Coluna Renato Ortiz | Contínuo/Descontínuo: o anel de Fersen

Um anel atravessa séculos. Troca de mãos entre reis, impostores, advogados, ministros. Une episódios historicamente desconexos. E se torna o ponto de partida para Renato Ortiz refletir sobre a tensão entre continuidade e descontinuidade no mundo contemporâneo, onde o desejo corre atrás do vazio e o consumo transforma tudo em episódios isolados: o vinho, a roupa, a paisagem. Inspirado por Ítalo Calvino, Ortiz nos convida a pensar sobre o que ainda sustenta o fio da experiência.

Boa leitura!


Contínuo/Descontínuo: o anel de Fersen

Por Renato Ortiz (Unicamp)

Axel de Fersen, um aristocrata sueco apaixonado pela rainha Maria Antonieta, recebe de Luís XVI, quando ele está a caminho de Varenne (fugia de seus algozes), um belíssimo anel. Triste, despede-se da família real; está convencido que ela um dia voltará ao trono. O rei e a rainha são executados. Fersen, desolado, procura refúgio junto às autoridades prussianas a favor da monarquia. No final da vida, em sinal de agradecimento, passa o anel para um nobre alemão. Anos depois, um aventureiro francês declara ser o filho de Luís XVI, conta que teria conseguido escapar com vida das masmorras onde tinha sido enclausurada sua família. Diante da evidência não comprovada, compadecido, o senhor alemão entrega o anel ao aventureiro. Em meados do século o impostor move um processo contra o Estado francês, exige o reconhecimento de sua filiação real. Perde o processo. O advogado que o defende é um homem importante, dele se aproxima acreditando piamente em sua história. Novamente, em sinal de gratidão, o anel troca de mãos. O advogado é republicano, tem uma posição importante no governo. Após a derrota para os alemães em 1871, ele é encarregado de assinar o documento de capitulação diante das forças inimigas. Não tinha um selo à sua disposição e assina o texto com o anel de Luís XVI. Depois de sua morte, todos se esquecem do anel, ele permanece escondido nos arquivos do ministério do exterior. No final da Grande Guerra, quando os alemães capitulam diante dos Aliados, o primeiro-ministro da França (Clemenceau) assina o documento que põe fim ao conflito; conhecendo a história, grava no papel a marca da velha dinastia extinta com a Revolução.

O conto que acabei de narrar se intitula “o anel de Fersen”, eu o escutei no radio. Ilustra um tipo de narrativa na qual a passagem de um tema para outro se faz através de um objeto. As circunstâncias de cada momento são aleatórias, o fluxo do relato fixa-se no elo que as encadeiam em uma sequência linear. Ítalo Calvino no capítulo “Rapidez” de seu livro “Seis Propostas para o Próximo Milênio” relata uma história similar a essa. Nela é também o anel que interliga os passos descontínuos da narrativa (refere-se à Carlos Magno); ele frisa, com razão, que o protagonista principal do conto é o anel, ele é a força que dita o andamento e o ritmo dos acontecimentos. Tudo circula ao seu redor. Porém, o que lhe interessa é a noção de rapidez, isto é, o fato da narrativa condensar em poucas linhas o essencial a ser dito (o relato é econômico). Ao lado de outras qualidades (tratadas em outros capítulos do livro: leveza, exatidão, visibilidade), essa seria uma das virtudes a ser cultivada pelo escritor, reduzir a argumentação a poucas frases. A escrita seria assim o resultado de qualidades capazes de inscrever, da melhor maneira possível, as palavras no texto literário. Creio, entretanto, ser plausível avançar outra interpretação, deixando-se de lado as vicissitudes da escrita, levando-se agora em consideração a questão da continuidade e descontinuidade dos fatos narrados. Para isso recorro a uma citação do próprio Calvino: a relação de causa e efeito entre os vários episódios da narrativa é uma “corrida do desejo em direção a um objeto que não existe, uma ausência, uma falta, simbolizada pelo círculo vazio do anel”. Retomo assim a temática expressa no título dessa minha digressão. O conto de Fersen (como o de Carlos Magno) é uma sucessão de eventos desconexos entre si: o amor por Maria Antonieta + a figura de Luís XVI + a guilhotina dos revolucionários + o nobre alemão + o impostor + o advogado + a derrota dos franceses para os alemães em 1871 + o fim da Grande Guerra + o primeiro ministro francês. Ele se arrasta por um tempo longo, mais de um século, reúne personagens díspares, e não possui um conteúdo específico, é a falta de sentido, isto é, de direção que o define. Nada vincula o impostor que se pretende descendente da realeza francesa decapitada pela revolução ao fim da 1ª Guerra Mundial; ou o nobre alemão ao advogado crédulo. Por isso o anel é importante, ele é o liame entre a descontinuidade dos eventos. O sugestivo nisso tudo é a implausibilidade da narrativa racionalmente ordenada através de um único objeto, e neste caso, a implausibilidade provoca o riso.

Essa aproximação entre o contínuo e o descontínuo manifesta-se também no contraponto entre experiência e experimentação, ela revela o dilema do sentido dos fatos. Apesar de partilharem a mesma raiz etimológica há uma diferença entre experiência e experimentação. A experiência é fruto da vivência, decorre de algo que a antecede, ela se realiza numa situação determinada e é cumulativa. O que dela se retira varia com os indivíduos e a situação. Entretanto, toda experiência pressupõe um quadro do qual não se pode escapar, independentemente do resultado que dela venha advir. Ela nos encerra em algo inexorável. Posso escolher determinada direção, mas a escolha pressupõe que dela me torne prisioneiro (Sartre diria, assim realizo minha liberdade). Mas é deste encerramento, desta singularidade densa, que decorre o traço cumulativo. O ato da eleição submerge o indivíduo em algo que capta sua inteireza, neste sentido, aprende-se com a experiência; passado, presente e futuro se alinham em uma direção que os articula numa continuidade de sentido. A experimentação é distinta, sobretudo quando não se encontra articulada a um projeto específico (por exemplo, como fazem os cientistas em seus laboratórios). Isso é particularmente verdadeiro em relação ao mundo do consumo no qual a escolha individual se vê diante de uma multiplicidade de objetos. Ela é múltipla, sem ser, porém, cumulativa; cada “eleição” é um ponto sem uma relação imprescindível com os outros, como no conto de Fersen, no qual os acontecimentos são fortuitos e aleatórios. Não há um vínculo necessário entre o vinho degustado e a paisagem que me envolve, a roupa de verão ou de inverno e a máquina de lavar louça cobiçada por mim; cada escolha é um ato descontínuo diante do arbitrário de minha vontade. Contrariamente à experiência, sempre vivenciada internamente, a experimentação pressupõe a exterioridade do indivíduo em relação ao que é experimentado, ela esgota-se em si mesma. A esfera do consumo não gera experiência, o Eu que escolhe uma multiplicidade de objetos permanece intacto, infenso a sua intenção. Ele não sofre nem se liberta, não padece ou se tranquiliza, o desfrute é fugaz, ali termina. A experimentação é assim simples consumação, nela o desejo corre na direção de algo imaginário, ausente, o vazio do anel de sua existência.


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