Sociológicas | Metamorfoses do trabalho e de sua subjetivação, por Adalberto Cardoso

O trabalho assalariado, que marcou o século XX como sinônimo de cidadania e estabilidade, está em crise – e com ele, as formas de subjetividade que estruturaram a vida moderna. Dando continuidade à série Sociólogicas, Metamorfoses do trabalho e de sua subjetivação, novo texto de Adalberto Moreira Cardoso (IESP-UERJ), parte de uma reconstrução histórica do assalariamento para mostrar como a centralidade do emprego estável cedeu lugar à incerteza e à individualização neoliberal. Se antes o trabalhador se reconhecia na coletividade e nos direitos conquistados, hoje vê-se como “empreendedor de si”, empresário solitário de sua própria precariedade.

Sociológicas é o novo espaço de reflexão da BVPS Edições, voltado para discutir problemas do presente e para o processo social que este ainda oculta, a partir de uma perspectiva diferencialmente sociológica. O que tem a sociologia a dizer sobre o contemporâneo, sobre as diversas crises e incertezas que tecem a trama do social e, nela, das subjetividades de indivíduos e grupos, no Brasil e no mundo? Não perca, quinzenalmente, sempre às quintas-feiras, as publicações dessa nova série!

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Metamorfoses do trabalho e de sua subjetivação

Por Adalberto Cardoso (IESP-UERJ)

O assalariamento, tal como se consolidou ao longo do século XIX e, sobretudo, na primeira metade do século XX, não é uma forma “natural” ou universal de organização do trabalho. Ele é o resultado de processos históricos específicos, que articularam coerção estatal, lutas sociais, transformações tecnológicas e dinâmicas de acumulação capitalista. Como lembra o historiador Marcel van der Linden, o assalariamento foi apenas uma entre várias modalidades de extração de trabalho excedente no capitalismo, convivendo com o trabalho escravizado, a servidão, o trabalho doméstico não pago e outras formas de exploração das pessoas e expropriação da riqueza social.

A centralidade que o assalariamento conquistou no século XX deve-se, em grande medida, ao regime fordista de acumulação. A produção em massa, articulada ao consumo em massa, exigia a estabilização do vínculo empregatício, o controle do tempo de trabalho e a previsibilidade do rendimento salarial. O Estado de bem-estar social, nos países centrais, institucionalizou esse arranjo, oferecendo proteção contra os riscos da vida (desemprego, doença, velhice) e reconhecendo o trabalhador assalariado como cidadão de direitos. Nos países periféricos, como o Brasil, esse processo ocorreu de maneira seletiva e desigual, mas também aqui o assalariamento se tornou a referência normativa, mesmo que grande parte da população economicamente ativa permanecesse na informalidade ou em relações de trabalho não assalariadas.

A crítica ao assalariamento já se fazia presente desde cedo. Marx e Engels, ao falar do “trabalhador livre”, apontavam sua dupla condição: formalmente livre, mas materialmente compelido a vender sua força de trabalho. Denunciaram, ainda, a alienação inscrita na relação salarial, na qual o produto do trabalho se converte em capital que reforça a dominação do próprio trabalhador. Durante o século XX, essa crítica coexistiu com uma realidade social na qual o assalariamento se tornou o meio predominante de subsistência e também a base de incontestáveis conquistas sociais, como a proibição do trabalho infantil, a jornada limitada, o salário mínimo, o direito a descanso semanal e a férias remuneradas, a sindicalização e a negociação coletiva etc.

A crise do fordismo, a partir dos anos 1970, desestabilizou esse arranjo. O aumento da concorrência internacional, a revolução tecnológica e a globalização das cadeias de valor levaram à flexibilização das relações de trabalho, ao enfraquecimento dos sindicatos e à difusão da precarização. O “trabalhador típico” da era fordista (homem, branco, industrial, assalariado estável) cedeu lugar a uma multiplicidade de situações laborais marcadas pela incerteza: contratos temporários, terceirizações, “pejotização”, informalidade, mais recentemente o trabalho mediado por plataformas, que muitos consideram uma forma fraudulenta de assalariamento etc.

Esse processo resultou na fragmentação da experiência laboral. O trabalho continua sendo o eixo em torno do qual se estruturam as biografias individuais, pois determina onde e como se vive, organiza o tempo, molda identidades. O que mudou foi a forma histórica predominante: o assalariamento formal e protegido deixou de ser a referência universal, tornando-se, em muitos contextos, uma condição cada vez mais restrita. A “sociedade salarial”, para usar a expressão de Robert Castel, entrou em crise, abrindo espaço para novas formas de subjetivação, frequentemente marcadas pela insegurança, pela competição e pela individualização.

O colapso do regime fordista de acumulação não foi apenas uma mudança econômica ou institucional. Ele redefiniu profundamente, também, os modos de subjetivação do trabalhador. Em outras palavras, transformou a forma como os indivíduos se percebem como sujeitos sociais, como elaboram suas identidades e como dão sentido às suas práticas laborais.

No regime fordista, a subjetivação estava fortemente vinculada à identidade coletiva do trabalhador assalariado. O emprego estável permitia a construção de projetos de vida de longo prazo, ancorados na previsibilidade do salário e na segurança social oferecida pelo Estado. Essa estabilidade favorecia a formação de solidariedades de classe, organizadas em torno de sindicatos, partidos trabalhistas e movimentos sociais que se estruturavam a partir da fábrica e do bairro operário. A subjetividade do trabalhador era marcada pela pertença coletiva e pelo horizonte de direitos conquistados através da ação coletiva.

A reestruturação produtiva e a ascensão do pós-fordismo transformaram esse quadro. A ênfase passou a recair sobre a flexibilidade, a polivalência, a criatividade e a capacidade de adaptação. Autores como Maurizio Lazzarato e Antonio Negri, entre outros, destacam que o trabalho imaterial, baseado na produção de conhecimento, informação, comunicação e afetos, ganhou centralidade no capitalismo contemporâneo. Nesse contexto, a subjetividade do trabalhador passou a ser diretamente mobilizada como força produtiva: não apenas sua força física, mas também sua linguagem, seus afetos, sua imaginação.

Essa nova forma de subjetivação abriu espaço para certa autonomia relativa do trabalhador, na medida em que se valorizava sua iniciativa, sua inventividade e sua capacidade de colaborar em redes. Contudo, essa mesma autonomia se converteu em instrumento de intensificação da exploração, já que a criatividade e a comunicação passaram a ser capturadas como recursos produtivos sem contrapartida proporcional em salários, direitos ou proteção social.

Se o pós-fordismo transformou a natureza do trabalho e da produção, o neoliberalismo reconfigurou as condições de subjetivação de forma ainda mais radical. No discurso neoliberal, o indivíduo deixa de ser concebido como trabalhador coletivo ou como portador de direitos sociais, e passa a ser visto como empresário de si mesmo. Essa mudança não é apenas retórica, já que exige práticas concretas de gestão da vida, nas quais cada sujeito deve gerir sua empregabilidade, investir em sua formação, expandir seu capital humano e assumir integralmente os riscos da precariedade. 

A subjetividade neoliberal é marcada, pois, pela internalização da lógica do mercado e da concorrência. O indivíduo se percebe como portfólio de competências, como projeto de investimento contínuo, e não como parte de uma coletividade trabalhadora. A consequência é a erosão das formas tradicionais de solidariedade. A cooperação cede lugar à competição, a proteção coletiva é substituída pela responsabilização individual, e o fracasso é atribuído à falta de mérito pessoal.

É importante distinguir a subjetivação pós-fordista da subjetivação neoliberal. A primeira refere-se sobretudo às transformações no processo produtivo: a valorização da flexibilidade, da comunicação e do trabalho imaterial. A segunda diz respeito ao regime político e ideológico que redefine as condições de vida e de integração social: a imposição da lógica empresarial a todas as dimensões da existência.

Se o pós-fordismo abriu possibilidades de subjetivação mais criativas e menos rigidamente moldadas pelo taylorismo, o neoliberalismo reduziu tais possibilidades ao imperativo da autoexploração. A criatividade tornou-se obrigação, a liberdade converteu-se em dever de empreender, e a autonomia foi transformada em solidão competitiva.