
O Blog da BVPS publica hoje o texto “A espuma do mar da História”, de Felipe Charbel (UFRJ), que se hospeda no ensaio “As ondas do cotidiano”, de Silviano Santiago.
O post dá continuidade à Hospedagem Vale quanto pesa, um experimento intelectual e estético inspirado na categoria de “hospedagem” de Silviano Santiago, voltado para as comemorações do seu segundo livro de ensaios, Vale quanto pesa, de 1982. Propomos um exercício de comentário, repetição, suplementação, hospedagem dos 18 textos nele reunidos. Autores e autoras de 40 anos ou menos comentam Vale quanto pesa em seus 40 anos ou mais.
É uma alegria proporcionar esse encontro, ainda mais porque, como espaço de formação de editores/as, autores/as e leitores/as de comunicação pública das ciências sociais, literaturas e artes, o Blog da BVPS aposta sempre na conversa entre diferentes gerações.
Acompanhe as postagens da Hospedagem, sempre às segundas e quartas-feiras. Para saber mais sobre a iniciativa, clique aqui.
Boa leitura!
A espuma do mar da História
Por Felipe Charbel (UFRJ)
Quando André Botelho e Gabriel Martins da Silva me convidaram para escrever sobre “As ondas do cotidiano”, um dos ensaios de Vale quanto pesa, meu primeiro impulso foi recusar. É um dos livros mais comentados, mais glosados da obra ensaística de Silviano Santiago. Mas para mim era uma lacuna – um dos infinitos livros essenciais, que, por uma razão ou outra, acabei não lendo, ou dei por lido de tanto ouvir falar sobre ele, de tanto ler sobre ele. Deve ter a ver com meu percurso formativo: fiz graduação em História no finzinho dos anos 1990, mestrado e doutorado também em História nos anos 2000. A obra de Silviano nunca foi “leitura obrigatória” para mim, como certamente era o caso para estudantes de Letras da minha geração. Ainda bem. Tudo o que li de Silviano teve como único impulso o desejo de percorrer os seus livros, e apenas quando me dava vontade.
Primeiro conheci o ficcionista. Me lembro de ler Em liberdade num estado próximo do transe, na linda biblioteca da PUC-Rio, para onde ia todas as tardes para, a princípio, escrever minha dissertação de mestrado. Mas como a tenacidade não é exatamente dos meus pontos fortes na vida, logo cedia à tentação de me levar pela leitura de algum romance que eu garimpava nas estantes da biblioteca. A descoberta do ensaísta veio bem depois – eu diria que veio tarde, quase tarde demais. Foi na ocasião do relançamento de Uma literatura nos trópicos, em 2019. Fui ao lançamento, peguei autógrafo. Li, me impressionei. Sublinhei parágrafos inteiros, usei alguns ensaios (sobre entre-lugar, Dom casmurro) nos meus cursos de Teoria da História. Foi nessa época, depois de alguma aula, que encontrei num sebo do Centro do Rio, que frequento depois do “expediente”, um exemplar de Vale quanto pesa autografado pelo autor no dia 4 de outubro de 1982, com a seguinte dedicatória:
Para Marta [ou seria Morte? a letrinha miúda é difícil de decifrar],
com todo o carinho
do primo,
Silviano
4/10/82
Por um bom tempo, acho que por vários meses, foi um dos livros que estavam no topo da minha pilha de próximas leituras, logo depois do diário do John Cheever, que era o que estava lendo quando começou a pandemia da Covid-19. E ali ficou, pegando poeira, até que eu desfizesse a pilha e espalhasse os livros de volta pela minha biblioteca, porque agora as prioridades eram outras, as leituras urgentes já não eram mais as mesmas.
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O que significa ler Vale quanto pela pela primeira vez justamente quando o livro faz quarenta anos? É quase o tempo que tenho de vida: faço 46 agora em junho. Uma coisa é revisitar uma obra formativa, reler um livro que foi decisivo na modelagem dos leitores que somos, que nos tornamos: reler envolve, ao mesmo tempo, a reconstrução da primeira leitura e a capacidade de ir além dela, de trabalhar todas essas camadas de tempo que se apresentam de forma simultânea quando voltamos e depois voltamos de novo a um texto que nos constitui. Não é o caso, aqui. A única coisa que eu poderia fazer, se decidisse aceitar o convite dos organizadores dessa Hospedagem, seria realizar uma espécie de “leitura tardia”: trazer a perspectiva de quem se atrasou, chegou tarde, no fim da festa. A sensação de chegar tarde demais na festa: não era assim que Alfonso Reyes, e depois Alejandra Pizarnik, definiam a particularidade do escritor latino-americano? Pois eu era aquele que chegou tarde na festa daqueles que já tinham se atrasado demais.
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Suplemento: numa das suas acepções mais corriqueiras, algo que serve para suprir uma falta. Como no caso do “suplemento alimentar”, por exemplo. Em vez de esconder a lacuna, de tapar os buracos num improviso (fingir que leu, que domina), ostentar a lacuna, fazer do vazio o centro do ensaio.
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Passando os olhos por Vale quanto pesa, o que me chama a atenção, logo de cara, é que se trata de um livro datado. Não estou falando de impressões de leitura, não ainda, mas de passar os olhos, do manuseio – os primeiros contatos com um livro que cortejamos por muito tempo. Vale quanto pesa é datado do mesmo jeito que um diário ou uma carta são datados: cada um dos ensaios do livro carrega a marca gráfica, indicada entre parênteses, do ano da publicação. O que não deixa de ser uma forma de estampar: eis aqui um livro dos fim dos anos 1970 e comecinho dos anos 1980. Eis aqui um livro que reivindica, já no momento de origem, da impressão, seu lugar num aqui e agora precisos: um país, um continente, um tempo específico em que a ditadura começava a caducar, mas ainda estava ali e estaria por um bom tempo, uma época desesperançada, de uma raiva que ninguém mais continha, ninguém a não ser os canalhas.
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Ler Vale quanto pesa como um diário – será que é uma ideia absurda? Ler cada um dos ensaios como entradas, fragmentos que se direcionam ao imediato – que retratam sem a intenção de retratar a vida intelectual de um país sem rumo, em mutação. Ou ler os ensaios como cartas sem um destinatário definido, um destinatário que se localiza no futuro – como nas mensagens na garrafa que povoam os romances de aventura de outros tempos.
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Os primeiros ensaios de Vale quanto pesa, os que mais repercutiram na época e seguem angariando leitores, mobilizando a crítica. Textos que, no meu primeiro contato com eles, eu sentia que já conhecia, que já tinha lido, os capítulos que vão de “Apesar de dependente, universal” a “O teorema de Walnice e sua recíproca” (para mim o ensaio mais formidável do livro). Todos esses textos foram lidos por mim em chave diarística. Apenas porque defini assim, porque essa ideia me veio folheando o livro, vendo aquelas datas se sucedendo (por que ostentar as datas? deve ter algo aí, ou talvez não tenha, mas, seja como for, vou seguir a pista). Ler como diário = ler como processo de debates em andamento, a coisa in media res, ler como CAPS+LOCK, o tom elevado, a gritaria que, muitas vezes, é preciso adotar no cotidiano do debate intelectual. Ler cada um dos ensaios como intervenções em voz alta, num púlpito – talvez com o objetivo de alimentar a fogueira que tinha sido erguida cuidadosamente no livro anterior, o esforço de ocupar um entre-lugar, terra de ninguém, de abrir uma trilha no mato fechado: “o intelectual brasileiro, no século XX, vive o drama de ter de recorrer a um discurso histórico, que o explica mas que o destruiu, e a um discurso antropológico, que não mais o explica, mas que fala do seu ser enquanto destruição”. São ensaios que partem de um diagnóstico de terra arrasada. A impressão de que o ensaísta é similar ao andarilho sobrevivente de alguns romances distópicos: ele não sabe como ainda está ali, por que não cassaram seu direito de falar. Mas já que permitem, ele fala. E quer abrir caminhos, dia após dia, como um diarista que, contra as probabilidades, segue anotando mundo enquanto luta contra ele.
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Já um ensaio como “As ondas do cotidiano”, localizado mais para o fim do livro, tem características bem distintas. De cara, o que me chamou a atenção como índice de datação – quase mais revelador que o (1981) que serve como ponto final do texto – foi a epígrafe de Caio Prado Júnior, uma passagem de Formação do Brasil Contemporâneo. Quando fiz graduação em História, entre 1997 e 2001, Prado Júnior era, evidentemente, uma “leitura obrigatória”. Mas a maneira como os professores se referiam à sua obra, especialmente ao debate sobre o “sentido da colonização”, acabavam localizando suas ideias como a tese ou antítese que, ainda que válidas no “contexto de enunciação”, serviam de ponto de partida para ideias mais refinadas que tinham se desenvolvido a partir delas, ou contra elas (aqui há um debate que não me interessa, e nem tenho competência para mapear). Copio a parte final da epígrafe, o que sublinhei antes de saber o que encontraria no meu primeiro contato com o texto, na leitura tardia: “as ideias, por si, não fazem nada, e para o historiador não devem servir senão de sinais, expressões ou sintomas aparentes de uma realidade que vai por baixo, nos fatos concretos”. O que sublinhei não era o que Barthes chamava de “justeza da enunciação”. Sublinhei o que me pareceu um traço irritante dos meus “colegas de ofício”, os historiadores: não conheço nenhuma outra atividade (fora talvez a medicina) que seja tão afeita às prescrições. O historiador deve fazer isso, não pode fazer aquilo. Sempre a mesma ladainha…
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O diagnóstico de Caio Prado Júnior é também sintomático, mais sintomático do que o próprio sintoma que ele detecta: “as ideias, por si, não fazem nada”. O que interessa a ele, aos historiadores em geral, é o que “está por trás”, a estrutura, o que “enforma” (será que alguém ainda usa essa palavra?). O que modela os fenômenos ordinários da vida. O que é profundo, logo verdadeiro, que vai além das “meras” aparências. Há uma imagem muito conhecida, popularizada pelo historiador francês Fernand Braudel, que parece servir de elo entre a epígrafe e o título do ensaio de Silviano: a noção (aliás, uma imagem cativante) de que os acontecimentos seriam a espuma das ondas da História. Não é que Braudel, ou Caio Prado Júnior, desprezassem a chamada “história factual”. O que eles defendiam (será que prescreviam?) era que, preferencialmente, os historiadores voltassem os olhos para padrões de recorrência que estavam por trás da formação das ondas, que definiam a regularidade dos movimentos e até mesmo oscilações, rupturas.
Mas o agora sempre parece desafiar todas essas “leis”. O primeiro parágrafo do ensaio de Silviano é uma torção nesse princípio que, no fim dos anos 1970, era dominante na historiografia – seja pelo viés marxista ou por uma perspectiva mais alinhada aos Annales, ou ao que se convencionou chamar, não sem polêmica, de “segunda geração” dos Annales, a geração de Braudel (embora no final dos anos 1970 a preocupação com “novas abordagens” e “novos objetos” fosse moeda corrente em abordagens como a história do corpo, a história de gênero, a “história vista de baixo”).
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A abertura do ensaio: “O maior engodo do cotidiano – para quem o analisa ou o compreende já analisado – é o fato de poder ser representado, na sua totalidade, como não sendo caótico”. Imediatamente vi ressonâncias de Roland Barthes em “O discurso da história”. E principalmente da leitura que Hayden White faz de Barthes em “O valor da narratividade na representação da realidade”, publicado em 1980. Lembrei de uma passagem deste texto de White que sei de cabeça e já mobilizei muitas vezes em aulas: “real events do not offer themselves as stories”. São textos contemporâneos, datados da mesma época. Tem alguma coisa aqui? Uma pista a ser seguida? Talvez a totalidade como ficção de sentido – a ficção da razão histórica. É no questionamento do pressuposto de que a verdade está nas profundezas, nas permanências, e não no caos da superfície (na polifonia do cotidiano), que Silviano faz o primeiro lance do ensaio: “o homem domestica, pelo uso da razão, o cotidiano”. É como se, com o termo “cotidiano”, Silviano fizesse um elogio das superfícies, em detrimento do imperativo então dominante de vasculhar as profundezas. Não se trata de pensar a superfície como aparência, invólucro, e sim de realçar o lugar em que as disputas são travadas, os combates necessários à afirmação de “outras formas de historicidade”. Sublinho a frase, ela me espanta, não me parece nem um pouco datada, em qualquer sentido que seja. Acho – duas ou três semanas depois da primeira e única leitura do ensaio – que foi quando passei a ler Vale quanto pesa mais na chave epistolar do que como diário.
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O que significava falar em “outras formas de historicidade” em 1981? Silviano recorre aos Annales, menciona rapidamente os estudos sobre mentalidades e loucura. Mas o parágrafo é só uma ponte para alcançar o território que conhece bem, que domina, o caminho que já trilhou muitas vezes: a glosa de Foucault, Deleuze e Derrida. Ainda estou no diário, aqui. De repente vem a carta: a frase “afirmar outras formas de historicidade” seguia martelando na minha cabeça, desviava minha atenção, me desconcentrava. Por exemplo, na imagem da lata vazia que é despojo industrial e na inventividade “a nível cotidiano” (na vida ao rés do chão) que faz da lata o recipiente para transportar a água e guardar alimentos, e também serve de brinquedo para as crianças, ou de tambor (mas aqui já vou além do ensaio) que permite a experimentação com os timbres agudos numa batucada.
Ou então na defesa de uma “busca pelo equilíbrio ecológico” – cenário quase utópico em 1981 e talvez ainda hoje – que serve, ou deveria servir, de freio à ficção de sentido que está em jogo na ideia já obsoleta de progresso histórico. “O sentido da história e o desvio das minorias e da ecologia constituem o impasse maior que torna perplexos a mente e o coração do homem participante hoje”. Hoje quando? Num primeiro plano, o agora do ensaísta que, com sua máquina de escrever elétrica, ou sua caneta Bic, no cotidiano de trabalho de um intelectual periférico no fim dos anos 1970 e comecinho dos anos 1980, é também diarista, um cronista dos embates intelectuais que trava. Mas também se trata do agora impreciso do leitor que, quarenta anos depois – num momento de tensa afirmação de novas historicidades e de perplexidade quanto aos fantasmas do autoritarismo que voltaram a estar no ar – encontra num ensaio antigo, posicionado quase no fim de um livro que todo mundo leu (menos eu), o bilhete na garrafa que enfim alcançou o seu destino, surfando na espuma do mar da História.
A imagem que abre o post é de autoria de Lena Bergstein, Série Galáxias, 2018. Fotografia e superposições