Simpósio BVPS + SBS | A sociologia e o contemporâneo (VI)


A socióloga Felícia Picanço (UFRJ) e os sociólogos José Vicente Tavares dos Santos (UFRGS) e Fabrício Maciel (UFF) participam da sexta rodada do simpósio A sociologia e o contemporâneo, parceria da BVPS com a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS).

Para Tavares dos Santos, a sociologia contemporânea no Brasil revela um hibridismo moderno, articulando releituras dos clássicos, diálogo com autores diversos e uma abordagem transdisciplinar para compreender os problemas sociais. Picanço, por sua vez, defende que a sociologia deve divulgar análises baseadas em evidências e produzir estudos voltados à compreensão e à resolução de problemas sociais, comprometendo-se com os princípios de uma sociedade justa. Já Maciel destaca que a sociologia deve ser pública, ressaltando a urgência de estudar os conflitos sociais atuais e suas possibilidades diante de novas formas de dominação, afastando-se de discursos meramente ideológicos.

Organizado por Maurício Hoelz (UFRRJ e BVPS) e Edna Castro (UFPA e SBS), o simpósio integra os preparativos para o 22º Congresso Brasileiro de Sociologia, que acontecerá entre os dias 15 e 18 de julho em São Paulo.

As postagens do simpósio saem às segundas-feiras. Para conferir outros posts, clique aqui.

Boa leitura!


1.  O 22º Congresso Brasileiro de Sociologia discutirá os desafios e as crises do contemporâneo. Quais os desafios atuais que você incluiria na agenda da sociologia? Como qualificar a ideia de crise sociologicamente?

José Vicente Tavares dos Santos: As novas questões sociais mundiais são complexas, pois várias são as dimensões do social que passam a ser socialmente questionadas em um espaço-tempo mundial: a questão da inclusão/exclusão social; a relação do homem com a natureza, indicando a questão ecológica; a descoberta do inconsciente como elemento do processo civilizatório; a questão do multiculturalismo; os dilemas da educação, da universidade, da ciência e da tecnologia; as transformações do mundo do trabalho urbano e agrário; as mudanças produtivas através das tecnologias intermediárias; a diversidade social, de gênero e de orientação sexual; os racismos e as discriminações; a diversificação das alternativas de desenvolvimento para as sociedades contemporâneas, tanto no centro como na periferia do sistema global. Dentre as novas questões sociais, a multiplicidade das formas de violência, enquanto processo de dilaceramento da cidadania, assume novos contornos e passa a se disseminar por toda a sociedade.

Cabe, ainda, retomar uma tradição de abordagem entre literatura e sociedade – datando das obras de Antonio Candido ­­­–, devendo levar em consideração as dimensões do social (contexto) e da estética (texto) da obra literária e suas influências recíprocas: a literatura como forma de conhecimento do indivíduo e do mundo. A relação íntima entre literatura e sociedade, forma e história, texto e contexto social demonstra que os fatos históricos, as condições sociais e os elementos políticos relacionam-se intrinsecamente com a construção da obra literária, constituindo-se como fatores indiscutíveis à compreensão da literatura. Trata-se de um modo de interpretação sociológica e crítica que interliga, na tessitura da análise, tanto os fatores sociais e históricos quanto as questões formais e estéticas.

Como qualificar a ideia de crise sociologicamente?

Os traços distintivos do saber sociológico na América Latina foram o internacionalismo, o hibridismo, a abordagem crítica dos processos e conflitos das sociedades latino-americanas e o compromisso social do sociólogo.

A sociologia brasileira do século XXI compõe-se dos seguintes eixos temáticos: modos de estruturação da sociedade; modos de conhecimento; modos de desenvolvimento; modos de dominação e de lutas sociais; e modos de internacionalização da sociologia. Emergem algumas questões:

Qual o papel que a sociologia no Brasil pode desempenhar na etapa de mundialização de conflitualidades sociais?

Como desenvolver a “interlocução múltipla” em um espaço-tempo mundial, mirando múltiplas sociologias, do Norte e do Sul, do Ocidente e do Oriente?

Como expressar a diversidade social e cultural latino-americana, a diversidade das práticas e saberes do mundo, em novas questões sociais mundiais?

Como construir o reconhecimento do pensamento sociológico brasileiro na sociologia internacionalizada?

Felícia Picanço: Crise pode ser definida pela sociologia como momentos de instabilidade nas estruturas e instituições políticas, sociais, econômicas e culturais das sociedades, gerados quando as percepções de normalidade e as ações individuais e coletivas rotineiras que as sustentam atravessam a margem de tolerância e rompem a possibilidade de compreensão do sentido das coisas e suas certezas.

Portanto, a noção de crise pressupõe o reconhecimento de dimensões estáveis destas estruturas e instituições, o que não implica em ausência de conflitos, vividas a partir de processos, dinâmicas, interações, ações e sentidos de ação nos cotidianos dos indivíduos e coletivos. Em momentos de crise, as experiências individuais e coletivas passam a experimentar situações de desestabilização das hierarquias, normas, crenças e noções de normalidade, que podem ou não resultar em rupturas e mudanças.

A crise é, no entanto, uma oportunidade para se analisar os desafios experimentados pelas sociedades, incluindo os desafios na construção do conhecimento sobre elas e da capacidade deste conhecimento desafiar narrativas, interpretações e ideias. No atual contexto de crises em diferentes esferas da vida humana e planetária, a agenda da sociologia tem desafios teóricos, metodológicos e empíricos.

Os desafios teóricos ultrapassaram as conhecidas dicotomias (micro e macro; agência e estrutura; subjetivo e objetivo) e avançam na direção de pensar desde o que a sociologia entende como macro (as estruturas sociais? O planeta?) e micro (os indivíduos? Os genes? A subjetividade psíquica?), até a incorporação de perspectivas teóricas e analíticas fora dos eixos norte-americanos e europeus do Ocidente.

Os desafios metodológicos emergem à medida que novos fenômenos sociais são colocados como objeto da sociologia, dos males psíquicos, emocionais e existenciais contemporâneos (depressão, ansiedade etc.), à circulação de recursos e bens materiais e imateriais (água, energia solar e eólica, informação, performances etc.).

Os desafios empíricos tratam não da produção do dado, mas do “dado” em si, memórias e experiências de si, rastros de acessos à internet, mensagens apagadas, algoritmos, epigenética, dentre outros temas.

Somado aos três desafios, está a discussão sobre o papel da disciplina nos debates públicos contemporâneos, em especial aqueles voltados para as desigualdades sem se render às simplificações explicativas, a geopolítica do conhecimento e as grandes crises: a climática, política e existencial.

Fabrício Maciel: No geral, considero que a sociologia precisa compreender os principais efeitos globais produzidos hoje por uma nova forma de capitalismo, que costumo chamar de “indigno”. Com isso, procuro destacar como o desvalor da vida humana se tornou o principal produto do capitalismo contemporâneo. Diante disso, a sociologia precisa investigar as novas formas de produção, reprodução, naturalização e legitimação das múltiplas desigualdades contemporâneas, como as de classe, raça, gênero, geracionais, regionais, entre países etc. Isto inclui entender a relação nada simples entre tais desigualdades, bem como o papel que as novas tecnologias exercem em nossas vidas profissionais e pessoais.

Além disso, também é urgente estudar as lutas e os conflitos sociais contemporâneos, buscando entender seus limites e possibilidades, diante de novas formas de dominação social que se tornam cada vez mais complexas e obtusas. Por fim, seguindo o legado do grande Michael Burawoy, a sociologia precisa mais do que nunca ser pública, no sentido de transbordar os muros da academia, fornecendo à esfera pública, à política e a todos os agentes sociais instrumentos analíticos de qualidade. Este desafio só pode ser enfrentado se fizermos nosso dever de casa, ou seja, a realização de pesquisas teóricas e empíricas sérias, que não se reduzam a discussões puramente ideológicas movidas pelo calor dos acontecimentos. Hoje vivemos uma espécie de crise inédita, que pode ser caracterizada como múltipla, ou seja, a um só tempo econômica, política, cultural, moral, intelectual, ambiental etc. Mas a própria ideia de crise precisa ser problematizada. Muitas vezes ela sugere uma situação limite causada por fatores quase automáticos e inevitáveis. O negacionismo ambiental que presenciamos diante de catástrofes recentes é um exemplo disso. Entretanto, precisamos entender a ação humana cristalizada em decisões políticas e econômicas que foram tomadas conscientemente e que nos trouxeram até aqui. Apenas assim será possível não naturalizarmos os fenômenos sociais e políticos como fruto do acaso, mas sim percebê-los como decisões humanas que foram muitas vezes equivocadas e que podem ser sempre revertidas, se estivermos atentos ao aprendizado social que elas podem nos oferecer.

2. Qual o papel da Sociologia diante, por exemplo, da emergência climática e dos desafios da democracia?

José Vicente Tavares dos Santos: Dentre os desafios da democracia, sobressai o tema do conservadorismo. Para iniciar a discussão sobre o neoliberalismo socialmente conservador, vale lembrar Karl Mannheim (1893-1947):

Reunimos uma série de características do modo de vida e pensamento conservador. Discutimos sua natureza qualitativa; sua ênfase no concreto sobre o abstrato; sua aceitação da realidade presente duradoura diante do desejo progressivo de mudança; a simultaneidade ilusória que atribui aos acontecimentos históricos em oposição à concepção liberal linear do desenvolvimento histórico; sua tentativa de substituir o indivíduo pela propriedade da terra como base da história; e sua maior preferência por unidades sociais orgânicas em vez de unidades aglomeradas, como classes (Mannheim, 1986: 125).

Hirschman identifica três “ondas reacionárias” para o avanço dos direitos civis, políticos e sociais dos cidadãos, seguindo T.H. Marshall, as teses da perversidade, futilidade e ameaça:

De acordo com a tese da perversidade, qualquer ação para melhorar algum aspecto da ordem econômica, social ou política só leva a agravar a situação que se pretendia remediar. A tese da futilidade sustenta que as tentativas de transformação social seriam infrutíferas […]. Por fim, a tese da ameaça argumenta que o custo da mudança seria muito alto, uma vez que ameaça alguma conquista anterior (Hirschman, 2019: 19).

Em termos teóricos, poderíamos identificar as seguintes características do pensamento conservador:

  • Os conservadores substituíram a Razão por conceitos como História, Vida e Nação.
  • Contra a inclinação dedutiva da escola do direito natural, os conservadores se opunham à irracionalidade da realidade.
  • Em resposta à reivindicação liberal de validade para todos, os conservadores levantaram radicalmente o problema da individualidade.
  • O conceito de organismo social é desenvolvido pelos conservadores.
  • Os conservadores se opunham a um tipo de pensamento que parte de um conceito de totalidade que não é a mera soma de suas partes, mas que os indivíduos devem ser entendidos apenas como partes de uma totalidade maior.
  • A concepção dinâmica da Razão: eles concebiam a própria Razão e suas normas em mudança e movimento (Hirschman, 2019: 129-131).
  • O ciclo da dependência neoliberal conservadora: a democratização na América Latina não significou o fim das práticas ilegais ou do uso indiscriminado da violência. O legado autoritário dos regimes militares, bem como as práticas políticas e sociais seculares, dificultaram a transição de uma ordem com direitos sociais e políticos limitados para uma de caráter democrático.

Felícia Picanço: Em diferentes contextos nacionais, para além da crítica oriunda do debate de ideias, o conhecimento acadêmico-científico vem sendo desqualificado, tanto pelo campo conservador, quanto por atores do campo progressista e de esquerda. Somado às críticas oriundas do debate político-ideológico, estão os debates sobre o papel da sociologia, que remonta sua institucionalização nas universidades ao longo do século XX e XXI.

Nas últimas décadas, na esfera acadêmico-científico, os termos destes debates foram dados a partir da discussão sobre a sociologia pública (Burawoy 2004 e 2021) e suas críticas (Turner, 2009), sociologia profissional versus sociologia acadêmica, sociologia dos problemas públicos (Cefai, 2017), sociologia crítica e sociologia que resolve problemas (Prasad, 2018). Sendo assim, a definição do papel da sociologia demanda, em primeiro lugar, reconhecer que este papel não está dado, isto é, não é inerente à própria disciplina, é uma construção a partir do “tipo” de sociologia que se quer produzir.

Partindo de uma tentativa de síntese entre algumas perspectivas, defendo que o papel e desafio da sociologia contemporânea é participar de forma ativa na divulgação da análise sociológica baseada em evidências como estratégia central para participar do debate público sobre tais temas e produzir estudos que busquem, além de construir análises sobre fenômenos sociais, resolução de problemas sociais que deles emergem. Tal posicionamento demanda, por sua vez, o reconhecimento de pressupostos de uma sociedade justa e que uma sociedade justa é a boa sociedade.

Partindo desta posição diante do papel da sociologia, entendo que o enquadramento sociológico deve identificar os desiguais e injustos impactos e experiências no contexto de emergência climática e da crise da democracia, bem como suas interconexões. Para tanto, deve incorporar uma perspectiva comparada intergrupos e intragrupos; investir em pesquisas sobre os grupos dos estratos superiores das hierarquias de poder e de bens e recursos econômicos; e interligar questões teóricas e análises sociológicas sobre os problemas sociais às estratégias de enfrentamento de suas consequências indesejáveis e injustas.

Fabrício Maciel: Sobre a emergência climática, a sociologia precisa trabalhar em conjunto com outras áreas do conhecimento, como a geologia, a geografia física e política, a administração pública e privada, o direito e a antropologia, dentre outras. Isto porque nós não temos o conhecimento suficiente acerca das catástrofes naturais, no sentido de delimitar, em muitos casos, até onde se trata de fenômenos naturais e em que limite precisamos começar a falar em processos econômicos e políticos. As discussões acerca do Antropoceno ou do Capitaloceno, como preferem alguns marxistas, podem ser bastante úteis nesta direção. Ademais, o grandioso livro de Ulrich Beck, A sociedade de risco, continua sendo uma obra seminal para compreendermos a especificidade da produção de múltiplos riscos globais. No limite, ninguém está seguro e é claro que as populações mais vulneráveis são sempre as primeiras afetadas.

Sobre a democracia, já temos hoje uma ampla discussão dentro e fora do Brasil que vem destacando a sua crise ou falência, especialmente nos países ocidentais, bem como a ascensão sem precedentes de uma extrema direita em escala global. O principal desafio, aqui, talvez seja que a sociologia precisa compreender as razões do outro, considerando que este “outro” consiste em boa parte da população mundial que se encontra, neste exato momento, decepcionada com as promessas de um sistema dito progressista e defendido pelas democracias liberais. Em resumo, desde pelo menos o final dos “trinta anos dourados” do Welfare State, em meados da década de 1970, este sistema vem fracassando em cumprir suas promessas de inclusão e justiça social. Com isso, o sentimento geral, especialmente nos países outrora considerados centrais, que se reflete entre nós, é de instabilidade econômica e insegurança ontológica. Neste cenário, a sociologia precisa compreender por que os governos de esquerda e/ou progressistas não conseguiram levar a cabo o que seria seu maior legado, ou seja, o enfrentamento real das múltiplas formas de desigualdade estrutural produzidas pelo capitalismo contemporâneo.

3. Considerando que a inovação não se realiza num vazio de interpretações, que formulações e proposições podem nos ajudar a compor um repertório afiado para lidar com esses fenômenos multidimensionais?

José Vicente Tavares dos Santos: Pode-se falar em um hibridismo sociológico que demonstra o modernismo da sociologia contemporânea no Brasil desde a permanente releitura dos clássicos até o diálogo com autores como Michel Foucault (da sociedade disciplinar aos cursos sobre a Biopolítica e a governamentalidade), Pierre Bourdieu (a sociologia reflexiva, a violência simbólica e o Estado), Pablo Gonzalez Casanova, do México (as novas ciências da complexidade), e a obra de Octavio Ianni.

A sociologia tem desenvolvido a perspectiva da multidisciplinaridade, capaz de explicar os problemas sociais, ampliada pelo movimento de construção da transdisciplinaridade. A construção das metodologias informacionais amplia as possibilidades do estudo sociológico das novas questões sociais mundiais. A sociologia brasileira está inserida no espaço do conhecimento sociológico: conquistou plena legitimidade acadêmica e científica, sendo reconhecida pela sociedade civil e pelo Estado como saber construtor de uma consciência crítica da realidade social. Configura-se uma “sociologia da transformação”, na qual o padrão de trabalho científico do sociólogo é marcado pelo imperativo da responsabilidade social, pelo respeito à dignidade humana, pela contemporaneidade das teorias e das metodologias, tornando os cientistas sociais brasileiros habilitados a respeitar tanto o mérito científico quanto a relevância social da pesquisa.

A contemporaneidade da sociologia brasileira salienta alguns problemas sociológicos mundiais: a historicidade do conhecimento e a incorporação crítica de conceitos e explicações de todas as tradições sociológicas do Norte e do Sul. Ou seja, assumir a mundialização do conhecimento sociológico, marcado pela diversidade, diferenciação e transculturação; o reconhecimento de uma nova morfologia do social incorporando as diferenças nas relações de gênero, nas relações étnicas e nas relações entre as gerações; o desenvolvimento alternativo com sustentabilidade, incorporando novos modos de produzir, mediante a aplicação das novas tecnologias na perspectiva da inclusão digital e social; a reestruturação das instituições de socialização e de controle social, formal e informal, construindo formas alternativas de controle social da violência e do crime, com respeito aos direitos humanos e ampliação do acesso à justiça; o reconhecimento do multiculturalismo e do hibridismo nas relações entre saberes, culturas e fluxos de informação; a afirmação do Estado como ator social na produção de uma governamentalidade com reconhecimento social.

Realiza-se a importância histórica de um ofício: a sociologia como saber que descreve o fato social, desencanta o mundo e explica os processos da história, interpretando as questões sociais e construindo explicações sociológicas.

Pode-se analisar a fenomenologia da violência em quatro modos de violência. Primeiro, a violência do Estado. O segundo modo de violência pode ser representado pela violência contra o poder do Estado: os motins; as rebeliões; as revoltas; as lutas sociais e os movimentos sociais. O terceiro modo de violência consiste na violência difusa, expressa em várias formas: a violência micropolítica. Caberia, ainda, mencionar a violência ecológica: seja violência contra a natureza (contra a fauna, contra a flora, contra o meio ambiente), seja a violência contra a natureza humana, com os diferentes tipos de suicídios.

O quarto modo de violência consiste na violência simbólica, a partir da reflexão de Pierre Bourdieu, desde a “dominação masculina” à “miséria do mundo” e o “baile dos celibatários”. A violência simbólica está presente tanto nos diferentes modos acima citados, quanto em outras esferas: nos processos educativos; nas relações de gênero; nas relações raciais; nas relações de discriminação e estigma; nos meios de comunicação de massa. Há todo um universo de representações sociais sobre a conflitualidade social (sobre o crime, exclusões, violências, polícias, prisão, justiça e as lutas sociais), também presente na cultura e na linguagem do romance.

A definição da violência: a noção de coerção, ou de força, supõe um dano que se produz em outro indivíduo ou grupo social, seja pertencente a uma classe ou categoria social, a um gênero ou a uma etnia. Envolve uma polivalente gama de dimensões, materiais, corporais e simbólicas, agindo de modo específico na coerção com dano que se efetiva.

A afirmação de um dano supõe o reconhecimento das normas sociais vigentes, pertinentes a cada sociedade, em um período histórico determinado, normas que balizarão os padrões de legitimidade: a violência define-se então como um fenômeno cultural e histórico. Revela-se como um procedimento de caráter racional, o qual envolve, em sua própria racionalidade, o arbítrio, à medida que o desencadear da violência produz efeitos incontroláveis e imprevisíveis. Simultaneamente, nas composições macrossociais, a violência é fundadora de uma sociedade dividida e desigual, fundada em relações de dominação e de submissão.

Os elementos do pensamento sociológico – investigação científica, compromisso político e imaginação sociológica – foram se construindo em uma tensa e estimulante inserção, unindo o rigor da pesquisa e o pensamento crítico aos processos de transformação social, acompanhando as rupturas epistemológicas do tempo presente.

Esta possibilidade se faz cada vez mais urgente, a fim de conseguirmos descobrir, nas entranhas da contemporaneidade, os processos e as lutas sociais, as ideias e as utopias, os temores e os sonhos, de uma nova sociedade. A emergência de lutas sociais contra a violência poderia representar uma linha de fratura no dispositivo da violência, o que possibilitaria a passagem a outros dispositivos: a emergência de lutas sociais contra a violência representa uma dessas linhas de fratura no dispositivo da violência.

Mediante o conceito de redes de poderes relacionais, abre-se a possibilidade de pensar, conceitualmente, os poderes e os contrapoderes, as práticas de resistência e as lutas sociais: o respeito à dignidade humana, com fundamento no direito à vida, poderia consistir no fundamento de uma luta social contra a violência.

Felícia Picanço: O que é inovação no campo da sociologia? A sociologia opera a partir de quatro eixos no processo de produção do conhecimento: teórico, metodológico, empírico e analítico. No eixo teórico, as inovações são construídas com o desenvolvimento de novos conceitos ou novas interpretações a partir de conceitos já existentes. No eixo metodológico, as inovações se apresentam quando se constrói novas formas de produzir dados. No eixo empírico, as inovações são produzidas a partir da transformação de experiências em dados empíricos, como a recente utilização de conversas e interações nas redes sociais como dados de pesquisa sociológica. No eixo analítico, as inovações consistem na produção de conhecimento a partir das inovações destes eixos.

Para lidar com os fenômenos da emergência climática e crise da democracia é preciso ampliar a lente para captar como grupos específicos estão experimentando seus efeitos e buscar a compreensão dos elementos promotores destes efeitos. Isto é, por meio das diferentes viradas sociológicas contemporâneas (afetiva, da mobilidade, pragmática, culturalista etc.) e das novas sociologias (do desastre, das crises, do meio ambiente, da moral), é possível, ao mesmo tempo em que se desenvolvem inovações teóricas, metodológicas, empíricas e analíticas, promover a “desguetificação” das discussões temáticas. Iniciativas como esta, da Sociedade Brasileira de Sociologia em parceria com a Biblioteca Virtual do Pensamento Social, são um estímulo à ampliação do debate.

Fabrício Maciel: Em cenários de tamanha complexidade, precisamos recorrer à nossa imaginação sociológica, como nos ensinou Wright Mills. No caso do enfrentamento das múltiplas formas de desigualdade, necessitamos de estudos e definições específicas sobre cada uma delas. É preciso compreender articuladamente as razões materiais e imateriais que levam determinados grupos de pessoas a uma condição permanente de vulnerabilidade, ao sofrimento e à humilhação social, bem como investigar suas formas de pensar, agir e sentir. Com isso, a imaginação e formulação de políticas públicas que não sejam meramente simbólicas é uma necessidade permanente.

No caso da emergência climática, governos e grandes corporações precisam compreender a situação limite na qual nos encontramos, de modo a regular e desacelerar a exploração de recursos naturais. Aqui, os movimentos sociais e organismos internacionais podem exercer um papel importante, caso sejam bem orientados teoricamente. No que diz respeito à crise da democracia, os partidos, grupos e movimentos sociais de esquerda e/ou progressistas precisam enfrentar o seu maior desafio, que é exatamente compreender as questões profundas de seu tempo e se reinventar. No geral, precisam compreender como se afastaram de boa parte da população comum, bem como qual é a sua real parcela de culpa nisso. A autocrítica séria, corajosa e não autoindulgente será sempre uma boa aliada daqueles que pretendem reconstruir suas visões e projetos de mundo.

Na prática, isto inclui fugir das ilusões da conjuntura, para além dos clichês e do óbvio, de modo a admitir por que a extrema direita tem falado mais claramente e estabelecido um vínculo afetivo forte com segmentos diversos da sociedade, ao tratar de temas cruciais como trabalho, empreendedorismo e segurança pública, dentre outros. Em resumo, as esquerdas e os grupos que se consideram progressistas precisam recuperar e reconstruir a pauta conjugada de enfrentamento das múltiplas formas de desigualdade e insegurança social presentes em nosso tempo.

4. Cite 3 livros ou artigos sobre os temas fundamentais do congresso e do simpósio.

José Vicente Tavares dos Santos:

PORTO, Maria Stela Grossi. (2010). Sociologia da Violência: do conceito às representações sociais. Brasília: Francis.

TAVARES, José Vicente dos Santos. (2024). Sociologia Crítica Cosmopolita. Buenos Aires: CLACSO. Porto Alegre: TOMO.

TAVARES, José Vicente dos Santos. (2020). O romance da violência. Porto Alegre: TOMO.

Felícia Picanço:

As minhas indicações foram selecionadas seguindo o interesse em estimular a discussão sobre o papel da sociologia no debate dos grandes problemas públicos, em especial, para as novas gerações de sociólogas e sociólogos que se indignam com as desigualdades e injustiças das sociedades.

Em forma de homenagem, gostaria de citar o livro de Michael Burawoy (1947-2025), um autor que marcou não só o seu campo temático de estudos sociológicos, mas também o debate da sociologia pública:

BURAWOY, Michael. (2021). Public sociology. John Wiley & Sons.

Como forma de expressar os contornos atuais do debate da sociologia pública, cito o livro e o site de Monica Prasad, professora do Departamento de Sociologia da John Hopkins University:

PRASAD, Monica. (2022). Problem-solving sociology: A guide for students. Oxford: University Press.

O site de Monica Prasad: https://www.problemsolvingsociology.com/home.

Fabrício Maciel:

Eu destacaria aqui o já citado Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade (2011), de Ulrich Beck, não apenas por sua clássica análise sobre a centralidade dos riscos no que ele denominava como “segunda modernidade”, mas também pela compreensão multidimensional sobre o fracasso da “primeira modernidade”, que nos trouxe até aqui. Também chamo a atenção para a belíssima autobiografia intelectual de Michael Burawoy, seu Public sociology (2021), na qual ele realiza a importante distinção entre a sociologia pública, a política, a profissional e a crítica. Além de ser uma base indispensável para qualquer tentativa de realização de uma sociologia pública, o livro é também uma forte fonte de inspiração pessoal. Não por acaso, o terceiro livro que indico é o clássico A imaginação sociológica (1959), de Wright Mills. Indiscutivelmente um dos autores mais críticos de seu tempo, Mills nos presenteia com uma potente análise sobre a grande promessa do mundo moderno, além de sua conhecida crítica ao que ele chamava de “grande teoria” e “empirismo abstrato”, que podem até hoje ser obstáculos para a boa realização do ofício de sociólogo.


Sobre as/os convidadas/os:

José Vicente Tavares dos Santos é professor titular do Programa de Pós-graduação em Sociologia (desde 1978) e do Programa de Pós-graduação em Segurança Cidadã da UFRGS (desde 2017). Desde 2018, quando se aposentou, é professor colaborador da UFRGS. Pesquisador do CNPq (desde 1988).

Felícia Picanço é professora do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedica-se aos estudos sobre diferentes dimensões das desigualdades de gênero, raciais e na juventude. Coordena o Laboratório de Estudos sobre Diferenças, Desigualdades e Estratificação (LEDDE).

Fabrício Maciel é professor do Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos e do Programa de Pós-graduação em Sociologia Política da UENF. Organizou, com Elísio Estanque e Agnaldo Barbosa, o livro Re-trabalhando as classes no diálogo Norte-Sul: trabalho e desigualdades no capitalismo pós-covid (Editora da Unesp, 2024).