem destaque. O primeiro diz respeito ao método de análise, que permite ao autor se mover entre história intelectual, história política e diplomacia, ora resgatando textos pouco visitados (como Um século nas relações internacionais do Brasil, publicado por Oliveira Lima em 1924), ora jogando novas luzes sobre textos já muito visitados, como os trabalhos de Sérgio Buarque de Holanda sobre fronteiras ou os ensaios de Freyre sobre lusotropicalismo. O segundo ponto alto refere-se à investigação da linhagem transoceânica que o autor resgata da dualidade sertão-litoral, que geralmente representa o mar como um espaço negativo no qual se reproduziria o “inautêntico” e a colonialidade. Ao explorar os sentidos assumidos por uma imaginação pautada nos deslocamentos oceânicos, Feldman logra descobrir novos significados nas reflexões de Nabuco sobre a igualdade e o lugar do Brasil na ordem liberal que se anunciava no final do Oitocentos.
Como em qualquer obra, há pontos que mereceriam uma reflexão mais cuidadosa. Penso, em especial, na discussão a respeito dos sentidos do “telurismo” que o autor, por vezes, conduz para a afirmação de uma identidade nacional avessa à projeção externa e à geopolítica. Uma leitura atenta dos clássicos da geopolítica brasileira da década de 1930, particularmente Mário Travassos e Everardo Backheuser, revelaria como a conquista e o ordenamento do hinterland brasileiro se conjugam a projetos de hegemonia continental, particularmente na região do Prata. Aliás, parte significativa da imaginação telúrica brasileira projetava um olhar colonial sobre as gentes e os espaços interiores, reproduzindo dinâmicas de violência simbólica e física que marcaram a modernidade nacional. Seria interessante analisar esse partido telurista a contrapelo, situando-o a partir de filosofias que veem a Natureza não como espaço inerte a ser domado, mas como expressão de ontologias e vivências que desafiam a centralidade do sujeito iluminista e questionam a máquina predatória do Estado-Nação (Kopenawa & Albert, 2019).
Fato é que Mar e Sertão abre uma agenda de pesquisa original em um campo aparentemente saturado, em especial no que diz respeito às repercussões da linhagem “transoceânica”. Seria possível, por exemplo, comparar o lugar dessa linhagem no pensamento internacional brasileiro com formas de imaginação oceânica pós-coloniais, como aquela alimentada pelo escritor martinicano Édouard Glissant, que pensava a crioulização a partir das experiências e estéticas que circulavam no arquipélago caribenho (Glissant, 2021). Essa variante do “pensar marítimo”, mais atenta à criatividade ontológica produzida pela mobilidade de gentes e identidades em espaços colonizados, talvez nos afastasse da linguagem geopolítica, sempre pronta a racionalizar e ordenar o Outro em função dos interesses do Estado. Outro investimento analítico seria a produção de um diálogo com a historiografia dedicada à circulação de ideias, práticas culturais e recursos materiais nos grandes espaços oceânicos, em cujas rotas se gestaram novas formas de conhecimento que nos levam a repensar as concepções eurocêntricas da modernidade e do Renascimento (Subrahmanyan, 1997). Estaria aí uma pista para um transoceanismo que articula conexões globais a histórias locais, rearticulando o par universalismo-diferença em bases mais fluidas e inventivas?
Como se vê, há muito mar para se navegar com a obra de Luiz Feldman.
Referências
AMADO, Janaína. (1995). Região, Sertão e Nação. Revista Estudos Históricos, v. 8, n. 15, p. 145-152.
FELDMAN, Luiz. (2023). Mar e sertão: ensaio sobre o espaço no pensamento brasileiro. Rio de Janeiro: Topbooks.
GLISSANT, Édouard. (2021). Poética da Relação. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.
KOPENAWA, Davi & ALBERT, Bruce. (2019). A Queda do Céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras.
LIMA, Nísia T. (1999). Um sertão chamado Brasil: representações geográficas da identidade nacional. Rio de Janeiro: Revan.
MAIA, João Marcelo E. (2006). A terra como invenção: o espaço no pensamento brasileiro. Rio de Janeiro: Zahar.
OLIVEIRA, Lucia Lippi. (2006). Americanos: representações da identidade nacional no Brasil e nos Estados Unidos. Belo Horizonte: Editora UFMG.
SUBRAHMANYAM, Sanjay. (1997). Connected histories: Notes towards a reconfiguration of early modern Eurasia. Modern Asian Studies v. 31, n. 3: p. 735-762.
