BVPS | Dia do Orgulho LGBTQIAPN+

Mais dois trechos do romance Stella Manhattan para celebrar o Dia do Orgulho LGBTQIA+ 2023. O Blog da BVPS faz hoje uma pequena ocupação em torno do romance pioneiro de Silviano Santiago. Publicado em 1985, Stella narra o travestimento de Eduardo/Stella e o liga à experiência de jovens brasileiros exilados em Nova York pós-1964. Assim, a narrativa cheia de dobras – inspirada nas esculturas Os Bichos, de Lygia Clark – reconfigura e redimensiona o macro e o micro entrelaçados no corpo do/a protagonista: uma sensualidade desconstrutora da ordem.

Trecho de Stella Manhattan (1985):
“Eduardo se sentia então como um saco de batatas que tinha sido atirado num canto da casa pelos pais. Não entendia a maneira radical como se distanciavam dele, desmentindo todas as teorias que eles mesmos lhe tinham inculcado desde criança sobre os laços de sangue, a união da família. Vejo a intolerância, a punição pelo silêncio e pelo distanciamento. Querem me massacrar, pensa Eduardo, quando se dava conta de que queriam se livrar dele como de um objeto cuja utilidade tinha sido perdida com o uso” (Santiago, 1985, p. 25).

[…]

“Stella era muito pouco nacionalista. Queria uma verdade política nova e libertária, de uso pessoal e coletivo, que imaginava calado sem chegar a formular, mesmo porque não seria capaz. Mais um feeling bem lá dentro, no profundo do profundo, do que um raciocínio racional e verbalizável. Foi deixando Stella sair das quatro paredes do quarto, sair de casa, descer o elevador, andar na rua, conversar com as pessoas, desmunhecar, que Eduardo foi se distanciando politicamente dos brasileiros que buscava…”(Santiago, 1985).

|Imagem: Francis Bacon (1909-92). Portrait of George Dyer Staring into a Mirror, 1967.

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