BVPS Edições | Autorais Laura de Mello e Souza

No oitavo texto da série Autorais Laura de Mello e Souza, publicamos dois trechos do seu livro mais recente O Jardim das Hespérides. Minas e as visões do mundo natural no século XVIII (2022): a introdução, “Rumo ao Jardim”, e o capítulo dois, “A dimensão trágica”.

Em um admirável esforço de reconstrução da atmosfera mental das Minas setecentistas, nos textos a seguir a autora analisa a participação do mundo natural na formação sociocultural da capitania. Entre fantasias paradisíacas e o medo do desconhecido, entre a exploração predatória e a riqueza que dela resulta, seu trabalho revela como a relação – profundamente contraditória, e talvez mesmo dialética – entre o avanço da colonização e a devastação da natureza, foi percebida precocemente na nossa história. Publicado pouco depois dos desastres de Mariana e Brumadinho, e num contexto de expansão das fronteiras agrícolas, os textos nos convidam a refletir sobre a maneira como a tragédia foi sendo incorporada ao nosso próprio sentido de progresso.

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Rumo ao Jardim

Por Laura de Mello e Souza (USP)

Escrito pela primeira vez entre 1989 e 1994, este trabalho teve até agora versões sem conta. Inicialmente, elas não ultrapassavam umas vinte páginas, e foram apresentadas numa das efemérides em torno do bicentenário da Inconfidência Mineira, na Escola de Minas de Ouro Preto. Nos anos seguintes, e até 1994, as versões se sucederam em virtude dos cursos de pós-graduação em que as apresentei, a cada ano maiores e mais detalhadas, porque continuava a me interessar pelo assunto, lendo a bibliografia e colecionando referências documentais. Quando pensava em publicar o trabalho, havia o dilema do tamanho: grande demais para ser artigo, muito pequeno para ser livro.

Outros trabalhos ocuparam o lugar deste, publicaram-se, a vida correu. Fui me convencendo de que o texto não tinha futuro, não interessava após tantos livros bons e importantes publicados nas últimas décadas sobre Minas Gerais na época colonial. Em 2014 aposentei-me na minha universidade de origem, a USP, comecei nova carreira e atravessei o oceano com uma versão do texto na bagagem, em papel. Um dia, não me lembro se em 2016 ou mesmo depois, assistindo a um belo seminário sobre a Transamazônica numa das sessões promovidas pela Association pour la Recherche sur le Brésil en Europe (Arbre), tive saudade do meu velho texto, e falei dele a Antoine Acker, um dos expositores da tarde, jovem amigo especialista em história ambiental. Antoine teve curiosidade em espiá-lo, e eu o acabei enviando após me desculpar de antemão pelo tanto que o conteúdo envelhecera. Dias depois, ele me escreveu sugerindo que eu o publicasse, passando-me generosamente várias referências recentes sobre o assunto.

Não houve tempo nem energia para dar conta de tudo, mas o pouco que li me conduziu de volta ao tema e ressuscitou o interesse por ele. Apresentei o velho texto mais três vezes, como para me certificar se de fato valeria a pena o investimento: no meu seminário da Sorbonne, no que dirijo com colegas da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) e no grupo de trabalho que Gregorio Salinero, de Paris-Panthéon, reúne anualmente na Villa Finaly, em Florença. Ante a boa receptividade, decidi-me por tirá-lo da gaveta, reescrevê-lo e atualizá-lo no que fosse possível.

Ao longo desses anos, o texto foi meticulosamente construído sobre uma quantidade considerável de fontes primárias, das quais muitas vezes tomei não apenas as expressões, transcrevendo-as, como também o ritmo e a estrutura da narrativa, que parafraseei. Quis, assim, transmitir a atmosfera mental dos sujeitos históricos que registraram suas concepções acerca do meio natural, enfatizando sobretudo as sensibilidades e as emoções, dividindo-as em quatro blocos, a bem da verdade quatro categorias que expressassem modos de apreender um mundo que se ia devassando à ocupação. Pensei-as como interligadas, interdependentes, concomitantes, e não como sequentes, apesar de as apresentar cada uma a seu tempo: procurei, em suma, trabalhar simultaneamente na diacronia e na sincronia. Há, portanto, uma opção teórica que penso ser clara, mas pouca, se alguma, discussão bibliográfica ou mais especificamente historiográfica: o tecido do texto são as fontes primárias, boa parte manuscritas, algumas inéditas até o momento em que cheguei a elas, como as que se referem à conquista do Cuieté.

Havendo deliberadamente valorizado fontes primárias, a escolha do título norteou-se, contudo, por certa passagem, a meu ver significativa, de uma das obras fundadoras da historiografia mineira, a História antiga de Minas Gerais, de Diogo de Vasconcelos (1843-1927), publicada pela primeira vez em 1904 e desde então leitura obrigatória para os estudiosos de Minas. Historiador à moda do século XIX, obcecado por documentos e fatos e imbuído da certeza de que a História constitui conhecimento científico, Diogo de Vasconcelos recorre a um mito clássico em momento estratégico do livro, ao explicar a gênese e o significado das primeiras denominações atribuídas ao território, enfatizando seu caráter específico em detrimento do mais genérico. Diz esse historiador, saudado em 1927 por Francisco Campos como “o Heródoto mineiro” (Silva, 2010): que, conforme se moviam território adentro, “os aventureiros iam denominando os principais sítios do caminho”: “Denominação geral, que se desse ao território, nenhuma houve; eis que dominações gerais também faltaram, e nem os índios demoravam-se nas regiões o tempo necessário para perpetuarem o nome de seus efêmeros reinos”[1].

De fato, só bem mais tarde a região se chamou Minas Gerais, quando a dominação – e o domínio – se estendeu sobre as particularidades, articulando-as e deixando para trás “a profunda da noite, que se tinha por eterna” e na qual se achavam mergulhados os sertões. Espalhando-se, os pequenos focos de povoamento deixaram “entreluzir os albores da madrugada, que precedeu o grande dia verdadeiro e histórico das Minas Gerais” (Vasconcelos, 1904: 64).

Nos primeiros tempos, os desses “albores”: vigoraram três denominações, identificáveis a três zonas distintas: a do sertão do Cataguá, que corria da Mantiqueira à serra da Borda do Campo, correspondente à bacia do rio Grande e “coberta de campos e matos alternados”; a seguir, a da zona dos campos, conhecida como Congonhas, correndo da serra da Borda a Itatiaia, a mais bela de todas, “coberta de campos, com pequenas falhas de mato enfezado”; por fim, vinha a do sertão do Caeté, “matos sem mistura alguma de campo” (Vasconcelos, 1904: 85).

Entre a noite do sertão, quando só indígenas povoavam o território, e o alvorecer representado pela chegada dos aventureiros – colonos brancos, ou mamelucos bem adaptados ao mundo dos colonizadores brancos –, Diogo de Vasconcelos introduz a passagem que aqui interessa, em que qualifica o sertão do Caeté: “Era o país das serranias impenetráveis, dos rios enormes, das riquezas minerais, das feras e dos monstros, uma espécie das Hespéridas antigas guardadas por dragões” (Vasconcelos, 1904: 85).

No devido tempo, voltarei à eficácia simbólica do Jardim das Hespérides no tocante ao entrecruzamento de Mito e História. Por ora, cabe apenas lembrar que constou, na Antiguidade clássica, no rol dos trabalhos de Hércules, o 12º,[2] e que tal jardim se localizava em lugar longínquo e impreciso. Nele havia uma árvore que produzia pomos de ouro e ali habitavam as Hespérides, que descendiam de Atlas. Para garantir que ninguém tocasse nos frutos, os deuses haviam confiado a guarda do horto a uma serpente ou dragão, o monstro variando conforme as versões. Hércules, herói civilizador, conseguiu driblar os obstáculos, matar a fera e, cumprindo a determinação principal imposta pelo trabalho, colher os pomos e levá-los ao rei Euristeu. O espaço fechado e mítico do jardim foi assim incorporado ao espaço helênico, e a civilização levou a melhor sobre a barbárie.

O assunto que escolhi e a maneira como o abordei partem de concepções que se avizinham da esfera mítica. É este o caso da tradição muito antiga em torno da existência de um paraíso terrestre que o avanço da ação humana empurra para espaços mais distantes ou indevassados, e, de certa forma, também aquela segundo a qual a natureza virgem e ainda incontrolável é hostil, ameaçadora e trágica, condição à qual fora reduzida pela queda de nossos primeiros pais. Uma vez que a mão humana a toca e transforma, subjuga-a e a controla por meio da ação sistemática e racional, adentra-se, contudo, no âmbito da História, estreita-se o vínculo entre aqueles que ultrapassaram os limites impostos pelo mundo selvagem e o produto do seu esforço, a natureza sendo afinal transformada em horto ou jardim. O afeto é a expressão do vínculo assim estabelecido, e o amor pela natureza sublima a catástrofe da queda inicial.

Entre o Mito e a História, este trabalho percorre quatro dimensões que pontuaram a ocupação do território de Minas Gerais no século XVIII: a mítica, a trágica, a prática, a afetiva. Por meio de caminhos que talvez nem sempre se mostrem evidentes, procura inclusive contribuir – sem que seja este o objetivo principal – à compreensão do papel que as sensibilidades e o imaginário possam ter desempenhado na constituição de uma nova forma com que os luso-brasileiros das Minas passaram a ver a ação política.

O devassamento do jardim mítico dos inícios possibilitou o amor da pátria, entendido no sentido que lhe dava o século XVIII: o de espaço local. Amor de poucos, e para poucos, é preciso lembrar, mesmo que, por enquanto, tal aspecto deva ser deixado de lado, cabendo ressaltar o fato de nunca ter desaparecido do horizonte o mito dos primórdios paradisíacos.

A nostalgia dos primórdios míticos encontra-se surpreendentemente viva nos dias que correm. Como se pôde chegar à destruição presente? Por que se permitiu incúria e imprevidência tamanhas? A produção mais recente sobre história ambiental sugere que a consciência da catástrofe nunca deixou de andar ao lado do devassamento da natureza. Sobrevivência e catástrofe, mitificação e tragédia, devaneio e senso prático estiveram juntos na forma de lidar com as dádivas e os óbices apresentados pelo mundo natural, e os homens, ontem e hoje, sempre souberam que era assim. Questões difíceis de entender, mas que é preciso enfrentar.

A dimensão trágica

Dizia comigo: respeitosas e soberbas montanhas, de que modo vos levantastes tanto sobre a superfície da terra?
– José Vieira Couto

Apesar dos cumes cintilantes, da miragem das montanhas de ouro, da vertigem do metal fácil que brotava à flor da terra e quase saltava fora dos córregos, ou ainda das maravilhas curativas que aplacavam as doenças, dos sítios misteriosos que traziam impressa a marca de Deus, e apesar das pastagens férteis, da abundância das frutas, do variado dos animais, múltiplos medos assombravam o entrante do sertão, paralisando-o no meio da jornada e, não raro, fazendo-o retroceder.

A percepção trágica da natureza mineira também remonta aos primeiros tempos, quando começou a se constituir o espaço interno da capitania. A atestá-la, tem-se mais uma vez o Códice Costa Matoso, pródigo em relatos assustadores. Quando Bartolomeu Bueno enveredou pelas paragens da Casa da Casca, povoadas “de bravos e orgulhosíssimos gentios”, constatou como era aquele sertão “agro e falto de víveres silvestres, por serem tudo matos, e aspérrimas brenhas, e falto do mais favorável gênero de caças, como veados, antas, emas, porcos-monteses, e mais gêneros de animais, e mel silvestre”. As peculiaridades da natureza local nortearam então o devassamento: os sertanistas deixaram para trás os “matos incultos”, “montanhosos e penhascosos” e, na nostalgia dos campos gerais, onde tudo era mais fácil, rumaram com a tropa para a parte do rio das Velhas, que lhes permitia avançar em montaria.

Os documentos sugerem ter sido sobretudo o aspecto montanhoso do terreno o que mais dificultou o acesso inicial às Minas e, consequentemente, mais amedrontou os sertanistas. Para o bandeirante que vinha do litoral, havia que vencer duas consideráveis muralhas naturais: a serra do Mar e, a seguir, a serra da Mantiqueira, esta composta de massas graníticas acinzentadas e limpas da vegetação, que se acumulava nos declives, nos grotões, nos vales secundários. Uma vez transpostas as duas serras, descortinava-se o terreno suave dos campos ondulados, cobertos de vegetação rala – campos de Congonhas, campos de Cataguases –, e os matos densos sem mistura de campos, que ficaram conhecidos como sertão do Caeté[3]. Penetrando-se no coração do planalto, entretanto, dava-se com nova sucessão de escarpas impressionantes, rochas folheadas de fácil desagregação que se apresentavam como esgravatadas por unhas gigantescas: a serra do Espinhaço, também chamada de série de Minas, geralmente aurífera (cf. Latif, [s.d.]: 71-72). Foi ali que Diogo de Vasconcelos localizou o seu Jardim das Hespérides. Mais para dentro, descobrir-se-ia depois a região dos diamantes, onde, nas palavras de um natural do Distrito Diamantino[4], o mineralogista Vieira Couto, a terra pasmosamente se ouriçava “em serras de pura penedia, que se dirigem confusamente para todos os lados, e sem ordem”: Vale a pena ceder-lhe a palavra:

O céu se mostra retalhado por entre fendas de serranias, umas que vão às nuvens, outras mais baixas; umas vistas de perto e sobre as cabeças, negras e respeitosas; outras ao longe mostrando uma cumeada desigual, esfarrapada e toda azulada: por toda a parte se descobre uma superfície negra e ferrenha, exceto pequenas e estreitas tiras de verdes campos, ou de alva areia, que se metem entre uma e outra serra, e que desta maneira admiravelmente servem de variados matizes a este particular terreno (Couto, 1905: 128).

Era este o espaço das Minas Gerais: cercado pelas impressionantes cadeias montanhosas, conservou-se, por muito tempo, secretamente ameaçador (Vasconcelos, 1904: 85)[5]. Nele, caminhava-se espremido entre a escarpa e o desfiladeiro, “por entre feixos [sic] de morros e penhascos”: não podendo um cavaleiro “dar passo para um lado, ou outro, que não seja com perigo de despenhar-se aos abismos”. A descida das serras causava horror, e o viandante adiantado já na empresa receava olhar para os companheiros que vinham atrás, em tortuosa enfiada, “todos de pé e com os cavalos pela arreata, que parecia nos ficavam a prumo sobre nossas cabeças, e que se despregavam por instantes, e rolavam por aqueles despenhados”[6]. Sobre o acidentado do relevo, Vieira Couto (1905: 99) diria ainda: “Começamos a marchar por terra montanhosa, e a estrada se dirigia sempre pelos mais altos picos dos montes, de maneira que em partes causava horror, olhando o cavaleiro para profundos despenhadeiros a um e outro lado aos pés de seu cavalo”. Por causa dessa topografia, as cachoeiras se arremessavam, barulhentas, nas gargantas escuras, e as águas frias corriam entre penhas cavernosas, assombradas de “altíssimos montes, matos e arvoredos”.

Por muito tempo, as cadeias montanhosas das Minas atemorizariam os entrantes, invocando concepções milenares que associavam o relevo vertical à morada de seres fantásticos, benfazejos ou malignos. Do Olimpo dos gregos ao Jardim das Hespérides, ou aos Alpes que, na Roma antiga, delimitavam uma das fronteiras entre civilização e barbárie, as montanhas, ou o que se chamou de “sentimento da verticalidade”, impuseram-se com força ao espírito dos europeus na época do Renascimento, quando, não por acaso, a pintura de paisagem ganhou autonomia (Gal, 2018)[7]. As montanhas seguiram excitando imaginações, e os poetas mineiros do fim do século XVIII, notadamente Cláudio Manuel da Costa, foram também poetas da montanha e dos sentimentos ambíguos e contraditórios despertados por ela, misto de terror e reverência ante o mistério da Criação. Vencer cadeias montanhosas identificou-se desde muito cedo, no imaginário europeu, à passagem entre dois espaços diversos, as perdas do que ficava para trás podendo não ser compensadas pelas eventuais conquistas que se fizessem logo adiante. Para fustigar a ânsia pelo ganho fácil generalizada entre os especuladores dos primeiros tempos das Minas, o jesuíta Antonil escolheu a imagem da montanha enquanto marco entre um espaço onde o senso moral ainda vigorava e outro no qual fora abandonado: “E daí vem o dizerem que todo o que passou a serra da Mantiqueira aí deixou dependurada ou sepultada a consciência” (Antonil, 1965: 422)[8].

Montanhas influíam no clima: nas alturas da serra, ele era inclemente, castigando também o físico dos homens. O frio só permitia que se minerasse nas águas do ribeirão do Carmo entre as dez horas da manhã e as três da tarde; qualificava a geografia, nomeando-a – Serro do Frio, por exemplo – e lembrando aos homens que eram frigidíssimos os ventos que percutiam os cumes. A atração acabava suplantando o medo dos perigos e moldando aventureiros, fixados pela tradição com os traços míticos dos heróis: mistos de Hércules e Prometeu, cabia-lhes impor a cultura sobre a natureza bruta, “descamando os montes, minerando penhascos, e cortejando o coração da terra para haver os seus haveres”. Era assim que, uma vez vencidas as cachoeiras “com grandes perigos, e trabalhos”, reconhecia-se nos labirintos perigosos “capacidades de produzir ouro”.

Por trás do fascínio, persistia, contudo, a adversidade, o embate entre homem e natureza se fazendo a poder de “perigos, fomes, sedes e trabalhos”. A agricultura, ainda incipiente, não dava conta de atender às necessidades das levas que cada vez acorriam mais numerosas à capitania. Nos primeiros tempos, o sertão conseguiu prover ao sustento dos adventícios: além do mel, frutos e raízes do mato que se colhiam facilmente, a caça e a pesca abundantes forneceram peixes, mamíferos e pássaros variados, e até “cobras, lagartos, formigas e uns sapinhos que dão pelas árvores”[9]. Conforme a população se adensou, multiplicaram-se os relatos sobre as grandes fomes dos primeiros tempos (1697-1698 e 1700-1701), testemunhando de forma dramática o desequilíbrio entre o número dos homens e as potencialidades dos recursos naturais, campos e montanhas mostrando-se logo “estéreis de caças, e víveres silvestres, que o muito povo, que por todas as partes penetrava, tinha destruído, e consumido”. Houve sertanista que voltou às pressas para São Paulo, e repetiam-se os incidentes a atestar, como diz o documento, que “a fome não tem lei”: “Houve tal que matou ao seu companheiro por lhe tomar com a sua tenaz de pau uma pipoca de milho, que do seu borralho saltou para o do outro, dos poucos grãos, que cada um tinha, para alimentar a vida naquele dia”[10].

A fome parece ter castigado sobretudo as expedições que retornavam do sertão, ansiosas em ganhar o povoado de origem. Como diz um historiador, “o retorno exigia o cálculo experimentado que relacionasse, na prática, as provisões que restavam, o tempo da jornada, o roteiro do trajeto (com alguma escolha dos pousos) e o número de bandeiristas” (Andrade, 2008: 208). E em tempos de roteiros muitas vezes vagos e imprecisos, quando não transmitidos oralmente, havia sempre o risco de se enganar de caminho, como aconteceu à tropa do Anhanguera, perdida numa grande chapada “sem matos nem mantimentos”, mais de quarenta pessoas, entre brancos e negros, perecendo desfalecidos de inanição (Kok, 2005: 86).

O clima da capitania representava outro desafio. Ainda no primeiro quartel do século XVIII, o governador d. Pedro de Almeida, conde de Assumar (1717-1721), a ele atribuiu, numa passagem tornada célebre, o espírito revoltoso dos mineiros:

Os dias nunca amanhecem serenos, o ar é um nublado perpétuo; tudo é frio naquele país, menos o vício, que está ardendo sempre. […] A terra parece que evapora tumultos, a água exala motins, o ouro toca desaforos, destilam liberdades os ares, vomitam insolências as nuvens, influem desordens os astros, o clima é tumba da paz e berço da rebelião, a natureza anda inquieta consigo, e amotinada lá por dentro, é como no inferno.

Homem culto, d. Pedro de Almeida devia conhecer as concepções correntes na Europa desde pelo menos o Renascimento, e que desqualificavam os relevos acidentados assim como os seres que neles viviam: animais ferozes, como os ursos, ou monstros, como os dragões. No Livro Quinto de sua República, Jean Bodin (1530-1596) – um dos expoentes da filosofia e do pensamento político do século XVI – via a rudeza e a agressividade como componentes comuns a todos os povos montanheses do globo terrestre. Pior ainda, tais povos amavam “singularmente” a liberdade popular, como era o caso de suíços, grisões, marroquinos, árabes, todos vivendo na maior liberdade com relação a seus senhores (Bodin, 1576: 538-539 apud Gal, 2018: 97-98). Claro está que, para um dos teóricos da monarquia moderna, esses povos não mostravam particular apreço pelo regime monárquico, e representavam perigo evidente, razão pela qual o conde de Assumar deveria tê-lo em boa conta, já que viveu às voltas com o temor de sublevação durante todo o período de seu governo.

Os motins, diz mais adiante d. Pedro de Almeida, eram naturais nas Minas, sendo “propriedade e virtude do ouro tornar inquietos, e buliçosos os ânimos dos que habitam as terras, onde ele se cria”. “Desgraçado clima, abomináveis Minas, em que a lealdade é venável, e a mais pura fé anda em balanças!”, vociferava ainda Assumar[11]. Depois dele, outros viram na geografia mineira uma geografia de vícios, como o bispo d. Frei Manuel da Cruz, que, em 1757, escrevia no seu Relatório à Sé romana:

O território desta região aurífera a nenhum outro inferior na incontável multidão de habitantes e adventícios, sobrepuja as maiores cidades do orbe na torpeza diversificada dos vícios. Porquanto estende-se longe com enorme multidão de indivíduos nele dispersos e projeta-se para o alto, mais que as outras, com vértices de montes muito elevados, alicia os habitantes para os campos demasiado amplos dos vícios, precipita-os no abismo bastante profundo da ambição, atrai os mineiros para o incitamento do mal, a saber, a extração do ouro[12].

A inconstância do clima podia também se manifestar no capricho das águas violentas. A Vila do Ribeirão do Carmo sofreu muito com as cheias sistemáticas que, em decorrência dos trabalhos de mineração realizados nas margens do rio que lhe dava o nome, arrebentavam-lhe as pontes e as construções. Desde 1737, a catástrofe se repetia ano a ano, e quando a aglomeração foi escolhida para sediar o novo bispado que em 1745 se criou nas Minas, houve grita e protesto geral nas demais localidades. O próprio governador se uniu ao coro, invocando a aparência arruinada da vila, a precariedade da igreja, prestes a desmoronar, e sugerindo que, longe do rio, se construísse uma cidade nova (Fonseca, 2004; Capanema, 2013: 126-165).

Ainda em 1745, dois capitães de ordenança da localidade se dirigiam ao rei propondo alternativas para sanar o problema e instando que os poderes públicos dessem uma solução ao flagelo que o ribeirão do Carmo impunha aos moradores. Alegavam que o próprio estatuto recente se via ameaçado, e que a cidade de Mariana arriscava voltar a ser vila: “com o arrojo de suas águas”, as cheias do ribeiro iam “pondo aquela cidade nos termos de em mais breves anos vir a perder o feliz nome a que Vossa Majestade, por sua real grandeza, quis exaltar a Vila do Carmo, como cidade [de] Mariana”[13].

Pouco depois, em 1746, uma cheia terrível destroçou Sabará, e a tradição perpetuou-a nas memórias até que, em 1807, sobreveio outra pior. A força das águas arrastou, desde as cabeceiras, fragmentos de casas e pontes construídas nas margens do rio das Velhas, inundando os bairros mais baixos, prejudicando edifícios, “e derramou tal susto na população, enquanto uns salvavam-se a nado, outros pelos telhados, e alguns em gamelas, que só se ouviam gritos de consternação”. O ouvidor-geral da comarca e a câmara da vila cuidaram da salvação pública, “reunindo canoas que substituíssem as pontes, provendo à reparação das casas prejudicadas, e excitando a filantropia dos fazendeiros para abastecerem o mercado”. O rio Paraopeba também encheu. Como em sua margem ocidental ficava um dos principais celeiros da comarca, houve falta e carestia de gêneros, mesmo porque carros e tropas deixaram de circular durante oito dias. Pelas ruas e praças de Sabará, viam-se “magotes de mulheres velhas, meninos e inválidos mendigando a farinha para o dia”[14].

As chuvas fustigavam os núcleos urbanos, desbarrancavam as margens dos córregos, muitas vezes punham abaixo as precárias casas de adobe. Maior ainda deveria ser o castigo que infligiam às paragens remotas, onde as choupanas haviam se tornado indispensáveis “para servirem de reparo à inclemência do tempo”, como as que os entrantes da expedição de Pamplona construíram ao pé da serra da Marcela, num capão denominado Cabeceiras de Santo Estêvão[15]. Narra certo documento que, quando nas lonjuras cerrava-se “uma desconversável noite” e a escuridão se fazia “medonha”, quebrada apenas pelos relâmpagos a rasgarem as nuvens “com estampidos horrendos”, os abrigos toscos se mostravam precários: “Cabeceavam as árvores, ameaçando esgalharem-se sobre nossas choupanas; veio a chuva e aturou quase até ao amanhecer” (Couto, 1905: 108-109).

Nos matos e descampados, chuvaradas podiam ser fatais ao viandante. Em 1770, suspeitou-se inicialmente que a morte de Antônio Vieira de Sampaio, “violenta e de propósito”, se tivesse devido à ação de malfeitores; logo em seguida, contudo, os indícios passaram a apontar que ocorrera “por desastre em grande tempestade de chuva”. O falecido ia seguindo certo caminho quando caíra “em um fundão esbarrancado, que nele há, porque no mesmo foi achado o cavalo em que vinha montado, e uma véstia, e camisa que trazia”. Mais abaixo, numa prainha, encontraram o cadáver semienterrado na lama e na areia, e segundo a devassa ex officio a que se procedeu, a violência do sucedido deveria ser creditada à inclemência do tempo: quando a chuva era forte, corria pelo barranco “em grande abundância até a praia em que foi achado o corpo, que pela mesma seria conduzido até o dito lugar”[16].

No tempo das águas, evitava-se entrar para os matos, quando as “passagens dos rios caudalosos” acarretavam perigo de vida para os viajantes. As chuvas faziam transbordar os rios e tornavam penosíssimas as jornadas. No início de fevereiro de 1769, mês em que as águas costumavam castigar sem trégua – como ocorre ainda hoje – a região das Minas Gerais, o soldado José Baracho da Silva Encerrabodes chegou à Intendência dos Diamantes da Vila do Príncipe “muito maltratado da viagem”. No caminho, afrouxara o cavalo d’el-rei em que vinha montado, e tivera muito trabalho em obter novo animal devido às “extraordinárias inundações dos rios, e corgos” que impediam as passagens. Após algum tempo, conseguiu um cavalo alheio, mas logo teve a infelicidade de com ele despencar “em tal buraco, ou barranco, que lhe fez a arma em pedaços, maltratou-lhe o corpo, e em um braço, em termos que fica de cama curando-se, e impedido de poder voltar”[17].

Quando distavam cerca de uma légua do rio Parauninha, Vieira Couto e seus companheiros foram fustigados por uma “grande bátega d’água”, enquanto “grandes torreões de nuvens” corriam pelo céu. Apertaram o passo, temerosos que o rio enchesse devido às “águas que de todas as partes se despenhavam da serra”. Entretanto, a tempestade precipitou o fim do dia, e os homens foram surpreendidos pela escuridão, terrível também porque haviam deixado as campinas e os descobertos e entrado nas “espessas matas que bordejavam o rio”. Sob o impacto das águas, o caminho desaparecera: “Então, acendemos bugias, e cada um com a sua, tanto os de pé como os de cavalo, todos com luzes, que brilhavam com a escuridão e formavam um fúnebre espetáculo, marchando em uma longa enfiada, vadeamos o rio, que vinha já grosso e espumando” (Couto, 1905: 126).

Mesmo fora da estação chuvosa, os rios eram obstáculos difíceis de transpor. Na época da expedição de Inácio Correia Pamplona pelos sertões do Bambuí e picadas de Goiás, demorava-se seis dias para atravessar o São Francisco: as pessoas seguiam de canoa, mas iam a nado as bestas, a roupa, os trens. A travessia do rio das Onze Mil Virgens afigurava-se igualmente trabalhosa “pelo custo dos barrancos que se abriram” e por serem as margens enlameadas, os animais patinando e atolando nelas até a barriga[18].

As pontes representavam tentativas de vencer essas dificuldades, mas sua construção também não se fazia sem pena: “Eu bem conheço que a empresa é dificultosa, por ser este o rio mais largo, violento, e de mais altivas margens que tem todo este sertão; e não me falta receio de que os altos rochedos, de que as mesmas margens são compostas, possam impedir-me o efeito desta diligência, porém não tenho remédio, senão fazer-lha [sic]”, dizia Pamplona, procurando dessa forma contornar os incômodos trazidos pelas investidas dos quilombolas, que furtavam as canoas amarradas ao longo do rio São Francisco e as soltavam correnteza abaixo[19]. Sua expedição chegou dispersa à margem do rio, todos a pé, as bestas, cavalaria e cargas ficando espalhadas pelos matos por “não poderem romper a oposição de vários corgos, matos e atoleiros”[20].

Pontes construídas não significavam, entretanto, ausência de perigo. Mesmo na passagem de uma pequena ponte podia ocorrer de despencarem cavalo e cavaleiro, como aconteceu ao capitão Manuel Moniz da Costa quando, indo para o rio do Peixe a fim de expedir para o povoado de Antônio Dias Abaixo os mantimentos que, a seguir, rumariam para o Cuieté, acabou “sem sentidos bem maltratado, lançando sangue pela boca e narizes, e pisado em várias partes do corpo, principalmente em um braço e em um quadril”[21]. Da ponte que Pamplona construiu sobre o rio caíram pelo menos dois dos homens de sua expedição: um “bom preto”, que teve a coxa atravessada até o osso por um pau pontiagudo, e o mestre de obras, que despencou toda a altura dela, ficando ensanguentado, arranhado e amortecido[22]. Sem que ocorressem maiores incidentes, Vieira Couto também registrou o perigo apresentado à sua expedição pelas pontes: “Pouco adiante passamos o Lambari em uma má ponte de madeira, cuja passagem metia pavor tanto por correr o rio muito morto, como pela cor parda e barrenta de suas águas” (Couto, 1905: 92).

Nada podiam as pontes contra as corredeiras, contra as águas que, em certos rios, se arremessavam violentas. São frequentes, nos documentos, as alusões à dificuldade interposta pelas cachoeiras. Para se atingir determinados lugares recônditos, como o peão do Cuieté, havia, por volta de 1770, que “subir por cachoeiras e varadouros de lagoas”[23]. Até o presídio, a navegação do perigoso rio Doce e adjacências era “tão penosa que por causa das cachoeiras se não podia fazer esta viagem em menos de vinte dias no tempo da seca, e um mês e mais no das águas”[24]. Os mantimentos que seguiam de Antônio Dias Abaixo com destino ao Cuieté enfrentavam verdadeira odisseia, “sendo obrigados os condutores a transportar-se pelo rio Doce passando as canoas e as cargas às costas por causa das imensas cachoeiras que os obrigava a este trabalho”[25].

Além do relevo, do clima frio e enevoado, das chuvas fortes e dos rios difíceis de vadear, havia o sertão. “Certão sem cultura the o mar”, registrava ainda no último quartel do século XVIII um dos mapas atribuídos a José Joaquim da Rocha, que, procurando delimitar os confins da capitania a nordeste, perdia-se justamente na ausência dos limites, ou no desconhecimento deles, curvando-se ante a vastidão[26]. Sertão áspero, falto de víveres, abundante tão somente de palmitos, que logo escasseavam, ou de carauatãs amargosos que nasciam pelas serras e pedras, bons apenas para os nativos que, desde a sua criação, estavam habituados a comê-los[27]. Sertão trabalhoso e invasivo, que atrapalhava a cada passo a caminhada, oferecendo a vegetação densa como anteparo natural à ação das facas e facões que tentavam abrir picadas, crescendo por sobre a cultura de milho, impedindo-o de lançar espigas, frustrando a rama de algodão, impondo a mamona, aceitando, quando muito, a mandioca[28]. Sertão traiçoeiro e imprevisto, os capões de mato encobrindo a fumaça que subia dos quilombos de negros fugidos, as brenhas servindo de esconderijo aos “índios bravos” que espreitavam os entrantes desnorteados.

Ao dar as coordenadas para que Antônio Cardoso de Souza conquistasse os indígenas da região do rio Doce, assim dizia o conde de Valadares: “Todo o cuidado e vigilância pelos agrestes matos e montes que for penetrando se faz desnecessário advertir ao dito capitão, pois como prático nestas, e semelhantes conquistas, há de saber prevenir-se, para qualquer acometimento que lhe façam os índios inopinadamente”[29]. Sertão pestilento, infestado de febres que, na época de José Joaquim da Rocha, ainda matavam nas cercanias do Vupabuçu. Para evitá-las, aconselhava-se entrar para os matos apenas nos meses de seca: de setembro a maio, era grande o risco de doença (Rocha, 1897: 430)[30].

Sertão era espaço e conceito múltiplos, conforme procurou explicar, no primeiro quartel do século XIX, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire. Não indicava divisão política do território, mas sim aquela, vaga e convencional, “determinada pela natureza particular do país e sobretudo pela debilidade da população”. Nas Minas, compreendia a bacia do São Francisco e seus afluentes, estendendo-se das imediações da serra da Mantiqueira aos limites ocidentais da capitania, abraçando, ao sul, pequena parte da comarca do Rio das Mortes e avançando a leste por sobre extensa porção das comarcas de Sabará e Serro do Frio para, a oeste, englobar toda a comarca de Paracatu, situada a ocidente do São Francisco. Sertão era, assim, quase a metade de Minas, mas não se limitava a essa região e avançava por sobre a Bahia, Pernambuco e Goiás, que o naturalista qualificou, então, de “imenso deserto”. Sensível ao caráter multiforme dessa figura geográfica, acrescentou que talvez todas as províncias do Brasil tivessem seu sertão particular, sempre constituído por sua parte mais deserta. Nas Minas, como na Bahia e em Pernambuco, eram quase sempre regiões descampadas, mas no Espírito Santo cobriam-no florestas fechadas. Mais ainda: o sertão de uma só província podia variar, ora formado por campos, ora por florestas desabitadas (Saint-Hilaire, 1830: 299-301, v. 2)[31].

Todos os documentos coevos expressaram igual sentimento de imprecisão e fluidez ante essa personagem geográfica. “No sertão, tudo são dúvidas”, diria Inácio Correia Pamplona em carta escrita ao governador conde de Valadares a 15 de novembro de 1769, quando devassava o sertão do Bambuí e picadas de Goiás com uma expedição de contornos bélicos: cerca de dez cavaleiros, 58 escravos, “armas de espingarda, clavinas, facões, patronas, pólvora, chumbo, bala”, oito músicos munidos de violas, rebecas, trompas, flautas, dois tambores que iam batendo as caixas cobertas de encerado conforme avançava a tropa, e mais as bestas de carga, 52 ao todo, muitas das quais chegaram a arriar no caminho sob o peso demasiado dos “comestivos e bebidas de várias qualidades, tanto da terra como do Reino”, sem falar da “bem preparada e sortida botica”[32].

Menos de vinte anos antes da Inconfidência, portanto, o sertão continuava inóspito, ameaçador, inculto. Na voz anônima de um mau poeta da roça, esse mesmo sertão saudou, personificado, a função “civilizadora” de Pamplona, que o redimia:

Temos até agora padecido
Um desprezo total da gente humana
Experimentando das feras o bramido
Em uma soledade tão tirana.
Mudem nossas mágoas de sentido
Que uma porse [sic] real nos desengana
Que vem o filho do sol como regente
Ser guarda-mor deste continente[33].

Já quase entrado o novo século, o pavor do sertão persistia, reeditado nas situações de fronteira. Para enfrentá-lo, Vieira Couto recomendava “grandes cautelas”, pois, infestado de indígenas e de negros fugidos, era aspérrimo: saco às costas, subindo e descendo serras enormes, os entrantes teriam ainda que sofrer a falta de alimentos: “A fome seria cruel, porquanto nem caça havia” (Couto, 1905: 102).

Indevassável e terrível, o sertão era, para o homem branco, realidade estranha a ser aprendida, impunha o recurso a guias práticos, mas também exigia mapas e roteiros, muitos dos que chegaram até hoje datando das primeiras décadas do século XVIII, o mais das vezes precariamente desenhados ou esboçados por aqueles que, useiros de percorrerem o território, conheciam-no mais que todos: bandeirantes, militares, mineradores (Santos, 2017: 378-379)[34]. Mesmo assim, rusticamente cartografado, o sertão pregava peças, fechava-se sobre si, rechaçava o invasor, vomitando-o para o “mundo civilizado” ou triturando-o no emaranhado de árvores cerradas e cipós. O guia da entrada de Inácio Correia Pamplona pouco podia contra a indecifrabilidade do sertão: “Simão Roiz, que era o nosso guia, era guia errante, pois quanto mais andava, mais se perdia”. Mesmo sendo homem habituado a percorrer os matos, Pamplona nem por isso deixou de se perder quando, ao terminar os trabalhos da roça, saiu sozinho, num fim de tarde, ao encalço de um veado. Só apareceu alta madrugada, suscitando grandes comemorações por parte dos companheiros e inspirando novos versos bajulatórios e medíocres:

Magnânimo herói, altivo coração;
Sempre impávido, forte e arrojado,
Que seguindo as pisadas de um veado,
Vos perdestes no meio de um sertão[35].

Nesses espaços de “asperezas”, “ermos desconhecidos” e “mal sadios céus”, os guias muitas vezes se prevaleciam de sua superioridade, ampliando a fealdade do mundo desconhecido[36]. Enfrentar a vegetação cerrada não era para qualquer um. “Pouco ou nada podem praticar aqueles que, sem a criação dos matos, nele querem mostrar-se valorosos”, escrevia em 1770 João da Silva Pereira de Sousa num relatório sobre a conquista do Cuieté[37]. Antônio Cardoso de Souza fora um desses homens que, apesar de aparentar desembaraço e ter experiência em entradas, acabara vagando pelos matos, provocando, com seu fiasco, a irritação do governador Luís Diogo Lobo da Silva:

Recebo a carta de Vossa Mercê, e me admiro que, sendo mateiro de profissão, perdesse o tino de sorte que não só se apartasse do sítio, a que se destinava, mas se visse obrigado a andar errante pelos matos tão dilatado tempo, e se não acompanhasse, para evitar este inconveniente, de uma agulha que lhe mostrasse o rumo certo; é que quem muito promete, pouco faz, sendo de admirar que já Vossa Mercê não possa valer-se das produções do mato para o sustento, como constantemente asseverava[38].

Sem familiaridade com o mato, não havia como enfrentar o indígena, pois sua “formalidade” se compunha de “ciladas e cercos em horas competentes”, verdadeiro saber indiciário que lhe permitia andar pelas brenhas e se valer delas na guerra contra o branco (cf. Ginzburg, 1988)[39]. Conhecer o mato, orientar-se dentro dele por meio dos rastros deixados no chão ou dos galhos quebrados na passagem do caminhante exigia sentidos acurados e permitia subjugar o “gentio feroz”, reduzir-lhe a “natureza bruta” ao “mundo ordenado” da cultura branca[40]. Constituía, em última instância, uma forma específica de conhecimento que acabaria caracterizando certas atividades bélicas dos coloniais, como aliás ocorrera, cento e tantos anos antes, na Guerra Brasílica que os luso-brasileiros do Nordeste encetaram contra os batavos[41]. Companhias de homens pardos, como a que se intentou formar no distrito do Papagaio em 1770, eram consideradas adequadas às condições ecológicas das Minas por serem seus membros “ligeiros dos pés e destros para os matos”[42]. O sertão acabava assim por influir no homem, imprimindo-lhe força nova, estranha e diversa da metropolitana: “Fico aprontando algumas pessoas de campanha que há nesta Praça, que mando conduzir para São João del-Rei”, escrevia d. Antônio de Noronha ao vice-rei marquês do Lavradio em maio de 1777, quando parecia iminente o avanço castelhano sobre o Rio de Janeiro e, em seguida, sobre as Minas Gerais. E acrescentava: “as quais me poderão ser úteis para disputar aos castelhanos as passagens dos rios, e dos sítios mais apertados, que é a única guerra que poderei fazer sem tropa paga, e só com os auxiliares e paisanos”[43].

Apesar de influir na formação de mateiros aptos, a aspereza das caminhadas e a dificuldade no trato do sertão podiam, por outro lado, desnaturar o homem e o irmanar às feras: as duras condições cotidianas do meio hostil e a necessidade de nele sobreviver tiravam dos homens os atributos da cultura e acentuavam os da natureza. Todos quantos procuraram ouro em regiões longínquas, ou se empenharam em levar o povoamento para os confins da capitania, queixaram-se da hostilidade do sertão, e muitos deixaram transparecer, em seus relatos, que nas fronteiras geográficas baralhavam-se igualmente os limites entre homens e bichos[44]. Em 1768, os entrantes que mineravam para os lados do caminho do Rio de Janeiro enviaram requerimento ao governador pedindo maior flexibilidade da Coroa ante os descobertos naquelas partes e invocando, como argumento, os “muitos grandes riscos” que corriam, vendo-se ameaçados de perder a vida “com gentios e onças e muitos [sic] mais qualidades de bichos que andam por aquelas paragens”[45]. A natureza áspera tornava-se moeda de troca na busca por vantagens e recompensas.

Para com os “índios mansos”, era possível manifestar-se, na época da Inconfidência, certa simpatia, presente, por exemplo, na sensibilidade etnográfica que Cláudio Manuel da Costa denota em passagens do “Vila Rica”. Mas o indígena visto como rebelde, o feroz, este só tinha equivalente entre as feras:

o escuro Cuieté, onde se abriga
O botocudo infiel, gente inimiga,
Gente fera e cruel, que o sangue bebe
Humano, e encarniçado não concebe
Zelo algum pela própria natureza (Costa, 1903: 240).

Indígenas eram considerados bichos por habitarem o sertão hostil, mas também por desconhecerem a fé católica. Na zona de fronteira, os assentamentos agrícolas e minerais dependiam do concurso indígena, da sua passividade, da adesão, enfim, ao “mundo civilizado’”. O leste da capitania sempre apresentou sérios obstáculos à ocupação, e os inventários revelam um espaço de conflito permanente, não sendo excepcional o caso do viúvo que, nas Catas Altas, perdera a mulher em 1749, morta nas mãos de indígenas. Atingido ele também por uma flechada, ficara de cama durante quatro meses, após o que abandonou o sítio onde viviam – “engenho, árvores de espinho, bananal, senzalas, paiol e casas”, tudo “deixado deserto por estar este na paragem donde costuma sair o gentio e tem feito várias mortes e insultos” (Carrara, 2007: 198-199).

Povoar o sertão em zona de “gentio bravo” implicava, portanto, risco de vida, como bem o sabiam os “moradores, povoadores e cultivadores do vasto sertão da América” que, em 1778, encaminharam uma petição a d. Maria I para que os livrasse das tributações superpostas do poder civil e do eclesiástico. Alegavam agir por utilidade própria e em benefício e extensão da monarquia portuguesa, propagando entre os “bárbaros” a fé da Santa Madre Igreja e fazendo observar as leis e decretos de Sua Majestade. Repeliam incansavelmente os assaltos dos indígenas, que por sua vez atacavam sem cessar os assentamentos, matando homens, gado, queimando roças e moradias. Com os lucros que eventualmente obtivessem da atividade econômica, os colonos viam-se obrigados a comprar “ferramentas para a cultura, e armas para a defesa do gentio, e dos tigres, onças, e outras feras que lhes matam as criações”: só assim poderiam dar continuidade à expansão interna, “descobrindo, conquistando e povoando novas colônias e campos desertos, e baldios, fazendo neles novas povoações, para benefício próprio e igualmente da Coroa[46].

Não era diferente a percepção que o colono bem estabelecido tinha do negro fugido. “A serra da Marcela […] tem sido até aqui habitação de feras, e calhambolas, o que vem a ser o mesmo”, vociferava Pamplona em 1770. Os quilombolas eram tidos também como “humana peste da República” a infeccionar o sertão e torná-lo ainda mais perigoso, sempre levantados contra os brancos de sorte a parecerem “mais cruéis e horrorosos monstros, do que homens racionais, pois a pólvora, o chumbo, a bala, a faca e o porrete são as ordinárias decisões de suas controvérsias”. Ludibriavam os entrantes, acendendo fogos em lugares onde não mais existiam quilombos, fugindo silenciosos sem deixar pista, beneficiando-se do trato familiar com os matos fechados. Na tentativa de aniquilá-los, Pamplona entrou no sertão com respeitável séquito militar: sem ele, escrevia ao governador, sua entrada seria certa, porém muito duvidosa a saída “de entre gente tão inumana”, “gado brabo, que nunca conheceu pastor”. Efetuando prisões de negros, conseguiu o mestre de campo torná-los mais humildes e pacíficos: se a violência dos indígenas e negros os equiparava às feras, a força bruta dos brancos era, ao contrário, “civilizadora”[47]… Mas algumas ações bem-sucedidas contra as “pestes da República” não eram suficientes para neutralizar as fantasias dos sertanistas acerca dos perigos dos matos e de seus habitantes “inumanos”: se as pequenas colunas destacadas para explorações preliminares retornavam ao acampamento convencidas de que “o sertão tinha mostras de ser bom, e capacidade de boas fazendas, e ainda boas formações de ouro”, davam igualmente repetidas graças a Deus “por se verem livres dos sustos, e receios que tiveram de não sair cá fora nenhum com vida, porque até certa altura é muita a negraria, e que tudo são quilombos, e de certa altura por diante, tudo gentios”. Mesmo que não dessem com eles pela frente, os entrantes temiam-nos à distância, persignando-se ante os vestígios que deixavam espalhados, no aparente intuito de mais apavorar: potes, panelas, restos de comida e de fogo.

Num sertão aberto a desmandos, os homens brancos se tornavam feras também:

No sertão são tão frequentes as mortes, e insultos, que parece se esquecem os homens da sua racional natureza para se revestirem-na de feras, que mais indômitas que estas, executam toda a qualidade de delitos sem o menor receio que os obrigue a depor a sua crueldade[48].

Na “arraia do sertão”, ali onde o controle da sociedade bem estabelecida se esgarçava, abria-se espaço para o crime e para o desvio, pois não se temia a Deus e não se acatavam as leis do Reino[49]. Foi no sertão recôndito que se agasalhou Borba Gato após assassinar d. Rodrigo de Castel Blanco, no momento em que se constituía o espaço geográfico das Minas, a lembrança do episódio tendo sido fixada por Cláudio Manuel da Costa no “Fundamento histórico” do poema “Vila Rica”:

Temeroso o Borba de que o buscassem as justiças, e que sobre a sua prisão fizesse El-Rei as maiores diligências, se meteu nos sertões do rio Doce com alguns índios domésticos da sua comitiva: aí viveu vários anos respeitado por cacique, sem mais lei ou civilidade que aquela que podia permitir uma comunicação entre bárbaros (Costa, 1903: 165, v. 2).

Houve mesmo quem afirmasse que em Minas nunca se prenderam criminosos no sertão, nem nele nunca entrou a justiça, sendo “o cauto de todos os réus tanto de crimes como de dívidas”[50]. De qualquer forma, a alusão constante aos fugitivos que se escondiam nos matos – fossem eles criminosos a caminho do Cuieté, fossem indivíduos recrutados à força para as guerras do Sul – permite tomar tais afirmações das autoridades por verdadeiras: o sertão era também o espaço da marginalidade e da desclassificação social, onde, mais uma vez, a parte bem morigerada da sociedade via se dissolverem os elementos humanos do seu contrário e, sempre apta a desqualificar, ressaltava-lhes os negativos, aproximando-os, não raro, da animalidade[51].

E os bichos? Na lonjura das zonas fronteiriças, eles perdiam os atributos naturais e ganhavam horripilante semelhança com o monstruoso. Já se disse que, nas Minas, a crença em animais fabulosos era razoável por ser toda a região rica em fósseis. No tempo de Luís da Cunha Menezes, por exemplo, encontraram-se ossadas gigantescas na comarca do Rio das Mortes, “um subterrado com quarenta e dois palmos de comprido”. O governador conservou, “por raridade”, uma canela do animal (Ribeiro, 1946: 79; Vilhena, 1922: 722).

As alusões aos animais monstruosos pontuam vários documentos da época. Em 1769, nas imediações do rio Doce, uma comitiva se deparou com certa lagoa “tão grande que parecia o próprio mar”, as ondas e marolas dificultando o avanço das canoas. Nela viviam animais monstruosos, que por alguns foram vistos em carne e osso, enquanto outros os intuíam pelos rastros deixados no chão (apud Amantino, 2008: 37). Na época de José Joaquim da Rocha, no rio São Francisco, as incontáveis e “violentas” piranhas tragavam com certa frequência os animais que acorriam para nele beber ou atravessá-lo pelo vau, “e ainda a viandantes, que sem experiência lhe[s] sucede o mesmo”. No sertão mais ocidental que conduzia a Goiás, o governador d. Antônio Rolim de Moura registrou que bastava pouco tempo para que as piranhas apanhassem um homem n’água e o reduzissem a um “mísero estado”, e advertiu sobre os males provocados ainda por outra casta de peixes, as arraias, “que com o ferrão que têm no rabo dão pancadas tão peçonhentas que aos primeiros dias se não pode parar com dores”[52]. O rio Urucuia era “medonho pela variedade de bichos, que nutre”: “jacarés de disformes grandezas”, “cobras sucuriús de demasiado comprimento e grossura”, sempre acometendo as canoas que vadeavam o rio, emborcando-as (Rocha, 1897: 514-515). A percepção que o cartógrafo Rocha tinha dos rios distantes dos núcleos povoados da capitania inscrevia-se talvez na mesma tradição que levou Cláudio Manuel da Costa a ver, nos primórdios do devassamento das Minas, águas povoadas por animais monstruosos, no caso a mesma sucuriú (sucuri). Narra o poeta que, ante os olhos perplexos dos indígenas que acompanhavam a personagem Pegado, um presumido tronco encurvava-se, estendia-se e, por fim, num ronco medonho, precipitava-se na lagoa, “[…] o seio abrindo/ Das águas, que co’a cauda vai ferindo”.

Os indígenas acorreram, reconhecendo no “tronco” a horrenda sucuriú e, prontamente, lançando-a sobre a praia e a rasgando com facas cortantes. No seu bucho, como no conto maravilhoso, encontraram-se animais inteiros:

De curioso ardor cada um se ensaia
De arrancar-lhe das entranhas tudo
Quanto a fome tragara; absorto e mudo,
Pegado está notando a maravilha.
Três veados comera, enquanto trilha
A margem da lagoa; estão inteiros
No ventre e ainda em pelo os dois primeiros.
Riem-se os índios de Pegado, e o riso
Tem ao mancebo então mais indeciso,
Vendo que novo ali não conhecera
Que é o sucuriú aquela fera,
De quem ouvido aos nacionais havia
Que um tronco na grandeza parecia (Costa, 1903: 203)[53].

Na segunda metade do século XVIII, enquanto Cláudio Manuel da Costa desentranhava animais intactos do bucho monstruoso da sucuriú, a ação predatória de um seu companheiro de conjura – que aliás foi um de seus delatores – não se inibia ante a prenhez de um animal indefeso. Ao abrir picadas pelo sertão de Goiás, Inácio Correia Pamplona deparou, na hora da refeição, com “uma corça de agigantada grandeza”. Cercou-a, no que contou com a facilidade de não poder o animal correr muito, “posto que a carreira que trazia não era demasiadamente veloz pela razão de estar prenhada, o que vendo o sr. mestre de campo, se agachou entre o capim e lhe pregou tamanho estouro na volta da pá que a virou logo; deram-lhe os mais muitos vivas e aplausos do bem que tinha empregado o seu tiro”[54]. No relato, o vulto excessivamente grande da corça faz pensar na anormalidade do monstro; mas é a ação violenta do Pamplona civilizador – um são Julião Hospitalário às avessas, porque destituído do remorso e, ao contrário, cheio de si pela ação realizada – que beira o monstruoso, mostrando como, no sertão, eram múltiplas as formas pelas quais homens se metamorfoseavam em bestas-feras[55].

Apesar do medo, dos perigos, das incertezas; da precariedade das jornadas sempre sujeitas a intempéries, imprevistos, poucos mapas e muito bicho bravo; dos criminosos de tocaia; dos indígenas sempre perto, às voltas com suas guerras e com as dos brancos; dos negros aquilombados e dispostos a resistir; das poucas patrulhas e distâncias imensas a dificultar qualquer polícia: apesar de tudo isso, havia sempre quem quisesse entrar para o sertão, vencendo montanhas e enfrentando febres caso fosse necessário.

O que levava os homens – pois naqueles tempos eram só eles que se embrenhavam no mato – a deixar mulher, filhos, casa com benfeitorias e animais domésticos no quintal para percorrer centenas ou milhares de quilômetros sem data certa para voltar? Mesmo que fossem reduzidas as oportunidades num mundo assentado sobre o trabalho escravo e com malha urbana rarefeita, para a maioria era improvável que a vida melhorasse. Os inventários de um grupo de pequenos sertanistas que passaram no sertão a maior parte da vida levam o historiador de surpresa em surpresa. Uns morriam longe de casa, sem testamento, e o inventário só era aberto anos depois, como o do capitão José Leme da Silva, pai de prole numerosa para a qual deixou somente 878$750 réis, dos quais 406$000 constituídos por escravos e 400$000 correspondendo ao valor de uma sesmaria[56]. Outros, mais abastados, deixavam fortuna que se esvaía rapidamente nas dívidas contraídas pela mulher durante o tempo em que a trocara, e aos nove filhos, pela conquista do sertão, como aconteceu ao capitão José Gonçalves Vieira, regente, nos tempos de Luís Diogo Lobo da Silva e do conde de Valadares, das conquistas de Ponte Nova e Abre Campo, pioneiro nos sertões da Casca, Pomba, Peixe e Arrepiados, algoz dos croatas e cropós[57].

Mais do que ganhos econômicos, esses profissionais do mato parecem ter perseguido o prestígio social possível de se obter em território no qual a fronteira não se atingia nunca, sempre empurrada a oeste, por sobre terra de castelhano, ou a leste, rumo às matas fechadas que bordejavam o rio Doce. Atividades diferentes no sertão levavam a modalidades distintas de enriquecimento e promoção social. Mesmo porque o sertão não era um só, mas muitos. Cada comarca tinha o seu sertão, espaço onde os moradores dela se exercitavam em feitos de serviço à Coroa ou de aventura pessoal. O sertão, para os homens de São João ou São José del-Rei, na comarca do Rio das Velhas, eram os cerrados do alto São Francisco, as picadas de Goiás, como então se chamavam; podia ser, também, as escarpas da Mantiqueira, sobretudo para os que viviam em Venda Nova, na Borda do Campo. Para os potentados de Sabará, sertão era o médio São Francisco, a zona de Paracatu, barra do rio das Velhas, São Romão. As florestas cortadas pelo rio Doce, mais ao sul, eram o sertão da comarca de Ouro Preto, mas apresentavam conexões também com a comarca do Rio das Velhas, atraindo alguns de seus homens; era ali que se localizava o lendário Cuieté, o Abre Campo, os Arrepiados. A mata do Peçanha, mais acima, era sertão para os habitantes do Serro e do Tejuco, este já na Demarcação Diamantina[58].

No esforço de revitalizar a economia da região e premiar aqueles que se empenhassem para tanto, os poderes locais e o governo de Lisboa tiveram de enfrentar os fantasmas interpostos pela geografia mítica, contornando o peso da tragédia que rondava o imaginário das expedições mato adentro, em direção aos limites concretos da capitania ou aos limites simbólicos entre homens e bichos. Acima de tudo, porém, o que decidiu a partida foi o atrativo mítico do mundo selvagem e misterioso do sertão, que desempenhava, naquela época e naquele contexto, fascínio análogo ao desempenhado pela travessia marítima três séculos antes. Nas Minas Gerais, como antes em São Paulo, o sertão se tornou, como escreveu José de Alcântara Machado de Oliveira em 1928, “bem o centro solar do mundo colonial” (Machado, 1930: 246).


Notas

[1] Este trecho aparece de modo diferente a partir da segunda edição de História antiga de Minas Gerais, e agradeço a Caio Boschi por ter-me feito essa observação. Dizem as edições subsequentes: “Denominação geral que se desse ao território, nenhuma houve; eis que denominações gerais também faltaram […]”. Mesmo em dúvida, mantive a citação conforme a primeira edição (Vasconcelos, 1904: 84), que foi a utilizada por mim, pois penso que, optando pelo verbo “dominar” – “dominações gerais também faltaram” –, Diogo de Vasconcelos talvez desejasse relacionar o caráter efêmero e circunstancial do controle indígena sobre certa região à ausência de denominações gerais. Conferir, entre outras edições Vasconcelos (1974: 138-139, v. 1).

[2] Segundo Catherine Salles (2013: 252), “na verdade, antes do século VI a. C., a ordem da sequência dos trabalhos não se havia ainda fixado, e o número doze não fora admitido uniformemente. Mais tarde, Apolodoro contaria apenas dez trabalhos, ao indicar que Euristeu se recusara a reconhecer como proezas verdadeiras a execução da Hidra de Lerna (Hércules teria recebido a ajuda de seu sobrinho Iolau para matar o monstro) e a limpeza das cavalariças de Áugias (Hércules pedira um salário para executar o trabalho)”: À p. 253, em nota, a autora esclarece: “Para evocar os Doze Trabalhos, adotamos aqui a ordem estabelecida por Diodoro de Sicília (IV, 11-28). Apolodoro (Biblioteca, II, 5) segue ordem ligeiramente diferente, pois os trabalhos 3 e 4, 5 e 6, 11 e 12 acham-se invertidos em sua obra”.

[3] A definição e a qualificação das diferentes zonas de vegetação das Minas Gerais encontram-se em Vasconcelos (1904: 84-85).

[4] A meu ver, a denominação correta para a região é a corrente no século XVIII, e presente na documentação coeva: Distrito Diamantino. Demarcação Diamantina, utilizada por alguns, não expressa o sentido político-administrativo contemplado por Distrito Diamantino e é, além disso, anacrônica.

[5] Na mesma página, a citação acima referida acerca do Jardim das Hespérides.

[6] As citações do início do parágrafo encontram-se no Códice Costa Matoso, e corretamente citadas na nota seguinte. A referente à descida da serra é descrição de José Vieira Couto (1905: 89).

[7] Ver sobretudo o cap. 1, “La Montagne: Une Verticalité entre pays et paysage”, p. 23-63.

[8] Ver Andrade (2008: 179).

[9] Ver Andrade (2008: 207), de onde tirei os trechos de documentos aqui citados. Para a alimentação no sertão, ver Kok (2005: 35-132).

[10] Todas as últimas citações de documentos encontram-se no Códice Costa Matoso. Ver fls. 7, 7v., 8, 9, 9v., 11, 13, 17, 17v., 18v. e 20. Sobre a fome nos primeiros tempos das Minas, ver a obra clássica Zemella (1951).

[11] Discurso histórico e político sobre a sublevação que nas Minas houve no ano de 1720 (A Revolta de 1720 em Vila Rica, 1898: 8-9 e 89).

[12] Relatório decenal à Sé Romana – Sagrada Congregação do Concílio de Trento – 1757 (grifo meu). Martinho de Mendonça, governador interino das Minas, escrevia em 1737 que os frades apóstatas e os clérigos ignorantes se embrenhavam pelo sertão e promoviam tumultos por ser o sertão país licencioso e que consente toda a Liberdade (Motins no sertão e outras ocorrências em Minas Gerais durante o governo interino de Martinho de Mendonça de Pina e de Proença, conforme a correspondência deste com o governo da Metrópole, 1896: 652).

[13] Arquivo Histórico Ultramarino, Brasil, Minas Gerais, cx. 51, doc. 45, fl. 2 (apud Veloso, 2012).

[14] Colleção das memórias archivadas pela Camara da Villa do Sabará, 1844: 280-28l.

[15] Notícia diária e individual das marchas (BNRJ, cód. 18,2,6, fl. 187).

[16] Carta do Juiz Ordinário de São João del Rei, José de Lima de Noronha, ao conde de Valadares (BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,3,5, doc. 75).

[17] BNRJ, Seção de Manuscritos, gavetas, cód. 18,3,7.

[18] Notícia diária e individual das marchas (BNRJ, cód. 18,2,6, fls. 176 e 191).

[19] Carta de Inácio Correia Pamplona a Valadares (7 set. 1769, BNRJ, fl. 21).

[20] Notícia diária e individual das marchas (BNRJ, cód. 18,2,6, fl. 178).

[21] Carta do tenente João Moreira da Silva a Valadares (27 jul. 1770, BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,2,6, fl. 817).

[22] Notícia diária e individual das marchas (BNRJ, cód. 18,2,6, fl. 179).

[23] Relatório sobre o Cuieté de autoria de João da Silva Pereira de Sousa (BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,2,6, fl. 1394).

[24] Para o Marquês de Angeja dando-lhe parte da viagem, e estabelecimento da Conquista do Cuieté, em que foram três as cópias atrás redigidas, e a Relação dos toques, dos ouros das amostras dos rios em que se fez as provas (BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 2,2,24, fl. 234).

[25] Para o senhor Martinho de Mello e Castro, sobre o mesmo que a destina, a quem se mandaram as amostras de ouro (BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 2,2,24, fl. 234v).

[26] Carta Geográfica de Minas Gerais (Seção de Iconografia, BNRJ, ARC 4-6-38).

[27] Instrução que há de seguir o Capitão Antônio Cardoso de Souza. (BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,2,6, fls. 1398 e 1400). Sobre os carauatãs, trata-se provavelmente da Bromelia antiacantha, vulgarmente conhecida por vários nomes: caraguatá, gravatá., gravataí, bananinha-do-mato, carauatá, croatá. Os frutos são comestíveis e a planta tem virtudes medicinais, sobretudo para manifestações gripais.

[28] Carta de João Pinto Caldeira, mestre de campo interino, a Valadares (14 nov. 1770, BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,2,6, fls. 447-452.

[29] Memória do que deve observar na derrota, que tem de seguir o capitão Antônio Cardoso de Souza, para a conquista do gentio, a que vai destinado, e do que há de praticar nesta importante diligência (Correspondência de Valadares, 1769, BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,2,6, fls. 1418-1419).

[30] Carta de Pamplona a Valadares (BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,2,6, fl. 88); Cartas de Martinho de Mendonça de Pina e de Proença (Motins no sertão e outras ocorrências em Minas Gerais durante o governo interino de Martinho de Mendonça de Pina e de Proença, conforme a correspondência deste com o governo da Metrópole, 1896: 649). Para análises mais conceituais sobre o sertão de Minas Gerais, ver Fonseca (2008), sobretudo a primeira parte, “Du Sertão au territoire: Occupation et politique de l’espace du Minas Gerais”; Santos (2017), sobretudo o capítulo 11, “As representações espaciais da ocupação”; Langfur (2008: 33-51).

[31] Para uma boa definição de sertão, ver Mundim (2009: 31-85).

[32] Cartas de Pamplona a Valadares (BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,2,6, fl. 108); Notícia diária e individual das marchas (BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,2,6, fl. 171).

[33] Fala o sertão e Campo do Bambuí do Rio de São Francisco com o Sr. Inácio Correia Pamplona, Mestre de Campo e Regente Governador (Notícia diária e individual das marchas. BNRJ, cód. 18,2,6, fl. 172). O versejador leu o poema em voz alta e o ofereceu por sobremesa num almoço que o irmão do mestre de Campo, padre João da Costa Resende, serviu aos sertanistas. No final, deram-se vivas entusiasmados, com grande aplauso.

[34] O autor considera que tais cartas geográficas, de conteúdo bastante diversificado quanto à qualidade do desenho, escala de representação, elementos gráficos e espaços abrangidos, tenham sido uma das principais bases para o trabalho dos padres matemáticos, ou seja, Diogo Soares e Domingos Capassi. No que tange à catalogação dos exemplares depositados na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, ver Cortesão (1965-1971: 221-227, v. 2). Para cartas e mapas coevos referentes a Minas Gerais, é imprescindível a consulta a Costa et al (2002).

[35] Notícia diária e individual das marchas (BNRJ, cód. 18,2,6, fls. 205 e 191).

[36] “[…] e outras coisas assim feias os nossos guias muito as amplificavam […]” (Couto, 1905: 96).

[37] BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,2,6, fl. 1264.

[38] Carta de Luís Diogo Lobo da Silva a Antônio Cardoso de Souza (13 dez. 1767, BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,2,6, fl. 1191).

[39] Ver sobretudo a análise luminosa de Sérgio Buarque de Holanda (1957: 17): “Essa espécie de rústico alfabeto, unicamente acessível a indivíduos educados na existência andeja do sertanista, requer qualidades pessoais que dificilmente se improvisam. É possível, talvez, ter ideia da segurança com que os índios se guiavam pelos astros ou rastros, conhecendo a perícia de nosso caboclo no distinguir ou identificar os menores vestígios da passagem de animais nos carreiros. Um exame superficial das pegadas de um homem ou bicho basta-lhe muitas vezes para tirar as deduções mais precisas sobre sua origem, sua direção e a época em que foram produzidas”.

[40] Exposição do Capitão Antônio Pereira da Silva a Valadares sobre o estado do Cuieté (BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,2,6, fls. 1535-42).

[41] Refiro-me aqui à análise de Evaldo Cabral de Mello (1975), notadamente o capítulo “Guerra de Flandres e Guerra do Brasil”, que trata, de forma original, da acomodação da arte militar europeia às condições ecológicas específicas do Nordeste.

[42] Carta de Manuel da Rocha Brandão a Valadares (29 mar. 1770, BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,2,3, doc. 149).

[43] Para o Marquês Vice-Rei sobre estar quase finalizada a expedição dos 4 mil homens e das mais providências que se tem dado a este respeito, e para defesa desta própria capitania (BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 2,2,24, fl. 114).

[44] “Na mente dos reis, conselheiros metropolitanos, administradores coloniais e muitos colonos, o sertão ou os sertões estavam associados à desordem, ao desvirtuamento e à instabilidade. Eles eram vistos como sendo povoados por pessoas […] marginalizadas na melhor das hipóteses, ou totalmente situadas para além dos limites impostos pelos padrões metropolitanos em termos de ortodoxia religiosa, costumes, moralidade, cultura e relações interpessoais. A civilidade estava ausente, o barbarismo reinava. […] Para todos, salvo para os sertanejos, o sertão era um estado de espírito e de percepções: descrevê-lo como simples periferia é ignorar a multiplicidade de conotações que a palavra e a região evocam” (Russell-Wood, 1998).

[45] Correspondência de Valadares (BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,3,3, doc. 232).

[46] Representação de vassalos a d. Maria I (Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, cód. 218, Originais de cartas, ordens régias, avisos e cartas do vice-rei, fls. 214-221, grifos meus).

[47] Cartas de Pamplona a Valadares (respectivamente de 3 abr. 1770 e 7 set. 1769, BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,2,3, fl. 1; e cód. 18,2,6, fl. 25).

[48] Carta do Juiz Ordinário da Vila do Príncipe Manuel Jacome Soeiro a Valadares (7 fev. 1769, BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,3,5, doc. 233). Sobre a animalização dos habitantes do sertão, ver Amantino (2008).

[49] Carta do Padre José Correia Porto a Valadares (BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,3,1).

[50] Carta do Coronel Antônio Joaquim de Vasconcelos Parada e Souza a Valadares (BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,2,3, doc. 66).

[51] Não cabendo deter-me aqui sobre os indígenas, remeto a importantes trabalhos que o fizeram para o contexto de Minas: Langfur (2006), Resende (2003) e Amantino (2008).

[52] Relação da viagem que fez o conde de Azambuja, Dom Antônio Rolim, da cidade de São Paulo para a Vila de Cuiabá em 1751 (apud Taunay, 1981: 214-215). Ver Kok (2005: 93).

[53] O temor das cobras que tragavam gente já era expresso em carta de d. Lourenço de Almeida datada de 14 de março de 1732, quando fala que ninguém queria trabalhar em certo trecho de um rio porque as cobras já haviam engolido vários escravizados (Documentos relativos ao descobrimento dos diamantes na comarca do Serro do Frio copiados e conferidos por Augusto de Limá, 1902: 282).

[54] Notícia diária e individual das marchas (BNRJ, Seção de Manuscritos, cód. 18,2,6, fls. 198-199).

[55] São Julião Hospitalário consta da Legenda áurea de Jacopo de Varazze (2004). Para uma edição brasileira, ver Varazze (2003). Gustave Flaubert tomou-o como personagem para aquele que, a meu ver, é o mais belo dos seus Trois Contes [Três contos], publicados em 1877. Em “La Légende de Saint Julien l’Hospitalier”: a lenda aparece modificada, Flaubert acentuando a obsessão assassina de Julião ante a caça de animais. O pintor português Amadeu de Souza-Cardoso (2006) realizou um trabalho extraordinário de ilustração e transcrição manual do conto.

[56] Inventário do Capitão José Leme da Silva (APM, Seção Colonial, cód. 229, fl. 20v.; APM, Seção Colonial, cx. 20, doc. 29; ACSM, 1º ofício, cód. 84, auto 1795).

[57] APM, Seção Colonial, cx. 20, doc. 04 e doc. 16. Para análise mais aprofundada da atuação dos sertanistas em Minas Gerais, ver (Souza, 2001: 201-213, v. 1)

[58] Ver mapas de Rocha (1995); Carrato (1968); Costa (1970).

Documentos

Códice Costa Matoso. Biblioteca Municipal Mário de Andrade. Seção de Manuscritos, 874/70, fl. 14v.

Colleção das memórias archivadas pela Camara da Villa do Sabará. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, v. 6, n. 23, p. 269-291, out. 1844.

Documentos relativos ao descobrimento dos diamantes na comarca do Serro do Frio copiados e conferidos por Augusto de Limá. RAPM, ano 7, p. 251-355, 1902.

Motins no sertão e outras ocorrências em Minas Gerais durante o governo interino de Martinho de Mendonça de Pina e de Proença, conforme a correspondência deste com o governo da Metrópole. RAPM, ano I, p. 649-672, 1896.

Relatório decenal à Sé Romana – Sagrada Congregação do Concílio de Trento – 1757. Cópia de transcrição datilografada existente no Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana, trad. de padre Flávio Carneiro Rodrigues.

Revolta de 1720 em Vila Rica. Ouro Preto: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 1898.

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