Glossário Silviano Santiago | Diferença e repetição, por Andre Bittencourt

“Diferença e repetição” é o novo verbete que publicamos no Glossário Silviano Santiago, projeto coletivo organizado por Mario Cámara.

Andre Bittencourt, professor de Sociologia da UFRJ, mostra como os conceitos de “diferença” e “repetição” caminham juntos e atravessam a obra ensaística de Silviano Santiago. A partir da análise de um conjunto de textos centrais do autor, Bittencourt sugere que esse par conceitual é articulado para problematizar tanto questões relacionadas ao colonialismo e à dependência cultural na América Latina quanto debates em torno das tradições da crítica literária e das teorias voltadas à análise textual. A crítica de Silviano nos desafia a pensar como a repetição gera, sempre, diferença.

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Diferença e repetição

Por Andre Bittencourt (UFRJ)

O par conceitual “diferença” e “repetição” permeia praticamente toda a obra de Silviano Santiago ao longo de mais de cinco décadas. Como ocorre com muitos dos conceitos desenvolvidos pelo autor, em determinados momentos ele se manifesta de forma mais incisiva, assumindo o protagonismo em uma interpretação ou leitura. Em outros, parece recolher-se, como que em estado de latência, para então ressurgir adiante, por vezes sob nova roupagem ou associado a outro conceito. Sua aparição pode ocorrer de maneira explícita, acompanhada de uma apresentação, ou ser discretamente inserida no texto, provocando tanto o leitor já familiarizado com a obra de Silviano quanto o neófito a reavaliar suas convicções, tal como ocorre com as citações em Walter Benjamin. Vale ressaltar que “diferença” e “repetição” caminham sempre juntas e devem ser compreendidas como par indissociável. Mesmo quando apenas um dos termos se apresenta em determinado texto, o outro se mantém presente, ainda que silencioso, à espreita.

O livro Uma literatura nos trópicos é incontornável para delinearmos a questão. No início dos anos 1970, Silviano produziu uma série de ensaios (nem todos publicados no livro) em que o problema da diferença e repetição ganhava relevo para debater duas temáticas que, embora distintas, estão profundamente entrelaçadas em sua obra: de um lado, a questão da dependência cultural e do colonialismo; de outro, as tradições da crítica literária e das teorias voltadas à análise e pesquisa textual. Textos como “Eça, autor de Madame Bovary”, “A palavra de Deus”, “Análise e interpretação” e “O entre-lugar do discurso latino-americano” compartilham, cada um a seu modo, a pergunta sobre como é possível ler a literatura dependente (e, em chave mais ampla, a cultura) sem que o próprio ato da leitura reforce os mecanismos de submissão geopolítica.

Se o contato com a filosofia da desconstrução teve impacto direto, embora bem meditado, no trabalho de Silviano Santiago, e se o uso das noções de “diferença” e “repetição” pode ser compreendido como um efeito desse encontro, é possível dizer que, mesmo antes de ter acesso aos primeiros trabalhos de Derrida (Da gramatologia e A escritura e a diferença são, ambos, de 1967), o autor já desenvolvia ideias afins em alguns de seus textos. É o caso de “Alegoria e palavra em Iracema” (1965). Nele, percebemos a preocupação de Silviano com a aclimatação de ideias; a forma como interpreta os efeitos de estilos ou movimentos literários em outros quadrantes (especialmente na tensão entre evasão e símbolo político); a maneira aguda como percebe as formas de “malbaratar” a língua portuguesa no encontro colonial, em particular no debate sobre os vocábulos indígenas e a perífrase em José de Alencar. No entanto, é em “O entre-lugar do discurso latino-americano”, de 1971, que o problema fundamental surge em sua formulação já clássica, aprofundada também em dois textos-irmãos: “A palavra de Deus”, publicado no mesmo ano, e “Eça, autor de Madame Bovary”, apresentado em 1970.

“O entre-lugar”, assim como “A palavra de Deus”, recuperam a carta de Pero Vaz de Caminha, que, na interpretação de Silviano, inscreve no texto inaugural das imaginações sobre o Brasil a noção de mímica. Caminha, diante da ausência de um código linguístico comum, interpretava os gestos dos indígenas como uma repetição mecânica da Palavra de Deus, passível de ser facilmente impressa em seus corpos e almas, como se fossem tábula rasa. O espelho, a um só tempo literal (enquanto objeto oferecido aos nativos) e metafórico (associado à noção de reflexo), torna-se a imagem da conversão etnocêntrica, fenômeno que seria retomado posteriormente pelo Padre Antonio Vieira, agora sob a roupagem de uma memória passiva, moldada pelo doutrinamento (tema borgiano: a memória como memória alheia; tema marioandradiano: a traição da memória).

Dez anos depois, no ensaio “Apesar de dependente, universal”, a imagem do espelho ressurge de maneira ainda mais explícita. A experiência colonial é descrita como “operação narcísica”, “em que o outro é assimilado à imagem refletida do conquistador, confundido com ela, perdendo portanto a condição única da sua alteridade” (Santiago, 1982: 15). Silviano revela, assim, os mecanismos de leitura do colonizador em relação ao colonizado: por se tratar de uma imagem especular, este último é simultaneamente percebido como inverso e reflexo do primeiro. A dupla inscrição da identidade colonial se sintetiza na fórmula precisa do autor: “O indígena é o Outro europeu: ao mesmo tempo imagem especular deste e a própria alteridade indígena recalcada” (Santiago, 1982: 16).

A leitura e a escrita colonial inaugural (a carta de Caminha) imprimem a noção do outro como repetição “epidérmica”, “macaqueada”, como simples simulacro. Nesse contexto, imprimir significa também extinguir: extinguir o pluralismo linguístico e religioso e, em última instância, os próprios povos originários. Silviano Santiago explicita essa lógica em “O entre-lugar do discurso latino-americano” ao afirmar que

a América transforma-se em cópia, simulacro que se quer mais e mais semelhante ao original, quando sua originalidade não se encontraria na cópia do modelo original, mas na sua origem, apagada completamente pelos conquistadores. Pelo extermínio constante dos traços originais, pelo esquecimento da origem, o fenômeno de duplicação se estabelece como a única regra válida de civilização (Santiago, 2000: 14).

Nos textos de Silviano, a crítica à lógica colonial se desdobra na crítica às correntes da teoria literária então em voga. “O entre-lugar” produz um exame devastador das pesquisas que propõe o “estudo das fontes ou das influências” – identificando nelas um modo neocolonial de ler a cultura, fundamentado na lógica das “economias deficitárias”. Isso é assim porque o crítico que procede dessa forma só consegue explicar as obras latino-americanas remetendo a uma origem: elas são iluminadas, também como em um jogo de espelhos, por um centro, por uma obra primeira que lhes confere sentido e estabelece sua métrica. Cabe, portanto, à obra segunda, somente o discurso da “falta” e do parasitismo – ela em nada acrescenta à obra primeira e apenas está em dívida com ela, assim com os países da periferia contraem dívidas com o Fundo Monetário Internacional.

A esse método da austeridade Silviano Santiago propõe outro, o do suplemento. Se antes o que estava em jogo era a cópia, agora o elemento fundamental é a diferença. No entanto, para o escritor da periferia, essa diferença se constitui sempre em relação a um texto primeiro. Silviano nos mostra como escrever em condições de dependência cultural significa trabalhar sobre outros textos, mas também contra esses textos. O escritor latino-americano, movido por uma “meditação silenciosa e traiçoeira”, “tenta surpreender o modelo original em suas limitações, suas fraquezas, em suas lacunas, desarticula-o e o rearticula de acordo com suas intenções, segundo sua própria direção ideológica, sua visão do tema apresentado de início pelo original” (Santiago, 2000: 20). O escritor latino-americano não é um mero receptor, mas um leitor ativo, de caneta em mãos, que escreve, sobrescreve, e rasura, transformando o texto primeiro em campo de disputa. Essa é sua condição e, a partir dela, ele joga. A esse jogo Silviano dará o nome de “forma-prisão”.

O conto de Jorge Luis Borges “Pierre Menard, autor do Quixote” será muito importante na configuração do jogo proposto por Silviano. A empreitada monumental de Menard – escrever não uma versão do livro de Cervantes, mas o próprio Quixote – exemplifica o trabalho subterrâneo do escritor latino-americano sobre um texto primeiro, assim como o baralhamento das noções de autoria e de cronologia, tão ao gosto da crítica literária que examina as fontes e as influências.  Se no Quixote o texto de Menard permanece invisível, ao escrever “Le Cimetière Marin”, de Paul Valéry, o personagem realiza uma variação perceptível, convertendo os decassílabos do original em alexandrinos. Nesse deslocamento Silviano identifica o que chama de “suplemento sonoro e diferencial”, um “suplemento de violência”, que instaura algo novo precisamente no ato de repetir o modelo. O mesmo conto de Borges seria utilizado na construção do artigo “Eça, autor de Madame Bovary”, indicando como a dependência (econômica e cultural) se reproduz de outras formas e em outros contextos. Não é à toa que Silviano tenha tanto interesse no recurso ao pastiche. Segundo sua própria explicação, o pastiche não ridiculariza o passado, como a paródia, nem busca preenchê-lo, como um complemento, mas opera como suplemento: algo que se acrescenta a um todo já existente, transgredindo-o, mas sem renunciar a ele (Santiago, 2002).

A recusa da crítica preocupada com as origens contribui para um movimento de abertura das obras literárias em relação a outras obras, promovendo uma abertura em diferença. Como desenvolve em “Análise e interpretação”, “não são mais considerados os textos isoladamente, ou como pertencentes a um único modelo do mesmo, mas como se diferenciando na repetição, como um diálogo entre o mesmo e o outro” (Santiago, 2000: 208, grifos do autor). Esse movimento recebe de Silviano o nome de inserção, marcando uma transformação fundamental na leitura: não mais um esforço de decifração de uma linguagem cifrada – como na lógica do complemento –, mas a compreensão do texto como margem, espaço onde novas leituras se inscrevem (cf. verbete “Leitura” no Glossário Derrida).

Ao levar a sério a intertextualidade, Silviano desestabiliza simultaneamente dois modelos de leitura: o colonial, que subordina a literatura periférica a um centro legitimador, e seu inverso especular, o modelo nacionalista, encerrado numa identidade ufanista e, muitas vezes, provinciana. O escritor latino-americano, ao se inserir nesse jogo, não só se apropria, mas também se afirma como autor, capaz de operar um “renversement ideológico”, deslocando e reconfigurando o sentido dos textos de referência. Assim, a margem (o marginalizado, o suplemento) – não representa uma exterioridade; pelo contrário, ela se torna “razão de ser da estrutura que se deixa ler dentro (e) fora da superfície significante”, como indicado no Glossário Derrida, supervisionado por Silviano Santiago. É esse o movimento mesmo de “universalização”, como também discutido por Silviano em “Apesar de dependente, universal”. Longe de ser um atributo da cultura dominante, ela surge da resposta e inserção realizadas pelos textos da cultura dependente. A universalidade se dá, portanto, não como imposição de um centro, mas como jogo dinâmico de forças, em que a diferença se torna condição de sua realização. Em anos recentes, o autor desenvolveu a noção de inserção como contraponto ao que chama de “paradigma da formação”, propondo uma nova forma, aberta e cosmopolita, de situar a “linguagem-Brasil” (Hélio Oiticica) em contexto universal.

Quase como um parêntesis, vale notar que Silviano, apesar de preocupado especialmente com a teoria literária, também dialogou com a sociologia daquela época. O exemplo mais direto desse trânsito é a resenha que escreveu em 1977 do livro A revolução burguesa no Brasil, de Florestan Fernandes. Nela, o crítico nota como o que está em jogo no trabalho teórico do sociólogo paulista é a percepção da lógica da repetição com diferença nos países dependentes e subdesenvolvidos. Nas palavras de Silviano,

Florestan Fernandes vai trabalhar com as categorias estruturais e semânticas de repetição e diferença. No processo de repetição, existe por um lado uma atitude de absorção e de cópia, e que redunda, do ponto de vista semântico, em silêncio significativo para o sociólogo. No processo de diferença, existe transgressão a valores estabelecidos e imperialistas, e do ponto de vista semântico, significação (Santiago, 2018: 308).

Como indicam André Botelho e Antonio Brasil, a leitura da A revolução burguesa através das lentes de Silviano permite ver o quanto o livro do sociólogo “ultrapassa simultaneamente tanto uma valorização afirmativa e algo ufanista da ‘originalidade da diferença’, quanto uma ‘sociologia da falta’, voltada ao inventário dos pressupostos históricos que emperrariam nosso desenvolvimento, em chave eurocêntrica” (Botelho & Brasil, 2020). Fechemos o parêntesis.

Em uma entrevista concedida em 1979 e publicada em Vale quanto pesa, Silviano Santiago sugere que o esforço crítico nos países dependentes deve necessariamente envolver uma nova “estratégia de leitura” (Santiago, 1982: 194). Contra a leitura colonial ou neocolonial (a de Pero Vaz de Caminha, mas também a das influências), o autor propõe uma outra forma de imaginação, a “imaginação do paradoxo”. É essa forma de imaginação que está no cerne da noção de “entre-lugar”, articulando a crítica à unidade e à pureza, a transgressão possível dentro da forma-prisão e a repetição com diferença. O paradoxo que também é antídoto para a leitura domesticada, irascível, de Guimarães Rosa, “o paradoxo – maximizado pelo indecidível – nos leva a optar pela confusão entre opostos. A amizade e o gesto de traição ambos oriundos de Zé Bebelo. O paradoxo torna ambíguo tudo o que nos é dado pela clareza decisória, ou seja, pela clareza irascível que se depreende da caracterização de mão única dos personagens” (Santiago, 2017: 43). O paradoxo, portanto, se aproxima do “indecidível” de Derrida, aquele “elemento ambivalente sem natureza própria, que não se deixa compreender nas oposições clássicas binárias; elemento irredutível a qualquer forma de operação lógica ou dialética” (Santiago, 2020: 70), segundo o Glossário. Aí se encontra o suplemento, que “não é nem um mais nem um menos”, e que se traduz em diferença. O pensamento de Silviano Santiago, resistente às sínteses, hospeda-se no “valor do híbrido e [n]a fertilidade de paradoxos e contradições”, como escreveu Eneida Leal Cunha (2019: 346). A terceira margem do rio.

Referências

BOTELHO, André & BRASIL JR., Antonio. (2020). Cosmopolitismo plebeu: a sociologia de Florestan Fernandes. Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social, jul. 2020.

CÁMARA, Mario. (2024). Grafias de vida – a morte, de Silviano Santiago. Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social, maio 2024.

CUNHA, Eneida Leal. (2019). A urgência de escrever contra. In: SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos. Recife: CEPE, p. 343-348.

HOELZ, Maurício & BITTENCOURT, André. (2020). Repetição, diferença, reescritura: das vantagens do ‘entre’. Aletria, v. 30, n. 1, p. 95-116.

SANTIAGO, Silviano. (1965). Alegoria e palavra em Iracema. Luso-Brazilian Review, v. 2, n. 2, 1965, p. 55-68.

SANTIAGO, Silviano. (1982). Vale quanto pesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. 193-200.

SANTIAGO, Silviano. (2000). Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. Rio de Janeiro: Rocco.

SANTIAGO, Silviano. (2002). Nas malhas da letra. Rio de Janeiro: Rocco.

SANTIAGO, Silviano. (2017). Genealogia da ferocidade. Recife: CEPE.

SANTIAGO, Silviano. (2018). A revolução burguesa. Sociologia & Antropologia, v. 8, n. 1, p. 299-312.

SANTIAGO, Silviano. (2020). Glossário de Derrida. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens.

SANTIAGO, Silviano. (2023). A literatura brasileira da perspectiva pós-colonial, um depoimento. Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social, jun. 2023.

Sobre o autor

Andre Bittencourt é doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde atua como professor do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA/UFRJ).


Diferencia y repetición

El par conceptual “diferencia” y “repetición” atraviesa prácticamente toda la obra de Silviano Santiago a lo largo de más de cinco décadas. Como ocurre con muchos de los conceptos desarrollados por el autor, en ciertos momentos se manifiesta con mayor intensidad, asumiendo el protagonismo en una interpretación o lectura. En otros, parece replegarse, como si estuviera en estado latente, para luego resurgir más adelante, a veces con un nuevo ropaje o asociado a otro concepto. Su aparición puede ser explícita, acompañada de una presentación, o estar discretamente insertada en el texto, desafiando tanto al lector ya familiarizado con la obra de Silviano como al neófito a reexaminar sus convicciones, como ocurre con las citas en Walter Benjamin. Cabe destacar que “diferencia” y “repetición” caminan siempre juntas y deben ser comprendidas como un par indisociable. Incluso cuando sólo uno de los términos aparece en un determinado texto, el otro se mantiene presente, aunque en silencio, al acecho.

El libro Uma literatura nos trópicos es ineludible para delinear esta cuestión. A comienzos de la década de 1970, Silviano escribió una serie de ensayos (no todos publicados en libro) en los que el problema de la diferencia y la repetición cobraba relevancia para debatir dos temáticas que, aunque distintas, están profundamente entrelazadas en su obra: por un lado, la cuestión de la dependencia cultural y del colonialismo; por otro, las tradiciones de la crítica literaria y de las teorías dedicadas al análisis e investigación textual. Textos como “Eça, autor de Madame Bovary”, “A palavra de Deus”, “Análise e interpretação” y “O entre-lugar do discurso latino-americano” comparten, cada uno a su modo, la pregunta por cómo es posible leer una literatura dependiente (y, en una clave más amplia, una cultura) sin que el propio acto de lectura refuerce los mecanismos de sumisión geopolítica.

Aunque el contacto con la filosofía de la deconstrucción tuvo un impacto directo –aunque reflexionado – en el trabajo de Silviano Santiago, y aunque el uso de las nociones de “diferencia” y “repetición” puede entenderse como un efecto de ese encuentro, es posible afirmar que, incluso antes de tener acceso a los primeros textos de Derrida (De la gramatología y La escritura y la diferencia, ambos de 1967), el autor ya desarrollaba ideas afines en algunos de sus escritos. Tal es el caso de “Alegoria e palavra em Iracema” (1965). Allí se percibe la preocupación de Silviano con la adaptación de las ideas; la forma en que interpreta los efectos de estilos o movimientos literarios en otras geografías (especialmente en la tensión entre evasión y símbolo político); el modo agudo en que percibe las formas de “devaluar” el idioma portugués en el encuentro colonial, en particular en el debate sobre los vocablos indígenas y la perífrasis en José de Alencar. No obstante, es en “O entre-lugar do discurso latino-americano”, de 1971, donde el problema fundamental emerge en su formulación ya clásica, desarrollada también en dos textos hermanos: “A palavra de Deus”, publicado ese mismo año, y “Eça, autor de Madame Bovary”, presentado en 1970.

“O entre-lugar do discurso”, al igual que “A palavra de Deus”, recupera la carta de Pero Vaz de Caminha, que, según la interpretación de Silviano, inscribe en el texto inaugural de las imaginaciones sobre Brasil la noción de mímesis. Caminha, ante la ausencia de un código lingüístico común, interpretaba los gestos de los indígenas como una repetición mecánica de la Palabra de Dios, susceptible de ser fácilmente impresa en sus cuerpos y almas, como si fueran una tabula rasa. El espejo, tanto literal (como objeto ofrecido a los nativos) como metafórico (asociado a la noción de reflejo), se convierte en la imagen de la conversión etnocéntrica, fenómeno que sería retomado posteriormente por el Padre Antonio Vieira, ahora bajo la forma de una memoria pasiva, moldeada por el adoctrinamiento (tema borgiano: la memoria como memoria ajena; tema marioandradiano: la traición de la memoria).

Diez años después, en “Apesar de dependente, universal”, la imagen del espejo reaparece de forma aún más explícita. La experiencia colonial es descrita como una “operación narcisista”, “en la que el otro es asimilado a la imagen reflejada del conquistador, confundido con ella, perdiendo por tanto la condición única de su alteridad” (Santiago, 1982: 15). Silviano revela así los mecanismos de lectura del colonizador respecto al colonizado: al tratarse de una imagen especular, este último es simultáneamente percibido como inverso y reflejo del primero. La doble inscripción de la identidad colonial se sintetiza en la fórmula precisa del autor: “El indígena es el Otro europeo: al mismo tiempo imagen especular de este y la propia alteridad indígena reprimida” (Santiago, 1982: 16).

La lectura y la escritura colonial inaugural (la carta de Caminha) imprimen la noción del otro como repetición “epidérmica”, “mimética”, como simple simulacro. En este contexto, imprimir también significa extinguir: extinguir el pluralismo lingüístico y religioso y, en última instancia, a los propios pueblos originarios. Silviano Santiago explicita esta lógica en “O entre-lugar do discurso latino-americano” al afirmar que “América se transforma en copia, simulacro que se quiere cada vez más semejante al original, cuando su originalidad no se encontraría en la copia del modelo original sino en su origen, borrado completamente por los conquistadores. Por el exterminio constante de los rasgos originales, por el olvido del origen, el fenómeno de duplicación se establece como la única regla válida de civilización” (Santiago, 2000: 14).

En los textos de Silviano, la crítica a la lógica colonial se despliega en una crítica a las corrientes de teoría literaria en boga. “O entre-lugar” realiza un examen devastador de las investigaciones que proponen el “estudio de las fuentes o influencias”, identificando en ellas un modo neocolonial de leer la cultura, basado en la lógica de las “economías deficitarias”. Esto ocurre porque el crítico que procede de este modo solo consigue explicar las obras latinoamericanas remitiéndolas a un origen: ellas son iluminadas, también como en un juego de espejos, por un centro, por una obra primera que les confiere sentido y establece su métrica. A la obra segunda le cabe solamente el discurso de la “falta” y el parasitismo: no agrega nada a la obra primera, solo está en deuda con ella, del mismo modo que los países periféricos contraen deudas con el Fondo Monetario Internacional.

A este método de austeridad, Silviano Santiago contrapone otro: el del suplemento. Si antes lo que estaba en juego era la copia, ahora el elemento fundamental es la diferencia. Sin embargo, para el escritor de la periferia, esa diferencia siempre se constituye en relación con un texto primero. Silviano nos muestra cómo escribir en condiciones de dependencia cultural implica trabajar sobre otros textos, pero también contra ellos. El escritor latinoamericano, movido por una “meditación silenciosa y traicionera”, “intenta sorprender al modelo original en sus limitaciones, en sus debilidades, en sus lagunas; lo desarticula y lo rearticula de acuerdo con sus intenciones, según su propia dirección ideológica, su visión del tema presentado inicialmente por el original” (Santiago, 2000: 20). El escritor latinoamericano no es un mero receptor, sino un lector activo, con el bolígrafo en la mano, que escribe, sobrescribe y tacha, transformando el texto primero en un campo de disputa. Esa es su condición y, desde ella, juega. A ese juego Silviano lo llama “forma-prisión”.

El cuento de Jorge Luis Borges “Pierre Menard, autor del Quijote” es fundamental en la configuración de este juego propuesto por Silviano. La empresa monumental de Menard – escribir no una versión del libro de Cervantes, sino el propio Quijote – ejemplifica el trabajo subterráneo del escritor latinoamericano sobre un texto primero, así como la mezcla de las nociones de autoría y cronología, tan del gusto de la crítica literaria que examina fuentes e influencias. Si en el Quijote el texto de Menard permanece invisible, al escribir Le Cimetière Marin de Paul Valéry, el personaje realiza una variación perceptible, convirtiendo los decasílabos del original en alejandrinos. En ese desplazamiento, Silviano identifica lo que llama un “suplemento sonoro y diferencial”, un “suplemento de violencia”, que instaura algo nuevo precisamente en el acto de repetir el modelo. El mismo cuento de Borges será utilizado en el argumento del artículo “Eça, autor de Madame Bovary”, indicando cómo la dependencia (económica y cultural) se reproduce de otras formas y en otros contextos. No es casual que Silviano tenga tanto interés por el recurso al pastiche. Según su propia explicación, el pastiche no ridiculiza el pasado, como la parodia, ni busca completarlo como un complemento, sino que actúa como suplemento: algo que se añade a un todo ya existente, transgrediéndolo, pero sin renunciar a él (Santiago, 2002).

El rechazo a la crítica preocupada por los orígenes contribuye a un movimiento de apertura de las obras literarias en relación con otras, promoviendo una apertura en la diferencia. Como desarrolla en “Análise e interpretação”, “ya no se consideran los textos de forma aislada, o como pertenecientes a un único modelo del mismo, sino como diferenciándose en la repetición, como un diálogo entre lo mismo y lo otro” (Santiago, 2000: 208, énfasis del autor). Este movimiento recibe de Silviano el nombre de inserción, marcando una transformación fundamental en la lectura: ya no un esfuerzo por descifrar un lenguaje cifrado —como en la lógica del complemento—, sino la comprensión del texto como margen, espacio donde se inscriben nuevas lecturas (cf. entrada “Leitura” en el Glossário Derrida).

Al tomarse en serio la intertextualidad, Silviano desestabiliza simultáneamente dos modelos de lectura: el colonial, que subordina la literatura periférica a un centro legitimador, y su inverso especular, el modelo nacionalista, encerrado en una identidad ufanista y, a menudo, provinciana. El escritor latinoamericano, al insertarse en este juego, no sólo se apropia, sino que también se afirma como autor, capaz de operar un renversement idéologique, desplazando y reconfigurando el sentido de los textos de referencia. De este modo, el margen (el marginado, el suplemento) no representa una exterioridad; por el contrario, se convierte en la “razón de ser de la estructura que se deja leer dentro (y) fuera de la superficie significante”, como se indica en el Glossário Derrida, supervisado por Silviano Santiago. Ese es el propio movimiento de la “universalización”, como también lo discute Silviano en Apesar de dependente, universal. Lejos de ser atributo de la cultura dominante, esta surge como respuesta e inserción realizadas por los textos de la cultura dependiente. La universalidad se da, por tanto, no como imposición de un centro, sino como un juego dinámico de fuerzas, en el que la diferencia se vuelve condición para su realización. En años recientes, el autor ha desarrollado la noción de inserción como contraposición a lo que denomina el “paradigma de la formación”, proponiendo una nueva forma, abierta y cosmopolita, de situar el “idioma-Brasil” (Hélio Oiticica) en un contexto universal.

Casi como un paréntesis, vale señalar que Silviano, a pesar de estar especialmente enfocado en la teoría literaria, también dialogó con la sociología de su tiempo. El ejemplo más directo de este tránsito es la reseña que escribió en 1977 sobre el libro A revolução burguesa no Brasil, de Florestan Fernandes. En ella, nuestro crítico señala cómo lo que está en juego en el trabajo teórico del sociólogo paulista es la percepción de la lógica de la repetición con diferencia en los países dependientes y subdesarrollados. En palabras de Silviano: “Florestan Fernandes trabaja con las categorías estructurales y semánticas de repetición y diferencia. En el proceso de repetición, existe por un lado una actitud de absorción y de copia, que redunda, desde el punto de vista semántico, en un silencio significativo para el sociólogo. En el proceso de diferencia, existe transgresión de los valores establecidos e imperialistas, y desde el punto de vista semántico, significación” (Santiago, 2018: 308). Como señalan André Botelho y Antonio Brasil, la lectura de A revolução burguesa a través de las lentes de Silviano permite ver cómo el libro del Fernandes “trasciende simultáneamente tanto una valoración afirmativa y algo ufanista de la ‘originalidad de la diferencia’, como una ‘sociología de la carencia’, centrada en el inventario de los presupuestos históricos que obstaculizarían nuestro desarrollo, en una clave eurocéntrica” (Botelho & Brasil, 2020). Cerremos el paréntesis.

En una entrevista concedida en 1979 y publicada en Vale quanto pesa, Silviano Santiago sugiere que el esfuerzo crítico en los países dependientes debe necesariamente implicar una nueva “estrategia de lectura” (Santiago, 1982: 194). Contra la lectura colonial o neocolonial (la de Pero Vaz de Caminha, pero también la de las influencias), el autor propone otra forma de imaginación: la “imaginación de lo paradójico”. Es esta forma de imaginación la que está en el núcleo de la noción de “entre-lugar”, articulando la crítica a la unidad y a la pureza, la transgresión posible dentro de la forma-prisión y la repetición con diferencia. Lo paradójico que también es antídoto para la lectura domesticada, irascible, de Guimarães Rosa: “lo paradójico –maximizado por lo indecidible – nos lleva a optar por la confusión entre opuestos. La amistad y el gesto de traición, ambos originados en Zé Bebelo. Lo paradójico vuelve ambiguo todo lo que se nos presenta con una claridad decisiva, es decir, con una claridad irascible que se desprende de la caracterización unívoca de los personajes” (Santiago, 2017: 43). Lo paradójico, por tanto, se aproxima a lo “indecidible” de Derrida, ese “elemento ambivalente sin naturaleza propia, que no puede ser comprendido en las oposiciones clásicas binarias; elemento irreductible a cualquier forma de operación lógica o dialéctica” (Santiago, 2020: 70), según el Glossário. Allí se encuentra el suplemento, que “no es ni un más ni un menos”, y que se traduce en diferencia. El pensamiento de Silviano Santiago, resistente a las síntesis, se hospeda en el “valor de lo híbrido y en la fertilidad de los paradojas y contradicciones”, como escribió Eneida Leal Cunha (2019: 346). La tercera orilla del río.

Referencias

BOTELHO, André & BRASIL JR., Antonio. (2020). Cosmopolitismo plebeu: a sociologia de Florestan Fernandes. Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social, jul. 2020.

CÁMARA, Mario. (2024). Grafias de vida – a morte, de Silviano Santiago. Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social, maio 2024.

CUNHA, Eneida Leal. (2019). A urgência de escrever contra. In: SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos. Recife: CEPE, p. 343-348.

HOELZ, Maurício & BITTENCOURT, André. (2020). Repetição, diferença, reescritura: das vantagens do ‘entre’. Aletria, v. 30, n. 1, p. 95-116.

SANTIAGO, Silviano. (1965). Alegoria e palavra em Iracema. Luso-Brazilian Review, v. 2, n. 2, 1965, p. 55-68.

SANTIAGO, Silviano. (1982). Vale quanto pesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. 193-200.

SANTIAGO, Silviano. (2000). Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. Rio de Janeiro: Rocco.

SANTIAGO, Silviano. (2002). Nas malhas da letra. Rio de Janeiro: Rocco.

SANTIAGO, Silviano. (2017). Genealogia da ferocidade. Recife: CEPE.

SANTIAGO, Silviano. (2018). A revolução burguesa. Sociologia & Antropologia, v. 8, n. 1, p. 299-312.

SANTIAGO, Silviano. (2020). Glossário de Derrida. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens.

SANTIAGO, Silviano. (2023). A literatura brasileira da perspectiva pós-colonial, um depoimento. Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social, jun. 2023.

Sobre el autor

Andre Bittencourt es doctor en Sociología por la Universidad Federal de Río de Janeiro (UFRJ), donde es profesor del Departamento de Sociología y del Programa de Posgrado en Sociología y Antropología.