LEMBRANÇAS E HISTÓRIAS: COMO É POSSÍVEL HOMENAGEAR ELIDE RUGAI BASTOS?*, POR LUCIA LIPPI OLIVEIRA (CPDOC/FGV)

Profa. Elide Rugais Bastos (UNICAMP) ao lado da Profa. Lucia Lippi (CPDOC/FGV) e do Prof. Renato Ortiz (UNICAMP)


    Quero expressar meus agradecimentos pelo convite e minha emoção por fazer parte desta homenagem mais do que merecida a Elide Rugai Bastos. Comemorar significa lembrar com, lembrar junto. Daí eu apresentar uma reflexão advinda mais do campo memória e menos uma análise sociológica de sua obra. Eu vou apenas falar de nossos encontros e de seus trabalhos que mais me motivam, me agradam.

O seu trabalho intelectual recebeu recentemente a atenção e a leitura competente de João Marcelo Maia e de Antonio Brasil Jr. em dois artigos publicados na revista Sociologia & Antropologia em maio/agosto de 2015.

Meu olhar aqui é o da memória, ou seja, uma construção sobre o passado ou sobre partes do passado que julgamos por bem lembrar. Vou então começar registrando como eu a conheci. Foi, se eu não estiver enganada (a memória às vezes nos engana), por ocasião de um seminário realizado exatamente pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, em abril de 1991. O seminário sobre O Pensamento de Oliveira Vianna, que veio a ser publicado em livro organizado por Elide R. Bastos e por João Quartim de Moraes (1993). A realização deste Seminário e o convite para participar do mesmo encaminhado a vários pesquisadores do Rio, inclusive a mim e a Angela de Castro Gomes, ambas do Cpdoc, foi surpreendente e irrecusável.

Vou tentar explicar as razões da nossa surpresa! Éramos herdeiras de uma polêmica, de um conflito antigo que, vez por outra, ganha contornos mais nítidos. Trata-se da disputa, da controvérsia entre São Paulo e Rio de Janeiro que teve alguns momentos mais visíveis.

Nos anos 1920, nas páginas do Correio Paulistano, foi se delineando, se construindo uma distinção onde São Paulo é representado pelo trabalho e pela seriedade enquanto o Rio simboliza o lazer e o descompromisso. A ideia de São Paulo como locomotiva puxando mais de vinte vagões vazios é dessa época marcada pelo boom do café e pela oligarquia do “café com leite”, tempo este que veio, mais adiante, a ser chamado de República Velha!

Ainda nos anos 1920, com a Semana de Arte Moderna e seus desdobramentos mais imediatos, houve a demarcação de São Paulo como representante da modernidade, expressa no universo da poesia pelo verso livre, e o Rio como o lugar-sede da Academia Brasileira de Letras, guardião das tradições e do passadismo. Oswald e Mário de Andrade versus Graça Aranha podem servir como figuras capazes de expressar tal dicotomia.

Nos anos 1950 tal conflito antigo também se atualiza. Trata-se de uma outra face dessa controvérsia, agora expressa no universo acadêmico. Desta feita São Paulo já assumira a dianteira da industrialização brasileira e da vida cultural (MASP, TV Record, Vera Cruz). Sua universidade estadual (USP), criada em 1934, passa então a se apresentar e a se representar como a detentora da produção científica na área das ciências sociais em oposição ao Rio de Janeiro com a sua Universidade do Brasil frágil e pouco institucionalizada no campo das ciências sociais. As ciências sociais no Rio teriam o ISEB como representante máximo de uma produção vista como comprometida com a política e com a ideologia. Ou seja, algo muito distante da “ciência social”. A polêmica entre Florestan Fernandes e Guerreiro Ramos pode expressar tal confronto.

As ciências sociais institucionalizadas, seguindo métodos científicos, produziram uma interpretação que desacreditava o pensamento tradicional – antigo, atrasado, pré-científico. Foi frente a tal cânone de cientificidade que Wanderley Guilherme dos Santos, ex-membro do ISEB, se contrapôs. A versão consagrada, por assim dizer, sedimentada, foi questionada por dois artigos seus publicados na revista Dados que tratavam a chamada imaginação política brasileira. Tais artigos abriram espaço para recusar o abismo entre a produção pré-científica e científica (SANTOS, 1967; 1970). As diferenças de estágio da institucionalização das ciências sociais entre São Paulo e Rio de Janeiro propiciaram a reedição, por assim dizer, da antiga polêmica Rio e São Paulo.

De qualquer modo ainda permanecia a questão: Para quê ler, conhecer um autor representante dos tempos de outrora, seguidor de teorias ultrapassadas, defensor de ideias racistas e, ainda por cima, assessor do projeto corporativista do governo ditatorial de Getulio Vargas, como Oliveira Vianna?

Daí nossa surpresa com a realização de um Seminário sobre Oliveira Vianna na Unicamp. Na Apresentação do livro Elide menciona que fazer um balanço crítico da obra de Oliveira Vianna é um desafio. Sua argumentação prossegue ao afirmar que havia a aceitação de sua obra desde Populações Meridionais, havia a influência do autor na estruturação do Estado e, “para além do imperdoável racista”, ele vai buscar elementos para explicar a fragmentação da sociedade brasileira. A seu favor, diz ela, Oliveira Vianna elabora diagnósticos e sugere ordenações jurídico-políticas como solução para o país.

Quero apenas sublinhar que havia, então, a necessidade de explicar, de justificar a razão da realização de um seminário sobre tal autor. Aceitei participar movida pela curiosidade de conhecer a Unicamp e seus professores, em especial Octavio Ianni. Para mim o Ianni que existia era o de O colapso do Populismo no Brasil (1968). Causou-me surpresa também a presença de Quartim de Moraes como co-organizador do seminário sobre o racista, o corporativista Oliveira Vianna.

Hoje considero que se tratava da sabedoria dos velhos comunistas, daqueles que já viram e viveram muita coisa no Brasil – viveram a ditadura militar, estudaram o marxismo, pensaram a redemocratização e, na universidade, procuraram passar às gerações mais novas os acertos e os erros de suas posições e crenças.

Depois deste Seminário vim a ser convidada a participar de muitas bancas na Unicamp. A sociologia da USP permanecia fechada para uma pessoa como eu, de trajetória fora de padrão, de perfil interdisciplinar e que estudava Guerreiro Ramos. Uma vez sugeri ao prof. Gabriel Cohn que seria bom a coleção da Ática, Grande Cientistas Sociais, ter um número sobre Guerreiro Ramos. Ele ficou perplexo me olhando…

Vale também lembrar outro desafio nas relações entre o CPDOC e a Unicamp. Este tem a ver com um desencontro, vamos chamar assim, com um professor da Unicamp no campo da historia. Foi uma polêmica de Edgar De Decca que, em seu livro 1930. O silêncio dos vencidos (1981) analisa como se produz a memória histórica e aponta os mecanismos pelos quais os discursos políticos procuram legitimar o evento histórico. No seu trabalho ele procura superar o silêncio sobre a atuação operária e resgatar a luta do Bloco Operário e Camponês (BOC), que desde 1928 lutava por uma revolução.

Ora, tal interpretação, de alguma forma, vinha questionar os trabalhos de pesquisa feitos no CPDOC, já que eles seriam identificados com a perspectiva oposta, a dos vencedores, com a história oficial, feita a partir dos arquivos de Vargas e sua entourage… Mais do que o livro, artigos de jornal fomentaram tal controvérsia.

Anos mais tarde vim a conhecer de perto Edgar De Decca e também Maria Stella Bresciani (figuras ilustres, ilustríssimas, ambos da História da Unicamp), entre outros, em encontros orquestrados por Sandra Pesavento (UFRS). Vale notar que Maria Stella Bresciani é autora de fantástico livro O charme da ciência e a sedução da objetividade. Oliveira Vianna entre intérpretes do Brasil (2005).

Por outro lado, um livro que marcou época e que, de algum forma, criou uma ponte entre São Paulo e Rio, entre a USP e o CPDOC, foi A Revolução de 1930: historiografia e história (1970), de Boris Fausto. Este texto de Boris Fausto abriu a vertente que explora e retoma o conflito entre as regiões do país como elemento chave para explicar a Revolução de 1930, caminho que o CPDOC seguiu em muitas de suas pesquisas.

A contribuição das pesquisas do CPDOC foi, a meu ver, retomar a questão regional e reinterpretar a versão do passado. A tendência habitual era ver o passado em bloco. A Primeira República passou a ser chamada no pós 30 de República Velha (coisa que só mais recentemente foi questionada!). Do mesmo modo, após 1945 e até os anos 1970 tínhamos a memória da ditadura Vargas como um bloco monolítico. O Estado Novo também produziu um passado homogêneo. Para uns, 1937 estava contido em 1930, para outros, 1937 estava contido em 1922. E foi frente tal tendência que fizemos diferentes pesquisas. Separamos os anos 1930 em distintos tempos, da Revolução até 1934, de 1935 até 1937 e mesmo a ditadura foi seccionada de 1937 até a entrada do Brasil na Segunda Guerra. Isto de alguma forma se contrapunha às versões oficiais que faziam a Revolução de 1930 ser o preâmbulo de 1937, ou melhor, 1937 estar embutido em 1930, como se o desenrolar histórico, como se as opções assumidas pelas elites políticas durante a década não tivessem importância.

Anos mais tarde será Elide quem vai escrever o artigo “O CPDOC e o pensamento social brasileiro”, publicado em 2003 por ocasião dos 30 anos do Centro, onde ela faz um balanço, apresenta uma leitura fina do trabalho que o grupo dedicado ao pensamento social brasileiro do Centro fez e do que deixou como marca. Ela explora a relação entre intelectuais e política, um velho dilema. Valoriza a perspectiva que foi desenvolvida, ou seja, a interdisciplinaridade, a recusa a se prender em uma única abordagem do objeto, a atenção focada no material a ser analisado e a abordagem de um conjunto de autores, publicações, políticas, instituições como uma unidade dotada de certa organicidade, explorando estilos de pensamento e intenções básicas, conceitos tributários de Mannheim. Elide procede a uma leitura dos textos produzidos pelo grupo do CPDOC que vai além de nossa própria explicitação. Assim, seu texto fala mais das qualidades analíticas de sua autora do que das qualidades das análises empreendidas por este grupo.

O Estado Novo oferece um case para a análise da relação entre intelectuais e política já que abriu um enorme espaço à participação dos intelectuais na definição, na construção de políticas de modernização do Estado. As inúmeras instituições criadas então abriram espaço para a atuação dos intelectuais naquela conjuntura. Com o rompimento do domínio das elites oligárquicas da Primeira República vai se desenhando ali um Estado de bem-estar. Os intelectuais, em sua maioria e de alguma forma, vieram a apoiar a transferência do mecenato das elites regionais do antigo Partido Republicano para o Estado nacional sem questionar a centralização e o autoritarismo. Ao contrário, centralização, governo forte, era mesmo uma demanda política aqui e na Europa de então.

Assim, na contramão das aproximações naturais, para além das distâncias institucionais e geográficas foi se criando uma relação, um vínculo de conhecimento, de reconhecimento, de amizade, pelo qual eu me sinto muito honrada de estar aqui mencionando os laços que foram se estabelecendo ao longo de décadas. Penso que isto foi favorecido por uma comunhão de interesses entre nossas áreas de trabalho. Em primeiro lugar o nosso interesse pelo estudo de intelectuais em suas relações com a política. Sabemos da importância do simbólico, sabemos que os intelectuais são produtores, artífices preferenciais desse campo.

O artigo de João Marcelo Maia já citado me ajuda a avançar a reflexão, principalmente quando ele vai abordar a questão da decadência como chave de leitura da transição modernizadora no Brasil e a inscrição não ocidental da sociedade brasileira no mundo moderno como dois dos três temas fundamentais da interpretação de Elide sobre Gilberto Freyre. Para Maia é fundamental esclarecer como uma intelectual que se estabeleceu a partir do diálogo criativo entre a Sociologia e o marxismo se dedicou à análise de intelectuais conservadores. Elide, ainda segundo Maia, crê que para que seja possível entender o processo social e a dinâmica da mudança, é necessário decifrar as forças que lhe são opostas.

Tragédia e decadência são dois conceitos, duas explicações que costumam acompanhar tempos difíceis, tempos de transição onde também reina o “clima de perda”. A temática da tragédia burguesa, as transformações, a crise dos anos 1920 no Rio de Janeiro, tudo isto configura o pano fundo do surgimento de diversas correntes, dentre elas a do movimento católico e de sua revista A Ordem. Na mutação entre o velho mundo e a nova sociedade crescem as incertezas e surge uma nova moralidade. É desta questão que se trata o primeiro romance da série Tragédia burguesa de Octávio de Faria. O pensamento trágico procede a um ataque ao individualismo da sociedade moderna e ao mesmo tempo reconhece a impossibilidade de que valores tradicionais sejam mantidos. Diante da consciência da oposição entre os dois movimentos opostos – emergência de um novo mundo versus recusa dos princípios que o articulam, – o pensamento trágico renega os princípios que articulam o novo e propõe o retorno às tradições. Como exemplar desta linhagem Octávio de Faria recebeu o foco de Elide no artigo “Octávio de Faria e a tragédia burguesa” (2010). Tal questão já mereceu a análise competente de André Botelho que nomeia tanto Octávio de Faria quanto Ronald de Carvalho como pertencentes ao “tradicionalismo tardio”.

Ao estudar o pensamento conservador e saber de sua relevância da estruturação da visão de mundo no Brasil, não é possível ignorar tais pensadores. Durante muito tempo no Brasil só era legítimo, aceitável estudar autores e episódios que fossem favoráveis às correntes e ideias revolucionárias. Compreender as resistências à mudança, entender os critérios de exclusão, explicitar a lógica dos perdedores pode nos oferecer melhores pistas sobre as regras do jogo, sobre os caminhos do que é aceito e consagrado. E parece que ainda não estudamos tal pensamento o suficiente!

Só tive contato com Otávio de Faria através de livro de Maria Teresa Sadek, Machiavel, Machiavéis: a tragédia octaviana (1978). E só li do autor o livro Machiavel e o Brasil (1931), que valoriza a atuação de Maquiavel ao ensinar o príncipe a agir, e que discute a situação política do Brasil após a revolução de 1930. Tal texto muito me ajudou a entender o clima intelectual dos anos 1930 e a reconhecer os principais temas que compareceram ao debate intelectual da época.

Elide, como já é sabido, estudou, pesquisou, escreveu e publicou sobre Gilberto Freyre, sobre intelectuais e sobre a sociologia no Brasil. Entre seus 42 textos listados como capítulos de livros no seu Currículo Lattes, quero mencionar: “Gilberto Freyre e a questão nacional” publicado em Inteligência Brasileira, organizado por Reginaldo Moraes (1986); “A revista Ciência Política e a influência de Ortega y Gasset” publicado em Intelectuais: Sociedade e Política, organizado por Bastos, Ridenti e Rolland ( 2003a) e “Paulo Augusto Figueiredo e o pensamento autoritário no Brasil”, publicado em Intelectuais e Estado, organizado por Ridente, Bastos e Rolland (2006). Tais textos remetem à questão nacional, à importância das revistas e aos intelectuais do Estado Novo, temas estes que me são muito caros e sobre os quais eu também me debrucei.

Eu também andei trabalhando ao redor do pensamento conservador e acabei por centrar minhas análises em figuras menos consagradas, mais desconhecidas no conjunto daqueles que faziam parte do Estado Novo. Assim como Elide escreveu sobre Paulo Augusto Figueiredo, eu analisei Almir de Andrade no artigo “Tradição e Política”, que compõe o livro Estado Novo; ideologia e poder (1982). Os dois intelectuais são figuras ocupadas em pensar a tradição brasileira e a descortinar seu papel na modernização da cultura brasileira. São menos conhecidas e nem por isso menos relevantes do time do Estado Novo.

Elide ao analisar o Estado Novo mostra como a interpretação então montada produz um passado homogêneo, faz uma aposta no futuro e atua no presente. A pergunta de como se articulam passado, presente e futuro, o que permitiria analisar a dinâmica do processo histórico seria, segundo Elide, o de tempo tríbio, conceito moldado por Ortega e assimilado por muitos autores dos anos 1930.

É preciso registrar que quando ela começa a pesquisar sobre Gilberto Freyre por ocasião de sua tese de doutoramento em 1986 na Puc-SP tal autor ainda se encontrava colocado em certo inferno ou purgatório dos intérpretes do Brasil. Era conservador por apresentar e, de alguma forma, reconhecer o papel do complexo latifundiário da Casa Grande considerando-o como a matriz da sociedade brasileira. Quando defendia a democracia racial brasileira, escamoteava o racismo e o preconceito. Além disto, veio a ser um “verdadeiro” reacionário quando vai defender a política do governo Salazarista para as colônias portuguesas na África. Vale mencionar que a posição de Gilberto e sua fortuna crítica no mundo luso já foi explorada por Omar Ribeiro Thomaz em seu Ecos do Atlântico Sul ( 2002).

Quero registrar, principalmente, meu encanto com o seu livro Gilberto Freyre e o pensamento hispânico; entre Dom Quixote e Alonso Al Bueno (2003b), que aponta no pensamento de Gilberto a presença, a herança hispânica com a afirmação do encontro de elementos orientais e ocidentais na formação do Brasil. Este universo me faz lembrar de E. Said em seu Orientalismo (1990).

Elide vai indicar a presença dos espanhóis na sociologia de Gilberto que em seus métodos extra-sociológicos de tratamento das fontes recorre a Unamuno e Ortega, entre outros. Acentua também a preocupação de Freyre em pensar as formações ibéricas e a brasileira como um conjunto indissolúvel, colocando o Brasil, assim como Portugal, no conjunto hispânico de nações. O imperialismo espanhol sempre recusado pelos portugueses não deve impedir de nos sentirmos parte do mesmo conjunto, esclarece Gilberto.

Quero observar que o conflito entre espanhóis e portugueses não desapareceu, haja visto autores portugueses contemporâneos como Valter Hugo Mãe intitular um de seus romances como A máquina de fazer espanhóis, e Miguel Souza Tavares, famoso autor do romance Equador, tratar tal temática na relação entre irmãos em seu livro Rio da Flores.

Segundo Elide, na discussão sobre a questão nacional, a presença dos autores espanhóis se faz sentir ao Gilberto dar relevância aos temas do regionalismo, da unidade política e social, da unidade cultural. São estes os desafios que se apresentavam aos intelectuais espanhóis no final do século XIX, quando o país enfrentava a perda das suas últimas colônias. Tal situação seria comparável ao curso dos acontecimentos nos anos 20 e 30 no Brasil, a saber – estrutura política arcaica e que não consegue operar com as transformações da sociedade; a presença de estrutura fundiária ultrapassada (resquício de privilégios do Antigo Regime); um surto de desenvolvimento industrial em partes do país e a necessidade de formação de uma nova elite dirigente capaz de assumir a tarefa de unificação e que venha a funcionar como fiel da balança, que atue acima dos interesses de diferentes grupos. Vale lembrar que a crise, os confrontos aqui mencionados entre diferentes visões da Espanha antecedem a terrível Guerra Civil e a longeva ditadura franquista.

Para dar conta do enfrentamento e das tarefas duas gerações se apresentam, a de 1898 e a de 1914, ambas se envolveram na política do país, avaliaram a crise do Estado e discutiram a sua inserção no mundo contemporâneo. Unamuno, da geração de 1898, e Ortega y Gasset, da geração de 1914, servem como exemplo de posições em confronto que divergem sobre a própria compreensão do caráter do país. Unamuno defendendo o sentimento trágico, o misticismo espanhol como positivo, considera o espiritualismo místico como fazendo parte do caráter, da essência espanhola e milita contra o europeísmo. Ortega, por sua vez, contesta o misticismo, prega a favor do racionalismo europeu, defende a aproximação com a Europa exatamente para que seja possível romper com o atraso. Segundo este autor, para enfrentar os dilemas da Espanha é necessário o que foi nomeado como “perspectivismo orteguiano”. Sua afirmação “eu sou eu e minha circunstância” expressa tal caminho. O resgate dos valores essenciais da nação ou do povo, o retornar à tradição, difere quer se fale de uma ou de outra geração, já que os de 1914 tiveram maior contato com outros países europeus.

Os dois autores expressam a divisão dos espanhóis entre um tradicionalismo que impedia a atualização da sociedade aos moldes europeus e o progressivismo que recusa as raízes ibéricas do país. Diante de tal impasse os intelectuais assumiram a missão de inventar a cultura, de apontar a sabedoria do povo, de construir a nação. Hispanismo ou europeísmo pode resumir o desafio espanhol da época.

Peço desculpas a Elide por este resumo que certamente não faz jus à sua análise sobre a influência do pensamento espanhol em Gilberto Freyre. Elide registra, com sabedoria, que o pensamento de Gilberto Freyre influenciado pelo dilema espanhol não ignora a decadência do patriciado brasileiro, mas considera ser este um momento transitório, ou seja, seu pensamento “não se inscreve na tradição decadentista marcada pelo pessimismo”. Gilberto, ao contrário, aposta que no seio da sociedade é onde residem as forças de renovação.

Os dilemas dos intelectuais espanhóis podem ser comparados com os intelectuais brasileiros dos anos 20 e 30? Há semelhança em seus temas, em seus diagnósticos e até na busca de soluções aos impasses. Mas vale o registro geral: o conservadorismo entre nós soube se moldar, foi capaz conviver bem, muito bem, com a modernidade. Se há alguma dúvida a este respeito é possível indicar a criação do Sphan (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) como exemplo máximo. Vale também um relevante registro específico marcado por Elide: o conservadorismo de Gilberto Freyre foi o vencedor em oposição ao de Octávio de Faria e em oposição ao totalitarismo revolucionário de Plínio Salgado, igualmente perdedor.

O perspectivismo de Ortega sugere que só é possível compreender a realidade em uma visão interna. Não se pode ter acesso à realidade a não ser a partir do lugar que se ocupa no universo, ou seja, o local é a nossa circunstância. Assim, valorizar especificidades regionais, enveredar por temas menos comuns ou do cotidiano faz parte de sua vertente. Tais elementos vão fazer parte também do ideário de Gilberto Freyre em seu retorno ao Brasil, em sua defesa do movimento regionalista e tradicionalista do Recife nos anos 20 e em seu questionamento dos pressupostos do movimento modernista paulista e carioca. Gilberto defende a existência de uma cultura tradicional pan-hispânica, uma cultura ibérico católica que se apresenta em oposição à dos nórdicos protestantes.

Se a polêmica entre tradição e modernidade pode ser interpretada pelo dualismo hispanismo (representado por Unamuno) versus europeísmo (representado por Ortega) no caso da Espanha, no caso brasileiro tal tipo de polêmica volta à ordem do dia nos anos 1980 e pode ver visualizada pelo dualismo entre o iberismo (defendido por Richard Morse em seu livro O espelho de Próspero (publicado em 1982 no México e em 1988 no Brasil). A dicotomia iberismo versus americanismo deu ocasião à polêmica entre Richard Morse e Simon Schwartmann registrada nas páginas da revista Novos Estudos Cebrap analisada por mim (OLIVEIRA,2000). Neste caso o iberismo é visto como capaz de preservar uma ética moderna não individualista e comunitária e que se opõe ao americanismo que avalia a herança ibérica como obscurantismo, autoritarismo e burocratismo.

A presença hispânica entre nós tem sido pouco valorizada. A figura de Ortega y Gasset e seu contraponto Unamuno estiveram presentes em curso ministrado por Hélio Jaguaribe nos meus tempos de mestrado no Iuperj. Hélio Jaguaribe escreve o prólogo da publicação de Ortega y Gasset, História como sistema; Mirabeau ou o político, editado pela UnB em 1982. Jaguaribe sublinha que Ortega associa sua obra à reação contra a decadência espanhola tratada como positiva. Por outro lado, o livro de Ortega que muito me ajudou, que me abriu possibilidades de compreender contra quem o pensamento conservador dos anos 1920 estava enfrentando, foi A rebelião das massas (2006) obra que começou a ser publicada em jornal a partir de 1926.

Também fui atraída pelo texto “Gilberto Freyre: a cidade como personagem” (2012) onde Elide aponta o interesse de Gilberto pela temática da cidade. A busca do passado, o lugar da tradição na cidade se torna evidente a partir de suas vivências como viajante ao visitar, ao frequentar diferentes cidades e narrar suas impressões em sua correspondência aos amigos e em artigos de jornal. Tudo se fez presente a partir de 1923 quando o autor assume a defesa explícita das tradições. No caso do artigo de Elide acima mencionado a questão da cidade e da tradição foi tratada tomando o romance Dona Sinhá e o filho do padre, escrito por Gilberto em 1964. Eu, como que seguindo ou perseguindo a produção de Elide, também escrevi um artigo, “Gilberto Freire e a valorização da província” (2011), onde entre outros tópicos mergulho no seu fantástico Guia prático, histórico e sentimental da cidade do Recife, cuja edição original é de 1934.

Aprecio imensamente o alargamento das fronteiras de atuação de seu trabalho acadêmico. No caso específico seu saber sobre Gilberto saiu do espaço estritamente acadêmico e foi se fazer presente no trabalho de curadoria da exposição de “Gilberto Freyre, intérprete do Brasil” realizada no Museu da Língua Portuguesa de novembro de 2007 a maio de 2008. Tal exposição foi apresentada como “uma espécie de cinema ao vivo, obedecendo ao conceito orteguiano de ‘tempo tríbio’, tão caro a Gilberto Freyre, em que passado, presente e futuro se articulam e se influenciam mutuamente”, diz Elide no Folder da exposição.

Não posso deixar de mencionar que foi Elide quem me indicou o livro de Carlos Eduardo Ornelas Berriel, Tietê, Tejo, Sena; a obra de Paulo Prado (2000), que muito me ajudou quando, em outra pesquisa, eu estava tentando compreender a construção do bandeirantismo e montar um quadro sobre a inserção dos imigrantes italianos no universo paulista.

Como fica claro aqui neste texto, eu gostaria de ter feito várias das pesquisas, escrito vários dos textos que Elide Rugai Bastos fez e publicou. Não há razão para esconder isto!

Para concluir posso dizer que tivemos encontros quase fortuitos, encontros que a vida acadêmica nos proporcionou, encontros derivados de certa comunhão de interesses e de perspectivas de trabalho, encontros de graça, “graça” em sentido protestante, ou seja, entendida como presente de Deus pelo qual eu não fiz nada para merecer…

*Texto apresentado no evento “Trajetórias e vida intelectual: homenagem a Elide Rugai Bastos e Renato Ortiz” no dia 26 de abril de 2017 na UNICAMP.

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