
Após a longa noite natalina de ontem, Mário de Andrade e Cristovam Dantas seguem para a praia. Areia Negra, a melhor para banho em Natal, segundo o modernista. Mas não só sobre a deliciosa paisagem natural se volta ele. Mário escreve uma crônica sobre as identidades regionais, sobre o orgulho – e até certo bairrismo – no pertencer a um estado federativo. Comparações com São Paulo, seu lugar de origem, são inevitáveis. Aqui, a verve cosmopolita de Mário de Andrade grita.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. À tarde, não deixe de conferir novo texto de Lilia Schwarcz para a série. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Natal (25 de dezembro, 11 horas)

Degringolando das alturas de Petropolis, numa baratinha azul, Cristovam Dantas mais eu, viemos tomar banho em Areia Preta. É a milhor praia de banhos de Natal e deliciosa. Muito alva, arrepiada de arrecifes picotados, em que o mar se engancha pra fundear, completamente matinal. As casinhas são simples, bem humanas, sem aquele ar enxerido e almofadinha da Copacabana por exemplo. Paredes lisas, terraço com maqueiras, telhado de aba larga dragando o vento das areias.
Conversei muito com dona Branca e isso me deixa feliz. Dona Branca é paulista e creio mesmo que minha parenta longe, pois nasceu em Toledo Piza. É dona de prestigio na sociedade natalense e fala com essa nossa calma que os nordestinos, mais inquietos, acham que é cantiga.
Dona Branca honra bem São Paulo aqui, com o seu geito raçado de mover-se e conversar. E, que nem eu, se esquece de que é paulista. Aliás, os brasileiros no geral dão ao paulista uma personalidade tão definida que, apesar de injusta, nos glorifica inda mais porquê faz dos paulistas a unica gente bem caracteristica, bem inconfundivel do Brasil. Infelizmente não temos tamanha caracterisação. Nosso orgulho, nossa independencia e altivez, nosso sentimento organisado de patria… estadual, nosso desprezo pelo alheio, dedicação ao trabalho, conceito fechado de familia, secura de trato, etc. etc., tudo isso é falso. Uma das experiencias comicamente dolorosas de minha vida é perguntar a quem me fala no bairrismo orgulhento dos paulistas:
— E o senhor donde que é?
O individuo se enfuna todo pra dizer, por exemplo:
— Ah! eu sou sergipano!
Fico meio circuncisflautico com êsses bairrismos, palavra. Não compreendo nem os pernambucanos, nem os paulistas nem ninguem que seja assim. Aliás, não compreendo nem mesmo os patriotas, já se sabe disso. Tristão de Athayde outro dia falava que apesar de eu ter chegado a uma certa expressão da entidade nacional, tinha uma singular incompreensão política do Brasil. Acho que errou. Já tive compreensão política da patria mas a ultrapassei. Graças a Deus. Patria pra mim é que nem as classes sociais: uma camisa-de-força que muitos vestem por… digamos que por prazer.
Gostei muito de conhecer dona Branca. Não me repôe em São Paulo apesar de tão paulista no geito, na altura e na fala, porquê não sei ter saudades do sul. Eu aqui estou bem. Da mesma forma que si estivesse entre os gaúchos. E pouco falamos de São Paulo. Estamos conversando sobre o Amazonas e o sertão.
MÁRIO DE ANDRADE
