
O Blog da BVPS convida nossos leitores e leitoras para o Seminário MinasMundo: Pedro Nava 120 anos, por ocasião do aniversário de um dos maiores memorialistas das literaturas de língua portuguesa, no dia 5 de junho, a partir das 9h30, no IFCS/UFRJ. Serão três mesas ao longo do dia, reunindo Eliane Vasconcellos (FCRB), Matildes Demetrio dos Santos (UFF), Edina Panichi (UEL), Rodrigo Jorge Ribeiro Neves (UFRJ), André Botelho (UFRJ), Rosângela Rangel (FCRB), Ivan Marques (USP), Eduardo Coelho (UFRJ), Maurício Hoelz (UFRRJ), Andre Bittencourt (UFRJ), João Mello (UFRJ), Joaquim Jaguaribe Nava Ribeiro, Luiz Dolino, Helena Bomeny (Uerj) e Carolina de Carvalho (UFRJ). Após o evento, haverá o lançamento do livro A sociedade dos textos (Relicário Edições), de André Botelho, Maurício Hoelz e Andre Bittencourt.
Confira abaixo mais informações sobre o evento e programação completa.
Seminário MinasMundo: Pedro Nava 120 anos

Em um bilhete de aniversário escrito há exatos quarenta anos, no dia 5 de junho de 1983, Antonio Candido parabenizava Pedro Nava chamando-o de um dos “mais altos tecelões” do tempo. Dificilmente conseguiríamos uma definição mais adequada para nosso aniversariante. O tempo, suas variações e repetições, parece sempre acompanhar Pedro Nava. Sua poesia é “bissexta”, como definiu Manuel Bandeira, seu modernismo é “tardio”, sua medicina profundamente preocupada com a história, recuperando práticas e personagens antiquíssimos. O reconhecimento público, já na velhice, veio a partir da arte da memória, uma arte antiga e cultivada em um gênero até então menor no Brasil, o memorialismo, quase sempre oficialesco e beletrista. Seus livros, no entanto, não apenas abriam o baú de ossos da família desse mineiro de Juiz de Fora, mas se expandiam como interpretação do Brasil, embaralhando tempos e espaços, combinando estilos e forjando uma forma, toda particular, de se situar entre os grandes nomes da literatura em língua portuguesa. Mesmo seu fim, inesperado e suicida, parecia querer mostrar para a Morte quem, afinal, tem o controle do tear na trama do tempo.
Em Baú de ossos, o primeiro livro de suas Memórias, Pedro Nava produz uma estranha imagem sobre o Tempo (em maiúscula): ele seria como um desatarraxador de matrioscas, a boneca russa que se abre “parecendo sempre a mesma, entretanto sendo outra, outra, outra, mais outra, mais fraca, mais fraca, até a última”. O tempo como uma espécie de seriação, com essa curiosa propriedade de gerar o mesmo e os outros, o igual e a diferença. A imagem nos faz pensar no próprio Nava, desde sempre com as mesmas preocupações, como a morte, a memória e o corpo, mas ao mesmo tempo tão variado – poeta, desenhista, médico, boêmio, colecionador, memorialista. Como afirmou Manuel Bandeira certa vez, em uma homenagem ao nosso aniversariante, há, “dentro de Nava, Nava para dar e vender”. Mas se as matrioscas manipuladas pelo Tempo vão se tornando mais fracas, Nava parecia se fortalecer conforme suas versões pulavam uma das outras.

No dia em que faria 120 anos, 5 de junho, gostaríamos de convidar as leitoras e os leitores do Blog da BVPS para um evento que procura trazer um pouco dessas facetas plurais e complexas, às vezes inclusive contraditórias, do aniversariante Pedro Nava. Colocando em diálogo pesquisadores das áreas de Letras e Sociologia, organizamos três mesas com especialistas ao longo de todo o dia. A primeira, “A obra como problema”, propõe uma conversa sobre como a própria noção de “obra” pode ser repensada a partir de um personagem que atuou em tantos registros, da construção textual e criativa das Memórias passando pela epistolografia, a poesia e os artigos de médico reumatologista, sem esquecer de seu próprio arquivo, depositado na Fundação Casa de Rui Barbosa, e fonte inesgotável de materiais. A segunda mesa pretende, partindo de Nava, debater o modernismo, ou, partindo do modernismo, resituar a obra de Nava. Modernismo entendido aqui em sentido mais amplo e plural como uma sensibilidade e um movimento cultural que não se restringe a uma determinada época ou geração intelectual. Finalmente, nossa terceira mesa busca trazer o aniversariante e sua personalidade para o centro do palco, especialmente a partir de relatos diretos sobre Nava feitos por aqueles que puderam gozar de seu convívio.

Ao final do seminário, convidamos ainda nossos leitores a nos acompanharem no lançamento do livro A sociedade dos textos (Relicário), de André Botelho, Maurício Hoelz e Andre Bittencourt, com textos sobre Mário de Andrade, Pedro Nava e Silviano Santiago. O lançamento será no próprio IFCS/UFRJ às 18 horas – com esticada para um brinde ao aniversariante.

Organização do evento: André Botelho; Andre Bittencourt, Rodrigo Jorge Neves e João Mello.
Fonte das fotografias: Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, Fundação Casa de Rui Barbosa.
Foi um dia extraordinário. Pudemos ver pesquisas muito interessantes mobilizadas pela escrita de Nava, pudemos tomar contato com o acervo da Casa Rui e os comentários muito interessantes sobre a arte e o desafio de cuidar da documentação e tivemos ao final o lançamento do livro. Foi um dia especial. Viva Nava! E parabéns a esta equipe formidável que inventa cada dia mais…