
Mário de Andrade retoma o tema das religiões de matriz afro-indígena. Se antes discutira as influências de religiosidade africana e ameríndia, desta vez quer mostrar como catolicismo se entranha (ou se esgarça) nas “práticas de feitiçaria brasileira”. No Rio e na Bahia, santos viram orixás; no Rio Grande do Norte, diz o modernista, o sincretismo dá lugar a mestres ameríndios rigorosamente católicos, como o Rei Eron, curador de feridas impossíveis.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Natal (26 de dezembro)
Mostrei outro dia como eram perceptiveis bem as influências de religiosidade africana e amerindia nas zonas diferentes da feitiçaria brasileira.
Era muito curioso estudar as maneiras com que a religião catolica se misturou a essas manifestações. E eu não posso porquê não sei bem do assunto. Principalmente a feitiçaria nortista, Pará, Amazonas, inda é muito ignorada.
A feitiçaria brasileira anda completamente impregnada de catolicismo pelo menos do Rio até aqui. Nas macumbas os santos catolicos chegam a tomar nomes de deuses africanos. Já falei nisso, numa nota apensa ao canto de Xangô que dei no meu “Ensaio sobre Musica Brasileira” (ed. Chiarato. S. Paulo). Xangô é o deus do trovão entre os negros Jorubas e (não tenho minhas notas á mão) creio que é S. Jorge nas macumbas. No Rio de Janeiro, me informou Pixinguinha, Ochum uma das tres Mãis-d’água, é Nossa Senhora da Conceição.
Aqui no Rio Grande do Norte essas identificações rebarbativas desaparecem. Nem os santos catolicos, nem o proprio Diabo (Exú) aparecem sob outros nomes de mestres “desmaterialisados”. O catimbó não os invoca e apenas reconhece o poder deles. Isso se prova pelas orações que empregam. Eis por exemplo a famosa oração, “Fôrça do Credo”, uma das mais poderosas pra proteger a gente:
“Salvo sáio, salvo entro; salvo Nosso Senhor no rio do Jordão; na barca de Noé me embarco; com as chaves do sacrario me fecho; com Jesuis Nazareno me benzo; com o Credo e a Cruiz me cubro; as armas de S. Pedro trago a meu lado á mão direita; andarei de noite e de dia, os bões me virão e os maus não me virão. (Persignando-se:) Com Deus Pai, com Deus Filho, com Deus Espirito Santo; Deus faiz, Deus pode e Deus quer: assim acabarei eu com tudo quanto puder e quizer.”
(Rezam-se agora 3 Padre-nossos, 3 Aves e 3 Glorias).
Outro dia darei mais orações.
O engraçado aqui, a respeito da influência do catolicismo sobre o catimbó, é a frequencia de mestres amerindios catolicos.
Assim por exemplo, o Rei Eron, um rei selvagem desmaterialisado. É não só catholico prático mas doutrinador e proselitista contumaz. Muito curador, Rei Eron é especialista de feridas bravas e lepra. Ficou famosa uma cura feita aqui em Natal numa dona cuja perna direita era uma ferida purulenta medonha. Nenhum médico não dera alivio prá coitada. Rei Eron veio no grupo do mestre catimboseiro, êste caiu no santo e principiou logo metendo o nariz no lugar onde a ferida principiava. E foi esfregando cara e cabelos de com fôrça na bereva, quando parou nem se reconhecia e dava o maior nojo dêsse mundo. Rei Eron tinha ido-se embora e o nojento não se aguentou de repugnancia, desmaiou. Lavaram a cabeça dele com pinga e afinal voltou, para nunca mais se esquecer do suplício. O fato é que a dona principiou milhorando, milhorando. Hoje está boa duma vez, para no bairro do Alecrim perto daqui.
MÁRIO DE ANDRADE
