
“O livro põe a mesa: Feijão, angu e couve e Eduardo Frieiro” é o segundo texto que publicamos na série A mesa dos mineiros narra Minas.
Assinado por Juliana de Souza Duarte, mestranda em História pelo PPGH/UFMG, o texto discute a importância da comida como elemento de identidade cultural em Minas Gerais, destacando seu papel na preservação da memória e das tradições. Analisando a obra pioneira Feijão, angu e couve, de Eduardo Frieiro – referência no estudo da alimentação mineira sob uma perspectiva histórica –, a autora dialoga com uma provocação do autor sobre a existência de uma comida tipicamente mineira, observando que ela de fato existe: é diversa e reconhecida como expressão da identidade do povo mineiro.
Curada pelo historiador José Newton Coelho Meneses (UFMG), esta série da Coluna MinasMundo propõe investigar a mesa mineira como linguagem e expressão de um cosmopolitismo cultural próprio da região. Os textos estão sendo publicados quinzenalmente às quartas-feiras. Para conferir o primeiro post, com uma apresentação do curador, clique aqui.
Boa leitura!
O livro põe a mesa: Feijão, angu e couve e Eduardo Frieiro
Por Juliana de Souza Duarte (PPGH/UFMG)
Dizer feijão, angu e couve é dizer mineiro, ou mais precisamente, mesa de mineiro.
(Drummond, 1966)
A comida, para os mineiros, é pertencimento, tem origem e procedência, gera reconhecimento e é motivo para os diferenciar dos demais. É elemento de identidade e, como tal, organiza as representações coletivas e mantém as tradições vivas e presentes, situando os indivíduos no espaço e no tempo. A comida em Minas Gerais alimenta a história e nutre a memória cultural e social de sua gente.
O primeiro estudo tratando exclusivamente sobre o tema da alimentação dos mineiros foi elaborado por Eduardo Frieiro, um intelectual descendente de espanhóis, nascido em 5 de julho de 1889, em Matias Barbosa, distrito de Juiz de Fora. Frieiro viveu a maior parte de sua vida na capital do estado, Belo Horizonte, onde faleceu em 1982, deixando muitas histórias, uma ativa participação em iniciativas de fomento à cultura, uma expressiva produção literária e vários estudos sobre Minas. E, não por acaso, o dia da Gastronomia Mineira é comemorado na data de seu nascimento.

Frieiro tem uma trajetória curiosa. Estudou somente até a segunda série do ensino primário e, a partir daí, foi autodidata. Foi revisor na redação do Minas Gerais, órgão oficial do estado, professor de literatura espanhola na Universidade Federal de Minas Gerais e um dos fundadores e diretor da Biblioteca Pública de Minas Gerais entre 1954 e 1963. Mesmo depois de deixar o cargo, manteve-se envolvido com o órgão. Um exemplo é o seu papel na comissão organizadora da Coleção Mineiriana, acervo bibliográfico sobre a história e cultura de Minas, junto com intelectuais como Francisco Iglésias, Hélio Gravatá, João Camilo Oliveira Torres, Lúcia Machado de Almeida, Affonso Ávila, Aires da Mata Machado, entre outros.
Desde sua estreia como escritor com a publicação do Clube dos Grafônomos, em 1927 e mais tarde com os livros, Como era Gonzaga (1950) e O Diabo na Livraria do Cônego e outros temas mineiros (1957), Eduardo Frieiro pautou sua obra, composta de romances e ensaios, com temas associados à história de Minas Gerais. Além disso, redigiu diversos artigos em jornais, revistas e coletâneas, entre as quais destacamos Brasil, terra e alma (1967), organizada pelo escritor e poeta Carlos Drummond de Andrade, e Terra e Povo (1970), organizada por Guilhermino César.
Feijão, angu e couve: ensaio sobre a comida dos mineiros, lançado em 1966 pelo Centro de Estudos Mineiros da Universidade Federal de Minas Gerais, durante a gestão do historiador Francisco Iglésias, foi um de seus últimos trabalhos publicado em vida. A obra enfoca o tema da alimentação de forma abrangente, considera seus aspectos culturais, sociais e econômicos, ingredientes, formas de preparo e consumo, hábitos regionais e questões conceituais, configurando-se como uma referência não só para conhecermos a comida dos mineiros, mas também para compreendermos a história social e cultural de Minas.

As publicações de Frieiro relacionadas à história, embora compostas em sua maior parte por ensaios, foram elaboradas a partir de muita pesquisa, consulta a documentos e vasto levantamento bibliográfico. Em sua biblioteca, entregue à Academia Mineira de Letras em 1981, encontramos cerca de 3.000 volumes sobre os mais diferentes assuntos, especialmente literatura e história de Minas Gerais. A exploração da biblioteca de Frieiro é elementar para conhecermos os caminhos percorridos por ele na construção de Feijão, angu e couve. Seus livros se tornam, além de bibliografia, objetos de memória. Ao consultá-los, nos deparamos com anotações e fichamentos, elaborados de próprio punho inseridos nas páginas de seu interesse, deixando pistas evidentes de sua pesquisa em obras clássicas sobre a história do Brasil e de Minas, memórias de municípios[1] e alguns trabalhos acadêmicos, como o imprescindível estudo sobre o abastecimento em Minas Gerais de Mafalda Zemella[2], relatos de viajantes estrangeiros, notadamente Saint-Hilaire, Richard Burton, John Mawe e João Emanuel Pohl e estudos sobre a alimentação em áreas como a gastronomia e a nutrição. Apesar de não ter organizado de forma sistemática suas referências bibliográficas, é possível identificar as marcas deixadas em sua biblioteca nas páginas de seu ensaio.

Acervo Eduardo Frieiro – Academia Mineira de Letras.
Um outro destaque do acervo são as quase 3.000 cartas reunidas pelo autor. Frieiro arquivou aquelas que recebeu e a cópia de parte das que enviou, aproximadamente 600 correspondências endereçadas a 302 destinatários, entre os anos 1932 e 1982[3]. A tarefa de selecionar e preservar esse tipo de documento muitas vezes está a cargo do outro que o recebe, lê, responde e guarda, alimentando, assim, a lógica do pacto epistolar. Mas não foi o que aconteceu com o conjunto documental de Eduardo Frieiro, pois ele mesmo se encarregou de salvaguardar e, certamente, de selecionar a própria memória contida nessa escrita de si, enriquecida pelo diálogo com o outro. Esse tipo de registro no contexto da história cultural se torna fonte e lugar de memória onde se articulam práticas e representações. Entre os missivistas encontramos historiadores, escritores e políticos, como Juscelino Kubitschek, Câmara Cascudo, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Cyro dos Anjos, Enrique de Resende, Maria José de Queiroz, para citar alguns.
Identificar o assunto da alimentação entre tantos outros foi um trabalho de garimpo, mas cada fragmento encontrado, quando visto em conjunto com o Feijão, angu e couve e com outros livros e documentos selecionados no acervo, nos ajudou a compreender a obra, o autor e as suas escolhas. Os temas sobre comida aparecem na complexidade de uma receita, na graça de um poema, na seriedade de uma argumentação intelectual, na banalidade da descrição de uma refeição qualquer, no uso de metáforas bem escolhidas relacionadas ao campo semântico da alimentação ou no relato sentido de um problema de saúde que o tornou um gourmand dispéptico.
O resultado de suas investigações se reflete em um trabalho bastante amplo, considerando a formação da cultura alimentar de Minas Gerais desde o século XVII até início dos anos 60. O autor, apesar de não se reconhecer como um historiador, como nos deixa saber em carta enviada a Hélio Viana, datada de 24 de agosto de 1945, onde diz: “Não tenho e jamais tive, veleidades de historiador. Careço de imaginação para tanto”, dedicou-se à pesquisa, sistematizou as informações e criou uma narrativa para o tema, sempre fiel ao seu espírito questionador e a sua inclinação para “olhar o avesso de toda tese”, como ele diz em outra carta, enviada ao escritor R. Magalhães Junior, em 1958.
Sobre o entendimento a respeito da natureza do trabalho de Frieiro, o historiador José Newton Coelho Meneses, em seu artigo “Mesa farta, gostos diversos. Cozinha e práticas alimentares da elite mineira (séculos XVIII e XIX)”, distingue ensaios sobre as identidades culinárias, entre os quais o de Eduardo Frieiro, dos estudos de História, estes “apegados ao pilar empírico de leitura crítica a documentos de natureza memorialística mais diversos e em maior quantidade” (Meneses, 2020: 437-438).
Para além da discussão a respeito do reconhecimento de Frieiro como historiador e de sua obra como tendo ou não o estatuto da História, entendemos o Feijão, angu e couve como objeto e fonte de estudo histórico relevante para a compreensão da comida mineira, de sua narrativa e de seu lugar na cultura e identidade de Minas. A obra de Frieiro, à luz da história cultural, apresenta uma ideia a respeito da mesa mineira, carregada de simbolismos e de valores que nos ajudam a compreender a comida como artefato, linguagem e narrativa[4]. Artefato por toda sua materialidade, visível na forma de lidar com os ingredientes, utensílios de cozinha, mesa posta; linguagem porque nos deixa ver no vocabulário, nas receitas, nos gestos, nos modos e nas escolhas como a comida expressa Minas; e narrativa porque essa mesa, seus artefatos e sua linguagem contam uma história.
Para começar a contar a sua história, Frieiro coloca, logo em suas considerações preliminares, uma pergunta que irá guiar a sua narrativa: “Os mineiros comem mal?”. A reflexão dialoga com o escritor Alceu Amoroso Lima, autor do livro Voz de Minas, na qual ele afirma que o “mineiro come pouco e come da comida mais simples possível”. Alceu considera que em Minas a mesa é sempre um acessório que o homem mineiro despreza “com sua vocação irresistível para a predominância do espírito”.
A obra de Alceu Amoroso, como ele mesmo elucida, integra seu projeto de elaborar um ensaio da sociologia brasileira subordinado ao título coletivo: “As cinco vozes do Brasil”, quais sejam a voz do Norte, a voz do Sul, a voz do Litoral, a voz do Sertão e a voz do Centro” (Lima, 1983: 13). Cabe a Minas representar a voz do Centro, da montanha, em uma proposta que intenciona colocar Minas em um destino conservador e preservador das tradições.
Bem antes da publicação do livro Feijão, angu e couve, Frieiro já se posicionava criticamente diante dessas ideias. Em primeiro de abril de 1945, publicou no jornal Folha de Minas, um artigo intitulado “Fantasias em torno do ‘mito de Minas’”. Mais do que questionar as proposições de Alceu Amoroso Lima, Frieiro questiona a intenção de se realizar uma síntese dos mineiros, dando à voz de Minas um só timbre, pois, para ele, a voz de Minas é “pluritonal, como todas as vozes coletivas” (Frieiro, 1945) e continua questionando o que ele considera uma abstração, o “Mineiro típico”:
Há pelo menos cinco tipos de Mineiros: o do Centro, descendente em boa parte do antigo Geralista das minas e do campo; o do Sul, tão mineiro quanto paulista; o da Mata, em nada diferente do fluminense; o do Norte, abaianado; o do Triângulo, entre goiano e paulista. Mas também hipotéticos (Frieiro, 1945).
Em seu diário, no dia 18 de dezembro de 1944, Frieiro registra a leitura do livro Voz de Minas – Ensaio de sociologia regional brasileira, cujo subtítulo ele considera impróprio, pois, em sua opinião, não há sociologia alguma em suas páginas, “Há literatura, demasiada literatura”. E desabafa:
Não consigo ler esse homem com calma, pois provoca em mim, sempre, um irreprimível desejo de contradizê-lo. […] Alceu Amoroso Lima pensa que conhece Minas, só porque vem aqui de vez em quando e frequenta as sacristias e o grupinho do “Diário” e beija a mão de Dom Cabral. Claro que isso não basta para conhecer Minas e os mineiros, mesmo muito superficialmente (Frieiro, 1986: 191).
Curiosamente não encontramos entre os livros de Frieiro nenhum exemplar da Voz de Minas com rabiscos e anotações que pudessem nos revelar outros detalhes de sua crítica a Amoroso. Mas esse trecho de seu diário nos levar a imaginar que ele ficou por 20 anos ruminando e aguardando a oportunidade de publicar um estudo contrapondo diretamente as ideias de Amoroso. Em Feijão, angu e couve, Frieiro retoma a reflexão e delimita: “Nas páginas deste ensaio fala-se de mineiros, mas entendidos muito simplesmente como o conjunto dos habitantes do território de Minas, tanto os do passado como os do presente, de cujos hábitos alimentares mais comuns nos ocuparemos” (Frieiro, 1982: 38). Aí está a chave para compreendermos a sua posição a respeito da regionalidade como fator determinante para explicar e dar contornos a cultura e a identidade de um grupo e também para o entendimento de seus silêncios e escolhas temáticas. Para Frieiro, é impossível construir uma “síntese feliz” de Minas sem considerar suas diferenças e complexidades.
É com essa visão aberta e diversa que ele irá, ao longo de seu ensaio, passar por temas que vão da fome e do hábito de comer o famoso “bicho de taquara”[5], até o trivial mineiro: o feijão, o angu, as farinhas, o arroz solto, as carnes de porco, a de boi, seca ou “verde”, a galinha em dia de festa, a couve e o mais mineiro dos pratos: o tutu de feijão. Para ele, o tutu é iguaria incomparável para o paladar dos mineiros e o descreve: “o mais vernáculo é o feito de feijão mulatinho (o preto usa-se menos em Minas), o qual depois de cozido, se engrossa com farinha de mandioca ou de milho e é servido com torresmos. Também se serve com linguiça ou com ovos cozidos, cortados em rodela” (Frieiro, 1982: 131).

Mas ele não se contenta em falar apenas de alimentos. Dedica-se, também, a descrever os hábitos à mesa. Vai do rudimentar “comer de arremesso”, que consiste em lançar à boca montes de farinha, passando pelo “capitão” – modo de comer com as mãos, juntando bocados de comida com os dedos – até a descrição detalhada de um jantar de cerimônia onde a louça inglesa se mistura a cabaças e cocos.
Nenhum tema relativo à alimentação dos mineiros parece escapar do atento ensaísta. As bebidas, as diferenças regionais, as influências estrangeiras no cardápio, os novos hábitos de consumo, os botequins, os inferninhos, quase tudo encontra espaço em sua obra. O trabalho de coletar, reunir e dar sentido a estes registros, até então esparsos, sobre os hábitos alimentares dos mineiros, coloca Frieiro entre os “explicadores de Minas”, como bem o caracteriza a professora Maria da Conceição Carvalho (Carvalho, 2008).
Nas páginas finais do Feijão, angu e couve, o autor lança nova pergunta/provocação e já vem com a resposta que é quase uma “não-resposta”:
– Há uma comida típica mineira?
A resposta é sim e não.
– Sim porque se pode reconhecer uma constante (empregando um termo usado em Física) na equação das preferências alimentícias da gente que habita Minas.
– Não, porque tais preferências não são exclusivas dessa mesma gente (Frieiro, 1982: 217-218)
Para darmos continuidade à tradição intelectual de Eduardo Frieiro de tudo questionar, voltamos o olhar para as páginas do Feijão, angu e couve e, à luz da compreensão da comida como uma linguagem que contém cultura, saberes, tradição e identidade, vamos discordar do autor e afirmar que sim, existe uma comida típica dos mineiros feita de preferências, composta de ingredientes, pratos, modos de fazer, de servir e de comer com a qual os mineiros se reconhecem e são reconhecidos.
E o reconhecimento dessa comida vem de longe. Se entendemos como comida mineira pratos que carregam a chancela da procedência em seu nome, verificamos que desde os primeiros livros de receita editados no Brasil já se encontram preparos “à mineira”. O primeiro deles, o Cozinheiro Imperial, apesar de em sua primeira edição, de 1839, não trazer nenhuma receita com essa designação e nem de nenhum outro lugar do Brasil, em sua 10ª edição, de 1887, traz uma receita à mineira, o tutu de feijão. Já no Cozinheiro Nacional, identificado como o segundo livro de culinária publicado no Brasil, muito provavelmente em 1882[6], e editado com o compromisso declarado de apresentar “uma cozinha em tudo brasileira”, encontramos 22 preparos nomeados como “à mineira”, contra apenas quatro “à bahiana” e um “à paulista”. As receitas à mineira vão de mingau, ovos fritos e saladas, passando por presunto, chouriço, tripas, porco, molho pardo, até modos de torrar café. Outra obra na mesma linha das anteriores, O Doceiro Nacional, publicada pela primeira vez em 1883, apresenta, em sua 4ª edição, de 1895, 21 receitas “à mineira”, sete “à brasileira”, cinco “à paulista”, quatro “à baiana”, três “à pernambucana”, duas “à fluminense”, duas “à goiana” e uma “à curitibana”. Trazer o território para o nome de um prato é uma forma de reconhecimento de escolhas e de práticas distintivas de uma localidade e essenciais à constituição e ao reconhecimento de sua identidade.
Certamente estamos até agora falando de hábitos alimentares que não incluem todos os habitantes de Minas, tampouco de todas as classes sociais. E a despeito do uso das tradições à mesa para reforçar a ideia de mineiridade e de um discurso por vezes carregado de intenções políticas ou de marketing, é preciso reconhecer que a comida mineira é resultado de mais de 300 anos de história, de permanências e de transformações.
A análise da documentação e dos escritos de Eduardo Frieiro, em conjunto com a investigação nas próprias fontes consultadas pelo autor, nos livros de receitas e nos estudos posteriores sobre a cultura alimentar de Minas, permite-nos concluir que a culinária mineira existe, está viva e é resultado de uma construção social e histórica que se firma em uma comida identitária. O próprio Frieiro, na apresentação de Feijão, angu e couve resume:
Dir-se-á que nada se descobre propriamente de típico nos padrões da cozinha tradicional de Minas. Como não? Acha-se o típico, irrecusavelmente, na predileção de seus habitantes (tomados grosso modo) por certos alimentos e na maneira de os combinar e preparar. Tradicionalmente, apontam-se alguns. O tutu-de-feijão com torresmos (ou linguiça) é um deles. O angu sem sal é outro, acompanhado ou não de torresmos ou quiabo. Outro ainda é o apreciadíssimo lombo de porco assado. Mais outro: a galinha de molho pardo com angu e quiabo (ou jiló) ou a galinha assada com farofa e miúdos. Junte-se também o picadinho de carne com abobrinha ou chuchu. Não se omitindo, é claro, a couve rasgada ou picadinha, nem a de mandioca ou a mineiríssima farinha de milho torrada, às vezes com pele de porco. Como sobremesa, doce de cidra ou marmelada com queijo. Enfim, comida variada, nutriente e saborosa, como sabem prepará-la as boas donas de casa, hábeis quituteiras. Doces? Os mineiros são muito lambareiros, amigos de doçarias e quitandas, como os brasileiros em geral, conhecidos pelo seu “sensualismo apícola”. Não são pratos exclusivamente “mineiros”? De acordo. Mas a sua frequência nas nossas mesas e o seu preparo peculiar lhes confere carta de mineiridade (Frieiro, 1987).
Reconhecer uma comida típica mineira revela-se mais complexo do que responder a simples dicotomia “sim” ou “não”. Tomando como base o próprio autor crítico contundente do desejo de Alceu Amoroso Lima de reduzir Minas a uma única voz, aprendemos a lição: se a voz de Minas é pluritonal, assim também é a comida dos mineiros. Não cabe em recortes limitadores e em pratos típicos. É comida do milho e da mandioca, do angu e da farofa, dos pratos caldosos e dos secos fritos e crocantes, do porco, da galinha, da carne de sol, do vento, da verde, dos peixes do Rio São Francisco, dos queijos e do requeijão, do sal e do doce, do limão capeta, da cachaça e dos vinhos, da jabuticaba, das laranjas e bananas, do pequi, da congonha, da jurebeba e dos palmitos, da couve, da taioba, da ora-prónobis. Amém!
Portanto, para além de ingredientes e receitas, o que podemos afirmar é que a culinária mineira se constitui em expressão da identidade cultural de Minas Gerais, reflete escolhas diversas, esquecimentos, lembranças e hábitos transmitidos de geração a geração, sobrevivendo como parte da história social e cultural de Minas Gerais. Essa expressão se manifesta em diversas dimensões: desde a escolha de ingredientes locais no quintal da casa, ou na jardineira do apartamento, até no uso de técnicas tradicionais, como cozinhar com paciência um frango “pinga e frita” ou misturar um feijão tropeiro. A cultura alimentar mineira está intrinsicamente ligada a práticas sociais, como a forma das pessoas se relacionarem com o ato de comer, de dizerem: “aceita um cafezinho?” para expressar sua hospitalidade, de empregar em sua prática utensílios característicos, como as panelas de ferro e os tachos, de prezarem pelos encontros em volta da mesa ou do balcão do bar. Tudo isso é indício da diversidade e da riqueza do patrimônio gastronômico mineiro. Em Minas, a comida é expressão cultural reconhecida como tal pelas pessoas em seu cotidiano, gerando orgulho e sentimento de pertencimento. É carta de mineiridade, como bem disse Frieiro.

Notas
[1] Em carta a Pythagóras Almeida, datada de 25 de abril de 1953, respondendo a respeito da leitura de trabalho sobre a cidade de Guanhães, Frieiro testemunha o quanto pesquisou sobre as memórias dos municípios mineiros: “Li-os com o interesse que deve merecer dos curiosos das cousas mineiras tudo que se relaciona com a história, a geografia, as tradições, a cultura do nosso estado. Creio que conheço, por as haver lido, todas as monografias históricas de municípios mineiros já impressas”.
[2] Na biblioteca de Frieiro, sob a guarda da Academia Mineira de Letras, podemos consultar o exemplar do livro, em sua primeira edição publicado pela editora da Universidade de São Paulo em 1951, estudado pelo autor com várias marcações e anotações.
[3] Estes números são dados de 2008. Como o acervo continua sem uma organização definitiva, os números provavelmente já sofreram alteração e podem sofrer outras.
[4] A compreensão da comida como artefato, como linguagem e como narrativa foi desenvolvida pelo professor José Newton Coelho Meneses na apresentação “A mesa dos mineiros narra Minas; vasculha seu quintal e deseja o que ele não tem”, dentro da programação do seminário interno do projeto Minasmundo, Minas Intangíveis, realizado virtualmente em 2021.
[5] Bicho de taquara é uma larva que nasce entre as taquaras e era comida crua, assada ou torrada, fazendo parte da dieta de diversos povos indígenas brasileiros.
[6] Embora a primeira edição do livro não seja datada, no livro Os banquetes do Imperador encontramos referência à publicação de agradecimentos do editor Garnier no jornal O Globo de 2 de junho de 1882.
Referências
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BOSCHI, Caio. (2019). A História da e na Mineiriana. In: Suplemento Literário de Minas Gerais, Belo Horizonte, n. 1385, jul-ago.
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CESAR, Guilhermino (org). (1970). Minas Gerais – Terra e Povo. Porto Alegre: Editora Globo.
COZINHEIRO nacional, ou, Coleção das melhores receitas das cozinhas brasileiras e européias: para preparação de sopas, molhos, carnes…/ revisão de Geraldo Gerson de Souza e Maria Cristina marques. São Paulo: Ateliê Editorial; Editora Senac São Paulo, 2008.
FRIEIRO, Eduardo. (1982). Feijão, angu e couve: ensaio sobre a comida dos mineiros. Belo Horizonte/Itatiaia-São Paulo/Edusp.
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FRIEIRO, Eduardo. (1981). Clube dos Grafômanos. 2. ed. Belo Horizonte: Itatiaia.
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GARNIER, B. L. & GARNIER, H. (1895). Doceiro Nacional ou a arte de fazer toda qualidade de doces. 4ª ed. Rio de Janeiro: Tipografia Garnier Irmãos.
GOMES, Angela de Castro. (2004). “Escrita de si, escrita da História, a título de prólogo.” In: Escrita de si, escrita da história. Rio de Janeiro: Editora FGV.
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MENESES, José Newton Coelho. (2020). “Mesa farta, gostos diversos. Cozinha e práticas alimentares da elite mineira (séculos XVIII e XIX)”. In: ALGRANTI, Leila Mezan & MACEDO, Sidiana da Consolação Ferreira (orgs). História da Alimentação do Brasil. Belém: Paka-Tatu.
MONTANARI, Massimo. (2009). O mundo na cozinha: História, identidade, trocas. Trad. Valéria Pereira da Silva. São Paulo: Estação Liberdade/Senac São Paulo.
ZEMELLA, Mafalda P. (1990). O abastecimento da capitania das Minas Gerais no século XVIII. Vol. 19. São Paulo: Editora HUCITEC.
Sobre a autora
Juliana de Souza Duarte é historiadora e chef de cozinha. Atualmente é mestranda em História pelo PPGH-UFMG, onde desenvolve pesquisa e narrativa sobre Feijão, Angu e Couve e a sua construção por Eduardo Frieiro.
