
Pós-moderno é o novo verbete que publicamos no Glossário Silviano Santiago. Escrito por Denilson Lopes (UFRJ), o verbete recupera o célebre ensaio “O narrador pós-moderno”, de Silviano Santiago, indicando que, para o crítico mineiro, o pós-moderno é uma chave de leitura que questiona os limites da tradição ocidental sem, no entanto, abandoná-la. Segundo Lopes, Silviano propõe uma nova experiência narrativa, marcada pela imagem e pelo corpo em movimento, que oferece uma vivência distinta da cultura letrada. A análise do romance Em Liberdade ganha destaque ao mostrar como Silviano reinventa a figura de Graciliano Ramos a partir de um corpo liberto, desejante e desviante, retomando a alegria da contracultura como força transformadora. Ora por meio dos ensaios, ora pela ficção, Silviano aposta na literatura como espaço para produzir novas experiências e levantar novas questões.
Organizado por Mario Cámara, o Glossário Silviano Santiago é publicado às quintas-feiras, com versões simultâneas em português e espanhol.
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Pós-moderno
Por Denilson Lopes (UFRJ)
Ao reler o ensaio “O narrador pós-moderno”, de Silviano Santiago, vemos que não se trata de identificar se a modernidade teria ou não acabado. Para além de uma demarcação de época, trata-se, como o considerou Ítalo Moriconi em Provocação Pós-moderna, de um campo discursivo que possibilitou a visibilidade de artistas e questões. Assim, neste ensaio de Silviano Santiago, há uma leitura e uma aposta na obra de Edilberto Coutinho, mas também uma leitura crítica e atenta de Walter Benjamin. O pós-moderno surge como uma chave de leitura da narrativa – não tanto para aqueles que poderiam se servir de Benjamin a fim de canonizar um alto modernismo como espaço da não-comunicação e associar a modernização à banalização da informação. Invertendo Benjamin: se há crise do valor social da narrativa, como explorado em “O Narrador”, sua possibilidade de compartilhamento não aparece como uma sucessiva perda – da oralidade para o romance e deste para a imprensa. A cultura midiática que Benjamin apenas vislumbrou em seu início ganha aqui uma dimensão não de perda, mas de transformação. Assim, não se trata mais de compartilhar pela fala ou pela escuta, mas pela imagem e pelo corpo – não daquele que narra para quem ouve por ter maior memória ou conhecimento de lugares, mas do próprio corpo em movimento, que nos traz uma experiência distinta da cultura letrada e da mera informação.
Se o debate sobre o pós-moderno foi esquecido, perdendo visibilidade, e se o termo já não é mais usado, seria um bom teste perceber o que sobrevive no e para além dele – não como conceito, mas como ferramenta de leitura que implica não se submeter ao pensamento ocidental como discípulo, nem abandoná-lo em uma recusa total que busque, numa alteridade, um outro princípio. Assim, o pós-moderno é uma chave do estar entre – não de negação crítica, nem de afirmação canonizadora.
A constância de expressões que usam o prefixo pós remete a uma dificuldade própria de períodos de transição e incerteza, em que há um passado que não se quer mais ou que está se esgotando, e um presente em que se multiplicam tentativas individuais que, por se julgarem (demasiado) singulares, não conseguem vislumbrar um quadro mais amplo.
Se, entre as categorias pós criadas, o pós-moderno está hoje tão esquecido quanto foi intensa sua presença nos anos 1980 – dentro e fora do Brasil, na mídia e na universidade, em debates públicos e modismos – reler “O narrador pós-moderno”, de Silviano Santiago, é recolocar em pauta a noção de experiência em detrimento da banalização do lugar de fala. E, ao reler Benjamin, trata-se não de endossar seu diagnóstico de empobrecimento da experiência em “Experiência e Pobreza”, mas de vislumbrar uma mutação em que a imagem produz experiência a ser transmitida não tanto pela fala ou pela escrita, mas pelo olhar e por ser olhado – e de ver como falar e escrever se modificam diante da centralidade da imagem, desde o corpo evocado pela cultura juvenil até uma cultura midiática, a partir da segunda metade do século XX, em que a autenticidade é problematizada não só pela natureza da linguagem – que faz de tudo o que é dito, até em primeira pessoa, não uma verdade, mas uma construção – mas também por uma imagem que se substitui vertiginosamente por outra imagem – nem verdade, nem mentira – em um incessante jogo de encenação. Esse jogo encarna-se em outro termo que Silviano Santiago já não convoca, mas que foi marcante nos anos 1980: o simulacro, categoria que privilegia a teatralidade e o artifício, remetendo a uma linhagem que remonta, na modernidade, pelo menos ao teatro do mundo barroco. Se buscar autenticidade na experiência falada ou narrada redunda em fracasso, também o corpo não é verdade por sua materialidade ou presença: pelo simulacro, distanciamo-nos uma vez mais de uma visão realista, naturalista ou documental – tão forte na cultura brasileira (Süssekind, 1984), nos anos 1990 (Foster, 1996; Lopes, 2012) e que se atualiza hoje em um momento de desvalorização da ficção em favor do fetiche da experiência como lugar de fala – forma de conquista de direitos e reparações históricas, mas também instrumento de visibilidade midiática, conquista de poder e institucionalização.
A experiência resiste pouco como fonte de sabedoria, de formação e de conselho; já o corpo pode trazer uma presença que, para Santiago (2023), remonta à contracultura – recentemente recuperada – e certamente traz a intensidade da alegria. Se, por um lado, essa alegria se institucionalizou na felicidade a ser buscada na sociedade de consumo, por outro, coloca em questão o que constitui o prazer: a intensidade de olhar e ser olhado, de forma que não ofenda nem reifique. Já a leitura de Edilberto Coutinho é uma aposta de que a literatura possa gerar questões, e não apenas reproduzir o que outros saberes e disciplinas podem discutir.
Se Silviano Santiago, às vezes, oferece respostas por meio de ensaios, às vezes as dá pela ficção. Passo então a Em Liberdade, obra que pode oferecer uma outra modulação do debate sobre o pós-moderno. Em Liberdade é um aprendizado para um olhar desejante: pelo exercício da palavra, o corpo doente de Graciliano Ramos, recém-saído da prisão, recupera a vida. Um outro passo é dado quando o corpo múltiplo, em desejo, é destroçado e transformado em imagem, em Stella Manhattan. Saindo da prisão, Graciliano Ramos se aventura no redescobrir do espaço. No entanto, mais do que a liberdade de ir e vir, Graciliano luta por outra liberdade: a de não se deixar enquadrar. “Não estou preso, é claro; mais importante, não sou preso”. Liberto, o personagem Graciliano não é apenas sobrevivente, mas se torna mártir – um lugar-comum da esquerda. Sua postura individual, no entanto, é voltada para o presente, e não para o passado, esvaziado de uma mística de dor e sacrifício. Sua rebeldia política se forma nessa busca pela diferença: ele tenta escapar, ainda, das cadeias mais sutis do cotidiano, da lembrança e da mitificação.
Se a prisão impregnou suas memórias de doença e fome, este diário dos primeiros momentos em liberdade é, essencialmente, uma redescoberta do corpo. Já na frase inicial – “não sinto o meu corpo” – o autor justifica-se: “Não quero sentir o meu corpo, agora, porque é pura fonte de sofrimento”. A partir desse reconhecimento, o desejo de liberdade – e a liberdade do corpo é a primeira e mais básica – impele o escritor à busca de uma nova identidade.
O perambular pelo Rio de Janeiro, longe das obrigações familiares imediatas, e o encontro com o mar moldam um desejo de vida que tem início em um voyeurismo desestruturador. “Andando de membro duro, pela praia de Botafogo, sentia-me finalmente em liberdade”. Esse Graciliano, tão próximo da nova esquerda dos anos 1960/70, vê revolução na alegria do corpo e não no pessimismo, na mística do sacrifício. “Meu único dever, hoje, é a vida”. No reconhecimento de suas diferenças e do contexto social, o vagabundo substitui os ladrões, os homossexuais, os soldados das Memórias do Cárcere na oposição aos poderes. “Para o vagabundo, o corpo é o lugar que escolheu para viver as suas desavenças com a sociedade”. Por fim, o olhar do voyeur recompõe sua imagem no espelho: o aprendizado das diferenças, do corpo, é também o da tolerância.
No diário, além de espaço de reflexão sobre a situação frágil do intelectual em países periféricos, configura-se a formação de uma escritura revigorada pelo corpo e pelo cotidiano. Ao diário não se impõem as peias do documental, realizando-se um jogo entre ficção e realidade, passado e presente – escritura que implica o diálogo com o passado que vanguardas como o Dadaísmo e o Futurismo não buscavam. Não se trata de paródia nem de paráfrase do estilo de Graciliano, mas da construção de um labirinto de interligações sutis: o pastiche, “no sentido de repetição diferenciadora e recriadora de obra e de ‘forma’ anteriores, e não no sentido de cópia servil de ambas” (Miranda, 1987: 46). Desse modo, o diário abre a possibilidade de uma busca ampliada do outro, relativizando a noção de autor e de identidade subjetiva do personagem.
A alegria do corpo propicia a liberdade de escrever. O voltar-se sobre si mesmo e a identificação do passado no presente forjam um artista aberto ideológica e esteticamente. A recriação do inconfidente Cláudio Manoel da Costa recupera nele os dilemas do artista revolucionário, não do mártir. Além disso, há a compreensão do estético como primado do plural e do individual – e, nesse sentido, também do histórico. Graciliano Ramos, observando a moça a caminho da praia (p. 95), compõe a figura do narrador pós-moderno, em que o aprendizado se dá pelo olhar, e não pela ação. É o moço que ensina ao velho. “Para testemunha do olhar e da sua experiência é que ainda sobrevive a palavra escrita na sociedade pós-industrial” (Santiago, 1989: 52).
“Vou construir o meu Graciliano Ramos”. A frase de Otto Maria Carpeaux, que serve de epígrafe a Em Liberdade, dá o tom do projeto. Mas, se a pergunta não for desnecessária: por que voltar a Graciliano Ramos? Como reler seu neorrealismo com toques existencialistas sem o gosto de coisa velha ou o intuito historicista do estudioso? Silviano Santiago, em uma reavaliação do Modernismo, propõe como saída para o beco vanguardista a retomada de pré-modernistas, especificamente Lima Barreto e Euclides da Cunha, por meio de uma estética da redundância, de maior comunicabilidade, em detrimento de uma estética da elipse (Santiago, 1989: 88-89). E onde entra Graciliano Ramos nessa história? Talvez por vias semelhantes às dos pré-modernistas, na medida em que sua obra conjuga as conquistas das vanguardas com o Realismo. Silviano Santiago se apropria da escrita de Graciliano Ramos em favor não do ascetismo, da negação do corpo (Memórias do Cárcere), mas do prazer.
O Graciliano de Em Liberdade se aproxima ainda da postura intelectual dos anos 1960, pela renovação da esquerda sob o influxo da contracultura. Talvez, devido ao peso do regime militar no país a partir de 1964 – acentuado após 1968, quando os inimigos ficaram claros, apesar do autoritarismo dos grupos esquerdistas. Assim, para o Graciliano Ramos de Silviano Santiago, a revolução é alegria, passa pelo corpo, é mutante, incluindo o individual. O intelectual deixou de ser porta-voz, pois “o que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam deles para saber; elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles; e elas o dizem muito bem” (Foucault, 1989: 70). A releitura da obra de Graciliano Ramos se dá na transmutação do herói moderno – mítico ou psicológico, sempre problemático – para as personagens da narrativa pós-moderna, que são mais o que aparentam, porque, na sociedade de massa, o individual não passa de uma máscara. Não há motivo para drama.
O olhar pós-moderno (em nada camuflado, apenas enigmático) olha nos olhos o sol. Volta-se para a luz, o prazer, a alegria, o riso, e assim por diante, com todas as variantes do hedonismo dionisíaco. O espetáculo da vida hoje se contrapõe ao espetáculo da morte ontem (Santiago, 1989: 50).
Referências
BENJAMIN, Walter. (1994). Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura – Obras escolhidas, v. 1. São Paulo: Brasiliense.
FOSTER, Hal. (1996). The return of the real: the avant-garde at the end of the century. Massachutes: MIT Press.
FOUCAULT, Michel. (1989). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal.
LOPES, Denilson. (2012). Estéticas do artifício, estéticas do real. In: GOMES, Renato Cordeiro & MARGATO, Izabel. (Org.). Novos Realismos. Belo Horizonte: Editora UFMG, p. 147-162.
MIRANDA, Wander de Melo. (1987). Contra a corrente: a questão autobiográfica em Graciliano Ramos e Silviano Santiago. Tese (Doutorado). Universidade de São Paulo, São Paulo.
MORICONI, Ítalo. (1994). A provocação pós-moderna: razão histórica e política da teoria de hoje. São Paulo: Diadorim.
RAMOS, Graciliano. (1953). Memórias do cárcere. São Paulo: José Olympio.
SANTIAGO, Silviano. (1985). Em Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
SANTIAGO, Silviano. (1985). Stella Manhattan. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
SANTIAGO, Silviano. (2023). Das Incoveniências do corpo. In: Grafias de vida – a morte. São Paulo: Companhia das Letras.
SANTIAGO, Silviano. (1989). Nas malhas da letra. São Paulo: Companhia das Letras.
SÜSSEKIND, Flora. (1984). Tal Brasil, qual romance?: uma ideologia estética e sua história –o naturalismo. Rio de Janeiro: Achiamé.
Sobre o autor
Denilson Lopes é Professor Titular da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador do CNPq.
Posmoderno
Al releer el ensayo “O narrado pós-moderno”, de Silviano Santiago, vemos que no se trata de identificar si la modernidad habría o no terminado. Más allá de una demarcación de época, se trata, como señaló Ítalo Moriconi en Provocação Pós-moderna, de un campo discursivo que posibilitó la visibilidad tanto de artistas como de diversas problemáticas. De este modo, en este ensayo de Silviano Santiago hay una lectura y una apuesta por la obra de Edilberto Coutinho, pero también una lectura crítica y atenta de Walter Benjamin. Lo posmoderno surge como una clave de lectura de la narrativa, no tanto para quienes podrían servirse de Benjamin para canonizar un alto modernismo como espacio de la no-comunicación y asociar la modernización a la banalización de la información. Invirtiendo a Benjamin: si hay crisis del valor social de la narrativa, como se explora en “El Narrador”, la posibilidad de compartirse no aparece como una pérdida sucesiva – de la oralidad a la novela y de esta a la prensa. La cultura mediática que Benjamin apenas vislumbró en sus inicios cobra aquí una dimensión no de pérdida, sino de transformación. Así, ya no se trata de compartir por la palabra o la escucha, sino por la imagen y el cuerpo: no de aquel que narra para quien escucha por poseer mayor memoria o conocimiento de lugares, sino del propio cuerpo en movimiento, que nos trae una experiencia distinta de la cultura letrada y de la mera información.
Si el debate sobre lo posmoderno fue olvidado, perdiendo visibilidad, y si el término ya no se usa más, sería una buena prueba percibir lo que sobrevive en y más allá de él – no como concepto, sino como herramienta de lectura que implica no someterse al pensamiento occidental como un discípulo, ni abandonarlo en un rechazo total que busque, en una alteridad, otro principio. Así, lo posmoderno es una clave para estar entre – no de negación crítica, ni de afirmación canonizadora.
La constancia de expresiones que usan el prefijo pos remite a una dificultad propia de los períodos de transición e incertidumbre, en los que hay un pasado que ya no se desea o que se está agotando, y un presente en el que se multiplican intentos individuales que, al considerarse (demasiado) singulares, no logran vislumbrar un panorama más amplio.
Si, entre las categorías con el prefijo pos que se crearon, lo posmoderno está hoy tan olvidado como fue intensa su presencia en los años ochenta – dentro y fuera de Brasil, en los medios y en la universidad, en debates públicos y modas –, releer “O narrador pós-moderno”, de Silviano Santiago, implica volver a poner en discusión la noción de experiencia, en detrimento de la banalización del lugar de enunciación. Y, al releer a Benjamin, no se trata de avalar su diagnóstico sobre el empobrecimiento de la experiencia en “Experiencia y pobreza”, sino de vislumbrar una mutación en la que la imagen produce una experiencia que se transmite no tanto por la palabra hablada o escrita, sino por la mirada y por el hecho de ser mirado. Y ver cómo hablar y escribir se modifican frente a la centralidad de la imagen, desde el cuerpo evocado por la cultura juvenil hasta una cultura mediática, a partir de la segunda mitad del siglo XX, en la que la autenticidad se pone en cuestión no solo por la naturaleza misma del lenguaje – que convierte todo lo dicho, incluso en primera persona, no en una verdad, sino en una construcción –, sino también por una imagen que se reemplaza vertiginosamente por otra imagen – ni verdadera ni falsa – en un juego incesante de puesta en escena.
Ese juego se encarna en otro término que Silviano Santiago ya no utiliza, pero que fue clave en los años ochenta: el simulacro, una categoría que privilegia la teatralidad y el artificio, y que remite a una tradición que se remonta, en la modernidad, por lo menos al teatro del mundo barroco. Si buscar autenticidad en la experiencia hablada o narrada termina en fracaso, tampoco el cuerpo es verdad por su materialidad o presencia: a través del simulacro, nos alejamos una vez más de una visión realista, naturalista o documental – tan presente en la cultura brasileña (Süssekind, 1984), en los años noventa (Foster, 1996; Lopes, 2012) y que hoy se reactualiza en un momento de desvalorización de la ficción a favor del fetiche de la experiencia como lugar de enunciación –, forma de conquista de derechos y de reparación histórica, pero también instrumento de visibilidad mediática, de obtención de poder y de institucionalización.
La experiencia resiste poco como fuente de sabiduría, de formación o de consejo; el cuerpo, en cambio, puede aportar una presencia que, para Santiago (2023), remite a la contracultura – recientemente recuperada – y que ciertamente trae consigo la intensidad del goce. Si por un lado ese goce se institucionalizó como la felicidad que se debe buscar en la sociedad de consumo, por otro pone en cuestión qué constituye el placer: la intensidad de mirar y ser mirado, de una forma que no ofenda ni reifique. La lectura de Edilberto Coutinho, por su parte, apuesta a que la literatura pueda generar preguntas, y no solo reproducir aquello que otros saberes y disciplinas ya pueden discutir.
Si Silviano Santiago a veces ofrece respuestas a través del ensayo, otras lo hace por medio de la ficción. Paso entonces a Em libertade, una obra que puede proponer otra modulación del debate sobre lo posmoderno. Em libertade es un aprendizaje para una mirada deseante: por medio del ejercicio de la palabra, el cuerpo enfermo de Graciliano Ramos, recién salido de prisión, recobra la vida. Un nuevo paso se da cuando ese cuerpo múltiple, deseante, es destrozado y transformado en imagen, en Stella Manhattan. Al salir de la cárcel, Graciliano Ramos se aventura en el redescubrimiento del espacio. Sin embargo, más que la libertad de moverse, Graciliano lucha por otra forma de libertad: la de no dejarse encasillar. “No estoy preso, claro; más importante, no soy un preso”. Ya libre, el personaje Graciliano no es solo un sobreviviente, sino que se convierte en un mártir – un lugar común de la izquierda. Pero su postura individual está orientada al presente, y no al pasado, despojado ya de toda mística de dolor y sacrificio. Su rebeldía política se gesta en esa búsqueda por la diferencia: intenta escapar, también, de las prisiones más sutiles de lo cotidiano, del recuerdo y de la mitificación.
Si la prisión impregnó sus memorias de enfermedad y hambre, este diario de los primeros momentos en libertad es, esencialmente, un redescubrimiento del cuerpo. Ya en la frase inicial – “no siento mi cuerpo” – el autor se justifica: “No quiero sentir mi cuerpo, ahora, porque es pura fuente de sufrimiento”. A partir de ese reconocimiento, el deseo de libertad – y la libertad del cuerpo es la primera y más básica – impulsa al escritor en la búsqueda de una nueva identidad.
El deambular por Río de Janeiro, lejos de las obligaciones familiares inmediatas, y el encuentro con el mar moldean un deseo de vida que se inicia en un voyeurismo desestructurante. “Caminando con el miembro duro por la playa de Botafogo, me sentía finalmente en libertad”. Ese Graciliano, tan cercano a la nueva izquierda de los años 60/70, ve en la alegría del cuerpo una forma de revolución, y no en el pesimismo o en la mística del sacrificio. “Mi único deber, hoy, es la vida”. En el reconocimiento de sus diferencias y del contexto social, el vagabundo sustituye a los ladrones, a los homosexuales y a los soldados de Memórias do Cárcere en la oposición al poder. “Para el vagabundo, el cuerpo es el lugar que eligió para vivir sus desacuerdos con la sociedad”. Finalmente, la mirada del voyeur recompone su imagen en el espejo: el aprendizaje de las diferencias, del cuerpo, es también el de la tolerancia.
En el diario, además de un espacio de reflexión sobre la situación frágil del intelectual en países periféricos, se configura una forma de escritura revitalizada por el cuerpo y por lo cotidiano. Al diario no se le imponen las ataduras del documental, y se establece un juego entre ficción y realidad, pasado y presente: una escritura que implica el diálogo con el pasado que las vanguardias como el dadaísmo y el futurismo no buscaban. No se trata de una parodia ni de una paráfrasis del estilo de Graciliano, sino de la construcción de un laberinto de interconexiones sutiles: el pastiche, “en el sentido de repetición diferenciadora y recreadora de obras y de ‘formas’ anteriores, y no en el sentido de copia servil de ambas” (Miranda, 1987: 46). De ese modo, el diario abre la posibilidad de una búsqueda ampliada del otro, relativizando la noción de autor y de identidad subjetiva del personaje.
La alegría del cuerpo habilita la libertad de escribir. El volverse hacia sí mismo y la identificación del pasado en el presente forjan un artista ideológica y estéticamente abierto. La recreación del inconfidente Cláudio Manoel da Costa recupera en él los dilemas del artista revolucionario, no del mártir. Además, hay una comprensión de lo estético como primacía de lo plural y lo individual – y, en ese sentido, también de lo histórico. Graciliano Ramos, observando a la joven que camina hacia la playa (p. 95), compone la figura del narrador posmoderno, en el que el aprendizaje se da a través de la mirada, y no de la acción. Es el joven el que le enseña al viejo. “Para testimoniar la mirada y su experiencia es que aún sobrevive la palabra escrita en la sociedad posindustrial” (Santiago, 1989: 52).
“Voy a construir mi Graciliano Ramos”. La frase de Otto Maria Carpeaux, que funciona como epígrafe de Em libertade, marca el tono del proyecto. Pero, si la pregunta no resulta innecesaria: ¿por qué volver a Graciliano Ramos? ¿Cómo releer su neorrealismo con toques existencialistas sin caer en un sabor a cosa vieja o en el gesto historicista del estudioso? Silviano Santiago, en una reevaluación del modernismo, propone como salida del callejón vanguardista la relectura de premodernistas, específicamente Lima Barreto y Euclides da Cunha, a través de una estética de la redundancia, de mayor comunicabilidad, en detrimento de una estética de la elipsis (Santiago, 1989: 88-89). ¿Y dónde entra Graciliano Ramos en esta historia? Tal vez por vías similares a las de los premodernistas, en tanto su obra conjuga los logros de las vanguardias con el realismo. Silviano Santiago se apropia de la escritura de Graciliano Ramos no en favor del ascetismo o de la negación del cuerpo (Memórias do Cárcere), sino del placer.
El Graciliano de Em libertade se acerca también a la postura intelectual de los años 60, marcada por la renovación de la izquierda bajo el influjo de la contracultura. Tal vez como respuesta al peso del régimen militar en el país a partir de 1964 – acentuado luego de 1968, cuando los enemigos quedaron claramente definidos, pese al autoritarismo de los grupos de izquierda. Así, para el Graciliano Ramos de Silviano Santiago, la revolución es alegría, pasa por el cuerpo, es mutable e incluye lo individual. El intelectual dejó de ser portavoz, porque “lo que los intelectuales descubrieron recientemente es que las masas no los necesitan para saber; ellas saben perfectamente, con claridad, mucho mejor que ellos; y lo expresan muy bien” (Foucault, 1989: 70). La relectura de la obra de Graciliano Ramos se da a través de la transmutación del héroe moderno – mítico o psicológico, siempre problemático – hacia las figuras de la narrativa posmoderna, que son más de lo que aparentan, porque, en la sociedad de masas, lo individual no es más que una máscara. No hay razón para el drama.
La mirada posmoderna (nada camuflada, apenas enigmática) mira al sol a los ojos. Se vuelve hacia la luz, el placer, la alegría, la risa, y así sucesivamente, con todas las variantes del hedonismo dionisíaco. El espectáculo de la vida hoy se contrapone al espectáculo de la muerte de ayer (Santiago, 1989: 50).
Referencias
BENJAMIN, Walter. (1994). Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura – Obras escolhidas, v. 1. São Paulo: Brasiliense.
FOSTER, Hal. (1996). The return of the real: the avant-garde at the end of the century. Massachutes: MIT Press.
FOUCAULT, Michel. (1989). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal.
LOPES, Denilson. (2012). Estéticas do artifício, estéticas do real. In: GOMES, Renato Cordeiro & MARGATO, Izabel. (Org.). Novos Realismos. Belo Horizonte: Editora UFMG, p. 147-162.
MIRANDA, Wander de Melo. (1987). Contra a corrente: a questão autobiográfica em Graciliano Ramos e Silviano Santiago. Tese (Doutorado). Universidade de São Paulo, São Paulo.
MORICONI, Ítalo. (1994). A provocação pós-moderna: razão histórica e política da teoria de hoje. São Paulo: Diadorim.
RAMOS, Graciliano. (1953). Memórias do cárcere. São Paulo: José Olympio.
SANTIAGO, Silviano. (1985). Em Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
SANTIAGO, Silviano. (1985). Stella Manhattan. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
SANTIAGO, Silviano. (2023). Das Incoveniências do corpo. In: Grafias de vida – a morte. São Paulo: Companhia das Letras.
SANTIAGO, Silviano. (1989). Nas malhas da letra. São Paulo: Companhia das Letras.
SÜSSEKIND, Flora. (1984). Tal Brasil, qual romance?: uma ideologia estética e sua história –o naturalismo. Rio de Janeiro: Achiamé.
Sobre el autor
Denilson Lopes es Profesor Titular de la Escuela de Comunicación de la Universidad Federal de Río de Janeiro y investigador del CNPq.
