Florestan Fernandes e a construção da sociologia pública no Brasil, por Marcelo Augusto Totti

No ano em que se completam 30 anos do falecimento de Florestan Fernandes e 50 anos da publicação de A Revolução burguesa no Brasil, Marcelo Augusto Totti (Unesp) escreve um ensaio que revisita a obra e a trajetória desse importante sociólogo, cuja presença intelectual contribuiu para a construção de uma sociologia pública no Brasil. Dialogando com a proposta de Michael Burawoy, o autor mostra como Florestan Fernandes colocou a questão do intelectual dentro de uma “nova dimensão histórica”, em que o conhecimento científico deveria estar organicamente ligado ao debate público e às lutas sociais. Ressalta ainda a importância que Fernandes atribuía ao papel dos professores, responsáveis por manter vivo o vínculo entre saber acadêmico e demandas populares. Afinal, como o próprio Fernandes indicava: a sociologia precisa responder não às expectativas dos donos do poder, mas às necessidades da Nação como um todo.


Florestan Fernandes e a construção da sociologia pública no Brasil

Por Marcelo Augusto Totti (Unesp)

No ano de 2025, completam-se 30 anos do falecimento de Florestan Fernandes e 50 anos da publicação de um de seus principais livros: A Revolução burguesa no Brasil. Apesar de sua obra já ter passado por inúmeras revisões, debates, análises e estudos, ela continua sendo fonte de inspiração e reflexão, dada sua contribuição ao campo da sociologia, das ciências sociais e ao entendimento da sociedade brasileira.

A partir da proposta de Michael Burawoy de uma sociologia pública, procuramos estabelecer conexões desse conceito com a trajetória intelectual e política de Florestan Fernandes, que esteve ligado aos processos de institucionalização da sociologia como disciplina acadêmica, à profissionalização da carreira de sociólogo e à luta pela introdução da sociologia no ensino secundário. Esses elementos apontam para hipóteses de construção de uma sociologia pública em sua trajetória, premissa presente em diversos momentos, não apenas de sua vida, mas também de sua obra.

Para Florestan Fernandes, o sociólogo deve assumir a responsabilidade intelectual de se posicionar diante das injustiças, rompendo com a tradição de certa intelectualidade de adesão às elites. A disputa no campo das ideias não se limita à formação de novos intelectuais vinculados às classes populares, mas também envolve a definição do modelo e do método de discurso necessário para superar obstáculos. Não se trata propriamente do que o jovem Lukács (2005) tratou em seus escritos dos anos 1920 como um “problema de direção intelectual”, mas de uma questão mais complexa que emerge nas sociedades contemporâneas, visto que os intelectuais ainda ocupam posição estratégica na produção, disseminação e disputa de ideias. Löwy (1998: 30), ao analisar os intelectuais do romantismo, salienta que “os intelectuais, por seu próprio distanciamento da produção material e, sobretudo, pela própria natureza de sua categoria social (definida por seu papel ideológico), são o grupo da sociedade para o qual as ideologias e os valores têm maior importância e o mais decidido peso”. Florestan segue na mesma direção e defende que o conhecimento deve ser compartilhado com os trabalhadores, os excluídos e os oprimidos, contribuindo para a formação de uma consciência crítica dentro de uma sociedade em mudança.

A primeira tarefa do sociólogo estaria na questão dos valores, e tais valores relacionam-se à busca da verdade e à luta contra o obscurantismo; esse seria o significado político e moral do cientista social e do sociólogo, dado que este se apresenta, ao mesmo tempo, como “membro de uma categoria social constituída por pessoas devotas aos fins da ciência e membro de uma comunidade nacional” (Fernandes, 1963: 90). No processo histórico da criação, os cientistas sociais devem ter um papel ativo e utilizar a razão para a compreensão das questões humanas.

Florestan Fernandes, por sua vez, enfatiza o papel do sociólogo brasileiro como sujeito histórico que transcende os limites específicos de seu conhecimento. Cabe ao sociólogo, em um país subdesenvolvido, contribuir não apenas para o desenvolvimento da sociologia enquanto ciência, mas também como forma de explicação do mundo e da realidade, pois “uma ciência só pode expandir-se, efetivamente, entre os povos cuja civilização liberte a inteligência e a consciência do jugo do obscurantismo” (Fernandes, 1963: 54).

Em suas onze teses sobre a sociologia pública, Michael Burawoy ressalta a necessidade de o sociólogo ser companheiro da sociedade civil e defensor do social, o que pressupõe uma sociedade em mudança, sendo necessário “que as tendências de transformação dos sistemas de concepção do mundo incluam a ciência, os cientistas e a tecnologia científica no processo de reconstrução social” (Fernandes, 1963: 123).

Observa-se que Florestan coloca a questão do intelectual dentro de uma “nova dimensão histórica”, em que as condições se abrem ao jogo do poder e cabe ao sociólogo/intelectual intervir no debate público. Esse período está demarcado no Brasil pelos processos atinentes aos anos 1950-1960, denominados por ele como um processo de revolução burguesa em curso, com possibilidades de construção de uma revolução nacional com ganhos políticos e sociais. Contudo, tal condição estaria fadada ao fracasso na visão do sociólogo uspiano, dadas as condições estruturais do tipo de capitalismo e do regime implementado após 1964 pela ditadura civil-militar.

Diante dessa nova conjuntura, os setores conservadores da intelligentsia estariam envolvidos em um processo de naturalização das decisões do centro do poder, enquanto os chamados setores inovadores, técnicos e cientistas neutros ainda propagavam interesses nacionais comprometidos pelas condições econômicas, sociais e culturais do capitalismo dependente.

Já nos anos 1980, Florestan passa a destacar a importância do professor na política e sua função enquanto intelectual, e não apenas do sociólogo: “O professor não pode estar alheio a esta dimensão. Se ele quer mudança, tem que realizá-la nos dois níveis – dentro da escola e fora dela” (Fernandes, 1989: 164). A temática da responsabilidade do professor/intelectual é retomada com o objetivo de mudança social: “O professor precisa se colocar na situação de um cidadão de uma sociedade capitalista subdesenvolvida e com problemas especiais” (Fernandes, 1989: 170). Em uma sociedade ainda marcada pelo analfabetismo e pelo atraso cultural, o professor teria papel fundamental diante das condições vivenciadas. Privilegiado por sua própria formação intelectual, deveria assumir uma posição de compromisso com a mudança social. Essa preocupação é expressa na possível perda de prestígio, renda e, principalmente, tempo para adquirir cultura e ser um “cidadão ativo e exigente”. Essa passagem do sociólogo para o professor, com uma abertura política mais crítica e incisiva, faz com que o sociólogo uspiano transite de uma sociologia pública tradicional para uma sociologia pública orgânica: “as sociologias públicas tradicional e orgânica não são antitéticas, mas complementares. Uma informa a outra” (Burawoy, 2006: 15). Apesar de um estilo completar o outro, há, segundo Burawoy, diferenças em relação à sociologia pública orgânica:

A sociologia pública orgânica, na qual o sociólogo trabalha em estreita conexão com um público visível, numeroso, ativo, local e frequentemente um contra-público. A maior parte da sociologia pública é, na verdade, do tipo orgânico – os sociólogos trabalham com movimentos trabalhistas, associações de moradores, comunidades de fé, grupos pelos direitos de imigrantes, organizações de direitos humanos. Entre o sociólogo público orgânico e um público está um diálogo, um processo de mútua educação (Burawoy, 2006: 15).

Florestan Fernandes transforma a sociologia em um conhecimento a favor dos “de baixo”, pois a temática da revolução e da construção do socialismo não está desvinculada da ciência sociológica. Assim, “o sociólogo da mudança cede passagem, definitivamente, ao militante da transformação” (Silva Junior, 1987: 206). Não se trata apenas da passagem de um intelectual, mas também da própria disciplina sociológica, que demarca um campo de expectativas: “como intelectual aproveitei muito e, principalmente, descobri que a sociologia precisa responder às expectativas que não devem nascer dos donos do poder, mas sim de critérios racionais de reforma, que levam em conta as necessidades da Nação como um todo, ou das pressões históricas de grupos de inconformistas” (Fernandes, 1978: 61).

A sociologia pública proposta por Florestan Fernandes emerge de uma concepção profundamente ligada à transformação social e à luta dos “de baixo”. Como aponta, “a sociologia deve ser uma arma de combate na guerra de classes” (Fernandes, 2009: 37). O objetivo deste breve ensaio foi sinalizar como sua trajetória intelectual e política constrói uma sociologia pública orgânica, que articula teoria e prática em favor dos setores subalternos da sociedade brasileira.


Referências

BURAWOY, Michael. (2006). Por uma sociologia pública. Política & Trabalho. Revista de Ciências Sociais, n. 25, outubro, p. 9-50.

BRAGA, Ruy & BURAWOY, Michael. (2009). Por uma sociologia pública. São Paulo: Alameda.

LÖWY, Michael. (1998). A evolução política de Lukács: 1909-1929. São Paulo: Cortez.

LUKÁCS, György. (2005). Táctica y ética: escritos tempranos (1919-1929). Buenos Aires: El cielo por Asalto.

FERNANDES, Florestan. (1963). A sociologia numa era de revolução social. São Paulo: Editora Nacional.

FERNANDES, Florestan. (1989). O desafio educacional. São Paulo: Cortez.

SILVA JUNIOR, Celestino Alves da. (1987). O sociólogo da mudança e o militante da transformação. In: D’INCAO, Maria Angela (org.). O saber militante. Ensaios sobre Florestan Fernandes. Rio de Janeiro; São Paulo: Paz e Terra; Unesp. p. 47-65.