
As sociólogas Maria Aparecida de Moraes (UFSCar) e Paula Barreto (UFBA) e o sociólogo Paulo Henrique Martins (UFPE) participam da quarta rodada do simpósio A sociologia e o contemporâneo, parceria da BVPS com a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS).
Moraes aponta dois desafios para a sociologia: provocar reflexões em vez de oferecer respostas prontas e realizar uma autossocioanálise, reconhecendo a subjetividade de seus agentes. Para Barreto, as desigualdades devem continuar sendo estudadas na disciplina a partir de abordagens que ressaltam seu caráter multidimensional e entrelaçado, superando a perspectiva puramente econômica. Já Martins argumenta que, para que a sociologia avance rumo a um novo ciclo de profissionalização, é preciso abandonar o eurocentrismo herdado de períodos anteriores e se aproximar de outras vozes do Sul Global, começando pela América Latina e pelo Caribe.
Organizado por Maurício Hoelz (UFRRJ e BVPS) e Edna Castro (UFPA e SBS), o simpósio integra os preparativos para o 22º Congresso Brasileiro de Sociologia, que será realizado em julho, em São Paulo.
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Boa leitura!
1. O 22º Congresso Brasileiro de Sociologia discutirá os desafios e as crises do contemporâneo. Quais os desafios atuais que você incluiria na agenda da sociologia? Como qualificar a ideia de crise sociologicamente?
Maria Aparecida de Moraes: O nascimento da sociologia ocorreu num momento de crise. Aliás, é uma ciência marcada pelos contextos de crise. Basta citar alguns de seus representantes que vivenciaram momentos de guerras e conflitos como os clássicos da Sociologia – K. Marx, É. Durkheim, M. Weber – e, mais tarde, R. Dahrendorf, P. Bourdieu e N. Elias. Lembrando a definição de P. Bourdieu, a sociologia é um esporte de combate. Em razão das mudanças céleres do mundo contemporâneo, experimentamos situações de eternas angústias, pois acreditamos ser representantes de uma certa profecia, aplaudida e incentivada por nossos seguidores. Somos levados a crer que nossa missão é dar respostas aos problemas que nos afligem desde a esfera do cotidiano, dos mais longínquos e, até mesmo, dos desconhecidos.
Acredito que haja dois desafios importantes a serem enfrentados. O primeiro deles é conceber a sociologia não como capaz de dar respostas, porém como provocadora de respostas. Portanto, há necessidade de um deslocamento do ponto de observação, dos objetivos e das interpretações. O segundo desafio, relacionado ao primeiro, é a necessidade de adoção de um processo de autossocioanálise, ou seja, um processo de assunção de que a sociologia é produto do fazer sociológico de pessoas dotadas de subjetividades/objetividades, de emoções/razão. Em outros termos, talvez o maior desafio seja, além da crítica, a autocrítica, o afastamento do etnocentrismo implícito na sociologia espontânea, que procura dar respostas ao imediatismo. Nas palavras de Bachelard, citado por P. Bourdieu, “da mesma maneira que todo químico deve combater em si mesmo o alquimista, o sociólogo deve combater em si mesmo o profeta social que seu público lhe pede para encarnar”.
Deste modo, impõe-se a vigilância epistemológica à ideia de crise sociologicamente. O processo de autossocioanálise remete às inúmeras divisões e subdivisões da sociologia que são definidas a partir de hierarquizações dos diferentes campos de saber e poder. Este fatiamento da sociologia seguramente impede a compreensão das realidades, concebidas como diversas e contraditórias. Dentre os múltiplos exemplos, citaria: a divisão entre sociologia rural e urbana e, no interior da sociologia rural, a sociologia ambiental; a sociologia do trabalho, que privilegia o trabalho urbano, excluindo o trabalho rural; a sociologia das migrações, que privilegia as migrações internacionais e não as nacionais, e assim por diante.
Estes exemplos resultam do fatiamento da sociologia, que mascara o real, que perde de vista o concreto pensado e se baseia tão-somente no particular, omitindo sua compreensão como mediação entre o universal e o singular. Este fazer sociológico não leva em conta a historicidade enquanto processo social, dotado de espaços e tempos cruzados. Assim, o estudo da trajetória de um migrante, por exemplo, pode revelar sua caminhada por espaços rurais, urbanos, nacionais e internacionais, além da violência, expropriação, discriminação pela cor da pele, gênero e tantas outras perdas e sofrimentos. Estes elementos (e não apenas um único) precisam ser colocados sobre a mesa de nosso ofício, pois eles são as ferramentas com as quais vamos dialogar com as nossas teorias a fim de provocar respostas.
Paula Barreto: As desigualdades sociais não são um tema novo, mas continuam sendo objeto de investigações em campos disciplinares variados, ocupando um lugar importante não só na agenda da sociologia contemporânea, mas também dos estudos étnico-raciais, de gênero e outros. Os estudos sobre o assunto têm analisado, entre outros temas, a distribuição de bens socialmente valorizados entre indivíduos e/ou famílias, e as diferentes formas de desigualdade de oportunidades observadas nas diversas transições que ocorrem ao longo do ciclo de vida dos indivíduos.
Na tentativa de entender como ocorrem as interdependências entre formas distintas de desigualdade, vem se desenvolvendo perspectivas que ressaltam o caráter multidimensional, entrelaçado, interseccional, ou matricial das desigualdades sociais, afastando o fenômeno de sua abordagem mediada apenas por indicadores econômicos. Estas perspectivas convidam a desenvolver análises, por exemplo, sobre como as desigualdades são negociadas e performadas nos contextos de interação social, na vida cotidiana.
Nos estudos sobre as desigualdades baseadas em cor/raça, a preocupação com as interfaces entre classe, gênero e raça cresceu a partir da constatação de que estas não poderiam ser analisadas isoladamente. Rosemberg e Andrade examinaram as desigualdades educacionais no ensino superior e ressaltaram a inexistência de sincronia e paridade entre raça e gênero, chamando a atenção que, no Brasil, a busca de compreensão simultânea das hierarquias de gênero, raça e classe tem se baseado, muitas vezes, em modelo paritário e cumulativo, esperando-se uma associação linear entre os eixos de desigualdade, que não seria adequado considerando que as dinâmicas de gênero, raça, classe e idade evidenciaram, muitas vezes, um movimento não sincrônico, não cumulativo de desigualdades e resistência a elas.
Apesar das alterações que ocorreram na agenda de pesquisa sobre as desigualdades sociais, existem desafios a serem ultrapassados, uma vez que persistem o binarismo e a compreensão aditiva e somatória das desigualdades.
Paulo Henrique Martins: No meu entender, a sociologia no Brasil precisa repensar sua institucionalidade e os modos de organizar atividades de ensino, pesquisa, extensão e divulgação em diversas esferas complementares locais, nacionais e internacionais, envolvendo departamentos e programas, cooperações acadêmicas, financiamentos e difusão de conhecimentos com os públicos acadêmicos, organizacionais e civis. De certo modo, podemos dizer que a sociologia no Brasil (e as ciências sociais de modo mais amplo) conhecem uma crise de hipertrofia corporativa resultante do crescimento exponencial de programas, teses e especialistas a partir de um sistema decisório piramidal e estatal criado nos anos setenta do século XX. Esta expansão institucional vertical não considerou com mais cuidado as demandas regionais e contextuais do fazer sociológico, o que impactou, consequentemente, em certo descuido com os processos de criação de dispositivos horizontes e transversais de participação para articular os agentes, recursos, saberes e ações e com a definição de critérios curriculares. Este modo corporativo de organizar a sociologia profissional no Brasil teve como consequência uma certa elitização dos programas de pós-graduação e distanciamento relativo dos movimentos sociais.
Este ciclo de grandes investimentos financeiros, iniciado ainda no período ditatorial nos anos 70 do século XX, se finalizou neste século XXI. Agora, temos um novo cenário marcado por uma presença quantitativa notável de departamentos, programas, doutores e mestres, por um lado, e por uma escassez de financiamentos estatais para manter este sistema acadêmico em expansão, por outro. Este ajuste de expansão das pós-graduações, este frear o carro em velocidade para ressincronizar a viagem da produção intelectual é fundamental para se fazer um diagnóstico mais efetivo dos desperdícios e lacunas, e para orientar o planejamento estratégico de metas e ações do sistema científico da sociologia. Este ajuste é fundamental para se repensar os desafios estratégicos da sociologia no atual contexto de desglobalização, de reorganização dos diálogos entre os campos intelectuais a nível mundial, regional e nacional e, também, visualizar as novas áreas e temas emergentes que exigem maior atenção dos sociólogos.
Vejo uma reforma curricular dos cursos voltada para contextualizar os saberes e práticas como uma urgência para agilizar os processos de formação numa conjuntura de recursos financeiros limitados. Este é um passo decisivo para a sociologia no Brasil superar de vez o movimento anterior de profissionalização muito marcado pela europeização, ocorrido entre os anos 70 do século XX e primeira década do século XXI. Para se avançar para um novo ciclo de profissionalização, é necessário sair da tendência endógena criada pela cultura do eurocentrismo que foi construída no ciclo de profissionalização anterior e se abrir para novos diálogos no interior do Sul Global, a começar com a América Latina e Caribe. Há que se valorizar a produção intelectual da periferia sem negligenciar o antigo debate com o Norte Global. Este novo ciclo deve privilegiar uma sociologia ecosocial crítica, competente do ponto de vista teórico e metodológico e com abertura para outros campos que favoreçam a internacionalização de uma cultura científica e cosmopolita. E que seja eficaz nos usos de seus saberes e instrumentos para subsidiar as demandas dos seus diversos públicos como os movimentos sociais e culturais, além de organizações estatais nacionais e internacionais.
2. Qual o papel da Sociologia diante, por exemplo, da emergência climática e dos desafios da democracia?
Maria Aparecida de Moraes: No segundo semestre de 2024, ocorreram muitas queimadas no interior do estado de São Paulo, principalmente nas áreas canavieiras, além de outras regiões do país. Intensas nuvens de fuligem encobriram não somente as cidades do entorno, mas chegaram até a cidade de São Paulo. O fogo, finalmente, uniu o rural e o urbano, mas será que este fato seria objeto da sociologia urbana? Milhares de pessoas estão vivendo em situação de rua nas cidades brasileiras. As interpretações sobre este fenômeno social focam, em geral, nas desigualdades sociais, falta de emprego, uso de drogas etc. O processo de expropriação, acompanhado de violência, que ocorre no campo em todas as regiões do país, que expulsa os camponeses, não faz parte dos problemas da sociologia urbana. Tal processo é advindo das transformações socioeconômicas e políticas que caracterizam o denominado agronegócio, produtor de commodities como açúcar, café, soja, carnes, além dos minerais. É uma forma de produção que vige desde os anos da ditadura militar com a implantação da chamada “revolução verde”, pautada pela concentração da propriedade da terra, emprego maciço de tecnologias avançadas e uso indiscriminado de agrotóxicos, responsáveis por danos incomensuráveis à saúde das populações rurais e urbanas, sem contar os efeitos deletérios sobre a segurança alimentar. O lema de que o Brasil é o celeiro do mundo mascara os números da fome e da insegurança alimentar que afetam milhões de pessoas nas áreas rurais e urbanas.
A emergência climática, advinda das pesquisas de outras áreas do conhecimento científico, é capturada e deformada pela ideologia capitalista depredadora da natureza, dos recursos minerais, dos biomas e também das pessoas mais vulneráveis como camponeses, populações originárias, trabalhadores rurais e urbanos. É uma narrativa capturada que camufla as verdadeiras causas dos eventos climáticos, dos responsáveis pelo processo de demolição e extração dos recursos humanos e não humanos.
A organização política atual caracterizada pela democracia, pós-ditadura militar, é marcada, muitas vezes, por alianças e imposições advindas do poder de corporações nacionais e internacionais do agronegócio. Vale lembrar o IPA (Instituto Pensar Agropecuária), cujas influências políticas junto aos representantes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal definem os rumos das decisões em torno de questões cruciais, como desmatamento, Marco Temporal, ocupação de biomas, licenças para atividades mineradoras como o lítio, ouro, cobre, ferro, além de outras mais.
Para provocar respostas a estas situações, a sociologia precisa de análise crítica, sustentada por todos/as aqueles/as que não possuem amarras políticas e ideológicas com o status quo.
Paula Barreto: Para minimizar e/ou extinguir as desigualdades sociais é crucial desenvolver e implementar políticas públicas, na educação básica e superior, no mercado de trabalho, saúde, cultura, participação e representação política, entre outras áreas. Estudos em campos distintos, inclusive na sociologia, têm se voltado para a análise das políticas públicas, dando uma contribuição importante ao avaliar os seus impactos e sistematizar os principais resultados.
No entanto, é importante considerar que os processos de implementação das políticas e programas de combate às desigualdades podem, de maneira contraditória, contribuir para a sua reprodução. O foco nos processos de implementação das políticas públicas permitirá levar adiante a compreensão sobre os seus efeitos sociais, materiais e simbólicos. Vale ressaltar, por exemplo, que o uso de categorizações para identificar indivíduos beneficiários de políticas públicas fora dos contextos diretamente relacionados, pode se tornar um rótulo com significados depreciativos que, por sua vez, tem implicações para a autoimagem e autoestima.
Além de produzir evidências sobre os “resultados”, é crucial examinar como os programas e políticas públicas estão sendo colocados em prática, e quais os entendimentos tanto daqueles/as que são diretamente beneficiados, quanto daqueles/as que não são. A partir daí, talvez seja possível compreender as reações negativas e violentas dos segmentos conservadores que se colocam radicalmente contrários à atuação governamental voltada para o enfrentamento das desigualdades sociais.
Paulo Henrique Martins: Entendo que a relação entre a sociologia, a crise climática e a democracia se abrem para duas reflexões diferentes.
No que diz respeito à emergência climática, a discussão sobre o papel da sociologia deve passar, em primeiro lugar, por uma reflexão relativa às propriedades ontológicas da sociologia moderna que foi criada na Europa num contexto em que a natureza (física, de gênero, étnica etc.) era vista como um problema para a ascensão do patriarcalismo científico. Assim, as possibilidades da ciência analisar, compreender e interpretar a crise climática atual passa por uma revisão epistemológica que busca incorporar uma leitura mais ampla e complexa da natureza, que é simultaneamente humana e não humana. Neste sentido, devemos considerar que a ideia de natureza que está subjacente à sociologia entre os séculos XVIII e XIX está muito marcada pela geometria cartesiana e pela valorização de uma relação objetal entre homem e natureza não humana. Neste processo, que implicou uma relocalização das crenças religiosas sobre o natural, foi valorizado o empiricismo e o cientificismo. A sociologia considerou, seguindo esta lógica de pensamento, que as realidades não humanas seriam estruturas sem inferiores e sem propriedades anímicas. Por isso, compreende-se o esforço da sociologia, hoje, para aprofundar o diálogo com disciplinas de fronteira, como a antropologia, a biologia e a ecologia, a fim de ressignificar a relação entre o homem e a natureza não humana, como condição para uma crítica ecosocial da modernização capitalista. Ainda devemos lembrar, neste primeiro quadro, o tema do evolucionismo, que contribuiu para legitimar a ideologia colonialista e a violência contra populações não europeias e contra seus ecossistemas de sobrevivência biológica e cultural.
No que diz respeito à relação entre sociologia e democracia, o debate segue uma tensão permanente entre a democracia representativa e a democracia participativa. A primeira foi criada no mundo ocidental, diz Tocqueville, nas disputas entre poder central e burguesias locais, com vistas a saber quem controlaria a coleta e apropriação dos tributos, na França do século XVI. Então, na sua origem, temos um modelo político elitista e que prevalece como forma privilegiada de gestão do poder nas chamadas “democracias ocidentais”. No outro lado do espectro, temos a chamada “democracia participativa” que surge com as mobilizações comunitárias, campesinas e obreiras desde o século XVII, e que buscava reorganizar o poder burguês e oligárquico para dar mais espaços na política aos menos privilegiados. As tensões no interior da sociologia moderna entre marxismo e liberalismo durante o século XX marcam os reflexos do problema mais amplo de saber quem organiza o poder nacional. Assim, a relação da sociologia com a democracia, no momento atual, deve ser vista como as tentativas dos movimentos sociais, culturais e ambientais de realizar uma crítica profunda aos limites do capitalismo ocidental – fundado na visão objetivista do cartesianismo – para resgatar um outro modo de percepção da realidade que é aberto ao subjetivismo, ao simbolismo e à diferenciação ecosocial. Temos que superar o dualismo entre democracia versus totalitarismo para poder pensar formas de governo que promovam o que podemos chamar de “convivialismo democrático”. Ou seja, um modelo de governança coletiva em que a atenção à liberdade individual e grupal tem que se conciliar com políticas públicas voltadas para gerar igualdades sociais e reconhecimento moral para todos os indivíduos. É o único caminho para se enfrentar a perversão do modelo democrático liberal que vem sendo corrompido pelas novas elites oligárquicas.
3. Considerando que a inovação não se realiza num vazio de interpretações, que formulações e proposições podem nos ajudar a compor um repertório afiado para lidar com esses fenômenos multidimensionais?
Maria Aparecida de Moraes: Inicialmente, é preciso ter em mente que as teorias sociológicas não são fechadas em si mesmas e nem acabadas. Segundo as pegadas de Bourdieu, não existe uma teoria constituída, mas uma tradição. Portanto, toda inovação e todos os achados empíricos devem remeter ao diálogo com as teorias. Esta atitude remete ao fazer sociológico em constante questionamento com suas próprias construções. Assim sendo, as inovações constituem ingredientes imanentes que devem ser postos sobre a mesa de nosso ofício.
Minha experiência de pesquisa com trabalhadores/as rurais há mais de quatro décadas tem me aportado muitos elementos aos desafios relacionados às inúmeras transformações que ocorrem nos canaviais, cafezais e laranjais no estado de São Paulo. No que se refere aos canaviais, assiste-se à implantação da agricultura 4.0, por meio de tecnologias avançadas e emprego das tecnologias da informação. Há mais de 10 anos, foi eliminado o trabalhador do corte manual da cana, o que implicou a dispensa de centenas de milhares de trabalhadores, a grande maioria constituída por migrantes do nordeste. Uma verdadeira diáspora.
A paisagem dos canaviais paulistas, hoje, é constituída por máquinas gigantescas operadas por jovens qualificados, homens e mulheres. Até então, as reflexões, muitas das quais advindas das teorias feministas, me levavam ao entendimento que as máquinas alijavam as mulheres do campo. Contudo, meus recentes achados têm revelado o contrário. Cada vez mais as mulheres operam colheitadeiras, tratores e carretas. E mais ainda: estão sendo preferidas neste mercado de trabalho. Este elemento inovador me fez dialogar criticamente com meus pressupostos e me conduzir a outras paragens, não explicitadas. A categoria gênero, resultante da interseccionalidade, mostrou-se preponderante, à medida que, segundo as falas dos líderes, as mulheres cuidam das máquinas. Não se trata de tarefas relacionadas à limpeza, mas ao cuidado com a operacionalidade das máquinas. Uma frase muito ouvida foi: máquinas nas mãos de mulheres não quebram.
Qual foi o repertório afiado para o entendimento destes elementos novos? Considerar tais elementos como multidimensionais é uma tarefa que se impõe. A busca de informações me conduziu ao conhecimento de uma prática adotada por uma usina que premiou uma jovem, cuja produtividade foi a mais elevada numa determinada safra, ao escolhê-la para ser operadora de um trator cor-de-rosa! Uma premiação carregada de efeitos simbólicos estruturados por relações de trabalho que ocultam a exploração e dominação. A relação mulher/máquina não pode, segundo minha análise, ser interpretada tão-somente como advinda do processo de alienação. Além da alienação, há que se considerar que, sendo operadora do único trator cor-de-rosa da empresa, a jovem tornou-se simbolicamente o melhor exemplo a ser seguido no conjunto dos/as demais operadores/as. Um processo de mão dupla: objetivação da subjetividade e subjetivação da objetividade pelos quais a fetichização não se reporta somente à máquina, mas também à pessoa que a opera. Uma nova ontologia do ser trabalhador/a? A categoria “cuidado” tornou-se essencial para a articulação deste fenômeno multidimensional. “Cuidado” com a coisa e não com as pessoas. Um exemplo do fazer sociológico, pautado pela tradição, ou seja, pelo questionamento constante dos nossos pressupostos teóricos.
Paula Barreto: Para Collins, a abordagem interseccional tem dado grandes contribuições para a teoria social e, em especial, para a compreensão de fenômenos complexos, privilegiando o modo relacional e multidimensional, e rechaçando as análises com base em categorias dicotômicas e binárias. Segundo a autora, a interseccionalidade nos sugeriu uma nova forma de interpretação que abandonava o ponto de vista feminista centrado no gênero e adotava outro mais abrangente e relacional. A sua importância para as lutas de mulheres racializadas e subordinadas em várias partes do mundo explicava, em parte, por que a interseccionalidade se tornou um tropo para feminismo negro, embora não fossem sinônimos. Essa teoria itinerante assumiu novos significados e, em certa medida, foi reinventada, fora do perímetro das universidades, nas ruas e nas lutas dos movimentos sociais.
A literatura internacional sobre interseccionalidade pode ser considerada bastante ampla, em especial, nos Estados Unidos, com estudos sendo realizados em distintos campos disciplinares. Os resultados de balanços recentes da produção científica brasileira mostram que a maior circulação do conceito de interseccionalidade no meio acadêmico ocorreu somente a partir de 2010, quando houve um aumento gradativo das publicações sobre as interfaces entre raça, classe, gênero e outros marcadores sociais.
A abordagem interseccional ainda pode trazer grandes contribuições para um melhor entendimento das desigualdades sociais, beneficiando a sociologia como um todo, contribuindo para o desenho de políticas públicas mais adequadas para combatê-las. Em um contexto globalmente marcado pela polarização no debate acadêmico e público, e pelo crescimento dos movimentos conservadores, a abordagem interseccional é, mais do que bem-vinda, uma poderosa aliada na superação do binarismo e da compreensão aditiva e somatória das desigualdades nas pesquisas, favorecendo a implementação de políticas públicas inclusivas e mais eficazes.
Paulo Henrique Martins: No meu entender, considero que o sucesso da inovação no campo da sociologia passa por considerar elementos conceituais e operacionais que podem assim ser resumidos:
– A teoria não se legitima, por si mesma, como uma entidade lógica retro alimentadora, mas dentro de um contexto histórico, cultural e geopolítico específico que delimita as possibilidades de se imaginar e se experienciar o mundo. Este entendimento pós-cartesiano da ciência permite definir diferentes concepções de universalismo conceitual e científico, de modo a articular memória e criatividade. Assim, a experiência de universalismo do indivíduo que nasce num iglu é, necessariamente, diferente de quem nasce numa caverna. Não se pode impor um mapa único como foi o caso do universalismo científico europeu, cuja crítica foi bem evidenciada por Wallerstein e Chakrabarty. Mas se pode e se deve discutir as fronteiras de travessia entre diferentes experiências teóricas com vistas a verificar os pontos de contato e de adaptação cultural. Este entendimento não se confunde com a ideia de relativismo, mas permite se entender a coexistência de diferentes campos intelectuais como um arquipélago de ilhas criativas, como sugiro no meu livro Teoria crítica da colonialidade (2019). É importante reforçar a importância da contextualização para se definir os elementos normativos da produção intelectual em sociologia e seus usos práticos em diversos momentos da vida social e nacional. Neste sentido, é evidente que a provincialização da Europa evidencia suas limitações para servir de guia para o desenvolvimento das sociedades globais. Há que se trabalhar, agora, com a variedade de experiências culturais e históricas para se produzir uma nova hermenêutica democrática plural e universal.
– Neste esforço de contextualização, é importante se reforçar também o diálogo entre diferentes áreas de conhecimento. A complexidade da realidade e das situações de crise exige este diálogo. Temas como a questão ambiental, social, política e cultural não podem ser esclarecidos por abordagens separadas que não considerem a complexidade sistêmica do “fato social”, seja ele objetivado ou subjetivado. A sociologia tem que conversar com a antropologia e a política, mas também com a biologia, com a economia, com a ecologia, entre outras. Isto exige mudanças importantes nas estruturas curriculares de nossos programas de formação de especialistas na nossa área de conhecimento. O pensamento contextual e transdisciplinar deve também ter um compromisso com a crítica teórica, com os elementos normativos que ajudam a definir os leques de valores necessários para assegurar o funcionamento de uma sociologia prática que pense a realidade a partir de princípios de justiça social irrenunciáveis. Se não for assim, não é sociologia, mas apenas um ramo da estatística social.
– Finalmente, a sociologia deve se aprofundar na análise comparativa das duas esferas que formam, hoje, a realidade humana: a física e a virtual. É necessário se avançar com os estudos sobre a Inteligência Artificial e sobre seus impactos na formação das identidades coletivas e individuais, sobre os mecanismos de formação de papéis e funções sociais, sobre as mudanças organizacionais e corporativas. A própria IA consultada por mim a respeito destas questões afirma que “Valorizar diferentes perspectivas e experiências pode levar a soluções mais criativas e eficazes, além de garantir que as inovações atendam a uma gama mais ampla de necessidades”. Por isso, ela conclui que “Incorporar discussões sobre ética nas inovações tecnológicas, especialmente em relação à IA, para garantir que o desenvolvimento tecnológico beneficie a sociedade como um todo”.
4. Cite 3 livros ou artigos sobre os temas fundamentais do congresso e do simpósio.
Maria Aparecida de Moraes:
Partindo da ideia de que o fazer sociológico deve se pautar pela provocação de respostas, logo, pelos princípios de uma sociologia provocadora, sugeriria, dentre outros, os seguintes textos para compor as reflexões do simpósio e do congresso:
BERMAN, Marshall. (1986). Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras.
BOURDIEU, Pierre Bourdieu. (1998). Contrafogos: táticas para enfrentar a invasão neoliberal. Rio de Janeiro: Zahar.
BOURDIEU, Pierre. (2001). Contrafogos 2. Por um movimento social europeu. Rio de Janeiro: Zahar.
MBEMBE, Achille. (2018). Necropolítica. São Paulo: N1 Edições.
Paula Barreto:
CAMPOS, Luiz Augusto & CHAGURI, Mariana & FLEURY, Lorena (Orgs.). (2020). Ciências sociais hoje [livro eletrônico]: sociologia. São Paulo: Zeppelini Publishers.
PIRES, Roberto. (Org.). (2019). Implementando desigualdades: reprodução de desigualdades na implementação de políticas públicas. Rio de Janeiro: Ipea.
VIVEROS VIGOYA, Mara. (2023). Interseccionalidad. Giro decolonial y comunitário. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO; Amsterdam: TNI Transnational Institute, Libro digital.
Paulo Henrique Martins: Com o amplo deslocamento de perspectivas sobre o mundo atual gerado pelo feminismo, pelo ecologismo, pela IA e pelas mudanças na geopolítica mundial, entendo que não se trata apenas de citar livros aleatoriamente numa lógica de endeusamento de escolas e sociólogos, mas de analisar as ondas de produção de pensamentos emancipatórios promovidos em diferentes contextos. Neste sentido, é importante observar os movimentos editoriais que surgem no interior daquelas sociedades semiperiféricas como a brasileira.
No nosso caso, de uma sociedade que tem uma sociologia largamente profissionalizada, é importante se observar que tendências conjunturais do pensamento estão reverberando certos perspectivismos sociológicos. Entre essas tendências, acho importante sublinhar a onda de mobilização intelectual que vem sendo feita pelo Ateliê de Humanidades Editorial para promover a relação entre democracia, sociologia relacional e teoria crítica. Nesta direção, gostaria de propor 3 livros lançados editora que contribuem para pensar novas formas de sociabilidade que são necessárias para se repensar os pactos sociais e democráticos, hoje. Trata-se de repensar a sociologia relacional, sobretudo em sistemas políticos marcados pelo estatismo e os desafios da vida associativa neste momento de dispersão das mobilizações coletivas democráticas:
CORDERO, Rodrigo. (2023). Crise e crítica. Sobre as frágeis fundações da vida social.
LAVILLE, Jean-Louis & FRÈRE, Bruno. (2023). A fábrica da emancipação.
ROSANVALLON, Pierre. (2024). A sociedade dos iguais.
Sobre as/os convidadas/os:
Maria Aparecida de Moraes é professora aposentada de Sociologia da Unesp e atualmente professora visitante do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar. Realiza pesquisas com ênfase em Sociologia Rural, atuando principalmente nos seguintes temas: agricultura e capitalismo, agricultura e modernização, exploração do trabalho, modernização agrícola, trabalhadores rurais e migrantes e assentamentos rurais, relações de gênero e raça/etnia.
Paula Barreto é professora titular do Departamento de Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Tem experiência na área de Sociologia das Relações Raciais (Racismo e Antirracismo), Sociologia da Desigualdade, Teoria Social Contemporânea, atuando principalmente nos seguintes temas: racismo, antirracismo, interseccionalidade, gênero, culturas negras diaspóricas, e processos de identificação.
Paulo Henrique Martins é professor de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Realiza pesquisas nas áreas de teoria sociológica, sociologia da saúde, teoria pós-colonial e estudos do dom. É autor dos seguintes livros: Itinerários da dádiva: teoria e sentimento (2019), Teoria Crítica da Colonialidade (2019), Políticas da dádiva: associação, instituições, emancipação (2023) e Crônicas da República (2024).
